João Gilberto

Então João Gilberto cancelou seus concertos deste ano. Ou cancelaram para ele, conforme a maledicência da versão. Mau para todos os que nunca o viram se apresentando e perderam a provável última oportunidade.

Mas o pior de todo esse vai e volta, que pode ser atribuído com justiça à dupla inexperiente que o está empresariando, nem é o simples não-evento que se divulgou amplamente. O problema maior aqui é o fato de (mais) essa confusão envolvendo João Gilberto ter motivado uma torrente de besteiras escritas por comentaristas de Internet – a “cloaca de ressentimentos”, conforme definição feliz de Carlos Heitor Cony.

Ninguém é obrigado a gostar de João Gilberto – ninguém é obrigado a gostar de nada. Mais: é insano sugerir que, por sua contribuição à música brasileira, ele deve ter direitos civis diferenciados em relação aos meros mortais, como reivindicou a razoabilíssima Cláudia Faissol. Digo ainda que é perfeitamente lícito fazer piada com suas idiossincrasias e até criticá-lo por sua alienação do mundo real.

Isso é uma coisa. Daí a usar falhas humanas, que nada têm a ver com sua música, para rebaixar suas obras artísticas, vai um longo caminho – caminho este que, ao ser completo, oferece ao viajante um belo atestado de ignorância.

Sempre cito como exemplo pessoal a obra de Schoenberg: não me é agradável aos ouvidos, não me desce, não gosto. Levando em consideração, no entanto, a revolução que ele instaurou na criação musical e sua importância enorme para outros compositores influentes que o seguiram, não posso sair dizendo por aí que Schoenberg é uma bosta. Quer dizer, até posso, mas estarei sendo um imbecil. O problema não é de Schoenberg: é meu, que não tenho repertório suficiente para assimilar suas criações.

João Gilberto dividiu a música brasileira em antes e depois dele. De quebra, ainda influiu consideravelmente nos rumos do jazz; mostra uma sofisticação harmônica única para a canção popular e executa divisões diferentes para violão e voz como se tivesse dois cérebros – entre muitos outros predicados que poderiam ser listados.

Se você quer soar como um velho dinossauro babão e encher a boca para dizer “esse homem não canta, ele sussurra”, azar o seu; se tudo o que sua música lhe inspira é um profundo efeito soporífero, lamente-se apenas a falta de bom gosto.

Agora, pelo amor de Deus, não me venha com essa conversa de que João Gilberto é “invenção da mídia”, “o músico mais superestimado do mundo”, “nunca fez nada, apenas se aproveitou do talento de Tom e Vinicius”. Essa última variação do compêndio usual de bobagens deve ser, inclusive, uma manifestação bem brasileira de complexo de inferioridade aliado a estupidez: nunca vi ninguém diminuir Louis Armstrong porque não era um compositor.

É muito difícil escrever algo que superestime a importância da obra de João Gilberto: que outro artista foi responsável, sozinho, pela criação de um gênero musical, com certidão de nascimento tão definida? Que outro criador brasileiro, de qualquer arte, teve influência ampla e direta para a produção, em seu gênero, em nível mundial? Nem Villa-Lobos, nem Portinari, nem Aleijadinho (se é que existiu) ou Victor Brecheret, nem Machado de Assis, nem Nelson Rodrigues, nem Glauber Rocha, nem Oscar Niemeyer, nem Hugo Bianchi – confesso ajuda da wikipédia para preencher a categoria “dança”.

João Gilberto é o maior artista brasileiro. Ainda está vivo. Merece respeito.

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Londrina

Porque estamos sempre largados, com uma garrafa de alguma coisa na mão, reclamando de que não há lugar para sair. Isso às quatro da manhã, justamente em algum canto da cidade, como não poderia deixar de ser. E eu acho bonita e significativa essa contradição.

Porque, para amar, não basta se prender à parte boa da coisa: é preciso amar os defeitos também, sem deixar de apontá-los e fazer o possível para corrigi-los, quando for o caso. Então o Pé na Cova fechou, a Adega União encerrou as atividades, o Bar Brasil e o Valentino não são mais os mesmos. O Bar do Souza fechou depois de um período crepuscular em que se transformou num futsabão, ali perto de casa (isso aconteceu mesmo ou sou eu delirando?). Outras pocilgas hão de abrir, as novas gerações nem saberão do que estou falando. O resto é saudosismo.

Porque temos saudade. De todos esses bares que fecharam, das pessoas com quem bebemos neles, do Natureza (por onde anda?). Do Jardim Elétrico (é claro), daquela loja na Higienópolis com a Goiás que alugava CDs, lá tive a oportunidade de ouvir pela primeira vez o “Machine Head”.

Saudade daquela outra loja, no Catuaí, que vendia camisetas de bandas, devia ser o único maldito lugar em que eram vendidas camisetas de bandas, o Marcelinho filho da dona Matilde trabalhava lá – a mãe guardou a minha do Legião Urbana, “As Quatro Estações”, numa gaveta qualquer, eu nem sabia, minha mãe não é maravilhosa?, ela mora aqui.

E saudades da Morada do Sol, das canções do Seu Valter, sobretudo do bebedouro da Morada do Sol, provedor de uma água que Perrier nenhuma poderá jamais alcançar. Saudades do pastel do Bode Cheiroso.

Porque, no ano do Senhor de 2001, houve o antológico churrasco na casa da Vó Dorinha (ela não é minha avó) em que o Guilherminho apareceu de saia, entre outras passagens notáveis que o decoro me impede de declinar. Nunca havia visto tanta cerveja junta, todos deitados do lado de fora já fim da noite. Claro que deve ser a tal da memória afetiva, mas quando me lembro desse evento me vem a impressão de que todo mundo estava lá, não faltou ninguém. Pelo menos estavam… Ah, deixa pra lá. Outras pessoas devem ter, para elas, festas que significaram o mesmo, é fácil compreender.

Porque não é preciso ter saudades do pôr do sol no lago, das meninas com calças da Mulher Elástica, da panqueca do Pastel Mel e das relações custo-benefício maravilhosas do Santoíche e do Renatu’s. A rodoviária tem o melhor suco do mundo e não preciso provar todos os sucos do mundo para afirmar com segurança. Acreditam que nunca tomei a famosa vitamina da Sergipe?, puro preconceito contra o abacate. Mas é bom assim, ainda tenho algo a desbravar.

Porque aqui é berço de Arrigo Barnabé, Mário Bortolotto, Paulo de Moraes, Domingos Pellegrini, Nitis Jacon e Antonio Belinati, José Janene, Marcos Panissa. Porque temos buracos nas ruas e um monte de merda de pombos, parece que tudo a tocar nos bares são bandas cover. Mas o Cine Teatro Ouro Verde ainda me recebe solene, mesmo não sendo mais cine, mesmo depois de toda a bosta que fizeram com ele. As maçãs do amor da Exposição custam x na entrada e x/10 na saída, temos as ruas desertas atrás do Muffato e o Motel Platinum.

Porque conheci nestas plagas muita gente legal, mesmo em situações e locais improváveis. Porque, oras, conheci aqui a mulher que amo e ela vive na cidade (ou quase). Odeio a professora de Gramática como fosse hoje ela houvesse me desaforado – eu ia bem em sua disciplina, a melhor vingança. O curso de Jornalismo foi uma piada, mas das mais divertidas.

E a biblioteca, os Correios, o Julio Fuganti, o salão Coroados, a visão do Centro na Saul Elkind, o Londrina Esporte Clube, o cara da bengala e o Federação torcendo para o basquete, o He-Man, o professor Nelson e seu filho Jorginho (apenas 15 anos), as 24 horas no Águas & Cia, aquela caminhada do Heimtal até o Formigão, todos os bairros que não conheço.

Porque somos ranzinzas, xingamos, imprecamos, mas vivemos na cidade. E mesmo quando partimos, Londrina não nos deixa.

Crônica escrita às vésperas do aniversário da cidade, celebrado em 10 de dezembro.

Divina Dose

Eu nunca estive ao norte do Parque das Grevíleas e o mais para baixo que cheguei foi ao Borba Gato; lembro que vi de pertinho a Ópera de Arame, em Curitiba, mas preciso confessar que tive a ajuda do google images.

Só não se preocupe, minha amiga, porque esta situação há de mudar logo logo, garanto. Estou aqui juntando uns trocos, meu porquinho tá engordando. E quando o bicho estiver pesando o suficiente, você vem comigo e sairemos por aí esbanjando, prepare-se.

Porque me entenda, querida, eu não tô falando daquela rotina manjada de mochila nas costas, hostels e banheiros coletivos. Deus me livre!, esperamos tanto não é para isso: só adianto que haverá suítes presidenciais em nosso caminho.

Não demora muito, não demora muito não, saímos desta mesmice e desbravaremos o que há de melhor para conhecer neste mundo, cinco continentes e sete mares – ou quantos houver para navegar. Vai ser bom ver gente nova, bom ouvir novas línguas e maravilhoso esquecer o relógio de ponto.

Tudo bem, vai, vou dar uma palhinha dos planos. Tem um hotel no Rio de Janeiro, parece que chama Copacabana Palace, dizem que é decente. A gente fica uma semaninha lá, assim dá tempo de ver Cristo Redentor, Corcovado, Pão de Açúcar, Garota de Ipanema – se é que todos esses não são nomes diferentes para a mesma coisa.

A gente pode convidar o João Gilberto para tocar no nosso quarto, se você não estiver muito cansada no fim do dia. O cara é bom, mas quando chega não vai embora nunca mais, não tem a mínima noção e fica lá grudado na viola.

Em Nova Iorque, o que me recomendaram foi um tal de Waldorf Astoria, a salada de lá é famosinha. E tem um piano no saguão, você não precisa parar de praticar enquanto viaja. É um Steinway que pertenceu ao Cole Porter, capaz de ser ainda melhor do que o Fritz Dobbert da sua tia-avó.

Claro que comeremos croissants em Paris – e brioches, macarons, crêpe suzette, boeuf bourguignon, coq au vin, ménage à trois, moulin rouge, caviar, champagne. Escargots eu dispenso, sinceramente.

Depois de passar na França, certamente teremos coisas para confessar. Então, saindo de lá, acho melhor já tocar para Roma e ver o papa. Espero que a fila no confessionário não seja muito grande, o cara é bem famoso, aposto que outros terão a mesma ideia. Quanto à língua, não precisa se preocupar, ele quebra o galho no português.

Assim você me faz entregar tudo, sim, vamos passar pelo Japão, Turquia, gôndolas em Veneza, tulipas na Holanda, chocolate na Bélgica, suicídio na Suécia, vacas na Índia, voltaremos cheios de souvenirs para os amigos e milhas acumuladas no cartão.

O futuro é promissor, nós merecemos. Mas enquanto ainda vivemos no presente, enquanto esse dia não chega, já que estamos atolados aqui na velha Maringá… Por que a gente não dá uma passada, é o melhor a fazer, tô morrendo de vontade, vamos logo ao Divina Dose.

Inspirado por “Let’s Take a Walk Around the Block”, de Harold Arlen, Ira Gershwin e E.Y. Harburg