O barbeiro Ederaldo

Faço questão de ir sempre ao mesmo cabeleireiro. Não pelas razões que levam algumas mulheres sempre à mesma manicure ou gastrônomos sempre aos mesmos fornecedores. Não tenho condições de julgar o trabalho do Ederaldo, estas madeixas não exigem grande arte. Ele não deixa meus pouco privilegiados cabelos com aparência ainda pior e já me dou por satisfeito.

Nem é daqueles casos de grande simpatia entre duas pessoas ou afeto reforçado pelo tempo. Comecei a frequentar seu salão já em idade adulta e falo pouco quando estou por lá – o Ederaldo bem que se esforça, é verdade, com uma vasta gama de assuntos e histórias que gosto de ouvir, mas sou caso perdido.

A questão é de fidelidade. Não poderia traí-lo, não um senhor que trabalha há 51 anos no mesmo lugar, com as mesmas cadeiras. É uma pequena viagem ao passado que me apraz, um jeito de reverenciar a tradição enquanto ainda há alguma para se honrar.

Eu não o traio, ele me corresponde. Se, quando chego lá, Ederaldo está ocupado – nunca marquei horário e duvido que alguém o faça –, há um acordo tácito para eu esperá-lo. Mesmo que seus dois sócios, os irmãos Dácio e Décio, estejam livres, não importa: eu sou cliente de Ederaldo, Ederaldo é meu atendente. Em termos pragmáticos, é um planejamento de trabalho pouco eficiente, reprovável por gestores empresariais. Mas gosto que as coisas por lá sejam assim, com esse sabor romântico antiquado.

Não é saudosismo piegas de opor presente cruel a passado idílico. Ederaldo sempre me fala de quando fazia barbas com navalha – e talvez fosse melhor chamá-lo de barbeiro em vez de cabeleireiro, soa mais másculo. Ouvindo-o falar desses tempos, sorrio e falo alguma besteira do tipo “aí sim era bom, hein?”. Gosto de imaginar a cena, lembra-me de filmes antigos.

Mas é claro que me dá uma aflição desgraçada imaginar meu pescocinho exposto a uma arma afiada, potencial transmissora de doenças, ainda por cima. Não entraria numa dessas não. Deus abençoe as lâminas descartáveis, o ar-condicionado, os antibióticos, a lasanha congelada, a Internet e o iPad – apesar de eu não ter um brinquedo desses, nem planos de adquiri-lo.

Apreciar os confortos do presente não significa, no entanto, deixar de valorizar quem trabalhou por uma vida inteira e ainda tem fôlego para continuar, porque acredita em sua obra. Não acho que Ederaldo realmente precise estar no seu salão das 9h às 19h, de terça a sábado. Mas é o que ele gosta de fazer, é o que sabe fazer, não há por que parar.

Acho triste – e é tão comum – quando vejo alguém falando “não vejo a hora de chegar a minha aposentadoria” ou, entre colegas mais jovens, “se ganhasse na loteria, sumia daqui para nunca mais voltar”.

Mesmo sem Ederaldo saber meu nome, tenho a impressão de que gosta de mim. Fiz, certa vez, matéria sobre seu salão para um jornal, ganhei pontos, é verdade. Mas prefiro pensar que também tenha algo a ver com o fato de eu estar sempre lá demonstrando minha fidelidade, sem ser parte de sua clientela característica: velhinhos e crianças, netos acompanhados dos avós.

Sou quieto, não sou dado a grandes arroubos emocionais ou físicos. Nunca abraçarei Ederaldo, ele não ouvirá de mim “você corta meu cabelo como ninguém”. Apenas volto lá mês após mês, confio no que faz, pago-o por seu trabalho e busco agradecê-lo de maneira firme e olhando em seus olhos. Haja vista seu exemplo, acho que é homenagem adequada.

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Declaração de princípios

Enchi o saco de gente proativa, eclética e com espírito de liderança. Não dou a mínima para quem tem vivência, bagagem cultural, atitude e muita disposição. Quero distância da Mari, da Paty, da Lu, da Vicky, da Rafa e da Cacau: prefiro evitar as baladas, dar as costas para a galera, interromper os movimentos e desunir os coletivos. Sobretudo, espero chegar à velhice sem ter acumulado experiência e sabedoria.

Desvinculem-me de quaisquer campanhas e correntes, sejam elas construtivas, edificantes, de alerta, necessárias, por uma causa justa… Ou vergonhosas, difamatórias, intolerantes, uma ameaça aos valores familiares, à religião e à segurança nacional.

Não me convidem para comer uma bela pasta acompanhada de um bom vinho tinto – seco, é claro. Dispenso a oportunidade de acampar em algum lugar remoto onde podemos entrar em contato com a natureza. Passo a chance de me conhecer melhor, viver uma vida mais saudável e estar por dentro do que acontece.

Não vejo beleza em maconheiros se achando muito inteligentes nas suas festas ruins e em bêbados vulgares perfeitamente convictos de que são especiais e estão livres das amarras da sociedade careta e opressora. Em minha opinião, é esteticamente muito antiquado glamourizar hotéis baratos, mendigos, prostitutas e travestis.

Isso não me impede de repudiar certos comentários recalcados fascistoides: aqueles que querem deitar porrada em quem gosta de queimar seu baseado, limpar o mundo dos bêbados na rua e mandar ao inferno quem não dispõe de sua sexualidade de maneira ortodoxa.

Desconfio de moralismo exacerbado ou putaria ostensiva – no mesmo grau. Desconfio de qualquer item do cardápio em que conste catupiry ou cheddar. Desconfio de pessoas que se dizem guerreiras ou do bem e desconfio fortemente de mulheres que tratam umas às outras por “amiga”. Tenho certa comiseração por cônjuges que se tratam por “pai” e “mãe”.

Estou cansado de autoproclamados esquerdistas tachando autoproclamados direitistas de demônios. Estou igualmente cansado de autoproclamados direitistas tachando autoproclamados esquerdistas de retardados. Deveriam todos se encontrar para passar um domingo numa sauna.

Estou por aqui de citações, verdadeiras ou não, de Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector (dois autores de que gosto). Estou por aqui de gente achando que basta falar mal de Paulo Coelho (um autor de que nunca li nenhum romance, mas aprecio as letras de canção) para comprovar erudição literária.

Também não dou apoio a quem se diverte horrores execrando Claudia Leitte, Justin Bieber ou algum sertanejo qualquer (não aprecio o trabalho de nenhum dos citados). Esses geralmente apresentam bandas de rock barulhentas como contraposição.

Enquanto vivo for, continuarei chamando Dunhill de Carlton e Milkybar de Lollo. E protestando contra as mulheres que pintam o cabelo de vermelho, intitulam-se ruivas (nós sabemos a maneira adequada de aferir a ruivice) e ainda vêm falar de orgulho ruivo.

De qualquer maneira, não compreendo também orgulho gay, orgulho negro, orgulho datilógrafo, orgulho míope, orgulho dos que preferem as empadas de palmito às empadas de frango. Não compreendo orgulho, de maneira geral.

Isso posto, adoro musicais do Fred Astaire, suco de maracujá com leite, conversas que não precisam de olás introdutórios, piadas infames, canções dos irmãos Gershwin, reencontros com velhos conhecidos, vestidos verdes, tardes libidinosas, passeios a esmo noturnos. E acho que só me resta você, querida.

Tentemos entender John sem camisa

Parece mesmo que ninguém ficou ao lado dele. Depois de seu ato inusitado, não vi uma única alma o defendendo, nem mesmo tentando contemporizar – é pau por todo o lado. Como os julgamentos sumários são sempre perigosos, talvez seja melhor tentarmos buscar interpretações diferenciadas.

Vamos aos fatos: na última quinta-feira, o vereador por Maringá João Alves Correa (PMDB), conhecido como John, compareceu de camiseta à Câmara Municipal. Não satisfeito com o grau de irreverência do traje, lá pelas tantas improvisou um strip-tease e ficou com o torso nu.

Justificativa alardeada pelo vereador a quem quisesse ouvir: como ele não queria que determinado projeto fosse votado naquele dia, teve a brilhante ideia de “melar” a sessão – e conseguiu, aliás.

Detalhezinho: foi ele mesmo quem havia pedido a votação do projeto em regime de urgência (?), esperando ganhar a prerrogativa de retirar o tema de pauta na última hora, para ganhar mais tempo (??). Ah, outra coisinha: o presidente da Câmara, que ao manter o projeto em votação desencadeou o imbróglio, é do mesmo partido de John.

Aparentemente, uma palhaçada absurda e inexplicável, daquelas de falar “Ê, Brasil…”. Mas apenas aparentemente, seus bobinhos embrutecidos. Só não vê quem não quer: John é na verdade um gênio criativo que, percebendo os esquemas viciados do jogo político, denuncia a sordidez por meio de performances e intervenções. Atacar o sistema dentro do próprio sistema, usando a linguagem transformadora e universal da arte.

Seu particular apreço pelo realismo fantástico já havia sido evidenciado em episódio de há algumas semanas, quando votou favoravelmente, no mesmo dia, por uma Câmara de Maringá com nove, 21 e 23 vereadores. E, oh!, com que magnífica lição de retórica John nos brindou quando justificou suas posições, que poderiam ser tomadas como contraditórias pelos espíritos mais grosseiros. De fazer inveja a filósofos sofistas, advogados, camelôs, Silvio Santos e Goebbels. Altamente educativo.

Voltando ao caso da falta de vestimenta, outro aspecto a passar despercebido pelos analistas foi a contundente crítica de John à ditadura dos padrões estéticos imposta pela sociedade ocidental. Num mundo cada vez mais neurótico por cortar calorias, o vereador não teve a mínima vergonha de mostrar a pancita estilo tiozão e os peitinhos flácidos.

De se louvar também seu timing e senso de oportunidade, trazendo à tona o debate na mesma semana em que o já notório comercial com Gisele Bündchen em roupas íntimas passou a correr o risco de ser censurado. E há local mais adequado para sustentar tal debate do que a Casa de Leis?

Se, por um lado, John não foge às pautas sérias, também renova o discurso político, trazendo às suas atuações na Câmara toques de entretenimento. Assim, na expectativa de ver o vereador em ação mais uma vez, mais pessoas podem se interessar em comparecer às sessões legislativas. John quer aumentar a representatividade democrática e trazer mais agentes para auxiliar uma classe tão desacreditada.

Poderia continuar dando exemplos das dimensões profundas do espetáculo de John: a evidente citação a São Francisco de Assis; o protesto contra a obrigatoriedade, em um país tropical, do uso de paletó (exemplo de submissão aos costumes europeus, típica de colônia); a homenagem a Brigitte Bardot e Sylvia Kristel, dois ícones da nudez pública, no dia do aniversário das atrizes.

Só não me alongo porque talvez alguém alegue que estou extrapolando e esse John merece todos os xingamentos recebidos e mais um pouco.