Obsessão (novembro)

Sei quem ela é, ela sabe quem eu sou, não nos conhecemos. E nunca direi olá, nunca me apresentarei, porque já passou da hora. Fiquemos assim então.

Não é curioso, alguém tão familiar há tanto tempo, uma perfeita desconhecida? Conheço, é verdade, alguns fragmentos de sua história, complementados pela imaginação. Passagens picantes, turbulências familiares, desvios sexuais rendem bons relatos na mesa do bar.

Talvez ela tenha ouvido falar de coisas constrangedoras sobre mim também – há fontes seguras –, mas nem se dê ao trabalho de contar às amigas, porque não dá a mínima importância. Quem sabe ouviu e já se esqueceu.

Nesta vez em que toquei sua mão meio sem querer, olhei em seus olhos tão diretamente quanto pude, não senti ali nada nada nada. Ou é a melhor atriz do mundo ou só havia tédio naquele azul, talvez um pouco de sono.

Será possível não me reconhecer? Melhor pensar isso do que a assumir me identificando, sim, mas não sentindo nem ódio, nem desejo, nem cumplicidade, nem deboche, nem curiosidade sequer. Toda essa mistura demoníaca que me consome há anos.

Eu a vejo volta e meia por aí, nos bares ruins, nas salas de concerto, na padaria de manhã. Não preciso procurar, não preciso perseguir, inevitável me surge – e parece sempre tão sozinha, mas como isso não a afetasse porque está acostumada. Ela aparenta ser rude.

Ou quem sabe essa imagem dura que faço dela seja pura mitificação construída com medo e distância. É lembrança de outra vida ou até já cheguei a falar ao telefone com ela certa vez, há milênios, boba, rindo de nervosa, absolutamente desinteressante? Impossível, minhas fantasias devem ser difíceis, misteriosas, inacessíveis.

E então especulo se talvez risse com uma ou outra coisa do que escrevo, talvez me acompanhasse ao cinema e fosse de aceitar convites repentinos para dar uma volta na madrugada. Já que gosto dessas coisas, prefiro imaginar assim. Deve ser do tipo que aprecia sarcasmo, acidez, frases espirituosas – mera impressão, só posso mesmo brincar de adivinhar.

Não sei se conhece Chet Baker, se tem especial predileção por tortas de maçã, odeia mais do que tudo na vida o som de uma furadeira funcionando. Sei que quando nervosa já gritou, xingou e quebrou copos, mas se formos parar para pensar isso nem é tão significativo assim.

Qualquer dia desses lhe envio um cartão postal, passo um trote na sua casa, mando um recado afetuoso por um amigo em comum, difamo-a nas redes sociais, remeto um buquê de rosas amarelas, arranjo algum maldito jeito de chamar sua atenção.

Não, isso é mentira, nunca direi olá, nunca me apresentarei, não faz sentido algum. Mas como seria bom tê-la, juro eu ainda hei de tê-la. Porque sei que poderia me fazer amado se ao menos ela me visse, se ao menos me encontrasse, se ao menos ela existisse.

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Perdendo peso e cultivando a antipatia

Perdi alguns vários quilos nos últimos meses por causa de um regime que fiz. As pessoas que me encontram e já não me viam há algum tempo sempre alternam entre dois tipos de reação: “nossa, como você emagreceu!” e “o que fez para perder tanto peso?”.

Sei que originalidade não é mesmo o forte do ser humano e aprecio as congratulações que recebo – geralmente a exclamação e a pergunta básicas vêm acompanhadas de um “parabéns!” ou coisa do tipo. Mas como as reações são muito próximas, decidi também padronizar as respostas, para não exigir muito de minha criatividade. Fico com “pois é, ainda mais charmoso e elegante sem prejuízo de meu intelecto privilegiado” e “adotei o regime do cigarro”.

Considero essas tiradas espirituosas, mas devo admitir que não são sucesso de público. As moças saudáveis, em particular, aquelas que eternamente se acham com dois quilos a mais, costumam ficar muito irritadas ante a sugestão de que para emagrecer é preciso fumar. Provavelmente esperavam algum discurso sobre reeducação alimentar ou, sei lá, a receita de um remédio miraculoso. Não entrei em nada disso.

Mas essas frases de efeito são só piadas mesmo, meus caros. Em primeiro lugar, garanto que infelizmente não me tenho tão em alta conta assim; depois, nunca fumei muito e, além disso, pretendo parar no ano que vem – famosas resoluções de ano novo. Não precisam olhar-me desejando que este escroto-chato-ranzinza-arrogante engorde tudo de novo e mais um pouco.

Em todo o caso, a praga seria inócua: assim como Scarlett prometeu nunca mais passar fome, juro solenemente que nunca mais serei gordo.

Mais: não me contentarei em apenas não ser gordo. Começarei a agir como ex-fumantes, ex-ateus e ex-comunistas. Irei atrás dos gordos tentando convencê-los a me seguir, darei lição de moral nos gordos, odiarei gordos, lembrarei de como eu era ridículo quando gordo, destilarei sarcasmo e ares de superioridade para cima dos gordos – acho melhor esclarecer que este parágrafo também é só piada, baseada no comportamento padrão (para o qual há exceções, o politicamente correto me obriga a dizer) de ex-fumantes, ex-ateus e ex-comunistas.

Estar de regime também me fez notar a quantidade impressionante de bebuns que existem no mundo. Entre os que levam esportivamente meu senso de humor e se permitem conversa mais longa, a maior admiração gira em torno de como consegui ficar tanto tempo sem beber.

Beber? Deus!, é o menor dos problemas, a não ser que estejamos nos referindo à coca-cola de verdade, com bastante açúcar. Quem precisa de álcool? Sinto falta mesmo é de bons hambúrgueres, estrogonofe, cremes e queijos, manteiga, massas, sorvete, brigadeiro, doce de leite. O espírito gordo prevalece.

Devo admitir, contudo, que será bom aparecer no Divina Dose e voltar a consumir algo além de horrendos refrigerantes light. Dona Ione e Seu Valter precisam de clientes não apenas assíduos, mas rentáveis.

Exercício de bom senso

Dizem que bom senso é a pior mercadoria do mundo para se vender, pois todo mundo acha que já tem. Confesso que não contrario a máxima e considero meu bom senso em excelente estado de manutenção, sem manchas, riscos, amassados ou sinais de uso.

Para o alívio dos ouvidos alheios, no entanto, devo esclarecer que não tento vendê-lo; pelo contrário, dou aqui amostras grátis de sua plenitude. Embora pequenas, podem ser bem aproveitadas em mesas de bar, encontros familiares e redes sociais. Vamos lá:

Adotar a cartilha do politicamente correto como manual de conduta é chatíssimo e, em casos extremados, uma ameaça à liberdade de expressão; neologismos do tipo “afrodescendente” (de tão nova a palavra, aparece grifada em vermelho no meu editor de texto) e “melhor idade” me irritam sobremaneira. Por outro lado, investir invariavelmente na linha polemista-que-desafia-as-convenções-estabelecidas é de um simplismo pueril, bom para criar frases de efeito e irritar toupeiras, mas ineficiente numa discussão com algum grau de seriedade. E afirmar que o tal Rafinha Bastos foi “censurado” é desconhecer o significado da palavra e demonstrar ignorância histórica;

Os militantes profissionais dos direitos humanos às vezes parecem deslocados da realidade. Sempre me lembro do “Todos Dizem Eu te Amo”, do Woody Allen, em que uma dessas senhoras ativistas bem-vestidas muda rapidinho de posicionamento quando a filha começa a se envolver com um assassino recém-saído da prisão, sedento por “oportunidades”. Há exageros dessa turma, okay, mas daí a passar a defender a pena de morte e vibrar com sangue derramado vai um longo caminho, que conduz à barbárie;

Defender que o ser humano nasce puro e todo mal é absorvido da sociedade corrompida é um posicionamento ingênuo e antiquado. Negar, no entanto, que em regiões com baixo índice de desenvolvimento humano há uma tendência maior a focos de criminalidade é desprezar a verdade estatística;

Estando no Brasil, anúncios em inglês do tipo “sale” ou não sei quantos por cento “off” me aborrecem um bocado, evito comprar nessas lojas. Também não entendo artistas nacionais que só cantam em inglês, só consigo imaginar que tenham vergonha de ser plenamente entendidos. E concordo, deve haver um pouco de reflexão antes da assimilação imediata de qualquer necessidade criada pela indústria – até aí tudo bem. Agora, dizer que os Estados Unidos são um país sem cultura e descerebrado… Em que categoria se enquadram Ella e F. Scott Fitzgerald, só para ficar em dois com o mesmo sobrenome?;

Todos têm o direito de se declararem de direita ou esquerda, ateus ou crentes. Mas estamos no século XXI, meus caros: falar em “ameaça comunista” e “império católico assassino” soa um pouco como alucinação. Há liberais que não são demônios egoístas e há pessoas que compactuam do ideário socialista sem serem completos imbecis merecedores de sarcasmo a cada palavra dirigida;

É um erro desprezar uma causa se apoiando em falhas individuais, próprias da natureza humana, de algum partidário dessa ideia. Atacar o argumentador e não o argumento sempre foi, e sempre será, canalha.