Correção

Particularmente e dentro das minhas limitações, gosto de escrever de maneira correta. Correta? O termo talvez esteja desgastado, seria melhor dizer que gosto de escrever dentro da norma culta e padrão. Afinal, quem determinou que existe uma forma correta de se expressar dentro da língua portuguesa? Todas as variações devem ser aceitas e respeitadas.

Esse é o argumento que ouço cada vez mais por aí, na boca de pedagogos e estudiosos de ordem vária – argumento que acho um tanto quanto perigoso. Hoje em dia, saber distinguir “este” de “esse” soa como um anacronismo. Tudo besteira, babaquice, dizem os pretensos entendidos.

Não acho que se deva usar a mesóclise em qualquer conversa de boteco por aí, mas conseguir entender seu uso torna compreensível à pessoa uma série de textos mais antigos que compõem a nossa literatura. E só é possível gostar quando se entende. Soa-me contraditório cobrar leitura de Castro Alves em vestibulares e, ao mesmo tempo, cada vez mais diminuir a cota de questões da chamada gramática pura – análise sintática, identificação de classe morfológica, etc. E, de novo, o argumento passa por um enganoso “não é preciso saber gramática, basta conseguir interpretar”. Ora, mas o conhecimento gramatical não auxiliaria no entendimento pleno de textos? E a análise sintática não é em si interpretação de elementos textuais?

Se o argumento do acesso à literatura ainda é fraco, fiquemos com um ponto mais pragmático para defender a valorização do ensino das regras da língua portuguesa: a ascensão social. É muito bonito falar que não existe jeito correto de expressar-se, que todas as manifestações lingüísticas de nosso povo são belas e verdadeiras… Mas esses mesmos doutores, quando tiverem de escolher uma secretária para contratar, certamente optarão por uma que consiga falar respeitando minimamente a concordância. Menosprezar o ensino da “norma culta” da língua é uma forma de perpetração de desnível social, já que os doutores, apesar de defenderem todas as variantes, estranhamente preferem respeitar as quadradas regras gramaticais. Por que será?

Sou antiquado a ponto de defender a repetição mecânica da conjugação de verbos, aquelas tabelonas antigas… E só não defendo a repetição de tabuada porque seria muita cara de pau – eu mesmo sempre tenho de parar pra pensar quanto é sete vezes nove.

Peso

Quando tomo suco de maracujá com leite, quando me recosto no sofá para assistir a alguma série, quando não tenho certeza do significado de um termo qualquer em inglês e não há ninguém por perto para me dar uma luz. Não quero procurar no dicionário. Quando exagero na dose, quando me tomam por arrogante, quando discordo veementemente do que alguém disse, mas não me dou ao trabalho de tecer um contra-argumento. Por preguiça. Ou por saber que não conseguiria trazer o idiota à razão.

Quando ando para lá e para cá, quando dou pulos, quando me lembro de você me arranhando para pedir alguma coisa. Quando me lembro de você – e a toda hora me lembro de você. Quando me percebo sorrindo, ou cantando em falsete no carro. Quando vejo flores das quais não sei o nome, ou animais dos quais acho que sei o nome, mas posso estar enganado. Eu confundo patos, gansos, marrecos. Eles todos têm bico, né? Quando vejo um vestido bonito na vitrine.

Enquanto contemplo minha cama (minha cama?) dolorosamente vazia e desarrumada, enquanto procuro um lugar para me ajeitar e não consigo ficar confortável. Enquanto seguro os brincos que você esqueceu em casa, ou enquanto organizo os desenhos que me você me deixou, dispondo-os todos numa pasta. Enquanto acendo o isqueiro verde – mas eu evito mexer no isqueiro verde.

Se pego alguém contando de alguma viagem, se faz frio e eu não sei se você está em casa, não posso emprestar nenhuma blusa. Quando deixo cair minha cabeça e percebo que ainda não cortei os cabelos. De um modo estranho, quando escuto as canções do Chico Buarque compostas no eu-lírico feminino. Em todos os momentos nos quais me faltam palavras, ou se me percebo rabugento demais. Quando não tenho companhia para fumar.

Quando procuro a nota de dois reais para pagar a coca-cola e me vem sua carteira de motorista vencida. Quando me falam de gatos, ou quando pessoas discutem se preferem gatos ou cachorros. Impressionante como sempre tem gente falando disso. Quando defendo um ponto de vista apaixonadamente, quando me policio para evitar um ar professoral que qualquer outro ser humano acharia um pé no saco. Quando entro debaixo dos cobertores – aí é covardia – e até quando você está nos meus braços, ainda não foi embora.

Ah querida, eu sinto sua falta.

Memória

Eu me lembro da minha festa de aniversário de três anos. Quer dizer, não me lembro da festa em si. Acontece uma coisa engraçada: quando estamos há muito tempo acostumados a ver fotografias e vídeos de um determinado evento, as imagens se tornam uma memória antiga e parece que nos lembramos do evento em si.

Mas enfim, se dizer que me lembro do aniversário de três anos é forçar a barra, de um detalhe da festa eu me recordo bem, não está gravada em nenhum papel. O meu bolo de aniversário tinha umas bolinhas prateadas como confeito, eu odiei aquelas bolinhas que estavam atrapalhando meu bolo. Provavelmente, muitas outras crianças também odiavam aquelas bolinhas, nunca mais vi esse treco em bolo nenhum por aí. Também, que ideia, quem iria gostar de comer aquele negócio só porque era prateado…

Por que será que eu me lembro disso?

Hoje, a imagem do chuveiro queimando, pegando fogo aqui em casa, foi tão forte. Fiquei assustado, realmente me impressionou. Além de me deixar meio deprimido pela consciência de minha completa inaptidão para pequenos reparos domésticos: fusíveis, resistores, transistores e disjuntores para mim soam muito semelhantes e estão vagamente associados a energia elétrica. Será que me lembrarei do chuveiro queimando daqui a dez, 15 anos? Como prever se me lembrarei?

Numa interpretação rápida, pode-se pensar que a memória é a chancela da importância de um fato. Mas aí vem nosso amigo Freud com aquele papo de inconsciente, podemos reprimir a lembrança de uma imagem muito significativa para nos protegermos. E também gravarmos na mente coisas totalmente insignificantes, precisaria de muito malabarismo interpretativo para ver relevância em fatos como…

Eu lembro de ter perdido um gol na quinta série, jogando futebol no Colégio Universitário. Eu nunca liguei para futebol, certamente perdi vários gols sendo obrigado a jogar na educação física, mas daquele perdido em particular eu me lembro, estava muito fácil de marcar, até para meus padrões baixíssimos no esporte.

E também me recordo do jingle de um tal Dalcy Mendes quando foi candidato à prefeitura de Londrina. Provavelmente nem ele próprio se lembra de ter sido candidato, quanto mais do seu jingle. Mas eu sei a música. “…de todos os cantos/ É uma só voz chamando a gente/ Vem, vem Londrina vem votar em Dalcy Mendes”. E o pior é que uma porcaria de jingle.

Truco

Dos jogos de carta, meu preferido é o truco. Muitos dos meus amigos gostam também, impressionante como é fácil gastar uma madrugada inteira na brincadeira. Dá para entender o fascínio que a jogatina exerce sobre certas pessoas. O truco tem a saudável distinção, no entanto, de geralmente não envolver dinheiro, sustentando-se no aspecto lúdico. Sua esposa pode reclamar que nas festas você dá muita atenção ao jogo e faz um barulho desgraçado, mas pelo menos ela não será empenhada em alguma aposta.

Engraçado como minha mãe afirma que, “em sua época”, o truco era considerado um jogo para velhos. O pessoal de sua geração é mais chegado ao buraco. Hoje, os papéis se inverteram. Talvez tenha algo a ver com o fato de o truco ser um jogo rápido e festeiro, adequado à velocidade da vida moderna. As partidas de buraco podem se estender por horas, há muitos pontos a contar, muitas cartas a segurar… Dá trabalho.

Isso não significa que o truco seja algo mais simples; vejo, aliás, uma complexidade fascinante no truco. Falam muito do pôquer como jogo sofisticado, de exercício psicológico, mas, cá pra mim, acho a nossa brincadeira sul-americana tão exigente quanto – o truco, segundo a Wikipedia, é sul-americano e tem dezenas de variações por todo o subcontinente. Eu não ouso duvidar da Wikipedia.

Sem contar o maravilhoso léxico que envolve o jogo, “manilha”, “pica-fumo”, “empachar”, “fazer maço”, “passar facão” (expressão muito mais divertida do que o galicismo “blefar”). E, é claro, o verbo “trucar”, usado até por quem desconhece as regras do jogo, em conversa de rua, como um conciso equivalente a apostar demonstrando muita segurança, mesmo sem ter certeza de um resultado.

Respeito toda essa tradição, a cultura ligada ao truco. As gerações mais novas do que a minha, no entanto, são dadas à interatividade, às inovações. Outro dia, fui convidado a jogar truco num invencionismo de divisão em trios. Não, não é para mim. Gosto de truco com confronto de duas duplas, gosto dos tenistas de branco em Wimbledon, carne de churrasco temperada apenas com sal grosso e pizza sem acompanhamento de catchup.

Conto de agosto

Às vezes dá vontade de pegar o carro, em pleno horário comercial, duas da tarde, escolher um rumo e seguir – sudoeste. Ir embora, sem pensar em mais nada, sem nem saber direito aonde se está indo, correr até a gasolina acabar.

Nem é o caso de falar em fuga, eu não estaria fugindo, nada a evitar, nada a temer. Seria mais o caso de uma distração contínua e perpétua. É, distrair-se conscientemente, e até achei que isso fosse possível, até dei início à empreitada, mas caí na besteira de olhar para o carro ao lado enquanto o meu parava no sinal vermelho.

Aí não dá outra, sempre que você olha para o cara no carro ao lado, esperando o sinal abrir, se ele estiver sozinho, estará tirando catota do nariz. E nessas circunstâncias, impossível continuar distraído, tive de esquecer o sudoeste e permanecer no centro da cidade mesmo. Esse negócio de ver gente tirando catota do nariz me deprime pra caralho. Eu sei que não devia olhar, mas tão inevitável quanto o cara manuseando o ranho é meu torcer de pescoço quando paro na luz vermelha. Às vezes há alguma senhorita bonita ao volante, vale a pena.

Outra coisa certa é que o ônibus surgirá assim que você acender o cigarro – desperdício inevitável. No começo, ficava bravo com a situação; depois, mais experiente, aprendi a reverter o negócio a meu favor: quando estou impaciente, acendo logo um para o busão aparecer, um cigarro perdido é preço barato para a eficiência do transporte público.

Mas no mais das vezes estou mesmo de carro, e à noite, às vezes, a vontade da distração também vem. Mas à noite a distração nunca empurra para o sudoeste, a distração à noite impele ao leste – e ao leste há sempre um bar.

Adoro o constrangimento de entrar sozinho no boteco, com cara de perdido, e fantasiar que todos estão olhando para mim com desdém. Adoro sentar no balcão, ao lado do rapaz mal-encarado, e com a firmeza na voz de quem quer um drink de gasolina, pedir ao garçom um chocolate quente. Caprichado. Adoro pensar que me julgam um imbecil e me sentir superior por isso. Porque tenho um truque ou dois na manga imaginária.

Também é bom, depois de passar a noite em claro, aparecer na padaria às seis da manhã, impecavelmente composto, para dar a entender aos outros que você acordou cedo, e é um rapaz esforçado, trabalhador, não um traste imprestável desses que vagam por aí. Eu realmente me sinto bem ajudando velhinhas a atravessar a rua, desde que muita gente esteja a ver a boa ação.

Qualquer dia me distraio ao sudoeste e não olho para o lado em nenhum sinal.

Capas

Nunca comprei livros ou álbuns musicais ignorando totalmente o conteúdo, baseando-me exclusivamente na capa – conheço gente que diz já ter feito isso. Creio que no tempo dos LPs, com capas de 31 X 31 cm, as tentações eram maiores nesse sentido. Aliás, quando ouço falar nessa prática hoje em dia é sempre algo relacionado a discos de vinil, frases como “estava no sebo e não conhecia nem o disco nem a banda, mas levei só por causa da capa, achei muito massa.”

Entre livros e discos, creio que nestes últimos as capas eram mais importantes, já que um bom álbum geralmente preserva a mesma capa por décadas, enquanto um best-seller pode trocar de roupagem a cada nova edição. De cabeça, não me lembro de nenhum livro que tenha entrado para a história por uma capa memorável. Claro, há muitos livros que você pode olhar e dizer “nossa, que bela arte”, mas capa antológica mesmo…

Entre os álbuns, há exemplos e mais exemplos, nacionais e internacionais. Necessário observar, no entanto, que todas as capas de disco lembradas entre as melhores de todos os tempos são capas de álbuns igualmente notáveis pelo seu conteúdo musical – Sgt. Peppers, The Dark Side Of The Moon, The Velvet Underground, In The Wee Small Hours, Secos & Molhados… Provavelmente deve haver muito disco ruim com belas capas, mas elas simplesmente não são lembradas – o que prova que só capa não é suficiente para perenizar uma obra artística. Isso significa que a atenção a essa área deva ser pequena? Creio que não.

Há uma frase que li em algum lugar atribuída ao Leonel Brizola: “cultura não dá voto, mas tira.” A máxima pode ser reaproveitada para várias situações. Uma linda capa pode até não ser suficiente para vender o produto, mas uma capa horrorosa afasta muitos compradores potenciais.

Estou terminando a edição de meu primeiro livro de crônicas, A arte de tomar um café, e me preocupo sobremaneira com o encaminhamento de sua capa. Sei que se a coisa não ficar digna, faltará quem se dê ao trabalho de ler o primeiro texto e descobrir que arte de tomar um café é essa, vinda de um cara que nem gosta da bebida.

Tolerância Zero

Se o intuito era botar medo no pessoal, essa operação de Tolerância Zero da Secretaria de Transportes de Maringá está se revelando eficiente. Tornou-se o assunto principal na cidade, todo mundo com medo e checando extintores, lâmpadas, velocímetros, para-choques e quetais. O negócio é imponente mesmo, blitze visíveis nas principais vias da cidade. Até o nome da ação, Tolerância Zero, com essas letras maiúsculas, deixa a gente receosa por antecipação, revendo documentos pra ver se não há mesmo nada errado. Só sugiro que, para um grau ainda maior de intimidação, o programa poderia se chamar Intolerância – nome mais conciso, servindo também como homenagem a D. W. Griffith.

Se o propósito era mostrar serviço e, de quebra, juntar algum em caixa, o programa também vem se mostrando exitoso. A imprensa vem dando ampla cobertura às ações, que já resultaram em 461 notificações de trânsito, num período de seis dias.

O problema é que a justificativa oficial para a Tolerância Zero não passa por botar medo no pessoal, nem simplesmente mostrar serviço ou incrementar os fundos. A operação surge como uma resposta à crescente violência no trânsito maringaense, que neste incompleto ano já fez 69 vítimas fatais, contra 58 de todo o ano passado. E nesse sentido, o tipo de verificação feita pelo programa é meio bobo, ingênuo – para usar adjetivos que presumam boa-fé da prefeitura.

Porque no que pese a importância de extintores em dia, lâmpadas todinhas funcionando à perfeição, velocímetros regulados, para-choques imaculados, documentação nos conformes e impostos religiosamente pagos – não estou, por Deus, querendo pregar a negligência para com esses itens –, difícil acreditar que passe por aí o problema que vem levando a mortes e mais mortes no trânsito maringaense.

É certo que toda a visibilidade da medida, o policiamento tangível, pode levar a um acautelamento dos condutores de modo geral. Mas como essa ostensividade de vigilância é irrealizável em caráter permanente, as eventuais benesses da Tolerância Zero tendem a viger apenas enquanto durar o programa. O medo efêmero resultará em motoristas mais educados? Acredito que não.

A melhora nas condições do trânsito maringaense está relacionada à necessidade de reformas estruturais. Incentivar o transporte coletivo é a medida mais óbvia, haverá outras tantas soluções a serem apontadas por especialistas – mas certamente não é coisa que se resolva numa canetada ou com uma força-tarefa.

O diabo é que a última dessas grandes reformas no trânsito da cidade – a implantação do sistema binário, muito tempo e dinheiro investidos –, coincidiu justamente com o aumento drástico de acidentes. Um belo nó para os governantes desatarem. E enquanto não há solução praticável no curto prazo, o jeito é vender ilusões como essa Tolerância Zero.

Ovo frito

Mandam-nos não repetir frases feitas por questões de estilo e originalidade. O uso de chavões seria algo a se evitar, por revelar pobreza de vocabulário. No entanto, alguns desses lugares comuns, para além da mera estilística, trazem injustiças ou até erros conceituais.

A ampla difusão daquele negócio de “Deus lhe pague”, por exemplo, renderia teses sociológicas – se é que já não rendeu. Quer dizer que um sujeito lhe faz um favor e você, em vez de prometer retribuição justa e breve, coloca a fatura nas mãos de Jeová? Eu cá por mim não gostaria de ouvir um “Deus lhe pague” depois de aceitar ser fiador de alguém.

Mas o que me trouxe à mente essas divagações foi uma expedição noturna à cozinha, com o inglório propósito de fritar um ovo.

Todos devem estar familiarizados com a frase “esse aí não sabe nem fritar um ovo” (com algumas variações de pronomes e conjugações). Deduz-se da sentença que a atividade de fritar um ovo seria o mais elementar dos trabalhos de cozinha, e que quem não consegue executá-la tem conhecimentos e prática nulos na área.

O inventor dessa frase provavelmente advogava em causa própria, porque qualquer um que já tenha se aproximado de uma frigideira sabe que fritar um ovo está longe de ser tarefa trivial. Claro que se você espera de um ovo frito apenas o cumprimento do sentido estrito do termo – algo que tenha vindo de um ovíparo, preparado por meio do contato com alguma gordura quente –, valendo qualquer formato, qualquer textura, qualquer consistência, pode até dizer que a parada é simples.

Mas a feitura de um ovo frito digno, ah, isso é uma arte! A clara crocante e salgada uniformemente; a gema perfeitamente centralizada, resistente ao toque superficial do garfo, mas que cede à perfuração revelando cremosidade – nunca nunca liquidez. Se adequadamente preparado, seu status se eleva de “mistura” a “obra-prima”.

Desafio os usuários da infame máxima a preparem um ovo frito desse porte; se não conseguirem (não conseguirão), contentem-se com a equivalente “não sabe nem colocar água para ferver” – esta sim, justa como índice de inaptidão culinária.

Debate ocioso

Os debates televisivos com candidatos a cargos políticos se sustentam na premissa falaciosa de que quem consegue falar melhor em público é o mais qualificado para ocupar a posição a que pleiteia. A espontaneidade, a familiaridade com a câmera, a boa dicção, a memorização de números e cifras – todos os requisitos esperados num bom debatedor, enfim, podem até ser fundamentais para um candidato, mas não são parte significativa do trabalho de um líder de governo, sempre muito bem assessorado em cada decisão a tomar, pelo menos em regimes democráticos minimamente desenvolvidos. Para uma avaliação séria de méritos e deméritos, esses debates são absolutamente desimportantes. Determinar o voto com base na performance de um determinado “artista” nesse “espetáculo” me parece uma sandice tremenda. Equivale a selecionar um servente de pedreiro pelos seus dotes como pianista.

Vale a pena assistir aos debates pelo que se prestam: ao entretenimento. E mesmo nesse sentido, com o passar dos anos se nota uma tendência de homogeneização dos postulantes, sem os grandes embates e quebra-paus de outrora. Saudosos os divertidos tempos imediatamente posteriores à redemocratização, com embates furiosos entre Maluf, Covas, Brizola, entre outros. Na esfera municipal, quando há debates com candidatos a prefeito, muitas vezes esse aspecto circense ainda pode ser observado.

Mas ontem, neste primeiro debate com os candidatos a presidente para as eleições deste ano, na Rede Bandeirantes, a maior parte do tempo se empregou em blá blá blá sonolento. Coube a Plínio de Arruda Sampaio, do alto de seus oitenta anos de idade, fugir do protocolo e se revelar um comunista entertainer, fato um tanto inusitado. Foi alçado até aos tópicos mais comentados no twitter, tão chamativa sua performance. Hilária sua definição de Marina Silva como Poliana, “está tudo bom e vamos melhorar mais ainda”.

De resto, impressionante como as previsões se confirmam.

Todos disseram que José Serra poderia se destacar negativamente com sua empáfia e sua carranca. Não deu outra: o candidato até se desculpou pela falta de sorrisos em suas considerações finais, depois de supostamente ter sua atenção chamada pela filha, presente no estúdio.

Todos disseram que Dilma Roussef poderia se perder pelo uso de termos difíceis e pela prolixidade. Novamente não deu outra: repetidas vezes estourando o tempo de resposta e lançando mão de termos como “oligopólio” e “bioma”.

Mas o destaque negativo mesmo foi o maestro João Carlos Martins. Com toda a sua história na música, deveria se dar ao respeito. Há alguns dias, regeu orquestra em inauguração de shopping aqui em Maringá; ontem, ofereceu seus serviços para a execução ao vivo do tema de abertura de debates da Bandeirantes. O que vem a seguir, Festa da Uva? Francamente…

O Santos campeão

Como é do conhecimento dos que visitam este espaço, não sou um grande admirador do futebol. Nada contra, não tenho ódio, não evito – apenas prefiro acompanhar Fórmula 1, natação, tênis, atletismo, sinuca e truco. Mas ainda que o futebol nunca tenha ocupado lugar entre as minhas prioridades, a força da tradição me fez em moleque escolher um time para torcer – e esse time não é o Santos.

Mesmo com esses elementos somados – já não curto muito o negócio e o “meu” time não estava em campo –, surpreendi-me ontem torcendo para que a chamada terceira geração dos Meninos da Vila conquistasse a Copa do Brasil.

Não que eu tenha parado para assistir ao jogo, evidentemente.

Mas mandei boas vibrações para o clube da Vila Belmiro ao longo do dia, e durante o horário da partida até cogitei ligar a TV e dar uma espiada – só fui demovido ao lembrar que a sala deveria estar muito fria e os cobertores no meu quarto realmente configuravam o acompanhamento perfeito para a audição de Ella Fitzgerald Sings The Rodgers & Hart Songbook.

Torci (ao meu modo) pelo Santos, enfim, porque é um time que chamou a atenção, proporcionou espetáculo. E eu gosto de espetáculos, dos mais distintos gêneros. Torcer pelo Santos, enfim, não se me afigurou como uma opção, mas como um impulso inevitável pela beleza no esporte. O gosto de ver algo grandioso acontecendo. Uma vaga esperança de poder contar para os netos “eu vi o time de Ganso e Neymar jogando” e isso ser alguma grande coisa, como meus pais contam que viram o homem chegando à lua.

Não que eu já tenha assistido a mais de dez minutos de algum jogo do Santos, este ano – vou parar com as ressalvas e me dar ao direito de assumir que meu ponto ficou claro.

Pois bem, torcendo pelo Santos como estava, deveria ter ficado feliz com a conquista do título. Mas não fiquei, para minha tristeza – gosto de ficar feliz. Porque o Santos ganhou o campeonato perdendo a partida para o Vitória, como já havia ganho o Campeonato Paulista perdendo para o Santo André, aliás. E essa coisa confusa, pragmática e modernosa de ganhar com derrota é violentamente contrária à noção de resgate da beleza, de romantismo futebolístico, que esse time prometia.

Ou talvez não, foi apenas alguém que prometeu por eles, pelos jogadores. E eu, sem acompanhar nada, estava esperando demais.