Massacre em Realengo

Assassinatos em massa não são novidade no Brasil, infelizmente; mesmo de massacres envolvendo crianças, há precedentes: de cabeça, lembro da chamada chacina da Candelária, em 1993.

Há diferenças, no entanto, entre o que aconteceu ontem em Realengo e a nossa horrenda tradição de violência: nos casos anteriores, geralmente se podiam relacionar as causas dos atentados às condições sociais brasileiras, à desigualdade na distribuição de renda. Se isso não tornava os crimes menos lamentáveis e dolorosos, pelo menos as tentativas de explicação sociológicas deixavam no ar a esperança de solução. “O país precisa evoluir para que não haja mais carnificinas como esta.”

No episódio dos 12 estudantes mortos pelo atirador Wellington Menezes de Oliveira, tudo o que resta é a brutalidade dos fatos. Não havia como prever, não há motivos tangíveis – nunca há como remediar. Psicólogos que se dispõem, a partir de poucas linhas lidas sobre o ocorrido, a traçar perfis do assassino soam como levianos conversadores de botequim; apresentadores sensacionalistas de TV que tentam forçar ganchos para suas matérias, especulando sobre a falta de segurança do colégio em questão, são insensíveis – para usar um termo brando.

O Mal em sua essência, a loucura, o horror. Por quê? Em tão pouco tempo, já falaram em islamismo, Aids, transtorno bipolar – tudo soa notadamente inconclusivo. Ninguém poderá saber. Resta ficarmos chocados, o que é muito pouco, mas já nos lembra que pode haver nobreza humana.

Como desconsolo adicional, ainda há a consciência de que, mesmo se Dilma cumprir 100% das promessas de campanha, todos os políticos corruptos do país passarem por devastadora crise de consciência e o sertão virar mar, ainda estaremos sujeitos a novas tragédias similares à de ontem. Afinal, esse tipo de barbaridade não veio importada dos países de primeiro mundo, com altos índices de desenvolvimento econômico e humano?

É terrível, não faz sentido, não há para onde fugir: o mundo. As pessoas tendem a não se conformar com isso, criam ídolos, querem respostas. Decerto não acabaria com os males do planeta, mas uma atitude digna para marcar posição contra a violência seria a proibição do comércio de armas de fogo. Essa hipótese, no entanto, já foi democraticamente descartada pelos brasileiros em referendo.

 

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Polícia e estudantes na Zona 7

Hoje é quinta-feira. Há algum tempo, dia tradicional para universitários ocuparem, à noite, os bares da Zona 7; mais recentemente, data sagrada para conflitos entre os estudantes e a Polícia Militar.

Não tem erro, o roteiro é sempre igual. Cena 1: a noite avança, alguns estudantes vão ocupando a calçada, a pista, o trânsito fica bloqueado, um barulho dos infernos. Cena 2: a vizinhança, indignada por participar compulsoriamente da balbúrdia, entope a central de polícia com reclamações. Cena 3: a polícia desce com uma dezena de viaturas, motos, cassetetes, xinga quem estiver pela frente e dá um limpa geral na área.

Epílogo: todas as partes se acham injustiçadas e reclamam barbaridade umas das outras. Na semana seguinte, as cenas se repetem – espero estar queimando minha língua para hoje!

É um daqueles casos engraçados (facilmente verificáveis também nos debates políticos em véspera de eleição) em que ninguém age da maneira correta, mas as acusações são todas verdadeiras. A polícia fala que os estudantes perturbam a paz, são insolentes, desrespeitam o próximo – impossível negar que há estudantes desse jeitinho. Os universitários dizem que a polícia é truculenta, abusa da autoridade, espetaculariza suas ações, deveria concentrar seus esforços em coisa mais importante – de fato, sobram PMs que merecem a crítica.

Uma solução simples seria a polícia adotar uma ação preventiva (uma viatura às 22h percorrendo a área, que tal?) e os estudantes evitarem a postura de confronto, divertindo-se com bom senso. Mas muitos dos universitários não estão nem aí e até veem na represália policial uma boa chance de brincar de maio de 1968; vários dos PMs, por sua vez, regozijam-se na imposição de pequeno poder e demonstração bombástica de serviço.

Na verdade, são muito parecidos: o sorriso do boyzinho que cruza o carro no meio da pista, sertanejo tocando no máximo e cerveja entornada no gargalo, traz a mesma prepotência do homem fardado que segura o cassetete e manda todo mundo sair de perto se não quiser levar. Poderiam promover trégua e sentarem juntos para um truco no domingo à tarde.

Mas há verdadeiras vítimas nessa celeuma: os moradores da zona 7 não podem fazer muita coisa senão reclamar – e vêm sendo atendidos apenas com ações de muita pirotecnia e pouca efetividade.

Por fim, há ainda os que estão apenas sentados tranquila e (quase) silenciosamente nos bares da região e são obrigados a ouvirem desaforos de policiais, saírem correndo da calçada se não quiserem ser atropelados por uma viatura que desce a rua correndo na contramão. Demonstrando-se insatisfeitos publicamente, levam como bônus desabafos fascistoides do tipo “nenhum cidadão de bem reclamou” ou “a essa hora, deveriam estar é dormindo”. Embora possa contrariar a tradição, a família e a propriedade, ainda não é crime sair à noite com amigos e jogar conversa fora.

 

 

Bandidos

Foi notícia nos jornais de ontem por todo o país, inclusive neste O Diário. Uma senhora moradora de Ferraz de Vasconcelos (Grande São Paulo) estava no cemitério, cumprindo a pacata ocupação de cuidar das flores do túmulo de seu pai. De repente, presencia a execução de uma pessoa (uma pessoa) por dois policiais. Jogaram o camarada da viatura e lhe meteram um tiro na cabeça. Simples assim.

A reação esperada (decerto a minha, devo confessar minha fraqueza) seria querer sumir dali o mais rapidamente possível, sem ser vista por ninguém. Mas de vez em quando alguém ainda resolve apostar em fazer o certo: a mulher ligou para o 190 e descreveu o que estava vendo, em tempo real. Teve frieza suficiente para ainda esperar a viatura passar por onde estava e dizer a placa do carro ao atendente da ligação. Os executores viram a mulher, caminharam em sua direção, e ela não se intimidou: continuou no telefone e ainda teve tempo de dizer um “o senhor tem a consciência do que faz”. Resultado: os dois PMs envolvidos na história estão presos.

Toda essa introdução para chegar ao que realmente me chocou. O colega Edson Lima postou a mesma história, em seu blog, e ao final do texto instigou seus leitores: “você teria coragem de fazer o que essa mulher fez?”. Lima tem o privilégio de ser muito comentado, e a maioria absoluta das respostas ficou em variações de “essa mulher tem sorte de não ter morrido junto” e “parabéns aos policiais, um bandido a menos no mundo”.

Nem o mais compungido defensor dos direitos humanos há de discordar que um mundo sem bandidos seria, de fato, melhor. Daí a apoiar entusiasticamente a ação de executores vai um longo e abjeto caminho.

Esses comentaristas justiceiros não estão apenas defendendo a pena de morte – que já é uma ignomínia, em minha opinião. Estão defendendo o assassinato simples. Como se pode defender o assassinato simples, à margem da lei, à margem da instituição em que trabalham? Não se pode. E eu quero crer que os comentaristas do Lima não entendem o que estão falando. Quero crer que se eu lhes perguntasse “vocês concordam com o assassinato de pessoas?” eles diriam não.

Mas a violência é algo contagiante. Queremos ver o sangue dos bandidos. Ainda que a única evidência de que dispomos atualmente para saber se o camarada morto em questão era mesmo bandido é a palavra de dois assassinos – bandidos, portanto. E se os policiais assassinos merecem parabéns, cumpriram seu dever, são uma benesse à sociedade, por que a mulher que os denunciou teve sorte de não morrer junto? É de se pensar que não correria esse risco com tão nobres figuras.

Mais triste é saber que, esperando o mesmo tipo de raciocínio embotado, devo passar a impressão de defensor de bandidos.