O sertanejo e o rock

Eu não gosto de música sertaneja.

 (Faço exceção para alguns artistas que podemos identificar, para efeito de entendimento, com o chamado sertanejo “raiz” – eu não gosto do termo, qualquer coisa “raiz” me soa afetada, preferiria chamar de sertanejo tradicional ou clássico, talvez simplesmente antigo, sei lá.)

 Bandas de rock, gosto de muitas. Acredito que a maioria de minha discoteca ainda é dedicada a artistas do gênero.

 Gosto dessas bandas de rock porque as considero divertidas. E tenho consciência de que a mesma justificativa é perfeitamente lícita para aqueles que apreciam o sertanejo, por que não?

 Rock surgiu como música para dançar, sertanejo é música para dançar, até o jazz – hoje em dia associado a um grau elevado de erudição – foi criado como música para dançar. Não entendo por que tratar os intérpretes sertanejos, e aqueles que apreciam esse tipo de música, como membros de uma casta inferior.

 Há muito roqueiro com um esnobismo surreal por aí. Queixam-se de “falta de apoio para a cultura local” (traduzindo: falta de grana do Estado para financiar bandas barulhentas que ninguém conhece) e esbravejam contra o “lixo sertanejo”.

 Pois bem, em que pese o fato de eu sinceramente não suportar ouvir nenhumazinha das duplas do tal sertanejo universitário, admito que elas têm um grande mérito: em um tempo de decadência do mercado fonográfico, em um país em que a produção cultural está muito ligada, atualmente, a subsídios estatais, conseguiram criar uma indústria totalmente independente.

 Sim, os sertanejos universitários são os reais independentes, não aqueles roqueiros chorosos esperando o próximo edital de incentivo à cultura para fazer seu álbum.

 E há diferença de valor? Admito que alguns artistas ligados ao rock (mais como “movimento” do que como gênero musical) produziram obras com valor artístico, algo que não vejo dentro do sertanejo universitário.

 Mas aqui estamos entrando no terreno do raríssimo. Se olharmos um pouco para trás, também há essas exceções do outro lado – fico com Almir Sater e Renato Teixeira, lembrando de uma dupla que particularmente me apraz, mas há vários outros nomes.

 De modo geral, é tudo entretenimento – e, Deus, entendam que isso não é algo ruim, maravilha existir música para nos entreter!

 Gostaria que alguém me explicasse (falo muito sério) no que as canções dos Ramones são superiores às de Fernando e Sorocaba, se rítmica, harmônica, melódica ou liricamente. A única maneira possível de afirmar essa (falsa) distinção qualitativa é invocando a tal da “atitude”, mas discutir isso a sério é como acreditar numa visita do Papai Noel – em junho.

 Peguemos o caso do sr. Fábio Elias: tinha uma banda de rock em Curitiba, o Relespública, e a deixou no ano passado para se dedicar ao sertanejo. Vi no facebook o vídeo de uma nova canção sua, “Parei!”. Amigos meus – gente que respeito e admiro – reagiram indignados ante a sua “traição”, mandando ver em comentários sarcásticos.

 Se o sr. Fábio Elias deixou de fazer algo em que acreditava apenas por questões financeiras, talvez seja uma atitude recriminável – embora a recriminação que possa vir daí seja um tanto quanto ingênua. Afirmar, no entanto, que seu cancioneiro caiu de nível é uma falácia: basta ouvir “Parei!” para perceber que, em arranjo e instrumentação de rock, caberia perfeitamente num álbum do Relespública.

 Rock and roll não é sério, pessoal. Listas de melhores álbuns do rock estão para a música assim como listas de melhores sopas Vono estão para a gastronomia – e eu adoro fazer ambas.

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