O alienado

Alguns negócios eu nunca vou entender. Uma ou outra dessas coisas são banais, por que Napoleão perdeu a guerra, qual a aplicação da relatividade restrita de Einstein, de onde viemos, por quem os sinos dobram… Mas outros assuntos são realmente importantes, incomoda-me sobremaneira não ter opinião formada sobre isso. Por exemplo, por que não há alimentos na cor azul (Deus já teria gasto muito azul com o céu?), como é possível realmente apreciar sertanejo universitário e por que o chocolate Lolo trocou de nome para Milkybar.

Meu último desses questionamentos existenciais é acerca de sorvetes – realmente não creio haver assunto mais importante do que sorvetes, ainda mais às vésperas de eleição presidencial. Analisemos: laranja e maçã são duas das frutas mais populares do mundo (minha avó nasceu em Portugal e conhecia maçãs e laranjas, o que me deixa à vontade para a generalização temerária); sorvete é uma das sobremesas mais populares do mundo. Por que diabos não há por aí sorvetes de maçã e de laranja – ou, se há, são bem difíceis de achar?

Já andei perguntando isso por aí a pessoas entendidas, sorveteiros. A resposta comum sempre vem em torno de que é difícil fazer sorvete com uma fruta tão ácida (caso da laranja) ou com uma fruta da qual é tão difícil retirar suco (maçã). Mas ora bolas, limão é uma fruta muito mais ácida do que laranja (pelo menos aparenta ser, na minha avaliação de pH caseira) e o sorvete de limão é um sucesso absoluto, tanto na forma chamada de “massa” ou no picolé – já dediquei uma crônica inteira às virtudes do picolé de limão. Quanto ao argumento de que frutas com pouco suco dificultam a feitura do sorvete, parece-me uma linha de pensamento equivocada, ou pelo menos incompleta, já que nozes formam um sabor presente em qualquer sorveteria.

Certo, talvez maçã não desse mesmo um bom sabor de sorvete. Os doces com maçã geralmente estão associados a sobremesas quentes. Mas laranja, pelo menos laranja vai… Há bala de laranja, licor de laranja, suco de laranja, bolo de laranja, mousse de laranja – por que não sorvete de laranja? Eu quero sorvete de laranja.

Acabei de perder o último debate dos presidenciáveis. Será que perdi algo ao divagar sobre sorvetes e laranjas?

Rita Lee e os acontecimentos

Há algum tempo atrás, rolou um boato de que João Gilberto estaria mantendo uma conta no facebook. O negócio causou barulho. Aparentemente, até pessoas próximas ao intérprete, como membros da família Caymmi, caíram na cascata. Precisou haver um desmentido oficial, ou algo do tipo.

João Gilberto no facebook – ou no twitter – seria um acontecimento, porque nosso gênio da bossa nova é notório por ser recluso, não dar entrevistas há séculos, cultivar hábitos bizarros, ter dificuldades para expressar-se em público inversamente proporcionais ao seu talento. Imaginá-lo como exemplo de inclusão digital na terceira idade parece pouco verossímil.

Chico Buarque no twitter também seria um acontecimento; Dalton Trevisan no twitter seria um acontecimento – além de provável alegria para o colega de redação Gaioto; em panorama internacional, Woody Allen no twitter seria um acontecimento. Já Caetano Veloso, aderindo ao twitter, não provocaria grande espanto. Claro, por ser uma celebridade, agregaria algumas centenas de milhares de seguidores, volta e meia declarações suas gerariam estardalhaço. Mas como já comumente não nega palpites sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano, sua presença na rede social não constituiria de fato um acontecimento. Seria até uma evolução natural das coisas, capaz que se desse muito bem no twitter.

A mesma coisa poderia se esperar de Rita Lee. Figura acostumada a declarações polêmicas e à exposição pública, quase tão entertainer quanto musicista. Mas parece que não se deu conta de que na Internet a resposta é massiva e de propagação incontrolável, colocando o mais elevado artista no mesmo nível de seu público. Não é igual a subir no palco, mandar uma besteira qualquer para a galera e esperar a ovação.

Discutindo novelas, falando mal do plano de saúde, confessando excessos de drogas, Rita se sentiu na sala de estar de sua casa, ou num boteco com amigos, falando bobagem. Tão desprovida da aura artística, tão à vontade que deixou escapar um desvairado “Itaquera [bairro de São Paulo] é o cu de onde sai a bosta do cavalo do bandido”. Talvez, dita num show, a frase passasse batida, “a Rita é muito louca”, “olha as coisas que ela fala”. Mas, no twitter, o que ficou não foram “palavrinhas espirituosas”. Foi um depoimento escrito, gravado, indestrutível – e que se multiplicou pela rede.

Agora, a cantora, tendo de agir como criança mimada que, ao se ver perdendo, cansou de brincar, sai do twitter porque diz estar amedrontada em virtude de ameaças reais à sua família. Lamentável papel para uma artista de respeito.

Sacrílego

– Atravessar a Colombo nesse horário é uma desgraça – disse a gostosa ao meu lado, enquanto esperávamos uma trégua dos carros para cruzar a avenida, duas pistas fervendo, uma hora da tarde.

Eu não sei, tenho uns negócios meus… Eu gosto de moças gostosas, juro que gosto. E aquela era bem gostosa, logo reparei. Mas não adianta, podia ser a mais maravilhosa do mundo, se me aparecer falando obviedades, sem me conhecer, enquanto estou atrasado para o trabalho, o sol me fazendo suar, o sapato apertado, não consigo lhe dar atenção nem me deixar deslumbrar por suas carnes.

Tem coisa mais irritante do que forçar intimidade? Só porque era gostosa, estava se achando no direito de vir me incomodar no horário mais desgraçado da Colombo para falar… que a Colombo é uma desgraça? Francamente, não é coisa que me anime o dia. Um resmungo vagamente assertivo foi tudo o que conseguiu de mim, nem me dignei a lhe virar meu rosto.

Não devia estar acostumada a ser assim tão solenemente posta de lado pelo público masculino, logo percebi. Incrementou os esforços, sorriu, ajeitou a alça da blusa. Peguei-me sinceramente lisonjeado pela atenção da gostosa, tentando entender que diabos eu tinha para merecer tamanha deferência. Mas ainda assim, mesmo consciente de gozar de um privilégio, não conseguia me interessar pelas suas curvas, muito menos pelo seu papo.

Consegui um feito: caminhamos juntos de um lado a outro da Colombo – reduzido espaço, nem tão reduzido tempo – e todo o meu português gasto se reduziu a termos e expressões como “pois é”, “pode crer”, “é a vida”, “entendi” e “sei”. Minha fala mais longa foi “não esquenta a cabeça”.

Ainda assim, no mesmo reduzido espaço, nem tão reduzido tempo, fiquei sabendo que ela estava em Maringá há dois anos, viera para estudar Engenharia de Alimentos na Universidade, seus pais eram de Arapongas e esta campanha política é mesmo um saco, desencanei de tudo, vou anular o voto, não ando com tempo para mim, há meses não vou à academia, um calor desses e meu ventilador quebrou, não gosto muito de sair à noite aqui, eu sei que falar isso é meio sacrílego, mas a catedral de vocês é tão sexualmente sugestiva.

E só aí ela me pegou de jeito. E percebeu, a desgraçada percebeu que enfim estava interessado e a olhava com fome e até seus peitos eu agora enxergava do tamanho que pulavam e até no seu jeito de andar e em seus calcanhares eu via graça. Mas era tarde, já estava indo para um lado, ela seguindo reto para sempre, sem nomes trocados, sem oi nem tchau, e a gostosa se rindo por sentir-se desejada.

Tudo bem, deixemos ela ficar se achando, até tem razão; justo ressalvar, no entanto, que se a moça saiu de lá rebolante e com o nariz erguido foi pelos motivos errados. Não foram seus peitos que me chaparam, não, nisso só fui reparar direito depois, nem seus sorrisos fáceis e a atenção dispensada a este pobre coitado. Tampouco sua ousadia sexual, sugerir uma empalação de 124 metros de altura, chegou a me consternar.

O que me deixou louco foi seu jeito de dizer a palavra, aquela pronúncia irreproduzível, tamanha naturalidade, soprada sem nenhum pudor – sacrílego.

Conto escrito para o e-book Contos Maringaenses, bela iniciativa de Michel Roberto de Souza e Marcos Peres. O livro pode ser baixado aqui.

Mais uma carta aberta

Por que, para que chorar? Não vale a pena, chegam a irritar essas lágrimas só por causa de uma frase desastrada, de um descuido besta de alguém que no fundo a quer bem. E você sabe disso, deve admitir – não é o ideal, mas está longe de ser um desastre.

Não se perca em autocomiseração. Esse seu modo de reagir revela mais sobre como você mesma se vê do que como ele a julga. Deixe de se culpar, você tem de ser superior a isso, impor-se como mulher. Seguir em frente, ter orgulho do que faz, do que fez, do que construiu e do que deixou para trás. Pois tudo isso – até os escombros – são pedaços do que a faz mulher e mãe e uma pessoa querida. E se as coisas se misturam na sua cabeça, são por tabus sociais antiquados.

Esse papo é besta, você bem reconhece seus entraves e limitações, sabe que são entraves e limitações, sabe que deveria passar por cima – mas às vezes não consegue esquecer a velha formação, as coisas ficam introjetadas, claramente você não consegue lidar com isso. Não estou dizendo que é fácil.

Mas quero que você consiga viver mais assim leve, mais passarinho, com mais dança. Mais comédia de situação e menos tragédia grega; mais canções assoviáveis e menos missas; mais quadrinhas e quadrinhos e menos epopeias. Entende o que quero dizer, querida? Não se abale tão fácil – não, é besteira.

E não deixe um único momento, um mero lapso, destruir toda uma relação de confiança. Eu sei, você é gata escaldada, mas se permita confiar mais nas pessoas. Uma vez a vi se rindo do que chama de minha pouca idade, mas já estive em seu lugar (ou num lugar próximo); já me senti assim, querendo algo a mais, e tendo de aceitar qualquer prato feito de boteco enquanto não vinha o risoto de açafrão (não achei metáfora gastronômica melhor). É meio triste, mas não é sem jeito não, as coisas uma hora se arranjam. Eu agora estou bem e é surpreendentemente bom estar bem. Houve tempo em que sentia certo prazer em estar mal.

E não me venha com essa desculpa de tempo e juventude porque sempre há tempo para ser fiel a si mesma, não precisamos de livros de autoajuda para saber isso. Eu acumulo esse monte de frases piegas e fico com vergonha, mas me sinto na obrigação de falar – bem mais fácil perceber, do lado de fora, como essas obviedades fazem sentido. Na próxima vez em que nos falarmos, quero ver outra postura. Quem sou eu para exigir, você pode pensar, mas é que estranhamente me identifico com sua angústia e acho que posso fazer essa cobrança.

Não faz sentido você enxergar qualquer desentendimento como reprimenda moral. As contrariedades existem e sempre vão existir e saber superá-las é prova de certa nobreza humana na qual ainda acredito não sei exatamente por quê. Façamos um exercício de otimismo, vamos achar que vai dar tudo certo desta vez. E durante o tempo em que conseguirmos acreditar nisso, tudo estará dando certo efetivamente. Mesmo que no fim das contas apenas estejamos mal informados.

Diálogo de encomenda

– Um dos meus sonhos recorrentes é que estou fumando. Já faz três anos que parei de fumar e não me livro disso, sempre volta. O pior é que é bom fumar no sonho, cara, dá uma aliviada.

– Muitos ex-viciados têm sonhos parecidos. Dizem que cigarro é mais difícil de largar do que muitas drogas ilícitas.

– Mas eu nem era tão viciado assim. Fumava pouco.

– Quanto?

– Coisa de cinco, seis cigarros por dia.

– Eu fumo mais ou menos isso, é tranquilo. Não quero parar não, assim não preciso ficar com essa pira na cabeça, tenho tempo de sonhar coisas mais interessantes. Hoje sonhei que a Marília Gabriela havia assassinado a Marta Suplicy.

– Deus do céu…

– E eu havia conseguido um furo, uma confissão exclusiva da Marília Gabriela. A gente tava na minha casa gravando um vídeo dela admitindo o crime, pra colocar no Youtube. Ela me dava um pouco de medo no sonho.

– Por que ela matou a Marta Suplicy?

– Não lembro.

– Como ela tinha matado?

– Não lembro também. O mais intrigante é pensar em por que fui sonhar com isso. Dizem que sonhos são expressões do inconsciente. Só muito no inconsciente mesmo para eu dar importância a Marília Gabriela e Marta Suplicy. Na Marília Gabriela eu ainda tava pensando por causa do novo Roda Viva que ela apresentou, mas a Marta Suplicy não sei de onde surgiu. Queria que a minha analista ainda me atendesse, para eu consultá-la a respeito.

– Que tem hoje de almoço?

– Nhoque.

– Bom?

– Salgado.

– Aposto que a culpa é do sal a gosto. Cozinheiro novo lê a receita e tem esse negócio de sal a gosto. Eu odeio sal a gosto. Por que diabos não dizer de uma vez quanto sal tem de colocar no molho? Uma colher de chá, uma colher de sobremesa, uma colher de sopa, sei lá?

– Se fosse assim, a gastronomia não seria uma arte.

– Que arte? Não tô falando de arte. É seguir uma receita. E se você tá no ponto de seguir uma receita, certamente não tem autonomia artística, não busca criação, expressão, estilo pessoal, sei lá o quê. Só quer fazer um molho de maneira minimamente aceitável. Então pra que colocar “sal a gosto” na receita? E mesmo na arte, bom lembrar, existem as escolas. Aposto que não falam para um cara aprendendo pintura para traçar linhas de perspectivas “a gosto”.

– Você fica muito revoltado.

– Ah, com o sal a gosto eu fico. Escuta, você sabe fazer algum truque com o baralho?

Querências

Queria completar minha coleção de songbooks da Ella Fitzgerald, queria poder sempre pegar no supermercado o iogurte da marca que mais gosto, independentemente do preço. Sabe, esta é minha meta de estabilidade financeira, nada de carros importados ou casas na praia: não me preocupar nunca com o preço do iogurte da marca preferida. Se estiver cinco vezes mais caro do que o do outro tipo, dane-se, eu não preciso me importar com isso – um cara que pensa assim eu já considero rico. Mas ainda não cheguei lá, e você não me ajudou a conseguir.

Queria ter cabelos lisos, queria conseguir alcançar aquele agudíssimo Si bemol do Roger Taylor no fim da parte coral em “Bohemian Rhapsody”. Queria, sobretudo, parar com esta compulsão de fazer listas e mais listas. Queria certezas, segurança, amizade sincera e amor cristão. Queria saber desenhar e subir em árvores e dançar tango, mas você nunca me deu nada disso. Queria que você nunca houvesse mentido – e você mentiu, mentiu sim, embora na hora realmente estivesse acreditando que falava a verdade. Eu compreendo, acontece com todos nós uma hora ou outra.

Queria gostar de brócolis. Queria tanta coisa, queria ser querido, um filho querido, um pai querido, um genro querido, um irmão querido, um professor querido. Conhecer sua família e contar piadas ruins, abrir as portas da esperança e rodar o pião do baú, ter coragem para jogar fora um monte de coisas. Como seria bom sentir-me nobre e não ter raiva, nem ciúmes, nem vergonha de mim mesmo por voltar sempre ao mesmo tema, depois de tudo que aconteceu. Parece inacreditável. Queria uma boa faca e uma tábua de churrasco e você nunca percebeu meu desejo.

Queria entender a música de Schoenberg, queria saber tocar piano de modo a impressionar convidados numa festa. Queria, aliás, ter um piano, mesmo sem saber tocá-lo. Queria saber de cor a canção “O quereres”, do Caetano. Obra-prima. Queria conhecer Manhattan e visitar os lugares que o Woody Allen mostrou nos filmes. Queria, mas não visitei, não conheci, não sei, não tenho, não entendo – e a culpa disso tudo é sua, inapelavelmente sua, nem adianta tentar se defender.

Mas você me deu um chapéu tão bonito que lhe ofereço meu perdão.