Arguile

Estou dividindo um apartamento com alguns estudantes. Estudantes costumam ser gregários, recebem colegas vários, de modo que neste presente momento um pequeno bando está trancado dentro de um dos quartos do imóvel enquanto eu, voluntariamente excluso do programa, digito estas letrinhas.

Não é isso, nada de orgias, seus pervertidos, estes meus colegas universitários são castos como São Francisco de Assis. Ocorre que eles se reúnem pra fumar aquela porcaria árabe chamada arguile (ou narguilé, ou sei lá quantas grafias há para a mesma merda). Eu gosto de experiências novas, mas em verdade em verdade vos digo que morrerei sem fumar arguile. Acho esse brinquedinho uma coisa horrorosa.

Entre estes universitários fumantes de arguile do quarto ao lado está uma menina de 18 anos, vocês precisam ver que gracinha. Vai à missa todos os domingos, dedica-se aos estudos, alimentação saudável, exercícios regulares, virgem, evidentemente; mais do que isso, se alguém conta uma piada envolvendo sexo, enrubesce imediatamente. Não faria nada que os pais não pudessem saber. E é com a consciência repleta de pureza que se sente à vontade para meter aquela mangueira na boca.

Não adianta aparecerem mil entendidos na TV e nos jornais dizendo que o tal arguile – só de escrever esse negócio e ouvir mentalmente a pronúncia da palavra me dá um arrepio, que nomezinho afetado, escroto – é tão nocivo ou ainda pior à saúde do que cigarro comum. Já há um salvo-conduto, o aval da sociedade, dos pais diligentes, para que seus filhos, menores de idade inclusos, possam fumar arguile. É só uma brincadeirinha. Ninguém vai morrer de câncer fumando aquele trem. Não vicia. O rapaz dando em cima da sua filha não será um genro malquisto porque fuma arguile.

Será por causa do aroma diferenciado, com essências? A mim o cheiro do arguile se assemelha ao de motor queimado. Quando fumaram pela primeira vez aqui no apartamento, achei que meu laptop havia ido para o saco. Agora já me acostumei, ou melhor, resignei-me.

Mas acho que a chave para a ampla aceitação está no aspecto visual grandioso, colorido, os motivos orientais remetendo a novelas étnicas recentes da Globo. Devem achar bonitinho, quando na verdade é apenas kitsch, brega, de extremo mau gosto. Uma mesinha com um arguile no centro equivale a carros rebaixados com luz de neon, a pinguins de geladeira, a álbuns do Kenny G.

O fundamental

As últimas notícias que me são oferecidas:

Depois de seguidos domingos perdendo na audiência, Gugu resolveu trocar o horário de seu programa, a fim de evitar a concorrência do antigo patrão Sílvio Santos e do humorístico Pânico na TV. Se a estratégia não der certo, muda-se a coisa toda de novo até vingar – e o que eu tenho a ver com isso?

As jornalistas Ticiana Azevedo e Consuelo Diegues lançam, por editora apropriadamente denominada Best Seller, o clássico instantâneo Cuidado! Seu príncipe pode ser uma Cinderela. Com dez lições práticas, o guia trata de auxiliar as mulheres na árdua tarefa de identificar se seu namorado, marido ou noivo não é na verdade uma bicha enrustida. De acordo com o release, “armário muito organizado, roupas e acessórios de marca, presença constante da mãe, viagens para fazer compras, vaidade excessiva” são bons índices de certa tendência à pederastia. A prova de fogo, no entanto, passa pelo sexo oral. Afinal, um camarada viado pode até dar uma trepadinha por esporte, sempre segundo as autoras, mas cair de boca, jamais – e pensar nas árvores que foram derrubadas para imprimir essa literatura.

O ex-marido de Sandra Bullock, do qual realmente não vale a pena citar o nome, declarou à imprensa que provavelmente a atriz já suspeitava dos múltiplos chifres adornando sua testa, motivo da separação. O canalha arrependido lamenta, “menti para todos, até para mim mesmo” – azar o dele.

Em plena Florianópolis, o Náutico bateu o Figueirense pela série B do Campeonato Brasileiro. Louve-se a ousadia do técnico Alexandre Gallo, que mesmo fora de casa apostou numa formação com três atacantes – fascinante, não?

As danças de roda, essa tradição milenar e universal, estão ganhando adeptos entre os moderninhos e tomando as baladas. Na noite, agora, dançar sozinho está totalmente out; o que rola é uma boa ciranda – por mim, podem ar as mãos e girarem até vomitarem todos uns em cima dos outros.

Quanta bobagem, quanta insignificância. O mais triste é saber que, se publicadas são, essas novas realmente devem interessar a alguém. E enquanto isso, no mundo real, livre de factoides, distante das frivolidades e vaidades de uns poucos, onde o que acontece realmente pesa e modifica a vida de nosso povo, o Super Muffato está com uma super promoção de sorvete Häagen-Dazs. Imperdível.

Considerações várias

Quando o cansaço pesa, é sempre ruim ser acordado, seja qual for o motivo. Há de se levar em consideração, no entanto, que o despertar ao som de “Traga suas panelas, nós as consertamos para você. Qualquer marca, Rochedo, Clock, Tramontina” é particularmente enlouquecedor.

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É um absurdo pegar táxi quando se pode percorrer o mesmo trajeto, com outro meio de transporte, por um décimo do preço. É um absurdo pagar para ir ao banheiro. Quando, num mesmo dia, você pagou R$ 20 reais de táxi e R$ 1,25 para dar uma mijada, sua vida não faz muito sentido.

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Li numa revista que gordura abdominal é mais mortífera do que cigarro. Como tantas vezes acontece, a ciência vem comprovar o que já estamos carecas de saber. Afinal, velhos fumantes há aos montes, muitos lamentando a interrupção do fabrico do Hollywood sem filtro. Agora, velho gordo não há. Eu quero dizer bem velho mesmo e realmente gordo. Cinquentão com pancinha não vale. Donde se pode concluir que, apesar da validade do “o que não mata engorda”, o que engorda mata.

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O princípio acima não é aplicável ao sexo feminino. Velhas pululam sobram por aí, sendo as nonas italianas o exemplo mais óbvio, sempre dispostas a atuchar mais uma porpeta na boca do netinho.

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Usar frases de efeito da namorada sem dar o devido crédito é perfeitamente lícito.

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Deveria ser proibida a fabricação de calcinhas na cor bege.

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Estabelecimentos que deixam coca-cola entrar em falta deveriam ser fechados dc imediato, sem possibilidade de apresentar defesa.

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O ato de assoviar está diretamente associado ao de fazer bolas de chiclete; quem não consegue realizar um também não logrará êxito na tentativa de efetuar o outro. Outrossim, o bom chicleteiro é sempre exímio assoviador.

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O melhor álbum duplo de todos os tempos é o Clube da Esquina, de Milton Nascimento e Lô Borges, seguido de Physical Graffiti, do Led Zeppelin, Blonde On Blonde, de Bob Dylan, Exile On Main Street, dos Rolling Stones, e o Álbum Branco dos Beatles.

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Vinho de coco é um mito das estradas. Na verdade, não existe.

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Morangos gigantes existem.

Rodízios

Rodízios de pizza de pizza são errados. A premissa de qualquer rodízio de comida é errada, na verdade. Estou com preguiça de explicar por quê. Se você concorda comigo, já me entendeu; se não concorda, não será minha explanação que o fará trocar de ideia.

A triste verdade é que mesmo os que não apreciamos a forma de serviço acabamos nos rendendo e voltando a essas casas onde a pizza de calabresa tem o mesmo gosto da de mussarela (recuso-me a grafar de outro jeito), que tem o mesmo gosto da de frango, que, por sua vez, é parecidíssima com a portuguesa. Até as de sabores estapafúrdios, como estrogonofe ou filé com champignon (isso existe), são indistinguíveis ao paladar. Com o preço que se paga para participar dessa orgia gastronômica, geralmente dá pra comprar uma pizza inteira decente, alimentando bem duas pessoas – e assim se anula o argumento tosco de que o rodízio “vale a pena para se empanturrar”. Empanturre-se de coisa melhor, com menos custos, se for o caso de querer se empanturrar, oras. Mas eu havia me disposto a não dar explicações e cá estou eu me traindo.

O incrível é que, olhe para as mesas ao redor, mesmo com a comida safada, as pessoas nos rodízios de pizza estão muito felizes. Mais contentes do que no Fasano ou no D.O.M., aposto. Geralmente em grupos grandes, a gordinha falando alto, os pais e os filhos, piadas na mesa, disputas pra ver quem come mais – e todo mundo sorridente. Um panorama comovedor, como recusar convite para esta morada da felicidade?

E o representante de agora contava com adicional até então inédito no meu currículo de rodízios de pizza: sorvete à vontade, só levantar e se servir – um rodízio de sorvete seria algo melequento demais até para o padrão dessas casas. Sou uma pessoa que admira a coerência acima de todas as virtudes; logo, a qualidade dos sorvetes não me decepcionou. Na verdade, cá estava eu ante um notável feito cromático: 11 variedades de sorvete em distintos tons de amarelo (sem identificação de sabor, evidentemente). Era amarelo pra Van Gogh nenhum botar defeito. Pois bem, espelhando o prato principal da casa, os 11 sorvetes em 11 amarelos diferentes conseguiam ter todos o mesmo gosto. Notável.

Outra atração inconteste: chopp por R$ 1,50. Pena que chopp não me desça com pizza, acabei na besteira de pedir dois refrigerantes sem saber o preço – três indecorosas pilas por cada garrafinha de 290 ml, e nem tinha Coca, só Pepsi.

Foi então que me acometeu ideia brilhante, como soem ser minhas ideias. Ladeando o rodízio de pizza, deveria haver o rodízio de vinho vagabundo. Sucesso garantido. Qual o complemento perfeito para “vai uma margherita?, aceita milho?, bacon, senhor?” Só pode ser “vai um Chapinha?, aceita Pasqueto?, Mr. Thomas, senhor?, o Sangue de Boi está uma delícia hoje, Guaravera?, Country Wine?, Campo Largo?”.

Ah, que desgraça. E o pior é que a noite foi divertida

Lanches de Maringá

Bacana como esse negócio de passar a semana em Maringá está me aproximando do meu primo, que estuda aqui na UEM. Convidou-me hoje para jantar, sugeriu algo “bom e barato”. O mais natural seria um lanche, mas os lanches nesta cidade têm um problema: são ruins.

Constrangedor falar mal deste lugar que vem me acolhendo tão bem, mas nesse quesito Maringá tem muito a evoluir. A Zona 7, o bairro dos estudantes, é uma paisagem impressionante: uma carrinho de lanches por esquina, sem hipérbole, além das lanchonetes mais bem instaladas.

Quando vi toda aquela oferta, pelo pouco que lembro das aulas de economia, pensei que a concorrência levaria à diversidade, a um acréscimo qualitativo. Mas não, os lanches maringaenses desafiam Adam Smith, são sempre a mesma porcaria. Até a ordem do cardápio de cada estabelecimento é idêntica: simples, duplo, pizza, frango – variações sobre uma base em que todos os sanduíches levam salsicha. Qual é a pira daqui com salsicha, por Deus?

A coisa dá certo porque é barata, muito barata, e os estudantes não primam pelos bolsos cheios. Então mesmo oferecendo um produto vagabundo, os carrinhos de lanche daqui vivem repletos, com universitários felizes em poder desfrutar da tubaína por R$ 1,20, do catchup aguado e da maionese verde mal feita, totalmente disseminada por estas plagas, creio que há um grande contêiner repleto do grude no qual todos os lancheiros vão se abastecer.

Creio que o leitor descuidado pode achar meu grau de exigência descabido, afinal é tudo lanche, uma porcaria mesmo, pra que essa frescura? Equívoco crasso. Não é porque gostamos de junkie food que devemos nos descuidar da qualidade e assepsia. Sou partidário da junkie food limpinha. A ilustração mais clássica se dá com os nuggets: busque escolher sempre os feitos com peito de frango, esses são firmeza; sobre aqueles compostos com “frango” paira certa suspeição, enquanto os que ostentam rótulo de “preparado com aves” certamente contam com urubus na mistura.

Enfim, Maringá é bela, cerveja barata, lindas mulheres, Universidade priorizando a pesquisa, economia em ascensão, locadoras de DVDs em conta, mas a triste constatação é que o título de melhor lanche da cidade vai para o McDonald’s.

Então eu e meu primo fomos a um rodízio de pizza – aventura a ser relatada na próxima crônica.

Novos lugares

Vamos andar juntos por aí e descobrir lugares, há tantos novos lugares a descobrir.

Conhecer espaços diferentes é um anseio muito comum, quase todo mundo gosta, todo mundo quer. Mas comumente esse desejo é confundido, ou diretamente relacionado com viagens. De preferência para lugares bem distantes, línguas e cédulas diferentes. Claro que não serei eu a menosprezar a graça de andar no bondinho do Pão de Açúcar, subir na Estátua da Liberdade, abraçar a Torre Eiffel, jogar uma moedinha na Fontana di Trevi, passar de camelo na frente da pirâmide de Quéops. Só acho que não se precisa ir necessariamente tão longe para ter o prazer de descobrir novos lugares. E quando esse clamor pelo estrangeiro chega ao extremo de levar graduados em cursos superiores a servirem de mão de obra barata lá fora, com a justificativa de estar adquirindo uma “vivência” (oh palavra maldita), não posso evitar certa azia. Mas isso é outra história…

Não são necessários grandes planos, antecedência, economia, agência de turismo, visto, passaporte. Alguma gasolina no carro, domingo à tarde por aí, meio sem rumo à direita esquerda direita esquerda esquerda direita novamente, um bairro desconhecido dentro de sua própria cidade, onde há de haver uma praça, alguns bancos, árvores, pessoas desocupadas jogando bola numa quadra, um lugar misterioso. Eu gosto.

Mais para lá uma locadora que tem um acervo incrível e preços baratos, como nunca havia ouvido falar, uma pizzaria num bairro de periferia que faz molho com tomates de verdade, um ponto s especial no alto do morro com uma visão magnífica do Centro, varrer sorveterias em busca do melhor sorvete de maracujá, um supermercado oferecendo uma marca de queijo gouda que os outros não têm, um boteco onde velhinhos se reúnem no começo da tarde para tocar choro – e, de quebra, serve a mais farta porção de frango frito jamais vista.

Tudo isso são lugares novos tão próximos, esperando para ser descobertos. Não precisa ficar amuado se este ano não rolar uma primavera em Praga. Às vezes mesmo num lugar bem conhecido se pode deslumbrar-se com algo insuspeito – vim aqui por tantos anos e nunca soube que seu pai guardava esse relógio lindo. Dentro de sua própria casa pode haver um cantinho que sob determinada luz… E aí se descobre novo um velho lugar.

Vamos andar juntos por aí e descobrir lugares, há tantos novos lugares a descobrir com você.

Função

Ela queria algo quente pra beber, reivindicação justa, então entramos no boteco e pediu um café com leite – ou pingado, ou média, dependendo da variante geográfica. Eu não tomo nada com café, mas gosto de seguir a vibração líquida de minhas companhias, de modo que para mim mesmo escolhi um singelo chocolate quente.

Presume-se que chocolate quente seja feito com autêntico chocolate em pó; algumas variantes mais sofisticadas levam canela, gema de ovo, conhaque.

Aquele do boteco não era nada disso: meio copo americano preenchido com achocolatado no fundo, leite por cima e uma colher comprida boiando sobre tudo – nem se deram ao trabalho de mexer. Por aquela miséria, a pequena fortuna de dois reais.

É para ficar indignado, não é? Mas Deus, aquele negócio estava bom, eu não sei por quê. Tive de pedir mais um. E pediria ainda outro, não fosse gastar seis reais por 300 ml de leite com Nescau uma ofensa mortal ao que resta do meu bom senso.

Por que diabos a mistura que eu fazia em casa com os mesmíssimos ingredientes não chegava aos pés daquela do boteco? Esses lances geralmente têm a ver com memória afetiva, mas eu nunca havia posto os pés naquele lugar – e ele certamente não lembrava a casa de minha querida avó.

Começamos a especular: seria o miraculoso copo americano de boteco? A proporção perfeita de achocolatado no líquido? A qualidade do leite, mais espesso do que os encontrados hoje em dia por aí, diluídos em embalagens “longa vida”, repletos de formol, ou até mesmo desnatados – blergh – para o conforto da geração saúde?

Todas essas são ponderações interessantes, mas o principal, de repente se me afigurou de maneira claríssima, é que aquele leite era esquentado naturalmente, com chamas, foguinho azulzinho, esse tipo de coisa. Evidente, há muito tempo coloco o aparelho de microondas como principal inimigo da boa cozinha. Mas ainda reservava uma frase de efeito para o eletrodoméstico, um período que considerava sintomático do meu desprezo: “só serve para esquentar leite”.

A frase estava errada, devo bani-la do meu repertório. Melhor, devo corrigi-la, ainda se consegue boa sonoridade: microondas não serve nem para esquentar leite.

Exercício

Participar da Virada Cultural em São Paulo é um bom exercício para lidar com frustrações. Antes de a coisa toda começar, você pega seu mapinha, a programação, faz mil círculos, sublinha, grifa, às 18h43 estarei no palco X, depois me desloco às 20h13 para o local Y, saio a tempo de ver o grupo tal no ambiente Z, às 21h37… É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

E aí todo o planejamento tão cuidadosamente efetuado com antecedência vai para o ralo quando acontece um atraso, desaba um aguaceiro, tumulto na Avenida São João, o espetáculo mais aguardado é uma porcaria, filas imensas, o pé de um amigo está doendo ele não aguenta mais, o outro está passando mal depois de tomar dois litros de vinho em garrafa de plástico e quer dormir, você sente uma necessidade imperiosa de tomar banho… É muita gente também, 4 milhões de pessoas concentradas no centro de São Paulo.

E mesmo quem já esteve em edições anteriores acaba entrando em frias, novas e repetidas, não há muito como fugir. Para um aproveitamento mais salutar da maratona, no entanto, algumas notas devem ser tomadas e lembradas para uma próxima vez. Minha lição aprendida neste ano: em local aberto, no meio de uma multidão barulhenta, carros, crianças, bebuns, outros palcos interferindo no som, a gloriosa Osesp soa muito parecida com a Banda do Corpo de Bombeiros de Juiz de Fora.

De um modo geral, música delicada não consegue a devida apreciação na Virada – a não ser nos locais fechados, e a interdição do Teatro Municipal comprometeu o evento este ano.

Há também as contestações de praxe: tanto dinheiro torrado em um único dia, não seria mais proveitoso investir em formação cultural? E o lixo e os assaltos e o mijo e o vômito emporcalhando as ruas? E a barulheira que a vizinhança pagadora de impostos tem de suportar? São questões justas.

Mas mesmo com as frustrações e questionamentos inevitáveis, é bacana atravessar o Viaduto do Chá de madrugada, perambular pelo centro histórico sem (muito) medo, sentir-se parte de uma grande celebração na maior cidade do país. E constatar fenômenos curiosos. Sidney Magal, que em dias normais deve ter dificuldades para lotar uma casa noturna de pequeno porte, causando catarse numa multidão no Largo do Arouche, a repetir o refrão da surrada “Sandra Rosa Madalena” como se fosse o sucesso do momento. E ver como Arrigo Barnabé, surgido para o cenário musical em fins dos anos 70, interpretando Lupicínio Rodrigues, cujo auge se deu nos anos 40 e 50, é muito mais moderno e relevante do que a banda Living Colour, cujo primeiro álbum é de 1988, mas soa como peça de museu.

Pretendo estar na Virada do ano que vem.

Composer e cobrinha

Outro dia, sentei-me no teatro ao lado de um semi-conhecido. Semi-conhecido é coisa terrível porque você não pode fingir que nunca viu mais gordo, tem de cumprimentar. E aí se o convívio durante certo tempo é forçoso, como no meu caso, há uma imperiosa necessidade de se prosseguir com o papo por algum tempo. E não se pode adotar a mesma estratégia de quando se topa com um desconhecido perfeito, é gafe notória apelar pra conversa sobre o tempo com um semi-conhecido. E aí vem aquela aflição, se você procura assunto é que não vem mesmo, olha para o teto, bate o pé de nervoso…

Ainda bem que logo chegou ao lado do meu semi-conhecido uma conhecida – dele. E aí muito gentilmente me ignoraram de todo e se puseram a prosear. O rumo que a conversa alheia tomou me fez lamentar o constrangimento de logo antes, porque me identifiquei completamente. Falavam meu semi-conhecido e a desconhecida completa sobre como procediam ao comprar telefone celular, sempre pedindo o mais barato. Na verdade, fosse me dada a chance de aparte, eu teria de confessar que costumo ser mais grosseiro, geralmente mandando um “pode ser o mais vagabundinho mesmo, moça”. Falavam sobre o assunto como se fossem muito espertos e tivessem descoberto algo fantástico, que os celulares vagabundos são os melhores.

Mas oh, que azar, eles não detinham o meu domínio de celulares vagabundos. E eu já não tinha mais gancho pra entrar na conversa. Deixem-me exprimir meus conhecimentos agora, como consolo: lançando mão do “me vê o mais barato”, você pode achar que está fazendo uma escolha invariável e certa. Mas não, os celulares vagabundos variam entre si, e resta torcer para pegar o bilhete premiado.

Apenas uma vez recebi o celular vagabundo com a configuração ideal: dotado de jogo da cobrinha e composer. Jogo da cobrinha todos sabem do que se trata, imagino. Composer é um acessório presente em alguns aparelhos que permite a composição (como o nome deixa claro) de seu próprio toque. Cada botão do teclado numérico corresponde a uma nota da escala cromática – 1 é dó, 2 é ré e assim por diante. Ainda há mecanismos para acionar os sustenidos, estender ou diminuir o tempo de cada nota, variar as oitavas e acelerar ou diminuir os batimentos por minuto da reprodução da melodia. É genial.

A não ser por essa única gloriosa ocasião, todos os meus outros celulares vagabundos vieram ou com cobrinha ou com composer – jamais os dois juntos novamente. Ainda houve uma trágica oportunidade em que fui agraciado com um aparelho sem cobrinha e sem composer. Mas não há como reclamar, estamos à mercê do destino, pois tudo o que há a fazer quando se entra na loja é pedir “me vê o mais barato”, ou a variante de acordo com sua polidez.

Um dia ainda tiro de novo um celular com cobrinha e composer, faço questão de anunciar ao meu semi-conhecido numa ligação surpreendente – acho que tenho o número dele guardado em algum lugar.

Ser músico

Fui ao show do grupo Uakti, no Ouro Verde, no último fim de semana. Saí de lá achando que ser músico é a mais nobre das ocupações.

Não é exatamente o tipo de som que eu ouviria em casa: a apreciação do concerto deveu muito ao aspecto visual, à diversão de ver aquelas cinco pessoas dominando os mais inusitados instrumentos, muitos de fabricação própria, utilizando materiais inusitados como canos de PVC. Fique claro, para o bem da verdade, que o Uakti não é o tipo de grupo que faz um som “muito doido” – alcunha geralmente dada a quem compensa sua imperícia instrumental fazendo barulhos a esmo. Se o Uakti usa canos de PVC, afina-os em escala cromática, e ante um piano de sete oitavas, certamente saberiam o que fazer.

Era quase como apreciar super-heróis, ver aqueles caras alternando (muitas vezes durante um mesmo tema) entre instrumentos de sopro, corda, percussão, teclas, tocando com arco, o diabo, andando pra lá e pra cá, desestruturando “Águas de Março” e “Cravo e Canela”. Um sentimento meio “quero ser assim quando crescer”.

(Ressalto o aspecto visual da coisa, mas devo admitir que os membros do Uakti são os artistas mais mal vestidos que já vi pisarem num palco.)

E o domínio instrumental daqueles senhores me passou uma sensação de poder que nenhuma autoridade poderia me afetar. Governador, juiz, fazendeiro, dono de puteiro de luxo, jogador de futebol, cirurgião, poeta – nada poderia ser mais imponente naquele momento. É isso, sair de lá achando que ser músico é a mais nobre das ocupações.

Mas aí, no caminho de volta para casa, passo num bar para um gim-tônica, tenho de pagar couvert de três reais para ouvir um cantor se acompanhando com um violão azul, interpretando canções do Djavan com harmonias simplificadas, enquanto todos os clientes seguem papeando, comendo, bebendo, completamente indiferentes ao que aquele cara está fazendo para no fim das contas nem ganhar os três reais de couvert, que ficam com o dono do bar. Mas ele segue cantando, cantando alto, acima do tom que lhe seria adequado, canta mal, mas canta com emoção.

E aí penso que ser músico é das mais humilhantes ocupações.