Por que é bom falar mal da vida alheia

Está na hora de reavaliarmos o verdadeiro valor da atividade de falar mal dos outros. Não se trata apenas de passatempo saboroso, muito melhor do que palavras cruzadas, paciência, sudoku, briga de galo ou ocupação de reitoria. Descer o pau na vida alheia é fundamental para a solidificação de uma das mais nobres instituições humanas: a amizade.

Por que as pessoas, afinal, se tornam amigas? Sem delongas: porque se sentem à vontade para falar mal de uma terceira figura, conhecida de ambos. Conforme a amizade vai evoluindo, aparecem quartas, quintas, sextas, enésimas figuras – e quanto mais seres em comum houver a achincalhar, mais longeva a amizade será.

Alguns poderão defender que os amigos se encontram por afinidades, gostos em comum, “nossos santos bateram”. Ingenuidade. Gostar das mesmas bandas, defender a mesma posição política ou compartilhar um entusiasmo concupiscente pela Christina Hendricks podem ser fatores a contribuir para uma noite agradável no Divina Dose, servidos pela gentil proprietária dona Ione. Mas não basta para que você procure o camarada depois da ressaca do dia seguinte, ainda há gelo a ser quebrado.

Também ouço dizer por aí que a amizade vem da confiança. Nesse caso, temos o clássico erro da confusão de causa e consequência. A confiança sustenta as amizades, não há dúvidas, mas de onde será que ela surge? Ora, surge quando você tem coragem de lascar o cacete naquele colega insuportável de trabalho, na vizinha neurastênica, na líder imbecil da comissão de formatura, e seu ouvinte recebe entusiasticamente os xingamentos, colocando alguns impropérios adicionais.

Convenhamos, apesar de ser ato geralmente relacionado à baixeza de espírito, falar mal da vida alheia exige bravura. E se o interlocutor fulminá-lo com olhar de repreensão ou desdém? Pior, e se fizer um discurso o tachando de injusto, arrogante, preconceituoso? Ainda há a possibilidade de uma resposta no gênero “olha, não concordo com o que você está dizendo e não quero que continue, porque essa pessoa é minha amiga”. Terrível.

Mas amizades não surgem sem riscos. E não é bonito, não é poético quando duas pessoas se abrem, deixando etiquetas, convenções e normas sociais de lado para atacar alguém que não está lá para se defender? O alívio de expor um sentimento hostil evidente, pairando no ar, mas represado por pudores e medos – dessa catarse brota a amizade.

Está certo: difamar não é bonito aos olhos de Deus, e aos olhos dos homens é crime. Com um pouco de otimismo, no entanto, pode-se pensar que desse pecado tão humano surge algo positivo e também restrito à nossa espécie. Quem há de negar a importância da amizade? É a flor que nasce do esterco, a borboleta vinda da lagarta – ou a metáfora piegas que o leitor preferir.

Não se sinta culpado depois de rir de alguém pelas costas, humilhando-o com comentários sarcásticos. Você está sendo um panaca abjeto e torpe, é verdade – mas não apenas isso. Também está se tornando eternamente responsável por aquilo que cativa.

Das razões para largar o cigarro

As campanhas antitabagistas têm todas um erro de origem: em maior ou menor grau de sutileza, a mensagem é sempre uma variação de “se você fumar, morrerá”. Ora, morrer não é tão assustador assim. Todos nós morreremos, com ou sem cigarro, gordura trans, carne mal passada e exposição a videoclipes da Lady Gaga. Grande coisa.

Em que pese todo o respeito que tenho pela obra do grande Paulo Autran, lembro como achei bobo quando, assim que ele morreu, sua viúva repassou à imprensa a última mensagem do ator, algo próximo de “avise que morri por causa do cigarro”.

Por Deus, o camarada tinha 85 anos! Se nunca houvesse chegado perto de tabaco e tivesse fôlego de atleta, quanto tempo mais conseguiria viver mantendo sua capacidade de trabalho? Não muito, creio eu, embora sempre haja um Barbosa Lima Sobrinho para nos desmentir – não sei se ele fumava.

Não se trata de menosprezar os comprovados malefícios do cigarro, nem a afirmação (verdadeira) de que uma vida sem fumo tende a ser mais saudável, com o sujeito menos propenso a desenvolver uma série de doenças. O negócio é outro: já que querem fazer o mundo deixar de fumar, pelo menos ataquem o ponto certo. Morrer, francamente…

Está certo que tentaram também o “fumar te deixa broxa”, potencialmente muito assustador para a população masculina. Mas no contexto de desenhos infames no verso de maços de cigarro, acaba passando por piada, não ameaça séria.

A constatação também é difícil: jamais haverá mil camaradas em campanha governamental dizendo que não copulam mais e é tudo culpa do Marlboro vermelho. Sobram apenas metáforas visuais infantis de cigarros arqueados e polegares postos para baixo.

Ademais, o número de mulheres fumantes cresce muito mais do que o de homens – pelo menos li isso em algum lugar. Compensa buscar algo de apelo universal.

A ideia veio quando a Lívia me chamou a atenção para a diferença de estado físico entre John Malkovich (só o pó) e Bruce Willis (ainda dá um caldo), sendo que a diferença de idade entre os dois é de meses. Acontece que um come cigarros, enquanto o outro sempre evitou o fumacê.

Há exemplo mais próximo a nós brasileiros. Se alguém, nos anos 70, dissesse que Caetano Veloso ainda seria mais bonito do que Chico Buarque, mandariam o profeta direto ao hospício. E agora, as voltas que o mundo dá, confiram como anda o enrugado Chico, fumante notório, em comparação com o compositor baiano (dois anos mais velho, por sinal), que chegou a ganhar a alcunha de Caretano por evitar as drogas.

Nunca podemos subestimar a superficialidade do ser humano. Uma campanha com o mote “fumantes são feios” tem tudo para ser sucesso: o problema não é morrer, mas sim ficar vivo e horroroso.

A jovem patricinha acha que a morte é realidade distante, fica tentada a dar suas baforadas e fazer um social. Mas ela também gasta tempo e dinheiro com academias, cirurgias e alimentos integrais: não há de querer um troço que a embarangue. Esse, portanto, deve ser o foco.

Eu mesmo ando sensibilizado com o argumento, pensando em largar o cigarro, quero conservar minhas feições gregas por longo tempo. Em todo o caso, já fumo pouco, não por falta de gosto ou zelo com a saúde, mas por indisciplina: ser um viciado exige comprometimento, regularidade de horários – todas essas coisas para as quais não levo jeito.