Das pulseiras do sexo

A Folha de Londrina está publicando, com estardalhaço, suíte sobre umas tais “pulseirinhas do sexo”. Embora nos dois últimos dias tenha se gasto muita tinta sobre o assunto, ainda não consegui entender direito como o negócio funciona.

No grosso, é o seguinte: seguindo uma moda antiga, que parece remeter aos distantes anos 80, na Inglaterra, garotas brasileiras começaram a andar com um monte de pulseirinhas coloridas, de plástico, no braço. Cada cor de pulseira equivale a uma ação sexual, de maior ou menor grau de sacanagem; assim, a pulseira amarela representa um abraço, a vermelha, uma dança erótica, a verde, sexo oral, a preta, penetração, a dourada, um combo orgiástico e assim por diante.

Como a representatividade se transforma em ação é que não ficou muito bem explicado, parece que a pulseira tem de ser arrebentada por outra pessoa. Mas como assim? Algum louco se joga sobre seu braço para arrancar pulseiras, sem consentimento? Se a coisa já pressupõe essa violência, não seria mais fácil para quem perpetra o ataque ir direto à vítima, sem perder tempo em desatar pulseiras?

O caso noticiado gira em torno de uma menina de 13 anos, que alega ter sido estuprada no Terminal Urbano de Londrina. Ela usava as chamadas pulseirinhas do sexo. Mesmo sem terem ficado claras as nuances do jogo erótico, o modo pelo qual as pulseiras são rompidas, depreende-se da matéria, e dos depoimentos dos especialistas ouvidos pela reportagem, uma clara intenção de responsabilizar as pulseiras pelo estupro.

Alguém em sã consciência acredita mesmo nisso? Que alguém é estuprado por causa de pulseiras? Essa moça, se foi estuprada, foi estuprada porque algumas pessoas, que devem responder criminalmente por isso, resolveram estuprá-la. Pulseiras não são pré-requisito para estupro.

Agora, na série de matérias da Folha, que consegue conjugar visão embotada, moralismo reacionário e propaganda do Colégio Maxi, fica estimulada uma caça às pulseirinhas para restaurar a paz da família cristã. Banir pulseiras é tão eficiente para coibir violência sexual quanto proibir talheres para impedir as pessoas de se alimentarem.

Ademais, de forma irresponsável, quase criminosa, culpa-se a garota pelo que aconteceu com ela. A velha máxima burra fascistoide do “Com uma roupa dessas… Merece ser estuprada” foi substituída pelo “Foi estuprada? Também, quem mandou andar com pulseirinhas do sexo?”.

A única pessoa aparentemente sã a dar declaração foi a Sra. Dayana Brunetto, que tem um cargo de nome comprido na Secretaria Estadual de Educação: “O contexto histórico e social que está por trás dessa violência é que deve ser o foco de nossa atenção, porque se proibirmos o uso da pulseira, outro acessório vai tomar o seu lugar”. Perfeito, nada a acrescentar. Em meio a tanta babaquice generalizada, uma redescoberta da América como essa soa feito grande sapiência.

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Eu não esqueci

Não vou negar que senti uma ponta de solidariedade quando você me disse que agora não dá mais, vou mesmo terminar com ela, a menina fica vendo Big Brother na TV – e torce! Afinal, eu mesmo quis pôr termo a relacionamentos por coisa menor ainda, uma garota que comia pizza com catchup, vem um negócio ruim, uma aversão difícil de disfarçar. E me identifico ainda com seu caso particular porque volta e meia me pego chocado ao ver que pessoas de meu convívio, razoavelmente esclarecidas, sabem ler e escrever, conseguem tomar banho sozinhas, realmente se importam com o que acontece nesse reality show, tomam partido, ficam emocionadas, largam o que estiverem fazendo (até a honra de conversar comigo!) para assistir a essa porcaria. É um mistério.

Isso posto, admitindo que os ímpetos são mesmo fortes, talvez você deva tirar cinco minutos para respirar. Porque esse entendimento metonímico dos amores, tomar a parte pelo todo, ver no detalhe o índice inequívoco dum comportamento maior, servindo até mesmo para julgamento de caráter, pode levar a conclusões enganosas.

Para entender melhor, talvez seja bom analisar a situação contrária: afinal, assim como a magia pode se esvair num instante, a gente também se apaixona por cada coisa! Certa vez, conheci uma garota e fiquei absolutamente encantado com sua postura ao jantar, altivez aristocrática, jamais trocando os talheres de mãos, garfo na esquerda e faca na direita, cotovelos longe da mesa, sabendo segurar uma taça de vinho; vantagens de uma educação rígida, enfim.

Por dedução, que para mim pareceu perfeitamente lógica, pensei “Taí uma mulher especial, com certeza deve ter milhões de qualidades sublimes”. Pois bem, levou aproximadamente um ano e meio para eu me conformar e admitir que a principal virtude da moça era mesmo conseguir comer sem trocar os talheres de mãos. Virtude principal e provavelmente a única advinda de mérito próprio, já que cabelos vermelhos e peitos grandes não são fruto de estudo ou trabalho, tampouco exigem manutenção. A não ser manter-se bem-alimentada – nunca trocando os talheres de mãos, é claro.

É por aí, meu caro, talvez devamos ser menos dogmáticos, menos arrogantes – e quem sabe com isso consigamos também ser menos ingênuos. Assim como a dama do salão se revelou uma criatura absolutamente rasa, sua fã de Big Brother pode ser um espírito grandioso. Tente relevar, tente esquecer.

Ah, é difícil. É, eu sei. Pensando bem, mande-a passear.

Cigarros

Acho que é uma boa hora para repetir minha máxima sobre cigarro: fumo pouco, não por falta de gosto ou por zelo com a saúde, mas por indisciplina. Ser um viciado exige comprometimento, regularidade de horários – e a isso não estou disposto.

Talvez seja por isso, por ser um fumante tão casual, que essa lei recente de restrição ao tabagismo em locais públicos não tenha me afetado tanto. Só lamento pelo fim do vínculo entre bar e cigarro, que me parecia tão natural – em minha opinião, quem não quer sentir os vapores do alcatrão não deveria aparecer em botecos, mas parece que a maioria discorda de mim, como em tantos outros temas da vida.

Ainda assim, é um inconveniente menor, atenuado pelo que vejo como uma crescente e saudável solidariedade entre os adeptos do cigarro – sempre interessante colocar “saudável” e “cigarro” numa só sentença. Nos fumódromos da vida sempre se tem um assunto em comum, uma ótima oportunidade para fazer novos amigos, ou nem isso, apenas o prazer de reclamar da vida conjuntamente.

Agora, o maior mérito da lei antifumo foi ter trazido à tona a melhor cantada dos últimos tempos: “Vamos fumar um cigarro lá fora?”, dita assim, casualmente, difícil um fumante declinar, e é uma chance natural, sem constrangimentos, sem tensão, para duas pessoas se conhecerem melhor, trocarem impressões sobre a vida, etc.

Claro que a coisa só funciona no nível ótimo com dois fumantes, chamemos de situação A, mas não pensem que a aversão ao cigarro é impeditivo para a coisa dar certo. Com um pouco de audácia e segurança para proferir réplicas infames, tudo se ajeita.

Detenhamo-nos na situação B, estatisticamente a mais provável de ocorrer caso seja escolhida uma vítima aleatória, sem análise prévia de currículo. “Vamos fumar um cigarro lá fora?”, “Desculpe, não fumo”, “Tudo bem, você me faz companhia um minutinho”. Ainda soa muito natural e elegante, eu a usaria facilmente.

As outras duas situações possíveis exigem ousadia, mas, com sorte e dependendo do charme da impostação, ainda podem colar.

C – Você mesmo não fuma, mas convida alguém para dar uns tragos. Se a outra pessoa for fumante, aceita (fumantes sempre buscam pretextos pra fumar). Chegando lá, o ser incauto acende o cigarro e de repente nota espantado: “Ué, você não vai fumar?”, “Não, eu não fumo”, “Ahn?”, “Não esquenta, você está bem fumando, eu estou bem vendo você fumar e está tudo certo”.

D – Esta beira o kafkiano, mas gostaria de ver alguém tentando. Você não fuma e convida alguém pro fumódromo: “Desculpa, não suporto cigarro”, “Não tem problema, eu também não curto, mas é uma excelente desculpa para irmos lá fora admirar a lua cheia”. Já vi gente sendo levada pra cama depois de piores.

* * *

A lei antifumo também estimula meu lado empreendedor.

Depois do projeto do restaurante que há de se chamar “Gordura Trans”, com slogan “Sabor à frente da saúde”, meu próximo passo será abrir o bar clandestino “Smoke”, locado em algum subsolo, evidentemente. Para ter acesso ao antro, os fregueses devem se submeter a um teste na portaria: puxar um cigarro (ou charuto, cachimbo, sei lá, qualquer coisa que faça mal à saúde) e dizer aquela coisa infantil de “um bom fumante consegue falar dez palavras sem soltar fumaça”. Quem não conseguir, está barrado definitivamente do Smoke, em caráter irrevogável. Não-fumante não tem vez.

* * *

E é assim que os mais revoltados pelas restrições ao cigarro devem agir: não percam tempo reclamando, agora Inês é morta, nem vai adiantar muito. Tal qual na ditadura militar em relação ao cancioneiro nacional, deixem a repressão servir de impulso à criatividade. Se não conseguirem, pelo menos deem boas cantadas por aí. E compareçam à inauguração do Smoke.

Torneira vazante

A torneira está vazando – isso me incomoda sobremaneira. Incomoda porque faz meleca, porque o barulho da água pingando na louça me impede de dormir, porque me traz a exasperante sensação de desperdício. Mas incomoda sobretudo porque não sei solucionar o problema, sinto-me tonto e impotente.

Ainda assim, não penso em chamar alguém para dar um jeito na coisa. Aliás, quem dá um jeito nesse tipo de coisa? Encanadores? Tanto faz, não hei de chamar ninguém mesmo, seria vexatório ter de contratar um profissional, gastar dinheiro, para dar conta de serviço tão estúpido. Provavelmente não valeria o deslocamento, o cara me olharia meio bravo, eu ficaria mais chateado ainda… Não, deixe como está. Uma hora para de pingar. Quem sabe.

Por que eu não sei consertar torneiras? Tenho certeza de que qualquer pessoa não tão absolutamente inapta daria uma olhadinha, um “ahn”, um tapa na coisa, pronto!, tudo funcionando lindamente. Mas eu não. Deve ser tão fácil e evidente quanto, no meu caso, sei lá, identificar o uso errôneo de crase antes de verbo no infinitivo. Mas é evidente que, somados, todos os usos errôneos de crase antes de verbo no infinitivo não causam o transtorno de uma torneira vazando. E minha capacidade de identificar o uso errôneo de crase antes de verbo no infinitivo é absolutamente risível, é ínfima perto do poder detido por quem sabe consertar torneiras vazantes.

Na verdade, uma torneira vazante, em sua fúria delicada, tem o poder de anular qualquer outra força terrena ou mística. Com o barulho das gotinhas pingando na pia, de que vale a música de Beethoven, a teoria da relatividade restrita, os poderes curativos do Dr. Fritz, a caipirinha, a reforma da Previdência?

Eu só queria ser o cara que sabe consertar torneiras. Saber desenhar, saber dançar também seria legal – mas não, isso seriam mais conhecimentos decorativos, entre tantos que já detenho, não devo me deixar levar por esses devaneios, é necessário manter o foco: saber consertar torneiras é o essencial, requisito básico de um homem de honra e respeito. Pais, mães, casem suas filhas com quem saiba consertar torneiras.

Eu não sei, minha torneira está vazando. Por que você não vem me ajudar? Eu tenho a velha certeza de que, de um jeito ou de outro, ah, você sempre dá um jeito.

Conselhos para Natália

Natália, não volte para casa esta noite. É a hora perfeita, você sabe, você sabe, se não for agora quando será? Aproveite esta lua, aproveite a grana, entre no carro e saia dirigindo para onde o vento a levar – não faltam opções de lugares interessantes, dinheiro já não é problema, você é forte, você é alta, você consegue.

Não hesite, não olhe para trás, não pense neles. Nem caia na besteira de dar aquela passadinha em casa antes, Natália, para pegar algumas coisas antes de ir. Seja sincera, o que há lá de realmente signigicativo? O que há lá de que você realmente precise? O que há lá que realmente vai lhe fazer falta, além daquele pote de Häagen-Dazs doce de leite pela metade? Deixe para eles, Natália, compre outro de outro sabor.

Aliás, talvez seja um jeito de eles lembrarem de você, perceberem que você se foi. Porque a triste verdade é que eles não se importam, Natália, nunca se importaram, você sempre aturou até resignada, não parecia haver outras opções: agora opções não faltam. E passar lá, dizer tchau, fazer um discurso emotivo, até desabafar, coisa que dizem ser tão boa, mandá-los à merda – tudo isso não lhe faria bem, querida, só a levaria a sentir o peso dos anos perdidos.

Tudo o que você estiver deixando para trás, Natália, você pode conseguir melhor agora. Dizem que ninguém, nada é insubstituível – e aquilo lá, aqueles lá é que certamente não o são. Eventualmente, quando você já estiver longe, eu aconselho que seja muito longe, ficarão sabendo da novidade, pela boca invejosa dos outros, e só aí se darão conta, começarão a entender a coisa (não que antes desse momento terá havido algum esforço de entendimento, minha querida, sem ilusões). Eles olham para você e sentem tédio, Natália.

Pois bem, vingue-se, você merece, mas não com essas palavras agridoces idiotas que estão sendo arranjadas na sua cabeça. Se você reuni-los todos, olhar nos olhos de cada um, e falar esse tipo de baboseira, capaz de chorar. Você não quer chorar. Não na frente deles. Você não precisa deles.

Vá embora, não diga tchau, não deixe bilhete, e seja feliz – essa é a vingança. Não pense, nem por um minuto, respeite-se, não volte para casa esta noite.

Triste figura

Sei que é tido como ato de alta covardia chutar cachorro morto, mas, venhamos e convenhamos, que triste figura a do nosso ex-prefeito Nedson Micheleti, não? Fico até meio encabulado de criticá-lo: fui seu eleitor em 2004, na primeira eleição municipal da qual tive oportunidade de participar, e sempre que me concedeu entrevistas me tratou muito bem, gentil e atenciosamente. Mas é que chega uma hora em que não dá para ficar quieto…

O caso é o seguinte: está sendo apurado, na Justiça, um suposto pedido de propina por vereadores da Legislatura passada para aprovar um projeto de lei que beneficiou o famoso Shirogohan, esse orgulho londrinense, descrito como boate pela imprensa. Todos os acusados negaram qualquer favorecimento. Nedson foi ouvido pelo Ministério Público como testemunha e confirmou que participou de um churrasco oferecido pelo Sr. Claudemir Mendes, dono do Shirogohan. Acrescentou, em depoimento ao repórter Fábio Silveira, do JL, que “compareceu ao churrasco sem nenhum tipo de negociação”, vendo sua presença como perfeitamente razoável; afinal, conta nosso último Chefe do Executivo, “quando prefeito jantei com empresários de vários setores”.

Nem vamos entrar no mérito do processo. Suponhamos que não tenha havido mesmo nenhum favorecimento remunerado – suposição esta altamente temerária, haja vista o belo histórico dos nossos legisladores entre 2005 e 2008. Mas deixemos isso de lado e nos atenhamos apenas à declaração do companheiro Nedson.

Primeiramente, para o bem da verdade, deve-se esclarecer que o Shirogohan não é uma boate. Nem um recinto de shows, nem um clube privado, nem um centro de eventos. Nunca estive lá, mas qualquer londrinense minimamente informado sabe, o Shirogohan é um prostíbulo, um bordel, um lupanar, casa de meretrício, inferninho, mercado de quengas, puteiro – conquanto seja, justo admitir, um prostíbulo, bordel, lupanar, casa de meretrício, inferninho, mercado de quengas, puteiro de luxo.

Pela mesma linha de raciocínio, o Sr. Claudemir Mendes não é simplesmente um empresário. Nem é questão de julgamento moral, não o conheço, pode ser pessoa nobilíssima, esposo amantíssimo, pai sempre presente, pagador de impostos, cristão renhido. Só vamos adotar a nomenclatura mais adequada: Claudemir Mendes é um cafetão bem-sucedido. O produto com o qual sua empresa lida são mulheres de vida fácil, vagabundas, biscates – ah, chega de sinônimos!, o ponto já ficou claro. Mendes apenas difere do grosso dos cafetões londrinenses porque provavelmente tem ternos bem cortados, bebe uísque caro e oferece churrascos a prefeitos.

E aí que está a aberração. Não fica bem para a cidade seu prefeito ir confraternizar com donos de puteiros; pior, admitindo-o com altivez, batendo no peito pra dizer “fui mesmo, dono de Shirogohan e dono de empresa de comunicação é tudo a mesma coisa”. Deus, estou longe de chauvinista, mas Londrina não pode virar, literalmente, uma zona. Como diria o Zé Simão, parece Dias Gomes. Só que aqui não é cidade cenográfica, não é Sucupira, não é Asa Branca, não é Serro Azul.

Mentiras

Já escrevi neste espaço que não gosto de mentira – é verdade. Atribuo este meu apreço pela sinceridade não à retidão moral, mas sim à mera preguiça. Sabe como é, mentir é complicado, você tem de tomar notas, confirmar dados, exige muita organização; pior, muitas vezes uma mentira leva a outras e você não pode se contradizer, tem de manter um histórico atualizado das lorotas e estudá-lo regularmente. Ah não, pra mim não serve, dá muito trabalho, deixem-me cultivar minha indolência e ainda ficar com a boa fama de sincero e leal. A mim me parece um bom arranjo.

No entanto, há gentes mais obstinadas que não capitulam ante essas dificuldades e se tornam especialistas na arte da mentira. Não deixo de admirar-lhes a engenhosidade e a disciplina. Confesso ainda que as vantagens do embuste, se bem perpetrado, são muitas e várias: sempre conveniente poder usufruir da comodidade das boas relações, fugindo como o diabo da cruz das verdades árduas. Aquele negócio: se não se fala do problema, ele não existe. A quem consegue manter esse way of life, meus sinceros parabéns.

Agora, o que não dá pra entender é quando o destinatário da potoca sabe que está sendo ludibriado, o emissor da fraude provavelmente está cônscio de que o outro está sendo tolerante com a embromação, e ainda assim se persevera o que pode ser chamado de mentira socialmente aceita: todo mundo sabe que a coisa toda é baboseira e finge que nada está acontecendo.

Há clássicos e clássicos dessa subdivisão da lorota: “A gente sai qualquer dia desses”, “Entraremos em contato quando tivermos uma resposta”, “Foi ótimo, há tempos não me sentia tão bem”, “Foram bem servidos? Claro, estava excelente!”, etc.

Os tempos de globalização e comunicação virtual acrescentaram mais um verbete a esse rol: você manda um e-mail para alguém, pede confirmação de recebimento e fica a ver navios. Tempos depois, encontra o sujeito ocasionalmente e, inevitável, pergunta, “Não recebeu meu e-mail?”, ao que tem como resposta “Recebi sim, mas não tive tempo de responder”.

Que tipo de argumento é esse? Vamos acreditar na hipótese remota de o sujeito estar realmente ocupadíssimo, enfiado em trabalho, doente, descobriu que o filho é viado e a mãe é puta. Neste caso, ele não teria cabeça para abrir a conta de e-mail. Agora, uma vez que ele foi lá, viu a mensagem, abriu, leu, quanto tempo leva para digitar “Recebido, conversamos mais tarde”? Uns 20 segundos, se a pessoa em questão tiver sofrido um derrame?

Ainda assim, em vez de rir e dizer pro canastrão “Qual é, meu filho? Tá achando que sou imbecil?”, a reação mais comum é resignar-se e murmurar um “Sei, mas tenta ver isso pra mim, por favor”. Ah, eu não gosto de mentira.

Passeio noturno II

Às vezes, é bom pegar o carro na madrugada e sair, sozinho, sem saber exatamente aonde se está indo. Não importa, sempre se acaba indo a algum lugar, sempre se passa por vários lugares.

Eu gosto de levar alguns discos comigo e fico ouvindo música bem alta, muitas vezes canto a melodia junto com a gravação e posso até arriscar canções em registros bem mais agudos do que meu timbre habitual, pois ninguém está ao meu lado, é muito tarde, é tão tarde da noite.

Pego as ruas principais da cidade, sempre há luzes, algum movimento; depois alterno para vias mais desertas, mas não muito distantes do perímetro central. São dois climas diferentes, mas complementares, nesses passeios noturnos. Em dias mais tensos, alcanço as estradas que delimitam a cidade, pode-se acelerar com gosto, altear ainda mais o volume da música.

Há pessoas que deixam de ir a lugares, deixam de fazer coisas por não ter alguém ao lado. Eu nunca deixo de fazer nada por falta de companhia. Muito menos sair, assim, sem rumo, queimando gasolina e ouvindo música alta.

Repeti tantas vezes esse negócio de “música alta”, sinto-me no dever de esclarecer que meus padrões de intensidade sonora são de biblioteca perto de alguns carros por aí, outros perdidos na madrugada. Mas estes nunca estão sozinhos e ouvem música muito ruim, diria que é inversamente proporcional a potência dos alto-falantes e a qualidade do que propagam. Uma de minhas fantasias sexuais é conseguir um desses veículos que chegam a um milhão de decibéis e passar na frente duma boate dessas da moda, tocando, sei lá, Bach – ou “Rhapsody In Blue”, do Gershwin.

Mas enquanto esse dia não chega, vou rodando por aí à noite, sozinho, e às vezes paro num bar, mas é rápido, só um drink, e observar um pouco as pessoas, tentar imaginar a vida delas, criar histórias. Ou, quantas vezes, chego ao Pátio San Miguel, sei que não vou comprar nada, não vou consumir nada, caminho até o banheiro, dou meia-volta e saio, só pela graça de verificar quem está por ali e quem sabe, porventura, descobrir alguém tão besta quanto eu.

Também gosto de passar por caminhos que costumava percorrer e agora não percorro mais, estou protegido pela noite, ninguém vai ficar sabendo. Velhas casas, velhas escolas, tudo velho.

É algo tão errante, tão despropositado, tão absurdo, tão típico meu que às vezes penso quem gosta de mim deveria ao menos uma vez me acompanhar por essas andanças. Mas aí já não seria meu passeio noturno, seria coisa diversa; quem sabe fosse muito bom, fosse melhor, talvez, mas não satisfaria essa necessidade que tenho, essa coisa que me dá, de às vezes pegar o carro na madrugada e sair, sozinho, sem saber exatamente aonde se está indo.

Glauco

Estava acostumado a ler as tiras do Glauco para a Folha de S. Paulo absolutamente todos os dias desde sei lá quando, há muitos anos – e quando ele assinava a charge da página 2 também conferia sempre. Confesso que, dentre “Los 3 amigos”, Glauco era o que menos me agradava. Ainda assim, considero-o uma pessoa que fez parte de minha formação cultural, e acompanhando seu trabalho dessa maneira, cotidianamente, sem erro, era como se fosse um colega, uma visita constante. Sua morte traz um sentimento de perda familiar.

Li muitos depoimentos análogos desde ontem, mas não me preocupo com a originalidade para manifestar essa minha consternação. Os melhores cartunistas têm a invejável habilidade de retratar temas muito graves, com muito humor, usando um assombroso poder de síntese – daí a grande identificação que conseguem com seu público.

E é inegável que Glauco era dos maiores cartunistas do Brasil, não faltam relatos de seu papel histórico de renovação nos quadrinhos pós-ditadura, trazendo temática e traços mais arejados, livres do que já soava como uma antiquada necessidade de desenho engajado, combatente – não que fosse deixada de lado a temática social em suas tiras, muito pelo contrário, mas sem aquele ranço chato de militância, de doutrinação.

Lia muitas críticas a Glauco nos últimos tempos por uma suposta estagnação de seu trabalho. Dessa Santíssima Trindade dos cartunistas brasileiros, creio que Angeli está próximo da unanimidade; Glauco e Laerte vinham sendo espinafrados por razões opostas: este por estar se tornando cada vez mais hermético, aquele por muitas vezes resvalar no simplismo, na repetição excessiva.

Grosso modo, essa observação pode ser até bem-fundamentada, mas Glauco atingiu um estágio de consagração que lhe permitia liberdades e despojamento que não se devem admitir em qualquer um. Assim como Vinicius podia encher seus textos de diminutivos, derramamentos sentimentais, e ainda assim ficar bom, Glauco fazia piada de peido ser engraçada. É uma questão de estilo. E embora muitas vezes descarregasse baboseiras – problema comum a todos que têm de obedecer a uma demanda criativa tão intensa e constante –, vez por outra ele ainda acertava em cheio. E aí valia a pena e era ótimo.

Talvez o melhor meio de homenagear alguém que lidava com humor seja mesmo o fazendo de modo descontraído, irreverente – muitos colegas de profissão de Glauco compuseram desenhos cômicos o relembrando, ficaram muito legais. Eu, no entanto, não consigo evitar o tom melancólico nesta despedida de um artista, que se foi de maneira tão incompreensível, tão banal.

Que merda!

Respostas

Mais uma da série “Coisas que deveria ter dito em vez de ficar quieto com cara de tonto”. Cenário: bar londrinense especializado na dita música rock. Não é lugar que costume frequentar, mas amigos meus tocariam naquela noite, sinto-me no dever de marcar presença.

Estava surpreendentemente de bom humor, havia acabado de pôr os pés na casa, quando vi sentada numa mesa cheia de gentes moderninhas alguém que parecia ser uma amiga há tempos sumida. Chega uma idade em que a gente perde certos escrúpulos, então executei a aproximação, curvei-me sem cerimônia e olhei para a cara da menina: não era a Mariana. A verificação não durou mais do que dois segundos, totalmente inócua, dei meia-volta e segui em frente.

Minha inspeção, no entanto, ofendera almas suscetíveis: alguns metros depois, ouço alguém falando em altos brados, pra quem quisesse ouvir: “Ei, nem tenta que ela é minha, tá?”. Girei para certificar-me que o negócio era comigo e sim, a loirinha vulgar estava me encarando. Na hora pensei só “Que mina escrota!” e continuei andando em direção ao palco.

Alguns segundos depois, no entanto, de uma vez só, veio-me um discurso perfeito – só era tarde demais para proferi-lo:

“Minha filha, por mim ela pode ser sua, do vizinho, da torcida do Flamengo ou de ninguém. Eu só queria saber se sua parceira era uma amiga que não vejo faz tempo, o cabelo é parecido, mas de fato, peço perdão, não sei como pude confundir: ainda falta muito arroz com feijão pra ela chegar perto da Mariana. Se quiser lhe passo o telefone, para quando você estiver precisando de uma substituta mais qualificada; só não posso garantir as chances, acho que vai ser difícil. No mais, não quero atrapalhar em nada, por mim que vocês sejam felizes e tenham filhos… Ops, pensando bem, acho que não!”

Sério, não seria brilhante eu mandar isso na lata da garota?

* * *

Em compensação, outro dia me disseram em tom de leve ameaça: “Você não conhece o meu pior”. E sem parar pra pensar muito as palavras de resposta brotaram da minha boca:

Quero conhecer o seu pior. E o seu melhor. E amarrar as pontas e fazer um belo laço.

Fiquei muito orgulhoso de minha rapidez, de minha eloquência.