Rita Lee e os acontecimentos

Há algum tempo atrás, rolou um boato de que João Gilberto estaria mantendo uma conta no facebook. O negócio causou barulho. Aparentemente, até pessoas próximas ao intérprete, como membros da família Caymmi, caíram na cascata. Precisou haver um desmentido oficial, ou algo do tipo.

João Gilberto no facebook – ou no twitter – seria um acontecimento, porque nosso gênio da bossa nova é notório por ser recluso, não dar entrevistas há séculos, cultivar hábitos bizarros, ter dificuldades para expressar-se em público inversamente proporcionais ao seu talento. Imaginá-lo como exemplo de inclusão digital na terceira idade parece pouco verossímil.

Chico Buarque no twitter também seria um acontecimento; Dalton Trevisan no twitter seria um acontecimento – além de provável alegria para o colega de redação Gaioto; em panorama internacional, Woody Allen no twitter seria um acontecimento. Já Caetano Veloso, aderindo ao twitter, não provocaria grande espanto. Claro, por ser uma celebridade, agregaria algumas centenas de milhares de seguidores, volta e meia declarações suas gerariam estardalhaço. Mas como já comumente não nega palpites sobre as mais diversas áreas do conhecimento humano, sua presença na rede social não constituiria de fato um acontecimento. Seria até uma evolução natural das coisas, capaz que se desse muito bem no twitter.

A mesma coisa poderia se esperar de Rita Lee. Figura acostumada a declarações polêmicas e à exposição pública, quase tão entertainer quanto musicista. Mas parece que não se deu conta de que na Internet a resposta é massiva e de propagação incontrolável, colocando o mais elevado artista no mesmo nível de seu público. Não é igual a subir no palco, mandar uma besteira qualquer para a galera e esperar a ovação.

Discutindo novelas, falando mal do plano de saúde, confessando excessos de drogas, Rita se sentiu na sala de estar de sua casa, ou num boteco com amigos, falando bobagem. Tão desprovida da aura artística, tão à vontade que deixou escapar um desvairado “Itaquera [bairro de São Paulo] é o cu de onde sai a bosta do cavalo do bandido”. Talvez, dita num show, a frase passasse batida, “a Rita é muito louca”, “olha as coisas que ela fala”. Mas, no twitter, o que ficou não foram “palavrinhas espirituosas”. Foi um depoimento escrito, gravado, indestrutível – e que se multiplicou pela rede.

Agora, a cantora, tendo de agir como criança mimada que, ao se ver perdendo, cansou de brincar, sai do twitter porque diz estar amedrontada em virtude de ameaças reais à sua família. Lamentável papel para uma artista de respeito.

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