Assunto único

Mudar-se de casa traz sempre sentimentos ambíguos. Uma grande excitação pela novidade acompanhada da chateação inevitável da perda de antigos hábitos. A rotina é cômoda. E aí você se dá conta de como era boa sua área de serviço, como seu quarto era arejado, aquela cortina fantástica onde vou encontrar outra, o box do banheiro era tão prático. E passa a valorizar coisas para as quais nunca deu atenção, porque antes eram tão naturais. E se um dia se mudar desta nova casa, sentirá falta de vários aspectos dela quando estiver numa terceira. Deve-se deixar claro que, quando escrevo “casa”, podem-se considerar também apartamentos…

Não.

A primeira-dama francesa Carla Bruni vai protagonizar o próximo filme de Woody Allen. Não se pode negar que o velhinho neurótico tenha bom gosto para mulheres. Embora me agradem, em maior ou menor grau, todos os trabalho de Allen, sinto falta, no entanto, de quando o diretor escalava para seus papéis principais atrizes mais velhas – Gena Rowlands, por exemplo está perfeita em A Outra. O tipo de discussão recorrente em seus trabalhos pode soar meio artificial quando interpretada por pós-adolescentes, em seus 20 e poucos anos…

Também não.

Ela tem um sorriso que ilumina salões, anda flutuando, elegância e ponderação de fazer inveja à Rainha da Inglaterra. Pode convencer de que preto é branco sem você se dar conta de estar sendo manipulado. E que mãos, e que olhos, e que jeito de repreender e negar. Mas tudo isso são detalhes, nada é tão especial quanto seu morder de lábios, pois é aí que…

Ah, corta essa, pelo amor de Deus.

Não faz muito tempo, eu me lembro bem, o PFL (conhecido hoje pela ridícula sigla DEM) era considerado a grande eminência parda da política brasileira. Surgido de uma cisão do PDS, que, por sua vez, era o herdeiro da Arena, partido de sustentação do regime militar, o PFL – ops, DEM – nunca chegou a ocupar o cargo presidencial após a redemocratização, mas estava sempre por perto, firme e inflexível, invulnerável a escândalos. Os maiores críticos diziam que seus membros estavam no poder há 500 anos: parecia que de mais 500 iriam desfrutar. E hoje, vejam só como o mundo dá voltas, a decadência inegável, que atingiu um patamar vexatório nesse caso da indicação de Álvaro Dias para vice…

Não adianta.

É difícil mesmo fugir da ditadura temática durante a Copa do Mundo. Até entre os que querem ir contra a maré, o mote recorrente é a tristeza de se submeter ao assunto único.

Anúncios

Propedêutica

Acabou nem entrando na matéria, por razões de espaço.

A pauta recomendava que eu saísse às ruas de Maringá, durante o jogo do Brasil contra o Chile pela Copa do Mundo, e achasse pessoas, durante a partida, realizando atividades outras que não assistir ao confronto.

Juro que assim o fiz, cumprindo exemplarmente minhas funções de repórter. Mas a conversa da menina foi tão impressionante que capaz de meu editor ter desconfiado de fraude. Eu também suspeitaria de balela. Sentada na frente do Parque do Ingá, Jennifer Lopes – o nome, homônimo da atriz/cantora, contribuía para dar menos verossimilhança ainda à situação – foi interpelada por mim: cheguei de mansinho e lhe perguntei se não dava bola para o jogo da seleção.

Sua resposta foi: “Até gosto de assistir às partidas, mas, para mim, o conhecimento vem à frente de um simples torneio. Propedêutica é mais importante do que o jogo”. Meu colega Rafael Silva ainda fez a foto da menina, com um livro de propedêutica aberto no colo. O mais próximo de montagem que chegamos foi obedecer ao pedido da garota, “ah, espere eu tirar os óculos, fico horrível assim”.

A naturalidade com que pronunciou “propedêutica”, como fosse o tema mais natural do mundo, uma palavra tão comum como “casa”, “bola”, ou, vá lá, “matemática”, “geografia”. Ela realmente acreditava na superioridade da propedêutica sobre a banalidade ofensiva de coisas como jogos da Copa do Mundo. E pouco importava o barulho ensurdecedor das vuvuzelas: para estudar a propedêutica não tem hora, e não serão ruidinhos chatos a obstruir o cumprimento de tão importante tarefa.

Meu sentimento foi um misto de inveja, pela obstinação da garota, com certo medo: que coisa bizarra, que espécime incomum. Jennifer Lopes ama a propedêutica. Confesso que depois pesquisei na Internet para ver se propedêutica realmente é um termo existente ou se a menina estava me passando um trote. Bem, ao menos na Wikipedia a palavra consta. Mas se eu não estivesse sóbrio como um bom profissional na hora do jogo, a esta altura estaria pensando que passei por uma alucinação.

Lástima

Neste caso, não interessam cor, casta, crença, o saldo da conta bancária ou quais e quantos sobrenomes você acumula. Sólidas bases familiares ou pleno desgarramento, educação refinada ou rudeza incontornável, recato ou sede ao pote, discrição ou extravagância, revólver ou coqueiro – para usar a bela oposição de Caetano.

Aliás, é indiferente seu gosto musical, seu gosto por banhos de chuva, seus modos à mesa e à cama. Tanto faz quanta literatura russa você consumiu ao longo da vida e quanta literatura francesa ainda há por desbravar. Tanto faz se até a leitura de gibis o cansa. Sua extensão vocabular, sua extensão peniana, a extensão de terras no Mato Grosso herdadas do seu avô posseiro – que diferença isso tudo faz?

Pouco importa se você tem um sorriso lindo, sabe segurar a taça de vinho corretamente, fumar com elegância, ditos espirituosos e rápidos sempre na ponta da língua. Uma longa lista de mulheres, muitas ficaram arrasadas, domínio da arte da conquista e posteriores pensões alimentícias a pagar. Ou, pelo contrário, tímido como os garotos dos filmes, inexperiente, virgem até, feioso, desajeitado, propenso a levar tombos por aí. Se serve de consolo, meu querido inocente rapaz, você está no mesmo barco daquele camarada que você acha um imbecil ignorante de merda, mas secretamente inveja porque dormiu com a garota que se diz sua melhor amiga. Melhor amiga

Você pode ser malévolo, pérfido, nojento, cruel, antipático, desonesto, desleal, vingativo, votar no Maluf. Você pode ser doce, bondoso, altruísta, simpático, honesto, leal, indulgente, dançar sapateado. Como ele é inteligente, brilhante, surpreendente, charmoso, fatal! Como ele é tapado, grosseiro, enfadonho, sem graça, inofensivo!

Tudo isso é de significação absolutamente nula, relevância zero, não tem valor nenhunzinho nenhum: no que diz respeito a esta questão, basta ser homem.

E quando devidamente excitados por um belo par de peitos grandes boiando num decote, todos os homens se nivelam por baixo: abobados, repetitivos, manipuláveis, superficiais, previsíveis como chuvas de verão, incapazes de dizer algo que presta.

A diferença é que alguns pensam na cena a posteriori e se envergonham; outros simplesmente não se preocupam com isso.

Sobre o dilema de Osmar Dias

A classe política não é depositária de muitas esperanças. Li em algum canto por aí que numa pesquisa recente sobre as profissões mais e menos confiáveis, os bombeiros alcançaram o topo da lista e os políticos ficaram isolados por baixo, tanto no Brasil como no mundo. Coisa triste, não? Aqueles que deveriam ser os legítimos representantes das aspirações do povo…

Embora eu seja radicalmente contrário à noção difundida por aí de que “político é tudo a mesma coisa”, devo confessar que não levo muita fé nessa turma de um modo geral. Haja vista mais de 500 anos de negligências, desmandos e – por que não dizer? – roubos mesmo, uma farta porção de desconfiança é, mais do que natural, salutar. Há figuras conhecidíssimas na área que não têm currículo, mas sim ficha corrida, e ainda assim são reeleitos eleição após eleição, à custa de clientelismo, favores espúrios, demagogia barata.

Toda essa conversa é antiga, nada original, mas o introito serve para poder dizer que não tenho nada em particular contra o Sr. Osmar Dias. Não sou um entusiasta, nunca fiz campanha por seu nome, mas me parece uma figura digna, com posições claras, domínio técnico de uma área (agricultura), mantendo-se afastado de escândalos.

Não obstante, essa angústia hamletiana em relação ao lançamento de sua candidatura a governador do Estado do Paraná me deixa estupefato. Pelo que dizem os analistas, a situação vista como ideal por Osmar seria concorrer ao cargo do Executivo com o devido suporte do PT e do PMDB, tendo a Sra. Paulo Bernardo como vice na chapa; se não conseguir costurar essa aliança, a opção é apoiar Beto Richa para o governo e se lançar ao Senado numa composição com o PSDB, que viria a calhar ainda mais se seu irmão Álvaro acabar sendo o vice de José Serra.

Articulistas aguardam empolgados o momento da decisão, fazem apostas, tecem especulações. Não parecem lembrar que Osmar não está escolhendo entre peixe e alcatra, se vai usar gravata cinza ou azul, dá flores ou bombons à mulher no aniversário de casamento. O dilema se dá entre cerrar fileiras ao lado do PT ou do PSDB, dois partidos que atualmente estão em polos opostos do espectro político brasileiro. Como pode alguém hesitar entre duas forças tão contrastantes?

Fica evidente que as ligações políticas não são construídas em torno de afinidades programáticas, de ideais, de visões estruturais comuns; os pactos são firmados de modo a acomodar interesses e dividir de maneira conveniente as fatias do poder. Para a maioria dos cidadãos que leem, pode ser a obviedade da obviedade da obviedade, mas ainda me sinto no direito de gritar contra isso. Na verdade, orgulho-me da ingenuidade de marcar posição contra isso.

Eu acho isso errado.

Liberdade ainda que tardia

Desta vez, eu sei que vai dar. Você verá.

Nada me garante, as circunstâncias não mudaram muito, de fato, mas eu tenho cá comigo uma certeza irremovível, vinda sei lá de onde, dizendo-me que eu posso, eu consigo, de um jeito ou de outro.

Nem que eu tenha de assinar petições em três vias, registrar firma em cartório, subornar os guardas, levantar falso testemunho, apertar mãos sujas, dançar e levar pisões nos pés, frequentar casas de gosto duvidoso, mandar esquecerem o que disse o que escrevi, fazer alianças espúrias e me contradizer em público para depois pedir perdão. Isso não seria problema.

Ou nem que eu tenha de colher rosas vermelhas e remetê-las junto de um cartão com mil “eu te amo” grafados em sangue, telefonar para sua mãe que nunca cheguei a conhecer, falar com seu irmão, este eu conheço e me odeia como Medeia odiou Jasão, como o Cascão odeia água. Chantagem emocional, chantagem sexual, chantagem racional. Todos os tipos de chantagem conhecidos. Nem que eu tenha de implorar.

Também poderia armar um dossiê, conseguir provas, remexer arquivos, descobrir seu doce predileto. Cantar aquela música – aí é covardia –, beijá-la no terraço e elogiar seu perfume seu vestido, reparar no seu corte de cabelo, ameaçar expor seu segredo mais vexatório, trair sua confiança, fazer piada da sua avó que se matou e de sua irmãzinha que morreu de leucemia.

Propor um passeio pelo lago, planejar um piquenique, escrever decassílabos, pesquisar sobre formas de tortura medieval, explorar seu medo de ratos, seu medo de altura, seu medo da solidão, brincar com seus medos e redobrá-los, acolher, fazê-la sentir-se segura, protegida, quentinha e aninhada, nada de ruim pode acontecer agora – são recursos a meu dispor, muitos e vários, só ter sensibilidade para o momento adequado de usar cada um.

Nada pode ser muito difícil quando tudo com o que você se importa é uma coisa só.

Por isso, desta vez vai dar, juro como Scarlett jurou nunca mais passar fome. Em letras ou em armas, quente ou frio, doce ou salgado, com cuspe ou a seco, aposto corpo e alma que não me escapa.

A ditadura do novo

Durante décadas, muitos fãs de rock cresceram ouvindo das gerações mais velhas que “isso não é música”, “barulheira infernal”, “no meu tempo que era bom”, etc. Hoje em dia, esse preconceito parece superado, de modo geral. Embora ainda resistam velhinhos gagá prontos a associar o gênero ao diabo, alguns álbuns e canções produzidas dentro do que se convencionou chamar de música rock são comumente associados à arte. E muitos outros álbuns e canções podem até não ser arte – afinal, já se chegou a uma conclusão sobre o que é arte? –, mas divertem horrores.

O rock produziu coisas bacanas, mas já havia música antes de sua invenção. De tanto se proteger de críticas, os adeptos do gênero acabaram adotando um sectarismo que beira o ridículo e, hoje em dia, já não tem razão de ser. Há uma forte ignorância sobre a música popular produzida em língua inglesa anterior à ascensão do rock and roll.

A Rolling Stone publica uma lista com as 500 maiores canções de todos os tempos em língua inglesa. Não há nada de Jerome Kern, nada de Irving Berlin, nada de Cole Porter, Gershwin ou Richard Rodgers – e a grande polêmica fica em torno de um suposto excesso de canções de David Bowie ou a ausência de representantes do rock progressivo. O pior é que a lista não se assume como restritiva, não é uma lista do rock, no que podemos entender que a música pré-Chuck Berry é solenemente ignorada mesmo entre essa chamada elite cultural. Alguns standards podem até ser reconhecidos, mas são considerados quase como folclore.

Não é desinteresse histórico ou aversão ao velho. Os chamados críticos de rock primam por um conhecimento enciclopédico de dados, nomes e datas relacionados ao gênero. Sabem quem estava presente naquela sessão de 23 de maio de 1957 acompanhando Jerry Lee Lewis num estúdio em Kansas.

Mas mesmo sendo, hoje, antiga a música rock que se produziu na década de 1950, à época estava – e continua desde então – associada à juventude, à rapidez, à novidade. Por isso o rock deve estar sempre se reinventando, mesmo que essas reinvenções sejam completamente falsas. Velhos não são tolerados no rock. A não ser que se reinventem, ou demonstrem se reinventar.

Aquela banda novaiorquina, os Strokes, apareceu há coisa de dez anos como a salvadora do rock. Hoje, parece artigo de museu.

Sinatra, em 1955, já com a concorrência de Elvis, lançou o álbum “In The Wee Small Hours”, que até a Rolling Stone considera histórico, inovador. A maioria das canções já tinha 20, 25 anos, conhecidíssimas. Hoje em dia, a ditadura do novo impediria tal empreitada.

Merthiolates

No quintal do bloco de prédios onde estou morando aqui em Maringá, vi uma criança com o cotovelo ralado. E para ser bem sincero, regozijei-me ao ver uma criança com o cotovelo ralado, nestes tempos de interação infantil em pequenas salas com computador. Meu enternecimento, no entanto, não foi o bastante para impedir-me de manifestar um pouco de meu sadismo.

– Vix, machucou feio, hein? Vai pra sua casa que sua mãe vai passar merthiolate – e eu achei que o moleque ia morrer de medo.

Mas não, ele apenas me fez uma careta de “que este imbecil está falando?” e continuou brincando, sem dar bola pra mim, pro machucado ou para a frustrada ameaça, ignorando completamente o que seria o tal merthiolate.

As crianças de hoje não temem o merthiolate. Provavelmente, pouquíssimas sabem o que é merthiolate.

Levou um tempo para eu lembrar que o célebre remedinho, o terror de travessos por sei lá quantas gerações, agora não arde mais. Erro fatal dos fabricantes. Certamente acharam que modificando a fórmula, eliminando sei lá qual componente responsável pela ardência, o produto, que já era líder em seu segmento, venderia como água no deserto ou vuvuzelas na África do Sul.

Ledo engano. Direcionaram os esforços de marketing para o lado errado: o consumidor e o comprador, nesse caso, eram figuras distintas. As crianças podem ter ficado felizes com a mudança, mas quem tirava a grana do bolso para adquirir o merthiolate eram os pais – que certamente não aprovaram a nova composição.

Alguém (entre os que não acreditam na possibilidade de Elvis Presley estar vivo) realmente confiava que aquele infame líquido avermelhado fosse de alguma serventia no que tange à ação como anti-séptico? A função anunciada no rótulo era pura balela, mas havia outra finalidade para o merthiolate, esta cumprida com plena eficiência, como todos os pais bem o sabiam: a pedagógica. Para fugir da ardência infernal, as crianças pensavam duas vezes antes de aprontar das suas.

O chicote não tem muita eficiência na defesa contra o leão, mas o domador precisa do instrumento para impor respeito. Mas esta minha analogia também está velha, não se veem mais animais no circo, oh vida…

Saramago

Morreu hoje, aos 87 anos, o escritor português José Saramago. Por sua originalidade e relevância literária – é o autor de Memorial do Convento, O ano da morte de Ricardo Reis, O evangelho segundo Jesus Cristo, Ensaio sobre a cegueira, entre outros – é uma grande perda para a língua portuguesa e, por que não?, para a arte produzida neste nosso mundo.

O lamentável é que, em vida, a discussão biográfica sobre Saramago superou em muito o debate sobre sua obra. Ateu e comunista – é o que, para muitos, bastava para desqualificá-lo, estendendo a crítica sobre seus posicionamentos pessoais à sua literatura. Como ser ateu e comunista ainda não basta para tornar alguém mau escritor, o alvo, no que se referia ao estilo, eram os parágrafos longos e a subversão da pontuação convencional. “Aquele ateu e comunista chato que não usa ponto final e escreve parágrafos intermináveis” – eis a definição mais difundida de Saramago. Simplista, para dizer o mínimo.

Discordo da apreciação artística totalmente subjetivada. “Não vejo nada de tão maravilhoso nas pinturas de Van Gogh; pra falar a verdade, aquilo é uma bela porcaria.” Azar o seu. Quem está errado é você, não o Van Gogh, autor de obras-primas, consagrado, de influência e relevância sacramentadas. Ele está entre os chamados intocáveis. Pode-se até não ter sensibilidade para apreciar o trabalho de um dos membros desse time – eu, por exemplo, não consigo compreender a música de Schoenberg –, mas não dá para simplesmente chegar e dizer que não presta.

É aí que cabem algumas ressalvas. Primeiro: Saramago ainda não atingiu esse ponto – o tempo dirá se o autor pode integrar o seleto grupo. Ninguém é obrigado a gostar de seus livros. O problema é a nítida má vontade de alguns, para com tudo o que escreveu, apenas por conta de suas atitudes extra-literárias. Analisar a vida antes da obra constitui um posicionamento crítico muito antiquado.

Outra questão: é justo lembrar que, se Saramago sofreu preconceitos de um lado, também capitalizou falando mal da igreja e sendo um símbolo da resistência esquerdista. Em algumas obras suas, inclusive, é difícil dissociar uma coisa da outra. Complicado para um católico renhido amar O evangelho segundo Jesus Cristo.

Mas sua produção é mais extensa do que isso, incluindo passagens puramente líricas. Esperemos que a justiça histórica a Saramago seja feita com base em seus livros, não em quanto desceu o cacete no Bush ou em quanto se indispôs com o Vaticano. Ah, tenho certeza de que isso acontecerá.

A cabeça de Maluf

Paulo Maluf está R$ 400 mais rico. Ganhou um bolão da Câmara de Deputados ao acertar o número da camisa do jogador que fez o primeiro gol da seleção brasileira na Copa do Mundo de 2010. “Tive sorte”, declarou, modesto. Na Internet, comentários do tipo “até que enfim o Maluf ganhou pouquinho e honestamente” e “pelo menos quando ele disser que ganhou dinheiro honestamente nesta vida vou ter de concordar”.

Parece mesmo que a imagem do sr. Paulo Maluf está indissociavelmente ligada à corrupção. São muitos os escândalos em que se envolveu, tantos a ponto de ser um dos únicos ameaçados pelo bombástico projeto Ficha Limpa, cuja serventia parece estar mais ligada à alimentação de manchetes do que à garantia de probidade dos homens públicos.

Em sua defesa, Maluf sempre argumenta que quando entrou na política já era rico; os cargos públicos que ocupou só teriam feito decrescer seu patrimônio. E o pior é que, nesse âmbito, é muito provável que o nobre ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, atual deputado federal, esteja falando a verdade.

O que me leva a questionar: como é possível Maluf ser do jeito que é? Interessa-me o âmbito psicológico da coisa. Em não se precisando de dinheiro, já sendo bem colocado na sociedade, vindo de família tradicional, o que leva alguém a se meter em negócios escusos?

Maluf se gaba de estar casado com a mesma mulher há trocentos anos; quando foi acusado de ter uma filha fora do casamento, voluntariamente se submeteu a um teste de DNA para provar ser vítima de uma armação. Parece ter certos valores familiares arraigados. Como seus filhos e netos cresceram ouvindo o patriarca ser xingado de ladrão para baixo, dia após dia? Maluf não se importava, não se importa? Que tipo de valores morais tentou inculcar em seus descendentes?

Não acho que alguém consiga viver se considerando uma pessoa horrível; de algum modo, creio eu, Maluf se absolve. Melhor, nem é questão de se absolver, talvez ele careça de crises de consciência porque realmente acredita que nunca fez nada de ruim. Um ponto de vista próximo aos dos mafiosos de filme, “para os meus, tudo; para os outros…”.

Não fosse o nojo, gostaria de me aproximar e entender Paulo Maluf.

Falsificação histórica

Chocante a matéria publicada pela Folha de S. Paulo, no último domingo, sobre o conteúdo do livro de História adotado em 12 colégios militares do país, nos quais estudam aproximadamente 14 mil alunos. A obra omite o uso de tortura pelo Exército contra opositores do regime militar (1964-1985), chama o golpe de “Revolução democrática” e justifica a censura dizendo que “a preservação da ordem pública era condição necessária ao progresso do país”. A Comunicação Social do Exército afirma que o livro “atende adequadamente às necessidades do Ensino de História no Sistema Colégio Militar”.

Para adotar a inusitada obra revisionista, os Colégios Militares dispensaram livros que poderiam ser adquiridos de graça junto ao Ministério da Educação; afinal, estes cometem a imprudência de afirmar que a tomada de poder pelos militares foi um golpe de Estado. Assim, os alunos são obrigados a pagar R$ 70 pelo material de lavra da própria Biblioteca do Exército.

Não se trata, evidente, de concordar com as distorções dessa versão oficialesca, mas é perfeitamente possível entender a motivação do Exército.

Minha geração, cujos integrantes nasceram nos últimos anos da ditadura, ou logo após o fim do regime militar, cresceu ouvindo histórias relacionando o Exército Brasileiro ao que há de mais imundo na face da Terra; muita da melhor produção artística nacional dos anos 1970, ainda admirada e consumida hoje em dia, pode ser definida como combatente, sendo que o alvo do combate eram os generais; os livros didáticos, de Ensino Médio, de História pelos quais estudei, há cerca de dez anos, tendiam a glorificar a guerrilha (e os guerrilheiros) que atuaram no período – não creio que a situação tenha mudado significativamente.

Evidente que o Exército se sente desconfortável a aceitar essa demonização geral. A ditadura brasileira não foi personalista, o que provoca ainda mais constrangimento. Não se pode dizer que foi tudo culpa daquele louco do Pinochet ou do Stroessner. Como toda uma instituição, na qual ainda atuam muitos sobreviventes do período, vai se admitir torturadora e antidemocrática?

É direito do Exército relativizar, protestar contra o exagero esquerdista no ensino de História, buscar manter a dignidade das Forças Armadas. Mas optar pela patética falsificação história apenas corrobora os clichês mais raivosos que aprendemos a ouvir sobre os militares.