Pilotos crentes

Impressionante como algumas pessoas têm capacidade de negar peremptoriamente a realidade. Digo, é impressionante como pessoas adultas têm capacidades de negar a realidade, já que nas crianças esse comportamento é bastante comum e aceitável. E curioso como dois públicos e notórios exemplos nacionais dessa patologia venham da Fórmula 1, esporte (esporte?) que já deu ao país oito títulos mundiais e um grande ídolo, Ayrton Senna.

Para além de seus indiscutíveis méritos como piloto, Senna possuía um carisma e um patriotismo rasgado que o fizeram muito mas muito mais popular entre os torcedores do que Emerson Fittipaldi e Nelson Piquet, os dois outros campeões brasileiros, com números quase tão impressionantes quanto os seus. Senna em ação era ídolo da garotada, falo por experiência própria, era criança e acompanhava suas vitórias; até as mulheres, público geralmente distante do automobilismo, se não acompanhavam as duas horas de corrida, pelo menos vibravam quando o brasileiro cruzava a linha de chegada em primeiro lugar. Quando morreu, então, virou mártir, cidadão benemérito dedicado a causas sociais, exemplo a ser seguido em excelência e superação.

Lembro de uma eleição feita pela Veja, em 1999 ou 2000, sobre qual seria o maior atleta brasileiro do século que então estava se acabando. Deu Senna, superando Pelé, ícone máximo de um esporte muito mais popular por aqui – e no mundo tudo. Somos o país do futebol, mas Senna encarnava muito mais adequadamente a figura de herói.

E agora, qual nossa representatividade no mesmo esporte? Rubens Barrichello, depois de anos dando vexame na Ferrari e ainda tendo desperdiçado seu canto de cisne como piloto competitivo, ano passado, na Brawn, anuncia renovação de contrato por mais um ano com a Williams, equipe em franca decadência, e declara que vai “lutar para ser campeão na temporada que vem”. Eu também posso lutar, mas não serei, assim como ele.

Já Felipe Massa estaciona o carro para deixar Fernando Alonso passar e depois afirma publicamente que deixará o automobilismo “no dia em que disser que sou o piloto número dois”. Bem, meu caro, você pode continuar não dizendo nunca, mas ficou bastante claro seu papel dentro da equipe.

E o mais triste: provavelmente Barrichello acredita mesmo que ainda possa ser campeão; Massa provavelmente acredita que não é o segundo piloto. Acreditam na mentira.

Da ruindade do sertanejo

Primeiramente, o sucesso era atribuído à identificação com as classes mais baixas; com o passar dos anos, a chamada elite começou a consumir, mas ainda assim se podia dizer que era coisa de novos ricos, pouco esclarecidos, desqualificados culturalmente; agora, no entanto, até nas maiores capitais brasileiras, até entre estudantes de medicina, a chamada música sertaneja é apreciada. Não dá mais para dizer que é coisa de pobre, gente burra ou caipira. Há pessoas inteligentes apreciando o gênero.

Ocioso dizer que essa música sertaneja, cujas origens remetem provavelmente à dupla Chitãozinho e Xororó e agora faz sucesso na vertente “universitária”, cada vez menos tem a ver com a tradição sertaneja brasileira de moda de viola, de canto bucólico, de louvor às coisas simples da vida, com tendência a letras narrativas.

Poderia simplesmente reproduzir o discurso conservador (com o qual até concordo) e dizer que esse tipo de música é uma desvirtuamento e uma ameaça à rica tradição da canção popular brasileira – provavelmente a segunda mais significativa do mundo no século XX, ligeiramente inferior à dos Estados Unidos.

Mais do que lamentar, no entanto, fico pasmo ao constatar pessoas alfabetizadas gostando de algo tão simplório, pueril, tosco, no mais das vezes transpondo as raias da vulgaridade. Não consigo entender.

Se você manifestar seu desapreço a um desses adeptos do sertanejo minimamente dotados do poder de conversação, a resposta provavelmente mencionará “arrogância”, ou “pseudointelectualismo” de sua parte. Queremos música para nos divertirmos, bradam, não uma pasmaceira com pretensões de arte.

O argumento da diversão é justo, música não pode ser aborrecida. O espanto está em verificar que realmente conseguem se divertir com aquilo. Tentando uma analogia simples: se você já montou um quebra-cabeça de 5 mil peças, vez por outra pode se divertir com um de 500 peças, quando quer um passatempo rápido brinca com um de cem, mas se divertir com um quebra-cabeça  de bebê, de quatro peças, é impossível – mais do que isso, é ofensivo.

Eu, particularmente, juro que consigo me divertir ouvindo João Gilberto e não me divirto nem um pouco com Fernando & Sorocaba. Há níveis e níveis de diversão. Mesmo acatando a concepção popular que geralmente associa diversão à música rápida, para dança, há tantas e tantas opções mais sofisticadas, com apuro musical… Para não usar um exemplo muito remoto, fiquemos com o recém-falecido Michael Jackson.

Eu não sei por que isso acontece, será falta de educação musical nas escolinhas? É bem triste. E os sertanejos são expansivos, barulhentos, quase militantes – ao contrário, por exemplo, dos consumidores de má literatura, que sempre leram seus Julia, Sabrina e Bianca em silêncio.

Cárter

Estou sem carro. Uma boa oportunidade para caminhar, fazer um exerciciozinho. Ou andar de ônibus – o lugar ideal para observar assuntos cronicáveis. Mas desta vez, a única coisa trazida pelo passeio de busão foi a consciência pesarosa de minha imperícia em relação a assuntos automotivos.

Vazava óleo do meu carro, por isso o tive de deixar na concessionária. Evidente, o porteiro do meu prédio que me alertou sobre o vazamento, por mim só começaria a suspeitar de algo errado quando o carro se desintegrasse completamente. Mas o alerta não foi uma simples constatação de vazamento, isso seria um simplismo imperdoável. Ganhei de brinde um pré-diagnóstico, no qual tomei conhecimento de que o problema provavelmente estava no cárter. Que eu tomasse cuidado, encaminhasse logo o carro para conserto, ou meu motor poderia acabar se fundindo.

Meu nobre colega de apartamento, Luís Paulo, ficou sabendo do caso e logo concordou que o cárter era mesmo o principal suspeito do crime, mas a perda de óleo no motor ainda constituiria o menor dos males, pois a desgraça seria se o óleo perdido estivesse vazando do freio – neste caso um acidente gravíssimo poderia estar prestes a ocorrer.

Não entendi nada, mas prudentemente segui as recomendações e despachei o carro para a concessionária. Eu me pergunto, onde essa gente aprendeu sobre essas coisas? Para mim, cárter é um ex-presidente dos Estados Unidos. É sério, eu frequentei anos e anos de escola e Universidade, nunca ouvi falar sobre cárter. Até fiz autoescola certinho, também não me lembro de mencionarem cárter, ainda mais num grau de detalhamento suficiente para antever seus defeitos. Será que eu deveria assistir mais ao Globo Repórter? Qual o meu problema?

Realmente me preocupo, não sei qual lição perdi. Todos, menos eu, parecem ter uma opinião natural sobre mecânica automotiva, assim como todos sabem qual é o técnico mais bem-preparado para dirigir a seleção de futebol. O auge da humilhação foi quando uma ex-namorada, ao ouvir uns barulhos estranhos enquanto eu dirigia, disse que provavelmente as pastilhas de freio do carro estavam desgastadas. Não deu outra. Detalhe: ela nem sabia dirigir.

Essa minha ignorância atroz sobre carros, aliada ao fato de não saber acender churrasqueira, não jogar futebol e gostar de Chico Buarque e Almodóvar, é um constrangimento para a afirmação de minha masculinidade. Por favor, indiquem-me a fonte do conhecimento.

[…]

Pensando bem, não precisa, deixa pra lá, tenho preguiça. E pelo menos sei jogar truco.

Dores e amores

Entre o fim de 2004 e o começo de 2005 (nossa, já faz tempo!) trabalhei como continuísta num longa-metragem chamado Heróis da Liberdade, do diretor Lucas Amberg. Não sei que fim o filme levou – certamente não ganhou o Oscar.

A produção foi um caos total. A todos os integrantes da equipe, do diretor de fotografia à tiazinha que servia café, foi anunciado no último dia de filmagem que não seria possível realizar o pagamento pelos serviços prestados. A reação dos presentes certamente daria um roteiro melhor do que aquele no qual acabáramos de trabalhar. Um pessoal se organizou para processar o diretor, eu fiquei de fora, não queria confusão. Até hoje me devem uma graninha, talvez isso pese no Juízo Final. Como protesto, não entreguei as fichas de continuidade – protesto ingênuo de doer, até parece que para editar aquela zona meus papeizinhos fariam diferença.

Pois bem, no meio daquela insensatez toda, o primeiro assistente de direção, Ricardo Pinto e Silva, parecia-me uma figura sã. Entre um take atabalhoado e outro, discutíamos sobre os cineastas de nossa preferência, principalmente Woody Allen. Quando lhe falei que um de meus filmes favoritos de Allen era Setembro, o maior fracasso comercial de sua carreira, ele me olhou com uma cara de “mais alguém que gosta disso!” e contou que havia dirigido um longa, Querido Estranho, francamente baseado na obra do novaiorquino. Fiquei curioso na hora, mas havia esquecido o assunto até que, alguns anos depois, encontrei o filme do Ricardo perdido numa prateleira meio escondida da locadora. Assisti e achei o trabalho surpreendentemente bom.

Mais alguns anos se passaram e vejo o nome de Ricardo Pinto e Silva outra vez, na capa da Ilustrada. Seu novo filme, “Dores e Amores”, exibido no Festival de Paulínia, é posto como o símbolo máximo de um “mau momento” do cinema nacional. O diretor e seu trabalho são ridicularizados sem dó: entre outras delicadezas, pergunta-se na matéria como a “suposta comédia” conseguiu verba pública.

Fiquei com pena do Ricardo, tive um contato de dois meses com ele e nunca mais, mas me parece um homem digno. E comecei a pensar no papel da crítica artística, que muitas vezes transforma análises em ofensas pessoais. Não é porque alguém fez um trabalho ruim que é uma má pessoa. Penso no Zezé di Camargo: claro que considero a música dele uma bela porcaria, mas, por razões indefiníveis, vou com sua cara.

A repórter precisava ter pego tão pesado com o Ricardo? Não sei. Mas o pior é que a matéria da Ilustrada estava divertida, devo admitir. Como realização jornalística, texto perfeito: chama a atenção do leitor e o prende até o ponto final – a massa gosta de humilhações. Fosse eu escrevendo sobre algum filme que detestei, do qual não conhecesse o diretor, financiado por verba pública, usaria veneno igual ou mais potente.

Mas eu conheci o Ricardo. O que posso fazer é, se tiver oportunidade, assistir ao seu filme torcendo para que não seja tão ruim assim.

Pequenos eleitores

Entrando no período eleitoral, a época é adequada para escolas promoverem simulações de voto, muitas vezes usando até urnas eletrônicas – aquelas em que constam como candidatos Grande Otelo, Raul Seixas e Cazuza. Algumas das escolinhas, mais sofisticadas, aproveitam o embalo para promover eleições de representantes de sala, com mini-debates e mini-comícios para a a apreciação dos mini-eleitores. Tudo em nome do fortalecimento da democracia, da educação para a representatividade cívica, da construção de formadores de opinião, etc.

E aí jornais televisivos mostram um pirralhinho votando num coleguinha como presidente de classe, dizendo, num discurso cuidadosamente ensinado pelos professores, que fez sua opção se baseando nas “propostas que têm de ser analisadas”. Os editores se dão por satisfeitos, as senhoras espectadoras suspiram um “que bonitinho” e todos comemoram a esperança de um país melhor.

Não quero desprezar por completo os esforços de familiarizar as crianças com o ritual das eleições, mas realmente acho que inculcar esse discurso de “vamos comparar as propostas” é um tanto ingênuo, até contraproducente. As propostas dos políticos, em termos gerais, são muito parecidas: vamos combater a fome, o analfabetismo, investir na educação, concentrar esforços na saúde, defender a agricultura, pensar em alternativas para solucionar o caos urbano e por aí vai. Muito difícil discordar das propostas, tendo a concordar com todos os políticos nesse aspecto. Caso Grande Otelo, Raul Seixas e Cazuza realmente estivessem concorrendo no pleito, diriam coisas parecidas.

Se já era difícil distinguir proposições em tempos outros, com a diluição entre o que é “esquerda” e “direita”, a missão é quase impossível. Para optar por um em detrimento do outro se baseando nas tais propostas, só no caso de alguém radical a ponto de eliminar um candidato com opinião diferente em questões capciosas como aborto, descriminalização de drogas, etc.

A alternativa mais didática seria, em vez de insistir na noção vaga de propostas, ensinar a importância da história do candidato. Mas o passado de nossos políticos se perde em misturas ideológicas e contradições… Outro erro frequente é assumir que a pessoa mais bem-preparada para um debate público seja a melhor para o governo.
De modo que realmente fica difícil auxiliar os pequenos eleitores. Pensando bem, talvez seja melhor deixá-los felizes cotejando propostas.

Música nova

Peço licença aos amigos maringaenses para escrever sobre algo que presenciei em Londrina, na última sexta-feira. Sinto-me na obrigação de fazê-lo.

Porque as Cluster Sisters são a melhor coisa que apareceu na cena musical londrinense nos últimos sei lá quantos anos – e nisso concordou comigo meu amigo Thiago Taniguchi, especialista no assunto, quando trocamos uma ideia depois da apresentação das meninas, no Estação Café Brasil.

As Cluster Sisters são um conjunto vocal formado por Gabriela Catai, Giovanna Correia e Maitê Motta, que têm como base um repertório calcado no swing e boogie woogie das décadas de 1930 e 1940. Além dos clássicos do gênero – “It Don’t Mean a Thing (If It Ain’t Got That Swing)”, “Boogie Woogie Bugle Boy”, “Jeepers Creepers” –, algumas canções mais recentes (“I Will Survive”) são arranjadas de acordo com o estilo. Acompanhando as moças, um grupo formado por competentes músicos já bastante conhecidos na noite londrinense: Eduardo Rorato, Mizão, Filipe Barthem e Matheus Gonsales.

O negócio das Cluster Sisters é fino. Música sofisticada e original – sim, mesmo remetendo a anos tão antigos, pode-se usar sem medo o adjetivo “original” para o grupo, já que o panorama atual tem Lady Gaga como expoente máximo do ofício de interpretar canções…

Gabriela, Giovanna e Maitê têm o cuidado de adotar, no palco, um figurino de época; embora divertido, no entanto, o aspecto visual é um adendo, não o mais importante da performance. As meninas mandam muito. Destaque-se a dificuldade de cantar harmonias de três partes em meio à barulheira desgraçada de um bar. Não é pra quaisquer umas.

Elas mereciam, aliás, espaço mais adequado para serem ouvidas. Embora devam ser louvados os esforços do Estação Café Brasil de trazer música à cidade (nem preciso adjetivar o termo, já que a maioria absoluta dos barulhos ouvidos nos bares e boates por aí não merece ser chamada de música), o local ainda é pouco confortável para quem quer apreciar um tipo de som mais elaborado, que exige atenção – é um bar, afinal.

Torço para que as Cluster Sisters prosperem, ampliem o repertório (quem sabe haja quem possa fornecer canções originais às meninas?) e visitem em breve Maringá.

* * *

O show “Caixa de ódio”, do Arrigo Barnabé, fez-me lembrar de uma omissão boba: em minha última crônica, certamente deveria ter mencionado Lupicínio Rodrigues como exemplo de compositor brasileiro que compôs dezenas de canções no feminino, entre elas a obra-prima “Vingança”.

Chico Buarque cantor

Longe de mim negar as virtudes de Chico Buarque como letrista. Nem pretendo desprezar sua facilidade de escrever no eu-lírico feminino, criando grandes peças para o cancioneiro nacional. Agora, sair dizendo por aí – como já vi tantas vezes – que “só o Chico para compor letras que você poderia jurar que foram escritas por uma mulher” é uma inegável ignorância histórica.

Acontece que, no Brasil, a tradição de canções para comédias musicais é muito tímida. Assim, foram poucos os compositores homens que criaram no eu-lírico feminino antes do Chico – mas houve algumas honrosas exceções, de cabeça lembro do Vinicius com a belíssima “O que tinha de ser”.

Nos Estados Unidos, onde durante toda a primeira metade do século XX a música popular esteve fortemente ligada às peças da Broadway, os melhores compositores sempre precisaram escrever no feminino (e cabe notar que muitas das melhores letras femininas do Chico também vieram de sua produção para teatro).

Peguemos como exemplo “It never entered my mind”, de Larry Hart. A forma como a personagem descreve sua fraqueza e desmazelo com a aparência depois que o amado a deixou lembra muito a afamada “sensibilidade feminina” de Chico Buarque; mais evidente ainda são as semelhanças entre “Folhetim” e “Love for sale”, de Cole Porter. Em 1978, Chico polemizou ao escrever uma canção na qual uma prostituta descreve seu trabalho friamente, sem nenhum traço de autocomiseração – pelo contrário, demonstrando certa ascendência sobre seus clientes. Quase 50 anos antes, em 1930, Porter causou furor pelas mesmíssimas razões com sua canção. “Who will buy?/ Who would like to sample my supply?/ Who’s prepared to pay the price/ For a trip to paradise?/ Love for sale”, provoca a letra.

Nesse sentido, em termos de pioneirismo, muito mais relevante do que a composição de Chico no eu-lírico feminino é sua disposição a cantar no eu-lírico feminino. Justo lembrar que sua primeira incursão nessa área se deu juntamente com Caetano Veloso, em 1972, ao cantarem em dueto a valsa lésbica “Bárbara”, de Chico e Ruy Guerra. Nara Leão também já havia cantado no masculino sem inverter o gênero na letra por ser mulher – e muitos a apontam como a absoluta precursora nessa questão. Mas mais do que Caetano e Nara, Chico ficou marcado pela dignidade com que canta incorporando o sexo oposto. A partir de então, não ouvimos mais rima e métrica sendo destroçadas por conta de uma tosca necessidade de preservar a ortodoxia sexual do intérprete.

Nesse ponto, a contribuição é realmente importante, já que mesmo os melhores da canção norte-americana cometeram barbaridades ao modificar letras. Ira Gershwin, por exemplo, foi ofendido por ninguém menos do que Ella Fitzgerald e Frank Sinatra. Ella, ao interpretar “Oh lady be good”, trocou “I must win some winsome miss/ Can’t go on like this” por “I must win some handsome guy/ Can’t go on like this”, destruindo as preciosas assonâncias e a rima final; Sinatra, em vez de cantar, na clássica “Someone to watch over me”, conforme Gershwin escreveu, “Although he may not be the man/ Some girls think of as handsome/ To my heart he carries the key”, optou por versos sem sentido, “Although I may not be the man/ Some girls think of as handsome/ To her heart I carry the key”. Se carrega a chave do coração de uma mulher, por que diabos precisa implorar por alguém que tome conta dele?

Apenas por isso, o Chico Buarque cantor, criticado por tantos, já se configura como um grande. E eu devo ser o único que prefere “Atrás da porta” defendida pelo próprio autor, em vez da celebrada versão de Elis Regina.

Atiremos o pau no gato

O musical Cats ficou quase 20 anos em cartaz na Broadway – as pessoas gostam de gatos.

A despeito de serem considerados os melhores amigos do homem, os cachorros não formam um adjetivo lisonjeiro. “Seu cachorro!” equivale a chamar alguém de canalha, mau caráter. Além disso, Cão é um dos milhões de codinomes de Lúcifer. Já quando você se refere a alguém como “um gato” ou “uma gata”, está destacando a sua beleza. A gíria perdeu um pouco da popularidade ao longo dos anos, mais ainda é usada – as pessoas gostam de gatos.

Particularmente, não me apetecem animais de estimação. Devo admitir, no entanto, que considero os gatos belos animais, gosto de admirá-los de longe. Há algo de nobre neles. E também tem toda a coisa mitológica, as sete vidas, os gatos negros, as canções sobre gatos são muito legais.

Tudo isso para dizer que, embora guarde dos gatos uma distância respeitosa, continuarei atirando o pau neles. Os filhos que um dia terei serão incentivados a atirar o pau no gato.

Eu pensei que era mentira, mas pelo jeito é fato: nas escolinhas as crianças estão sendo proibidas de cantar a clássica “Atirei o pau no gato” porque a letra incentivaria crueldades para com os animais. “Não atire o pau no gato-to/Porque isso-so/Não se faz faz-faz/O gatinho-nho/É nosso amigo-go/Não devemos maltratar os animais/Miau!” é a nova e babaquíssima versão.

Modificar dessa maneira a letra de uma das mais tradicionais canções infantis no Brasil – embora provavelmente tenha origem ibérica –, perpetuada por gerações e gerações, é um crime cultural. Equivale a tirar o ensino do Hino da Independência do currículo escolar e substituir por aquela engraçadíssima “Japonês tem cinco filhos”.

Mas pode piorar. Uma tal Aline Barros, vejo na Internet, canta uma versão à moda gospel. “Não atire o pau no gato-to/Porque isso-so/Não se faz faz-faz/Jesus Cristo-to/Nos ensina-na/A amar/A amar os animais/Amém.” Não sou uma pessoa religiosa, mas fiquei corado ao ouvir a moça cantar, em ritmo acelerado de rock, a tremenda irreverência herética que é “Cristo-to”. Cristo-to? Por Deus! E em que passagem do Livro Sagrado Jesus discorre sobre a maneira adequada de tratamento dos animais domésticos? Até onde me lembro, aliás, as Escrituras são bem cruéis em relação a caprinos e ovinos.

Isso é uma exacerbação a um ponto ridículo, quase inacreditável, da praga politicamente correta que proíbe chamar os cegos de cegos (são “deficientes visuais”), os negros de negros (“afrodescendentes”) e os anões de anões (o termo correto é “portadores de nanismo”).

Seja qual for o eufemismo empregado, os cegos continuarão sem enxergar, os negros ainda sofrerão por anos as consequências da injustiça histórica e os anões não conseguirão alcançar a última prateleira do supermercado.

Do mesmo modo, o número de tamborins e espetinhos vendidos nas periferias não sofrerá alterações por conta de censura em cantigas de roda.

Faz frio

O Instituto Simepar já emitiu seu alerta de geada. Um colega viu não sei onde que será a noite de mais baixa temperatura do ano. Eu não preciso de índices e alertas para perceber que faz um frio dos infernos de Dante, sinto no corpo, mesmo trancado aqui no apartamento.

Quando o tempo gela e já se está dentro de casa, a tendência é inercial – a maioria absoluta das pessoas não se colocaria novamente para a rua de jeito nenhum. Mas esse frio todo recrudesce certa solidão, que aumenta ainda mais o frio, e resolvo quebrar o círculo vicioso com a imprudente medida de passear lá fora, encarar a intempérie com minha blusa preta de gola alta.

Um conhaque cairia bem, mas estou com preguiça de beber e não tenho companhia digna para um conhaque. Para uma cerveja poderia recrutar um ou outro, tenho alguns nomes em mente, mas um conhaque realmente pede uma companhia apropriada. Eliminada essa opção, o que me resta?

O McDonald’s usa cores quentes na decoração. E está aberto no fim da noite. E é acolhedor. Em compensação, as atendentes são feias.

Em tudo quanto é lugar que você vá – nas óticas, nas escolas, nas lojas de sapato e nos bares da moda –, as atendentes são lindas. Quantas vezes a gente não se pega com a preconceituosa sensação de que “essa daí só conseguiu o emprego porque é gostosa…”. No McDonald’s, no entanto, deve fazer parte de alguma política de inclusão das multinacionais, as atendentes são quase invariavelmente feias. É mais fácil encontrar uma bela caixa de supermercado do que uma atendente de McDonald’s ajeitada. Eu realmente não me importo com isso, não faz meu lanche mais ou menos gostoso, mas é impossível deixar de notar. E os atendentes homens não raro aparentam tendência à pederastia. Que coisa, o McDonald’s dando vez às minorias.

E esta atendente parece tão triste. Cansadas e de mau humor, a esta hora da noite, todas sempre estão. Mas esta traz no rosto simples tristeza, melancolia mesmo, o que não contribui para aprimorar sua (falta de) beleza. Nem dá vontade de fazer meu pedido para ela. Preferia até tratar com o rapazinho efeminado do outro caixa. Tristeza não vende. Sexo vende.

Ah, faz frio.

Adega Bigode

Foi-se o tempo em que beber bons vinhos era um hábito restrito a uma parcela muito pequena da elite econômica. Com o aumento do poder aquisitivo do brasileiro nos últimos anos, mais e mais pessoas podem experimentar os finos prazeres de Baco.

O empresário e enólogo Jão do Bigode, 52, comemora o sucesso de seu simpático estabelecimento, a Adega Bigode. “Antigamente vinham aqui e só tomavam caninha, hoje o pessoal já tá entornando um bom vinhão.” Bigode atribui a mudança de hábitos à conscientização sobre as benesses do consumo da bebida e à facilidade de importação de vinhos finos, com o barateamento dos custos. “Tudo a grã-finada hoje sabe que beber duas garrafinhas por dia dá vida longa.”

A Adega Bigode é democrática, comercializando vinhos de R$ 4 até astronômicos R$ 8,50. “E mesmo os mais caros saem bastante, vale a pena, a rapaziada tem noção de que o investimento é num produto de qualidade.” O ambiente convidativo tem charmosos jogos de mesa e cadeiras estilo vintage (ligeiramente enferrujadas com patrocino da Kaiser). O item mais vendido da casa é o Pasqueto tinto safra indefinida (R$ 5) – comprando uma garrafa, a casa oferece gratuitamente um saquinho de Mutitos sabor churrasco. “É uma harmonização perfeita”, afirma Jão, “um vinho encorpado como o Pasqueto, com notas de madeirite e Pinho Sol, pede um acompanhamento de peso como o Mutitos churrasco”. Mas o empresário garante que o Pasqueto casa bem com qualquer Mutitos, “a não ser o de orégano”.

Para quem busca sabores mais exóticos – e tem mais dinheiro para desembolsar –, Jão sugere o Country Wine branco seco (R$ 7). “É uma bebida riquíssima, que fica ainda melhor se envelhecida por duas semanas aberta na geladeira.” Podem-se perceber notas de semente de mamão, babosa, calcário, lítio e césio.

Quando se fala na clássica combinação queijo e vinho, o empresário prontamente sugere Campo Largo Rosé com colheradas de parmesão moído Teixeira. “O truque é reservar o queijo na boca e depois regar com um bom trago de Campo Largo, formando uma pasta muito aromática e surpreendente.”

Jão do Bigode lembra, porém, que mais importante do que regras rígidas para a harmonização é saber se sentir à vontade para degustar garrafas e mais garrafas de bom vinho. “É só aparecer com os amigos aqui e mandar ver, o banheiro é limpinho, dá para as meninas entrarem numa boa.”