Feijão-com-arroz

Por que tanto arroz com feijão?

Gosto da velha tradição de zanzar pela cidade, arranjar um boteco desconhecido e pedir um prato feito (PF). Uma opção muito mais digna do que a praga dos self service, que infestou o Brasil a partir do começo dos anos 1990, creio eu. Há algo de romântico no PF, algo de charme boêmio, será que só eu vejo isso? O problema é quando a quantidade de proteína no prato é completamente eclipsada pela montanha de carboidratos. Por que tanto arroz com feijão?

O bifinho fica espremido, quase pedindo licença por estar ali, envergonhado. Sua área ocupada no prato equivale à do cravo-da-índia no beijinho. Uma vergonha para o bife, essa nobre entidade. Quando a carne é de frango, até consegue ganhar mais espaço – não muito, é verdade, geralmente são dois pedacinhos grelhados insignificantes como compensação ilusória, os donos do boteco devem achar que os clientes pensam “Nossa! Estou comendo dois bifes de frango, quanta fartura!”. Quando se trata do insuperável bife bovino, no entanto, nem isso… O arroz com feijão o subjuga, oprime-o, não dá vez, reduzindo-o a um papel vexatório. Por que tanto arroz com feijão?

Fique claro que nada tenho contra o arroz com feijão. É uma delícia arroz com feijão. Se rolar junto uma pimentinha e uma farofa, nem me fale… Ademais, é um dos símbolos máximos da identidade brasileira, algo simples e delicioso. Só contesto esse desequilíbrio absurdo com que é oferecido na maioria dos PFs – também nas marmitas, mas, ao contrário dos PFs, a marmita não tem charme algum, então prefiro ignorá-la. Arroz com feijão deve ser um complemento, fenomenal complemento, admito, mas ocupando seu devido lugar de coadjuvante. O papel principal num prato de respeito deve caber à carne, os vegetarianos que me desculpem. Ah, não me desculpem não, falei nada de errado. É deslocado, deveria ser revisto esse protagonismo à Orson Welles em Cidadão Kane que o arroz com feijão vem impondo. Por que tanto arroz com feijão?

O pior é que a resposta é tão simples quanto óbvia. Carne é cara, arroz com feijão é barato. Então entope o nego de arroz com feijão. Fácil de entender, mas quando você se depara com um bife tão diminuto e esta quantidade grotesca, nhonha e desnecessária de arroz com feijão… Por que tanto arroz com feijão?

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Ódio

Tendo a aceitar a priori como justa qualquer crítica que se faça ao governo federal. Lula é um mau presidente. A ascensão do PT ao poder foi uma enorme decepção para muitos, para mim inclusive.

Quando se trata de espinafrar Lula como pessoa, no entanto, muito do que se ouve ou lê por aí é absolutamente detestável, repulsivo, e só pode ser entendido no contexto do preconceito de classe – com o perdão do termo meio antiquado, de sabor marxista.

Como entender esse ódio escancarado e particular contra Lula por parte de uma minoria bem-nascida? Seus pecados, seus crimes não são novos nem originais – o que não o exime de culpa, muita culpa. A forma de atacá-lo e os pontos pelos quais atacá-lo, no entanto, fazem toda a diferença, revelando a fobia social travestida de consciência política.

Vi há algumas semanas um post no Twitter que dizia “Por que isso não acontece com o nosso presidente?”, e anexo a isso um link para uma notícia sobre a morte do presidente da Polônia num desastre aéreo. Numa tacada só, para não mencionar o terrível mau gosto, conseguiu-se ser desrespeitoso com o Lula, com o presidente da Polônia, com as vítimas desse acidente, com todas as vítimas de desastres aéreos, creio eu, com a vida humana de modo geral… É um pensamento muito escroto, muito pequeno. O único lado positivo que vejo nisso é comprovar nossas liberdades democráticas, ao ver uma pessoa colocando tal barbaridade em público sem ser presa.

E aí se seguem piadas sobre o analfabetismo do Lula, sua cafonice, seu apreço pela cachaça, que vergonha ele representando o Brasil no exterior, que falta de compostura, para depois aparecer um indignado – e, curiosamente, muito à moda da retórica lulista – “Nunca houve tanta corrupção neste país, que horror vivemos, cada dia pior”. Como se a invenção do desvio de dinheiro público fosse prerrogativa deste último governo. Como se na verdade este último governo tivesse feito decrescer um milésimo de seus altos padrões de consumo, quisera tivesse.

Nessas horas, por um segundo dá vontade de apoiar o Lula – um segundo passa rápido, logo a vontade acaba. Porque, repito, Lula é um mau presidente. Mas é um mau presidente principalmente pelo que manteve, não pelo que criou ou alterou.

O irônico é esses seres raivosos não verem em suas posturas um agente fomentador do enorme carisma do presidente com grande parte da população, que o identifica como um cara que também é ridicularizado pela elite, que não liga pra protocolos, que é gente como a gente, etc. Como diria um amigo – notoriamente anti-petista, aliás –, burro é quem acha que o Lula é burro.

Como é triste perceber que estão na verdade pouco se lixando para a corrupção, as alianças espúrias, o loteamento de cargos, a manutenção de privilégios arcaicos – vêm à tona riquinhos horrorizados porque alguém com cara de pobre chegou ao poder.

Conversa de salão

Para meu amigo Carlos Fofão Fortes

– E então, como vai, como vão as coisas por lá?

– Ahn… Nossa intimidade já me permite usar assim, na sua sala, na frente dos convidados, alguns termos de baixo calão?

– Não será necessário, meu caro. Só pela sua manifesta intenção de utilizar as tais palavras já se depreende seu espírito em relação a tudo aquilo. Não o repreendo, não o repreendo, eu saí enquanto era tempo.

– Encanta-me sua rapidez de raciocínio.

– Ah, eu sei bem como é. Você tem minha solidariedade. Aquele lugar merece mesmo uns bons palavrões.

– Oh, mas seria tão escandaloso.

– Não seria?

– O atrevimento não a deixaria mal perante os outros?

– Ah, apenas nos afastemos um pouco. Se bem que se há uma justificativa plausível para a declamação pública de termos chulos, você está de posse dela, meu amigo. Quem estiver sabendo de sua situação o entenderá.

– Você me estimula imenso. Mas o palavrão para atingir sua plenitude não deve ser proferido em voz baixa, deve ser berrado.

– Em termos. Um “merda” encontra seu nível ótimo quando sussurrado, por exemplo. Há palavrões e palavrões.

– Nossa, nunca havia pensado nisso. De fato o merda em alto e bom som perde muito em força.

– Claro. E se deve pronunciar a primeira sílaba, “mer”, de forma alongada, como a representar um pé descalço se deixando grudar em um bom montante de merda. Meeeerda. Imagine o pezinho entalando no cocô, se retorcendo, querendo sair logo e não conseguindo.

– Perfeita relação entre forma e conteúdo.

– Ah sim, isso é importante.

– Este canapé está divino.

– A Jacira não erra nunca.

– Mas e quanto ao “bosta”, é a mesma coisa que merda?

– Não me desaponte, por favor, você só pode estar brincando. Muita ingenuidade achar que bosta e merda são a mesma coisa. A chave do bosta, ou da bosta, é explorar uma grande diferença de intensidade entre a sílaba tônica e a átona. “Bos” bem forte e rápido, “ta” fraquinho. Bosta é seca, merda é molhada, e isso deve ser refletido na pronúncia adequada.

– Confesso que o primeiro a me vir à mente, como forma de desabafo, foi o “caralho”.

– Mas aí você tem razão. O bom caralho é sonoro, sem sutilezas, não dá pra falar baixinho. Caralho deve vir forte, duro, com as sílabas bem separadas e duradouras, todas tônicas, um falo alongado, freudiano.

– Oh, que amável. Por que não nos colocamos a gritar caralho? Aqui, agora? Você é a dona da casa, talvez todos se empolgassem, seguissem seu exemplo, e teríamos a festa do caralho.

– Mas que ideia extravagante.

– Pitoresco, não?

– Adoro lances inusitados e exóticos, mas agora já estamos quase para servir o jantar.

– Ah, o jantar.

– O jantar.

– Conversemos novamente depois do jantar.

Conto de amizade

Não é que ela fosse feia, nem que a outra fosse muito mais bonita – numa análise fria, topando com fotos 3X4, ambas seriam classificadas por um júri de bom-senso e isento como belezas medianas.

Mas é que aquela garota à sua frente – que não era deslumbrante, longe disso, vamos reiterar – tinha qualquer coisa difícil de descrever, talvez possa ser resumido como presença. Não era seu corpo, até alguns quilos acima do ideal convencionado; não eram suas roupas, acessórios ou perfume, ela estava bem natural, quase desleixada; não era sua conversa, um papo sobre banalidades e algumas colocações francamente tolas; nem era seu sorriso, aqueles dentes da frente ligeiramente separados podem funcionar pra Madonna, mas sem essa de que aquilo serve como charme. Presença, é isso, não há outra palavra.

E era essa presença que a fazia ser o centro de atenções daquela sala, os homens todos a pajeando, enquanto ela ia ficando de canto – literalmente de canto, encostada de mãos cruzadas contra o encontro de duas paredes, a outra sentada no centro do sofá, gesticulando, o sol de Copérnico.

Os homens da sala nem eram tão interessantes, se estivesse como única mulher dali talvez quisesse sair correndo. Mas nem que fossem os mais feiosos e grosseiros do mundo, sempre humilhante ficar tão em segundo plano, ou fora do plano, ela ali e nada era a mesma coisa.

E olha que estava de shorts, as pernas de fora, se tinha uma coisa bonita eram as pernas, belas pernas, saudáveis, convidativas: ninguém estava dando a mínima pra elas, preferiam a… presença da outra.

Olha o que essa menina tá falando, a cidade de onde eu vim é muito pequena, ninguém pode fazer nada sem todo mundo ficar sabendo, o namorado da minha irmã é ótimo, nunca arranjarei outro cunhado tão bom, minha música preferida dos Paralamas… E por que diabos a ouviam tão atentos, lembrava-se claramente do Rodrigo falando que odiava Paralamas na fase paralisia. Quem se importava com aquilo, a cidadezinha, a irmã, o cunhado, ela que enfiasse tudo no.

Então teve a certeza de que poderia matá-la e não sentir nenhum remorso.

Promessa é dívida

Volta e meia alguém fica sabendo que escrevo algumas bobagens, devo ter um livro publicado ainda este ano, e algumas dessas pessoas parecem ficar realmente impressionadas com minhas parcas glórias. É um pouco lisonjeiro, mas mais do que lisonjeiro é estranho, ligeiramente desconfortável. E evolui para o francamente constrangedor quando o incauto, ao ser apresentado a mim, decide que seria um tema excelente para uma crônica, conto, quiçá um romance, um volume de sete tomos.

E isso acontece comigo, um perfeito desconhecido que de vez em quando consegue juntar palavras com mínimo de coerência. Alguém sussurra que sou escritor e a menina vem toda serelepe. Se fosse analfabeto, ela nem teria como ficar sabendo. Imagina se eu realmente tivesse visibilidade? Nessas horas entendo o Domingos Pellegrini.

Ah, você tem de ouvir isso, a história é incrível. Presta atenção, por favor, e depois você escreve. Se quiser, a gente se encontra pra eu te explicar direitinho. Daí você acrescenta a crônica nova no seu livro, vai ser um sucesso. É quase uma novela mexicana, parece um daqueles livros Sabrina. Mas só não vai colocar meu nome, hein? Digamos que há o personagem A – A sou eu, hihihi –, o personagem B, o C e o D. A está flertando com B, mas B é casado com D, que é amiga de C. A não sabia do estado conjugal de B, C a desencoraja, mas ela própria trai D, que recentemente havia juntado dinheiro para ir para Europa só por […]. E ela ainda quase ficou grávida, você acredita que […]. Também, bem feito, ela agora está sem amigas. E ele deve estar se achando, né? […]. Ah, é difícil ser mulher, tanto coisa que você tem que.

E essas pessoas realmente não veem o quanto suas histórias são absolutamente desinteressantes, ordinárias, vulgares. E seus dramas, que acredito de fato as afetam, causam terríveis sofrimentos e provocam sincera solidariedade entre amigos, como matéria-prima artística não valem nada. Se ela dissesse “faça uma crônica sobre a manga da minha blusa” seria mais inspirador.

Mas você nem desconfia disso. De qualquer jeito, você nunca lerá isto. Eu é que tenho dificuldades em descumprir minhas promessas, mesmo as mais retóricas e ébrias. Então aqui vai aquela crônica sobre sua pessoa. Espero que goste.

Morrissey e os títulos II

Não se pode encontrar uma fórmula exata para saber por que os títulos do Morrissey são tão bons. Na verdade, eliminadas as hipóteses da qualidade pela extensão e da relação diretamente proporcional entre o bom letrista e o bom criador de títulos, sobra especular livremente.

Tenho a impressão – e não há indícios para falar em mais do que impressão aqui – de que muitas vezes Morrissey inverte o processo criativo consagrado, começando suas composições pelo título. Porque o mais comum, o que aprendemos nas escolas, é escrever algo e apenas depois de tudo arranjado buscar um título que sirva de síntese, que traga a ideia central do texto.

Os títulos do Morrissey, no entanto, não parecem guardar essa noção de resumo: pelo contrário, parecem uma criação independente, com as letras servindo como um tema para desenvolvimento posterior – do qual a letra de canção seria apenas um dos desdobramentos possíveis.

Peguemos “That joke isn’t funny anymore”. Não parece que antes de haver melodia – se é que se pode falar em melodia quando o assunto é Smiths –, antes de haver versos existia apenas uma frase vaga e forte, que dá respaldo a ideias narrativas? Tendo um título bom a priori, consegue-se um adiantamento ótimo para as palavras por vir. Claro que isso é submeter a música à letra, e colocando esta como prioridade pode se prejudicar a liberdade melódica. Mas como já insinuei, no caso dos Smiths não há exatamente melodias, o que existe pode ser mais corretamente definido como trilhas sonoras de Johnny Marr para os poemas de Morrissey – nesse regime de exceção, tudo funciona perfeitamente.

O triste é que muita gente não dá bola para os títulos de música. Antes já era comum, agora com a decadência dos álbuns então… Todo mundo que lê algo sabe o nome do que está lendo, mas é raríssimo alguém saber dizer a canção que estava escutando. Geralmente se usa o refrão como forma de identificação, o que é um desperdício para a arte de Morrissey.

Mais importante talvez sejam os versos iniciais de canção. Morrissey também tem alguma habilidade nisso, “I am the son and the heir/ Of a shyness that is criminally vulgar”. Talvez um pouco rebuscado demais, para os primeiros versos prefiro algo mais simples e arrebatador. Acho que meus dois preferidos de todas as canções que conheço são “Mulher, se Deus não criasse você,/ Ele próprio custava a crer”, do Paulo César Pinheiro sobre melodia de Baden Powell em “Falei e disse”, e “You can’t stop people from talking/ – and they’re talking, my dear”, do mestre Irving Berlin em “Say it isn’t so”.

Todos deveriam conhecer Irving Berlin. Aliás, outro bom criador de títulos. Gosto de “You keep coming back like a song”, “How deep is the ocean?”, “Let’s face the music and dance”, “You can have him”, “How’s chances?”, “The song is ended (but the melody lingers on)”, “The best thing for you (would be me)”, “You’re laughing at me”… Aliás, impossível pensar nesta canção sem lembrar daqueles maravilhosos versos – nem são os iniciais, não têm nada a ver com o resto da crônica, mas são tão bons que valem a citação descontextualizada: “I want to be romantic but I haven’t a chance/ You’ve got a sense of humor/ And humor is DEATH to romance”. Ouçam, recomendação óbvia, com a Ella Fitzgerald. Vocês serão pessoas melhores.

Morrissey e os títulos

O Briguet escreveu outro dia crônica sobre os melhores títulos de livro. Logo fiquei com vontade de escrever uma resposta, só que listando títulos de canção: os mais belos, ou interessantes, ou instigantes, que por si só já poderiam constituir uma obra.

O problema é que o texto ficaria um tanto reducionista, porque nesta área temos um candidato hors concours: não há ninguém que chegue perto de Morrissey na atenção dada para batizar suas composições, não tem nem graça. O segundo colocado fica muito muito atrás.

Pra ficar só nas que escreveu para os Smiths: “How soon is now?”, “Heaven knows I’m miserable now”, “The night has opened my eyes”, “Please, please, please let me get what I want”, “Sweet and tender hooligan”, “Pretty girls make graves”, “I want the one I can’t have”, “That joke isn’t funny anymore”, “Bigmouth strikes again”, “There is a light that never goes out”, “Some girls are bigger than others”, “I started something I couldn’t finish”, “Stop me if you think you’ve heard this one before”, “Last night I dreamt that somebody loved me” – interrompendo por aqui uma lista que poderia ser bem mais extensa. Ah, e se fosse escolher um de sua carreira solo seria “We hate it when our friends become successful”.

Demonstrado por meio de exemplos o ponto de por que o considero o melhor compositor de títulos de canção, resta analisar os motivos de ele ser tão bom. Acho que o primeiro impulso é atribuir a qualidade à extensão dos títulos, geralmente maiores do que a média, no que se teria mais margem para trabalhar algo marcante. Mas creio que seja um argumento enganoso, ou insuficiente. “Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones” é enorme e não soa particularmente atraente; ademais, Morrissey também tem títulos curtos de respeito, “Unhappy birthday”, “Nowhere fast”, “Still ill”, “I won’t share you”, “Miserable lie”.

Outra tentação é reduzir o assunto a algo como “ele é um excelente letrista, logo os títulos serão legais”. Não é tão óbvio assim: Chico Buarque e Cole Porter são tão bons ou melhores do que Morrissey e não me lembro de muitas composições suas com títulos memoráveis; por outro lado, Humberto Gessinger é capaz de escrever “Minha vida é tão confusa quanto a América Central/ Por isso não me acuse de ser irracional”, dos piores versos da língua, mas são de sua lavra títulos bacanas como “Refrão de bolero”, “Filmes de guerra, canções de amor” e “Somos quem podemos ser”.

Qual o segredo, então?

Agradecimento à Rosilene

Eu sempre ouvi falar que dirigir cansa, mas nunca levei muito a sério. “É basicamente ficar sentado, mexer um pouco os pés, mover o braço dez centímetros pra cima ou pra baixo… Até um representante orgulhoso do time dos sedentários, como eu, consegue.” Mas devo admitir que qualquer coisa na relação motorista e estrada realmente acaba por cansar um homem sem anfetaminas. A necessidade de atenção constante aliada quase paradoxalmente à monotonia, talvez. Só sei que dou a mão à palmatória, de fato dá para fazer bobagem depois de passar algumas horas dirigindo. Quando não do tipo perigoso, aquele cansaço no qual se podem colocar vidas em risco, algumas besteiras menos assustadoras, mas ainda assim com imenso potencial de constrangimento.

Do tipo gastar seu dinheiro na loja de conveniência de beira de estrada e esquecer que há ainda um pedágio a se passar – e pagar.

Por isso agradeço à Rosilene.

Não tenho dinheiro, o que faço? Sem talão de cheques? Nada. Ah, moço, vou ter de liberar o retorno pra você. Ah, era tudo o que eu precisava, e o combustível acabando. Deixa eu tentar falar com meu supervisor. É, não vai ter jeito mesmo… Mas espera aí.

Foi então que Rosilene fez a proposta.

Escuta, me dá aí o que você tem e eu completo o resto. Você passa sempre por aqui? Então, mas me paga mesmo depois que eu vou tirar do meu bolso, tá?

A Rosilene é uma boa pessoa. Ou uma tremenda duma otária. Claro, vou acabar pagando de volta os dois reais pra ela. Provavelmente com acréscimos. Ou com uma caixa de chocolates, que nem a Lívia sugeriu. Mas e se eu não pagasse? Vale a pena ser generosa assim? Ainda mais com um desconhecido – e um desconhecido claramente não confiável, a ponto de andar em estradas sem dinheiro no bolso?

Eu costumo repudiar a expressão “Deus lhe pague”. Afinal, quando se recebe um favor, você mesmo deve tentar retribui-lo, não deixar a conta para um hipotético deus. No entanto, saiu da minha boca sem eu ter tempo pra pensar muito um “Deus lhe pague”, ou um “Deus te abençoe”, não lembro agora. Seja como for, a Rosilene gostou, parece. Disse um amém comovido, acho que se sentiu bem ao fazer o bem – embora esse bem pretensamente feito seja duvidoso, por mim teria me deixado no meio da estrada. Apreciações à parte, minha referência divina agradou mais que um simples obrigado, então acho que foi algo legal de se dizer.

Não sei se Deus vai pagá-la, Rosilene, mas você bem que merecia.

Surpresas

Às vezes as pessoas nos surpreendem positivamente. Eu sempre considerei a Leila Pinheiro como a personificação da cantora insossa. Numa pesquisa que estava fazendo sobre a obra de Tom Jobim, no entanto, deparei com a existência de uma canção chamada “Espelho das Águas”, jamais gravada pelo próprio, que a deu de presente para Leila Pinheiro registrar em seu primeiro álbum, de 1983 – pelo visto o Tom botava fé na garota.

E, Deus, a canção é bonita. A letra, toda dividida em quadras, é um bom exemplar do letrista bissexto Tom Jobim fugindo das amenidades típicas da lírica bossanovista, com versos que impressionam como “Supõe que eu estivesse morrendo/ Mas não te quisesse alarmar/ Pensei que você não soubesse/ Que eu me queria matar”. Mas a música é que é o negócio fino, a melodia, as modulações harmônicas, o arranjo de cordas, o piano (do próprio Tom)… Como é bom descobrir uma pérola nova de quem você acha que já conhece todo o repertório.

Tá certo, pode dizer-se que a canção é boa a ponto de nem a Leila Pinheiro conseguir estragá-la. Mas só de ela ter apresentado ao mundo essa preciosidade já ganhou pontos comigo. E quando fiquei sabendo que ela abandonou o curso de medicina numa Universidade Federal para se lançar a uma carreira incerta na música, gostei ainda mais dela.

* * *

Às vezes, as pessoas nos surpreendem negativamente. Barbara Gancia e Eliane Cantanhêde, de estilos bem distantes, são dois dos melhores textos jornalísticos do país, em minha opinião. Mas eis que a Barbara Gancia me resolve, na última sexta-feira, em sua coluna na Folha de S. Paulo, criticar a postura da Igreja Católica por relacionar homossexuais e pedofilia. Até aí, tudo bem. O problema é quando ela implica com um tal cardeal Bertone porque ele falou em “homossexualismo” em vez de “homossexualidade”. Segundo Barbara, “palavras terminadas em ‘ismo’ são as patologias”. Justo você, sempre tão disposta a não aceitar discursos prontos, expor ângulos inusitados, remar contra a corrente, repetindo o pior tipo de asneira do politicamente correto? Capitalismo, comunismo, modernismo, futurismo, surrealismo, perfeccionismo, altruísmo, são todos patologias? Faça-me o favor.

A Eliane Cantanhêde, por sua vez, aparece-me numa cobertura do lançamento da candidatura José Serra à presidência agindo como se estivesse noticiando a festa de uma madame qualquer. Dividindo as sílabas e tudo, “uma LOU-CU-RA”. Não podia acreditar em tamanha falta de compostura. Vi o vídeo no Youtube, a legenda descrevia Eliane como “serelepe”. Triste admitir, mas é o adjetivo perfeito.

* * *

Às vezes, as pessoas absolutamente não nos surpreendem. Lobão dizendo ao CQC que João Gilberto deixa todas as músicas iguais é perfeitamente cabível a um cara que passou dez anos falando dos Acústicos MTV como a representação institucional do diabo na Terra para depois fazer seu próprio Acústico MTV com a justificativa de que “o meu é diferente, a MTV mudou”.

Parabéns ao amigo Briguet

Parabéns ao amigo Briguet, ele é pai desde sexta-feira.

Mas reduzir as razões dos parabéns ao amigo Briguet ao fato bastante de ele ser pai desde sexta-feira seria impreciso, equívoco, inexato, insuficiente – e até um pouco vulgar. Afinal, sejamos francos, simplesmente colocar um filho no mundo não é tarefa das mais difíceis, obedecidas certas condições biológicas.

Muita gente totalmente desqualificada consegue ser pai, se não no entendimento mais amplo da palavra (de criação, sustento e referência para o filho), no sentido mais simples mesmo, quando seu espermatozoide contribui para dar ao mundo mais um potencial pagador de impostos. E isso, insisto, não é grande coisa.

O amigo Briguet merece os parabéns justamente porque será – aposto – um pai nesse entendimento mais amplo que mencionei; aliás, com o perdão do período intrincado, num entendimento de amplitude maior do que eu possa entender. Porque se alguém que conheço se preparou para ser pai, mereceu ser pai, esse alguém é o Briguet.

Então, vamos lá, parabéns ao amigo Briguet porque sexta-feira nasceu seu filho, de nome Pedro Henrique Vale Briguet, filho planejado e querido – seus amigos, seus leitores são testemunhas de quão planejado e querido, por ele e pela Rosângela, sua amada esposa, agora também orgulhosa mãe do Pedro Henrique. E parabéns ao amigo Briguet por ver algo sagrado nessa organização simples, bela e sólida da instituição familiar, que mentes mais modernas podem tomar como antiquada, ou inviável, ou piegas, sei lá.

Parabéns ao amigo Briguet pela figura presente e compreensiva que será para seu filho – tenho certeza, mesmo se o Pedro Henrique um dia vier a colecionar álbuns do Skank e passar a curtir a banda a todo volume em seu quarto, seu pai o apoiará e estará a seu lado para o que der e vier.

Parabéns ao amigo Briguet – e obrigado – por esta ternura comovente, vejo a mensagem que me mandou ao celular e sorrio: “Pedro Henrique Vale Briguet nasceu. Mãe e filho passam bem. O pai morreu. De orgulho”.

Parabéns ao amigo Briguet porque falava com o mesmo carinho, com a mesma paixão, de seu filho que ainda não havia nascido e de seu pai que já morreu. E agora seu filho já está entre nós, Briguet, parabéns! Parabéns porque o Pedro Henrique ainda contará histórias tão bonitas de você quanto as que você conta de seu pai.