Pluto

Pela enésima vez, achei que havia perdido meu chaveiro do Pluto. No final, não era nada, apenas estava esquecido no carro do meu pai.

Não tenho o costume de me apegar a coisas materiais sem uma distinção realmente notória. Acho curioso ver essas pessoas que têm cadeiras de estimação, um lugar onde sempre sentam pra comer, por exemplo. Mas sei lá por que, tenho um carinho desgraçado pelo Pluto. Tanto que o personifico dessa maneira, quando o esqueço em algum lugar sempre pergunto “Você viu o Pluto?”, nunca “Você viu o chaveiro do…”. É o Pluto, pô.

E não é que tenha valor sentimental, até onde lembro não me foi dado por nenhuma pessoa particularmente estimada. Nem sei exatamente de quem o Pluto veio, na verdade. Era um amigo-secreto de Natal, daqueles zoados de R$ 1,99, faz uns quatro, cinco anos. Eu havia recebido um presentinho que interessara a meu irmão (hoje nem faço ideia do que era) e ele em casa me propôs trocá-lo pelo Pluto, que havia ganho no mesmo amigo-secreto. Foi assim que o herdei, de pais desconhecidos.

O afeto também não me vem de apreço em geral por cachorros. Como já escrevi algumas vezes neste espaço, não costumo gostar deles. E o personagem Pluto, do Walt Disney, nunca me chamou a atenção: é um cachorro besta e ainda por cima pertence ao Mickey, particularmente irritante com aquela vozinha. Apenas para ficar com cães da mesma companhia, o Pateta é bem mais divertido.

Acontece que o meu Pluto transcende o original. Numa inversão dos preceitos benjaminianos, esta mera cópia massificada em minhas mãos, made in china, entre tantas outras, tem mais aura do que a concepção primeira do Walt Disney, aquela coisa sem graça.

Devo acrescentar em defesa da verdade que meu Pluto não é bonito, não é fofinho nem nada. O coitado está bem gasto, a pintura comida, uma orelha faltando. Não sei mesmo por que diabos gosto tanto dele. E, pior, ainda que o queira tão bem, insisto em perdê-lo nas quebradas da vida.

Mas mesmo eu não o merecendo, mesmo eu o tratando mal, mesmo eu sendo um canalha, não tem erro: ele sempre me volta, de um jeito ou de outro, sereno e resoluto. O Pluto é minha mulher de malandro preferida.

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Osuel

Leio nos jornais sobre a situação temerária da Osuel, que já estava complicada, trabalhando com menos músicos do que deveria, e agora, com o corte sumário de cargos comissionados, parece estar mesmo com um pé no sabonete e o outro na cova.

A princípio, não me ocorreu escrever nada, embora seja um ouvinte até bem assíduo das atividades da orquestra, porque desconheço os meandros da guerra política que envolve esses cortes e acho controverso o tema de incentivo público à cultura. Há pessoas mais qualificadas do que eu para falar sobre isso e dispondo de meios de maior alcance.

Mas aí a coluna do Ranulfo Pedreiro para o Jornal de Londrina, conclamando os cidadãos a gritarem contra o possível fim da Osuel, mexeu com meu lado romântico, fiquei tentado a dar meus dois centavos sobre o tema. Porque às vezes não se precisa dizer nada assombroso, descobrir um ângulo inusitado para o debate, demonstrar uma poder de argumentação arrebatador. É só um caso de marcar posição.

E minha posição é simples: é um absurdo que a permanência da Osuel esteja ameaçada.

Com áreas de necessidades básicas (segurança, saúde, educação) sofrendo com problemas tangíveis, a cultura deveria ser secundária em termos de financiamento público? Talvez. Mas o fato é que, deixando o plano das ideias para encarar o mundo real, uma instituição do porte de uma orquestra não vigora, sem verbas estatais, no país.

A possibilidade ventilada nos jornais de transformar a Osuel em uma orquestra Filarmônica (que se distingue da Sinfônica justamente por não ser financiada com dinheiro público) é linda aos meus ouvidos, mas me soa meio delirante – espero que esteja enganado.

E cá pra nós, os impostos já pagam tanta merda cultural mesmo… Uma Orquestra Sinfônica ao menos é uma instituição de notória relevância. Nem me atenho à qualidade da execução da Osuel: já vi gente mais qualificada dizendo que o negócio é fraquinho.

Mas adotando o imodesto procedimento de me adotar como padrão, a mim me agrada, sei lá, uma vez por mês, apreciar ao vivo o repertório erudito da Osuel. E se o que a orquestra toca é suficiente para satisfazer uma pessoa com a minha sensibilidade, certamente tem um papel a cumprir, função esta que julgo muito importante, no que tange à educação musical. Quem não se satisfaz pode ficar em casa ouvindo os discos da Deutsche Grammophon – para o resto da população, de ouvidos não tão privilegiados, o nível da Osuel já é absurdamente superior à música que se ouve por aí.

Ademais, no contexto específico de Londrina, os concertos da Osuel são um raro caso de possibilidade perene de acesso à cultura. Porque no grosso, durante maio somos a cidade do teatro com o FILO, durante setembro é o Londrix, durante novembro a Mostra de Cinema… A orquestra se opõe ao esquema empobrecedor dos Festivais, de oba-oba ilusório, bom para encher o currículo de políticos com “realizações”, mas que não contribuem de fato com o cotidiano cultural da cidade.

Explico-me melhor: Londrina é uma cidade reconhecida pela força do teatro? Não, o teatro da cidade é uma piada. Mas há o FILO, que é um festival relevante, tradicional, então para alguns há a impressão de que “Londrina respira teatro”. Balela. É algo vergonhosamente sazonal, que alimenta, aliás, a pior espécie de pseudo-intelectuais que se travestem de discípulos de Brecht, amantes de Beckett durante duas semanas por ano.

Fique claro que não há aqui nenhuma crítica aos organizadores desses Festivais: conheço alguns deles, gente comprometida, séria e provavelmente concordam que essas grandes celebrações artísticas, que podem ser divertidas, deveriam vir acompanhadas de atividades culturais mais constantes.

E é aí que o trabalho da Osuel se distingue: é durante o ano todo, contínuo e longevo. Por isso deve ser respeitado.

Não sei de quem é a culpa, se do Wilmar, da Lygia, da herança maldita, do capitalismo selvagem, do McDonalds. Aliás, nem quero saber, minha é que não é. Cumpro com o que posso fazer: prestigio os concertos da orquestra e, quando a vejo ameaçada, reclamo. Ainda que tão desajeitadamente, ainda que por meios tão modestos.

Assuma a responsabilidade quem a tem. Eu só quero que a Osuel prospere.

Sexo e música

A amiga vem reclamar do namorado, que reclama constantemente do fato de ela ser reclamona; minha amiga acha injusto, uma pecha machista que os homens gostam de atribuir a mulheres de personalidade. E quer saber?, diz a moça indignada, ele reclama tanto ou mais do que eu. E a partir daí tece uma série de reclamações adicionais a respeito do companheiro.

Uma semana depois, fiquei sabendo que o namoro acabou.

Pena, porque era um casal bonito, todos elogiavam, parecia que esses iam mesmo dar certo. Mas um tinha expectativas demais, a outra uma longa lista de exigências e agora só conseguem se entender na explicação comum para as razões do término: “Não somos compatíveis”.

Eu cá pra mim acho que essa gente está complicando demais o negócio, fantasiando, esperando uma versão, no sexo oposto, de si mesmo.

Em minha singela opinião, apenas dois fatores são fundamentais para que haja a propalada compatibilidade entre um casal – o resto decorre, ou deveria decorrer. O primeiro desses fatores é sexo bom, and no further explanations are required.

O segundo é que ambos tenham um gosto musical parecido. Isso é básico, fundamental, condição sine qua non, jamais deve ser negligenciado quando se quer escolher alguém para passar mais de um dia.

Porque pode haver diferenças chatas entre dois apaixonados, coisas que são inquestionáveis atrapalhos. Uma grande diferença de idade, por exemplo, é um dos obstáculos mais clássicos, juntamente com desnível social, cores distintas, religiões opostas.

Claro que seria mais cômodo se os dois membros do casal tivessem nascido no mesmo mês, ganhassem o mesmo salário, estivessem etnicamente próximos, para nenhum tio racista olhar feio, e frequentassem o mesmo culto todo domingo. Seria mais cômodo, sim, mas são transtornos perfeitamente contornáveis. As novelas e as comédias românticas estão aí para isso, para provar que velhos e mocinhos, pobres e ricos, pretos e brancos, adeptos do candomblé e católicos apostólicos romanos podem perfeitamente viver felizes para sempre.

Também dá pra encarar, hoje em dia, com a diluição das ideologias, se um se diz de esquerda e o outro de direita. E tanto faz se um é gordo e o outro magro, se um é feio e o outro belo, se um é baixo e o outro alto, se um é Corinthians e o outro Palmeiras. No limite, podem conviver bem admiradores de Godard, Bergman e Fellini com apreciadores de Jackass e da série American Pie.

Agora, se você curte Bach, Mozart e Chopin, ao passo que seu pretendente ouve Calypso, Jota Quest, Chiclete com Banana e, quando quer impressionar, Laura Pausini, desista, meu caro. A barreira é intransponível, a harmonia é impraticável, o romance é impossível.

Campeão do carnaval

Como sempre, neste ano meu maior envolvimento com a tradicional rotina carnavalesca foi assistir, na TV, à apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Acho muito emocionante. Nunca vejo nenhum desfile de nenhuma escola, o que não me impede de ter opiniões formadas e achar absurdo quando a Mangueira perde meio ponto em alegorias e adereços.

Claro, eu sou Mangueira. Por um certo apego ao tradicional, porque adorava o Jamelão, por muitos dos artistas dos quais gosto serem ligados à Escola… Nesse sentido, é uma identificação próxima à que tenho com o Fluminense: é o time do Chico Buarque, do Nelson Rodrigues, do Cony – quero estar ao lado do que penso serem boas companhias, e acabo até criando analogias, mais forçadas do que calcadas na realidade, entre o Fluminense e o time para o qual realmente torço, o São Paulo.

Neste carnaval, no entanto, li no jornal, a Mangueira não tinha chance: um carro ficou parcialmente queimado, bombeiros intervieram, a maior confusão. Ia ter de escolher outra escola se quisesse ver alguma graça na apuração.

Pensei em pegar a Portela, por motivos parecidos com os que me fazem gostar da Mangueira, mas os jornais não a apontavam como uma das favoritas, a escola de Paulinho da Viola ia ter de esperar mais um ano para voltar a ser campeã – parece que faz décadas não ganham.

A Vila Isabel então assumiu a posição natural de minha favorita. Segundo constava, haviam feito um bom desfile, estavam bem-cotados e neste ano homenagearam o centenário de Noel Rosa, ícone maior do bairro, com direito a samba-enredo de autoria de Martinho da Vila. E esse samba – que não ouvi – recebeu críticas que me despertaram o interesse: ao contrário da batida loucamente acelerada dos sambas-enredo atuais, que descaracterizam as raízes do gênero, Martinho optou por um compasso mais moderado. E, ousadia maior, construiu-o em tom menor, pelo que li fazia anos alguém não tinha essa audácia.

Comecei a assistir à apuração torcendo desde criancinha pra Vila. Mas logo no primeiro quesito eles perderam muitos pontos – com direito a um flagra hilário da reação do presidente da escola contra uma nota que achou injusta. A coisa se afunilou para uma briga entre Unidos da Tijuca e Beija-Flor.

A Beija-Flor ganhou uma porrada de carnavais ultimamente. Da Unidos da Tijuca, pouco sabia. Evidente, a tendência de simpatizar com o mais fraco me levou a escolher esta última. E conforme a transmissão foi evoluindo, fiquei sabendo que Tijuca também é muito tradicional, que não ganhava um carnaval desde 1936! A fila de 74 anos me conquistou toda a solidariedade.

E no final deu certo: a Unidos da Tijuca derrotou a Beija-Flor e conquistou o título deste ano. De modo que posso me arrogar, inequivocamente, o título de campeão do carnaval.

Sobre o Colégio Universitário III

Depois de certo tempo e certas experiências, comecei a perceber que não adiantava perder muito tempo com as baboseiras que aqueles caras, os professores do renomado Colégio Universitário de Londrina, estavam falando. Aliás, mais do que perder tempo, eu poderia assimilar conceitos errados. De tal modo que resolvi me encarregar da minha própria educação. Tá certo que eu também dormia, conversava, cantava, inventava jogos, olhava pras meninas gostosinhas, mas durante boa parte do meu tempo nas salas de aula do Universitário eu ficava lendo. Livros inteiros, de assuntos completamente estranhos à aula, enquanto os professores ficavam de blá blá blá. Não foi um desperdício de tempo completo.

Lembro que foi entre o primeiro e o terceiro colegial, naquelas carteiras apertadas, que li, entre outros, A metamorfose, Demian, O lobo da estepe, 1984, A revolução dos bichos, Admirável mundo novo, Cem anos de solidão, Quase memória, O encontro marcado, Dom Casmurro, Agosto, tanta coisa… A Ana Luiza novamente é testemunha.

E também lia não-ficção, coisas melhores do que as apostilinhas mirradas com que o colégio nos provia. A história da riqueza do homem, anacronismos marxistas à parte, foi um daqueles livros reveladores, era tudo tão mais profundo do que aqueles resumos infames no quadro…

Alguns professores, no entanto, ao me flagrarem lendo material que não pertencia ao programa deles, ficavam chateados. Costumavam me expulsar da sala de aula, ou, no mínimo, mandavam-me fechar o livro e prestar atenção ao blá blá blá. De modo que posso dizer, se os professores do Universitário tiveram algum papel relacionado à minha educação, foi justamente o de atrapalhá-la.

(Estou escrevendo com tanto rancor que corro o risco de cometer injustiças pela generalização. Evidente que, imiscuídos na massa de imbecis, havia alguns professores que funcionavam como saudáveis exceções. Dentre os de Biológicas e Exatas, não tenho muitos parâmetros para julgar; alguns, bem poucos, de Humanidades eram bons, e pelo menos um era muito bom, o Prof. Geraldo Luiz de Souza.)

Talvez eu não devesse ser tão duro. O Colégio Universitário teve sim função importante em minha formação. Ao me apresentar tantos conceitos deturpados, tanta autoridade injustificada, tanta hipocrisia, legou-me certo espírito crítico que, se nem sempre é útil e até pode tornar a vida mais amarga, sem dúvidas ajuda a definir quem sou. Obrigado.

Sobre o Colégio Universitário II

Receio que soe pretensioso, arrogante, mas, em verdade, é apenas pragmatismo: para minhas parcas glórias na vida, entre elas a duvidosa conquista de ter passado no vestibular de jornalismo da UEL, as lições que tive no Colégio Universitário, durante sete anos da minha vida, foram insignificantes. Não aprendi quase nada com os educadores daquele lugar.

Fui um mau aluno. Matava muitas aulas, criava briga com professores, não fazia absolutamente nenhuma tarefa. Minha metodologia de sobrevivência era simples: antes de o professor conferir quem havia realizado os exercícios propostos, eu emprestava o caderno de alguém mais aplicado – geralmente a Ana Luiza – e copiava, rapidamente, em garranchos, sem querer saber o que estava lá. Para realizar as provas, um ou, no máximo, dois dias antes eu me informava com a Ana Luiza sobre qual seria a matéria a cair e então pegava livros e lia sobre aquilo em casa. Prestar atenção às aulas era algo muito muito muito raro.

Um procedimento irresponsável, que não recomendo a ninguém. Mas eu tinha lá minhas razões. Quanto às matérias relacionadas às Ciências Exatas e Biológicas, logo percebi que não levava jeito para a coisa, era muito difícil me concentrar. Restavam as aulas que abrangiam as ditas Ciências Humanas. O problema é que o Colégio Universitário historicamente dá preferência aos alunos que querem prestar vestibular para medicina, esses seres superiores. E então escalavam para dar aulas de Humanidades uns seres tão acintosamente idiotas que fazem alguns professores do CCH da UEL parecerem ser de fato os gênios que julgam ser.

Algumas histórias: durante uma aula de interpretação de texto, uma aluna se depara com uma palavra que desconhece e pergunta à professora o que é “ébrio”. “Ébrio”, como todos hão de saber, significa “bêbado”. Ou “bêbedo” (à Machado), “embriagado”, “alcoolizado”, “chapado”, “chumbado”, “encharcado na marvada”. Não pode fugir muito disso.

A professora não sabia o significado de “ébrio”. Tinha vergonha, no entanto, de admitir que não sabia – no que até lhe dou razão. Pegou então o texto e, de improviso (que malandrinha!), tentou interpretar o sentido do negócio. Saiu-se com a seguinte pérola: “Ébrio é uma pessoa que está sem rumo na vida”. Qual a responsabilidade de uma pessoa dessas? Eu ouvi e fiquei quieto.

Outra: para arrematar uma explicação à qual ninguém estava dando a mínima, uma professora de redação cravou: “É como disse Napoleão: veni, vidi, vici”. Provavelmente supunha que o Imperador francês, enquanto estava incorporando um espírito, passou a falar latim. A frase, na verdade, é atribuída a Júlio César. Tudo bem, professora, você só errou por uns 2.000 anos, deve estar dentro da margem de erro. Qual a responsabilidade de uma pessoa dessas? Eu ouvi e fiquei quieto.

Uma última, entre tantas que poderia listar: uma professora de literatura, que provavelmente leu em algum lugar sobre a importância do Romantismo para a ascensão do romance como gênero narrativo, saiu-se com a máxima de que “Antes do Romantismo, não havia texto em prosa”. Desta vez, nem foi por contestação, mas por ficar chocado mesmo, eu perguntei, “E Dom Quixote?”. A néscia se manteve firme: “É em versos”.

Na aula seguinte, não resisti, levei um pesadíssimo volume verde do meu pai e esfreguei o Dom Quixote na cara dela. “Nossa, é em prosa”. Pois é. Nas aulas seguintes, ela faria um adendo de que “algumas novelas de cavalaria já eram escritas em prosa antes do Romantismo”. Deve estar achando até hoje que só o Dom Quixote foi escrito em prosa antes do Romantismo.

E essa era a média dos professores do Colégio Universitário.

Sobre o Colégio Universitário

Fui ao cinema há alguns dias e, antes do filme, exibido como trailer, vi um anúncio do Colégio Universitário daqui de Londrina, cujo mote principal era algo mais ou menos como “Maria Luiza é nossa”. Maria Luiza é o nome da menina que passou em primeiro lugar no vestibular da UEL para o curso de medicina. O filme insinuava que outras instituições andavam fazendo propaganda enganosa, pois o primeiro lugar em medicina era do Universitário e de mais ninguém. E ainda explicava, de maneira didática/cínica, “Vejam só, em 2008, Maria Luiza estudou no curso tal: não passou; em 2009, estudou conosco e – voilá! – é a mais nova caloura de medicina!”.

Acho essa peça de propaganda, por si só, um desrespeito à moça, pois dá a entender que o maior mérito pela sua aprovação não é dela, mas sim da instituição à qual seus pais resolveram repassar cheques mensais. Não sei como a Maria Luiza, tão inteligente a ponto de passar em concurso concorridíssimo, presta-se a esse papel lamentável. Até sei: ela está feliz, não tem outras preocupações no momento, e abusam de sua ingenuidade a fazendo participar do que, em minha visão, é difamação gratuita – duvido que tenham lhe pago alguma coisa pelas poses sorridentes para as câmeras, vestindo a camiseta do colégio.

Mas o pior não é isso. O chocante é que qualquer londrinense razoavelmente bem-informado sabe que o Universitário faz a mesmíssima coisa que agora, com a maior cara de pau, acusa outra escola de perpetrar – e sabemos que o rival em questão é o Maxi. Basta algum dia ter respirado na frente do colégio para, caso seja aprovado em qualquer coisa, seja lá quando for, ser contabilizado como um dos vencedores do Universitário. A matemática é surreal: somando os ditos aprovados em medicina pelos dois colégios, daria para preencher as vagas de todos os cursos de medicina do país.

Como uma instituição de ensino pode dar semelhante exemplo? É um horror. Já seria um horror com qualquer instituição de ensino. Em se tratando de uma que se pretende a melhor da cidade em seu ramo, então… É um nojo.

O caráter dos administradores do colégio já ficou bem claro naquele episódio, uma das raras polêmicas reais recentes que a imprensa londrinense se propôs a divulgar, em que um aluno, em carta à Folha de Londrina, acusou o Sr. Alderi Ferrarezi de incitar estudantes a falsearem um documento, declarando-se pobres para não pagar uma taxa do ENEM. Eu fui estudante do Colégio Universitário, vi o Sr. Alderi falar a mesma coisa para nossa turma. É verdade. Só que na época não fiz nada. Fiquei com inveja quando, anos depois, esse rapaz cujo nome lamentavelmente não lembro teve a coragem de fazer a denúncia.

Com algum atraso, no entanto, somo-me a esse jovem para deixar claro que nem todos os ex-alunos do Universitário só guardam lembranças doces. Não tenho orgulho nem vergonha de ter estudado lá, mas, fosse para escolher, ficaria com o segundo sentimento, sem pensar duas vezes.

Sonhos sonhos são

Chega uma hora em que não dá mais. Pegou quase toda a grana que recebeu depois de 18 anos trabalhando numa companhia de seguros e resolveu abrir uma sorveteria. Um antigo sonho. Ele gostava de sorvetes, certamente mais do que de seguros. Na verdade, ele adorava sorvetes.

E, evidente, sua sorveteria não seria uma sorveteria qualquer: o estabelecimento venderia um produto de qualidade superior. Considerava seu sorvete, que ainda nem tinha ideia de como fazer, uma obra de arte a ser lavrada, que merece atenção e zelo do gênio criador.

Conforme foi aprendendo a lidar com o produto – um curso aqui, diversas leituras acolá, muito dinheiro gasto em estudo e maquinário –, tomou mais gosto pela coisa, viu seu sonho se materializar. Diabos, ele sabia fazer um sorvete fodido de bom. Seu empreendimento estava fadado ao sucesso.

Tinha alguns amigos na imprensa – e restavam algumas economias. A inauguração foi alardeada em colunas sociais, seções gastronômicas, até falaram num programa de rádio. Chegado o dia de descerrar as cortinas, tudo correu lindamente, com a presença de diversos ilustres e asseados membros da sociedade. Recebeu elogios que realmente pareciam verdadeiros.

Nos primeiros dias após a abertura, o movimento esteve assim assim. Nada estupendo, mas ainda dava ânimo para ir tocando o barco. Só que conforme as semanas passavam, os fregueses iam minguando e minguando… No Brasil, o consumo de sorvete é muito sazonal, quando a temperatura ameaça baixar já não se toma mais. Sinceramente, ele não se importava: mesmo se não fosse pra ficar rico, prosperar e abrir mil filiais, agora ele fazia o que gostava. Tinha orgulho de seu sorvete.

Num belo dia, entrou na loja uma senhora para a qual parecia que o termo “vulgar” havia sido inventado, trazendo a tiracolo uma criança de aparência não menos detestável. Aquele cabelo platinado, aquele perfume doce, céus… Para confirmar todos os seus preconceitos, as primeiras palavras que lhe dirigiu foram:

– Tem sorvete de blue ice?

Sua resposta veio didática:

– Minha senhora, meus sorvetes são feitos de maneira artesanal. A receita leva apenas cinco elementos: leite, creme de leite, açúcar, gemas de ovos e o ingrediente central, que pode ser, por exemplo, morangos. Não uso gordura vegetal, estabilizantes, corantes artificiais, aromatizantes artificiais, emulsificantes artificiais. Levadas em consideração essas circunstâncias, é impossível eu produzir sorvete de uma coisa que não se encontra na natureza, como essa que recebe a alcunha de “blue ice”. Ao menos, é claro, que eu esteja enganado e a senhora me traga uns cinco quilos de blue ices fresquinhos, com que eu poderei fazer sorvete de blue ice e oferecer à senhora isentando-a de cobrança.

– Obrigada – disse a loira com a criança, deu meia-volta e foi embora.

O próximo a entrar perguntou se havia sorvete de kinder ovo.

Foi então que pela primeira se perguntou se não teria sido melhor manter o sonho como sonho e continuar vendendo apólices de seguro.

Altamente confessional

Sentou-se e relembrou os acontecimentos do dia, desde quando a escutara dizer “Eu não funciono sob pressão” – quase um bordão em sua boca –, passando pelos momentos de inevitável silêncio constrangedor e culminando na tentativa desastrada de apaziguar os ânimos, “Vamos ao supermercado?”. A resposta veio cuspida, “Qual a necessidade de ir com você, não sabe escolher batatas sem mim?”.

Mesmo sentindo o baque, não deixou de admirar a espirituosidade da mulher. E respondeu algo do tipo “Quando as pessoas querem ficar juntas, não importam as necessidades, existem sempre pretextos”. Achou sua própria frase muito bonita, mas na prática não servia para nada: estava realmente acabado. Quisera tentar, quimera tentar. E agora, revendo a coisa toda, como não sabia fazer mais nada além de escrever, apontou o lápis e compôs uma lista inconclusa, sem destinatário preciso, uma carta que jamais seria entregue para ninguém:

Queria escrever algo tão dilacerador, tão forte, que a faria num primeiro momento ter pena de mim. Mas esse dó passaria logo, pois não é possível sentir comiseração de alguém que escreve algo tão dilacerador, tão forte. E então seu sentimento se desenvolveria para uma surpreendente admiração. E ainda cresceria, transformando-se em temor. Como seria adorável percebê-la tendo medo de mim, agora eu queria isso mais do que tudo na vida, mais do que você me amando.

Queria escrever algo que a fizesse ter orgulho e arrependimento, ao mesmo tempo, uma mistura tão intensa que causasse ânsias de vômito. E que você tivesse vontade de mostrar meu escrito para seus amigos, seu professor, sua irmã, sua mãe, mas não mostrasse por temer as reações. Então acabaria guardando para si, e aquilo a queimaria por dentro, mas você jamais teria coragem para jogar fora.

Como gostaria de escrever algo que a fizesse chorar, nem de tristeza, mas de culpa, que fizesse você se sentir a pior pessoa do mundo. Queria escrever algo que a fizesse se sentir burra. Nos dois primeiros parágrafos, uma identificação tão grande que a levasse a pensar, ‘Deus, essas palavras poderiam ser minhas’. Mas depois constatasse que ainda lhe falta muito arroz com feijão. E se sentisse humilhada pela minha superioridade.

Queria escrever algo em que todas as contradições soassem harmônicas. Pois você também notaria carinho em minhas palavras, e emergiria do todo um grande conforto, uma grande ternura. Você se sentiria adorada, indubitavelmente querida e privilegiada por ser depositária de sentimento tão elevado. Não obstante, você me veria como uma pessoa asquerosa, baixa, vil, teria nojo de mim. E teria ímpetos de trepar comigo no banheiro da balada, juntamente com o desejo de passear, de mãos dadas, na madrugada com sereno. E dançar ao som de uma valsa vienense e ser beijada à luz da lua cheia.

Queria escrever algo que a fizesse rever conceitos, quebrar os próprios dogmas, questionar sua posição no mundo. Algo que, depois de lido, tornasse-a alguém diferente, renascida. Queria escrever com sangue, sem perder a elegância. Queria escrever algo completamente sincero e completamente fictício.

Sobre os trotes nas universidades

Vejo na TV mais uma reportagem, como é comum nesta época do ano, sobre trotes de iniciação nas universidades. Um calouro de algum curso de Ciências Biológicas, veterinária ou agronomia, se não me engano, alega ter sido obrigado a beber álcool, fumar, pedir esmolas e ainda de quebra ter levado uns tapas quando se negou a cumprir o protocolo impingido pelos veteranos.

Seria leviano de minha parte relativizar o sofrimento deste aluno em questão, porque não sei as circunstâncias precisas do caso. Também não se podem esquecer as ocorrências dramáticas em que jovens até morreram por causa desses trotes imbecis.

Só não deve ser desconsiderado um fato que a cobertura da imprensa, de modo geral, prefere ignorar: a maioria dos ingressantes na universidade gosta, eu diria mais, até anseia pelos ditos trotes. Adora se emporcalhar de tinta, acha libertador tomar ovos com farinha na cara, sente-se muito esperta quando rouba uns trocados de uns velhos tontos no sinal fechado e vibra com a possibilidade de poder encher a cara sob o aval da sociedade, afinal, “eles merecem, depois de tanto esforço”.

Nesse sentido, as reportagens por aí são muito ingênuas. Pensando bem, nem é o caso de ingenuidade, é preguiça mental mesmo. Chega o inverno, o editor manda o repórter fazer uma matéria sobre os desabrigados, que é basicamente sempre a mesma, ano após ano, com alguns nomes trocados. Não se tem interesse em discutir a raiz da questão, apenas em cumprir uma pauta óbvia que preenche facilmente o espaço. O problema dos trotes é análogo.

Deve-se se atentar para o fato de que a coisa se dá, na maioria absoluta das vezes, com a anuência total dos calouros, que querem ser legais, enturmar-se, etc. A coação física, hoje em dia, com a repressão sistemática das reitorias, é muito difícil de acontecer. Ocorre geralmente é certo assédio moral. Tome-se de exemplo meu caso.

Quando entrei no curso de jornalismo na UEL, até topei subir na cadeira no primeiro dia de aula, apresentar-me, falar o que queria da vida. Acho que me mandaram imitar um macaco também, cada calouro tinha de fazer um negócio diferente. Eu concordei.

Daí perguntaram se eu não deixava que cortassem meu cabelo. Eu disse não. Fizeram cara feia e foi tudo o que fizeram. Duvido que alguém seja louco de pegar a cabeça de alguém dentro de uma universidade e, à força, mandar ver na tesoura. Dá expulsão.

Depois, anunciaram que no dia seguinte nos esperariam no centro da cidade em tal hora para pedirmos dinheiro, aprontarmos sei lá o quê. Eu manifestei meu desinteresse em participar da atividade. Daí um camarada ameaçou, “Vai dar uma de cuzão, vai passar o resto do curso desenturmado”, ao que respondi, “Ótimo, achei que ia ter de trabalhar pra conseguir isso, mas você já está me oferecendo a oportunidade logo de cara, obrigado”. E me livrei fácil assim e nem passei o resto do curso desenturmado.

Se eu tivesse ido ao centro no dia seguinte, estaria me submetendo à agenda deles, não teria por que reclamar do comportamento dos veteranos. Todo mundo sabe o que acontece. Só que tem bobão que não aguenta o tranco e depois vai chorar pra mamãe.

Isso é o que acontece na média. Fique claro, não estou defendendo uma posição fascistoide de achar que, por exemplo, aquele descendente de japonês calouro de medicina que se afogou há alguns anos seja responsável pela própria morte, numa linhagem de pensamento “Também, com essa roupa, tinha mesmo de ser estuprada”.

Mas acredito fortemente que a questão dos trotes nas universidades é muito mais complexa do que se quer ver, e o oba-oba retardado dos calouros tem tanto peso quanto o despotismo dos veteranos nesse panorama tosco que se estende por décadas e nos casos mais agudos causa tragédias.