Meu Pato e o Censo

Levantamento do IBGE previa que Maringá houvesse chegado aos 354 mil habitantes. É um número forte, O Diário chegou a dar uma bela capa no fim do mês passado celebrando o crescimento da cidade. No entanto, até agora, apenas 349.860 pessoas foram recenseadas. Esses quatro mil e poucos fujões, alega o instituto, seriam aqueles impossíveis de pegar em casa, passam o dia todo trabalhando, ou então residem em locais de difícil acesso.

Ninguém do IBGE veio pedir minha opinião, talvez estejam certos, estou há pouco na cidade; quisessem meu humilde conselho, no entanto, eu recomendaria que passassem no magnífico bar com a alcunha de Meu Pato, lá na Avenida Juscelino Kubitschek. Encontrariam coisas interessantes lá, muita matéria de interesse antropológico, além de provavelmente dar de cara com vários desses avessos ao Censo. O único risco seria os nobres agentes do instituto se distraírem no Meu Pato e acabarem esquecendo a missão patriótica da qual foram incumbidos.

Porque o Meu Pato é o núcleo da resistência. Quando todas as luzes apagaram, quando os plantonistas caem no sono, quando o notívago já foi dormir e o trabalhador braçal ainda não acordou, Meu Pato está firme, forte e próspero.

O vinho destila, o uísque fermenta, os jogadores de truco perdem a voz. Todos os jogos da velha terminam empatados, todas as combinações possíveis de acorde são produzidas, toda a moda se recicla. E a fauna e a flora se transformam numa coisa só, indistinguível e bela, dentro do Meu Pato.

A esquerda e a direita unidas saltando sobre o centro, artistas famosos circulando incólumes, japoneses filosofando em alemão fluente, comunistas-hippies-judeus-vegetarianos se lambuzando com a farta porção de batatas fritas. Três presidentes, sete primeiros-ministros, dois imperadores e quatro donos de frigoríficos já passaram pelo Meu Pato sem receber atenção especial. Na mesa contígua, membros da UDR e do MST encontram pontos em comum em suas ideologias.

Do lado de fora do bar, Luan Santana incorpora “Derradeira Primavera” e “Ev’ry Time We Say Goodbye” ao seu repertório, um salário mínimo de R$ 2.250 é anunciado, o Brasil desiste de abrigar a Copa do Mundo de 2014, finalmente descobrem a cura para o câncer – mas ninguém no Meu Pato dá a mínima. Por que então haveriam de responder ao Censo?

Os 150 de Calumbi

Nunca havia ouvido falar de Calumbi. É uma cidade do interior de Pernambuco, 221 km² de área, 7.977 habitantes, incluída na área geográfica de abrangência do semiárido brasileiro, com relevo suave-ondulado, vales estreitos e vertentes dissecadas – pelo menos é o que me assegura a Wikipedia, e não ouso duvidar. Destacam-se em Calumbi as lavouras temporárias de algodão herbáceo, feijão, mandioca e milho. Gosto de todos esses vegetais, simpatizei com a cidade.

Infelizmente, não foram as lavouras de algodão herbáceo, nem a caatinga hiperxerófila, tampouco as vertentes dissecadas (seja lá o que for isso) que trouxeram notoriedade ao município. Em Calumbi, no segundo turno das eleições presidenciais deste ano, Dilma Rousseff obteve seu maior percentual de eleitores: 96,51% (4.142 votos), contra apenas 3,49 % (150 votos) para seu adversário.

A estatística impressiona. A mim, nem tanto pela aclamação dilmista, de fazer inveja a Saddam Hussein – para isso os analistas, os entendidos têm mil explicações. O que me faz pensar, o que acho inusitado de verdade são justamente os 150 indivíduos do contra, aqueles não levados pela correnteza.

Redes de televisão, jornais, emissoras de rádio mandaram seus repórteres para a cidadezinha, cobrir a aclamação dilmista, a festa, o orgulho dos calumbienses pelo destaque nacional – ninguém entrevistou um serrista desconsolado de lá. Talvez não seja fácil localizá-lo, é verdade.

Será que esses 150 tiveram coragem de assumir o voto? Conheciam uns aos outros, saíram com bandeiras e adesivos, constituíram núcleos serristas, jantares e reuniões para discutir política e praguejar contra a maioria opressora? Ou, pelo contrário, mantiveram-se tímidos, guardando o “desejo secreto” para si mesmos, provavelmente o escondendo de familiares, de amigos?

Também há a possibilidade nada remota de não haver tanta determinação política assim nesses 3%. Talvez votaram 45 porque é um número redondo, mais bonito do que 13, ou porque tiraram unidunitê, ou porque foi o último número que viram antes de ir para as urnas.

Pouco me interessam as motivações, o fato político, a ideologia de A e de B. A capacidade de não se curvar à maioria, de não ceder, de resistir em suas convicções – nem que sejam mais teimosias do que convicções. Isso me fascina.