A eleição de Tiririca

Chego atrasado à discussão eleitoral. Não satisfeito com a ousadia do atraso, ainda me dou ao direito de repisar assunto exaustivamente debatido, analisado e visto por todos os ângulos e focos de luz possíveis: a eleição de Tiririca para a Câmara dos Deputados, representando São Paulo. Ainda assim, sinto-me tentado a dar meus dois centavos sobre o tema.

Por que, afinal, Tiririca conseguiu tantos votos, destacando-se entre muitos outros candidatos considerados “exóticos”? Nessa rica fauna que se apresentou ao pleito deste ano, sem dúvidas havia nomes mais presentes na mídia que acabaram fracassando: Marcelinho Carioca acabou de ser apontado pela Folha de S. Paulo como o jogador corintiano mais significativo da história, os moleques da KLB ainda conseguem lotar casas de shows, etc. Tiririca, até antes do horário eleitoral, era lembrado (?) com certa pena dedicada aos artistas (?) decadentes que gozaram a breve delícia de um único sucesso. Forçando a memória, pode-se ainda associar o novo deputado a uma época particularmente triste da TV brasileira – espanta-me flagrar-me dizendo isto, mas acho que evoluímos! –, com Tiririca, sushi erótico, boquinhas da garrafa e latininhos se misturando num empoeirado baú de horrores.

A dedução lógica é que, embora menos popular, Tiririca conseguiu canalizar antiga tendência para o voto de protesto usando sua atuação como palhaço, apelo de que os outros candidatos midiáticos não dispunham. Assim, reproduziu-se por aí, votar em Tiririca equivaleria ao que noutros anos foi o voto no macaco Tião ou no rinoceronte Cacareco – um “foda-se” para o processo eleitoral, uma recusa de submissão aos viciados partidos políticos, uma manifestação de cansaço ante as mesmas figuras de sempre, apenas com nomes trocados às vezes.

O problema é que o caso é outro, bem distinto. A candidatura de Tiririca não foi espontânea, não é engraçada e nem serve como protesto. Foi orquestrada friamente como modo de perpetuar o poder justamente daqueles que serviriam como alvo desse sentimento de revolta. As regras de definição dos eleitos para a Câmara, no entanto, são desconhecidas da maioria absoluta da população, até mesmo entre pessoas com ensino superior completo.

Parte da culpa pode ser atribuída à imprensa, que poderia divulgar com mais insistência e de forma clara e simplificada a existência do cálculo de quociente eleitoral. Mas aí também se pode lembrar da eleição do Enéas, quando foi amplamente exposto que sua votação impressionante serviu para colocar na Câmara figuraças com meia dúzia de eleitores… E as pessoas parecem esquecer que a eleição para deputado NÃO é personalista, os votos de todos os candidatos de cada um dos partidos são associados para se determinar quantas cadeiras na Câmara as coligações políticas terão.

Dói ver gente com mais de dois neurônios dizendo coisas como “perto do que temos por aí, Tiririca é um santo”. Sua eleição teve como fim primeiro e último manter o que temos por aí. E se pior do que está não fica, perde-se mais uma chance de melhorar.

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