Mega Papo

Em homenagem à recente cerimônia de entrega dos prêmios Oscar, apresento aqui um roteiro publicitário. Um filminho para o serviço de relacionamentos telefônico Mega Papo.

Duas patricinhas comem dogão. As roupas e o falar afetados contrastam com a tosquice do lanche. Pronunciam as frases de maneira caricatural, infantilizada, como se estivessem lendo um texto pela primeira vez.  Enquanto conversam, ensebam o dogão de maionese e ketchup e se lambuzam.

VICKY – Amiga, vou te confessar uma coisinha, ando numa vibe muito deprê. Não sei o que tenho, não consigo atrair a homarada. Tenho busto avantajado, abuso dos decotes, sou permissiva sexualmente… Mas não adianta, tô mais melancólica do que filme do Bergman depois do Rivotril.

CACAU – Ai, amiga, ficar assim dando sopa pro baixo-astral… Que coisa mais século dezenove, sai desse zeitgeist. Hoje em dia, só não arranja macho quem não quer.

VICKY – Ai, mas por que só chove na sua horta, Cacau? Afinal, vamos ser sinceras, você já está meio gasta, e até as pedras já fizeram piada sobre sua hipersudorese.

CACAU – É só ligar para o Mega Papo, bobinha. (aparece um número na tela) É entrar e, em segundos, você já conhece um monte de gente animada, dinâmica, assertiva, que adora trabalhar em grupo, tem espírito de liderança, fôlego sexual e grande capacidade cognoscitiva. Foi lá que conheci o Tião Coca-litro. Ele me conquistou citando Nietzsche no original, em inglês, um charme. Marcamos de sair e, no mesmo dia, caímos na gandaia. Foi do balacobaco.

VICKY – Mas não é perigoso? Tenho medo de marcar encontro com desconhecidos.

CACAU – Perigoso? Medo? Só se você tem medo da coisa, Vicky. E não é o que dizem por aí…

VICKY – Aiiii… Não fala assim… Tô suscetível…

CACAU – Mega Papo é tiro e queda. Ninguém fica sozinho depois de entrar. Logo na primeira vez que testei, já consegui uma vigorosa conjunção carnal.

VICKY – Aiii… Assim eu fico suscetível… Mas acho que vou arriscar e ligar. Estou precisando conhecer gente nova, ter experiências, ganhar vivência, adquirir bagagem cultural de valor inestimável e incrementar meu currículo.

CACAU – Isso mesmo, tem de ser guerreira, pró-ativa, demonstrar muita atitude e ter sempre pensamento positivo. E lembre-se (para a câmera): no fim, tudo dá certo; se não dá certo, é porque não chegou ao fim.

VICKY – Ai, assim você me mata, tô suscetível. Você sabe que não me aguento quando você cita Clarice Lispector.

CACAU – É Caio Fernando Abreu, sua antinha. E para de perder tempo comigo, entra no Mega Papo e vai tirar logo o atraso dessa periquita descolorida.

VICKY – (levanta-se num pulo, com a boca melecada de molho do dogão) Fui, cherie. Vou ser feliz e já volto.

(Cacau é deixada sentada sozinha e sorri com ar maternal, cara de “essa menina não tem jeito”. Logo depois, fica séria repentinamente, nota que Vicky deixou um resto de lanche na mesa. Dá uma espiada ao redor para ver se não tem ninguém olhando e rouba o dogão deixado pela amiga.)

CACAU(mastigando, para a câmera) Mega Papo é bom demais. É uma delícia. Liga você também, vai. (séria) E quem falar mal SÃO TUDO INVEJOSO. (rosto se abranda) Pedras no caminho? Guarde todas. Um dia farás um castelo. (Cacau pisca e o filme termina em fade-out)

O carnaval do Correia

Eu não sei o que é mais chato: o carnaval em si ou a turma que faz questão de sair anunciando o quanto odeia o carnaval. Desconfio seriamente que esse pessoal na verdade adora a festa, é uma boa chance para demonstrarem o quanto são diferentões e inconformados com o sistema (seja lá o que for isso), além de terem a oportunidade perfeita para se reunirem em programas “alternativos” e “independentes”.

Quanto ao carnaval, creio que estou com a maioria dos brasileiros: não tenho muito pique para aglomerações orgiásticas, mas meu lado indolente folga com a possibilidade de um feriado estendido – claro que, tendo a sorte de pegar um plantão carnavalesco, esse sentido é esvaziado.

Confesso que lamento um pouco (tenho um sentimento nostálgico) o fato de o samba e as marchinhas perderem cada vez mais espaço. Sobram o axé e aquela batida acelerada executada nos desfiles das chamadas escolas de samba, cujo gênero musical não sei classificar. Mas ainda assim não perco o sono com isso, prefiro direcionar o tempo da minha notória ranzinzice para outros assuntos.

Lembrança boa do carnaval tenho quando penso no Correia, por onde será que anda? Para ele, não tinha final de Copa do Mundo, Natal, dia de eleição: a grande data cívica era a apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro. Recebia-nos em sua casa, o mais opulento churrasco – preparado pelo Pará ou pelo Falleiros, o Correia não mexia com essas coisas, mas dava a maior força.

Talvez seja bom mencionar que o Correia nunca havia colocado os pés no Rio. E também jamais assistia aos desfiles pela TV. Isso não o impedia de torcer alucinadamente na apuração e obrigar-nos a acompanhar aquilo como fosse a mais importante coisa da galáxia.

Um detalhe curioso é que a escola para a qual Correia dirigia sua torcida variava de ano para ano. No começo, ficávamos intrigados, “Ué, Correia, torcendo pela Mocidade, você não era Imperatriz ano passado?”. Ele nem dizia nada, olhava-nos como se estivéssemos falando que a Terra é quadrada, o absurdo dos absurdos. Tivemos de nos acostumar com suas peculiaridades.

Mesmo sem ter visto as escolas, Correia se permitia pareceres técnicos e apaixonados. Nove e meio em adereços para a Mangueira? Devem estar de brincadeira, este ano conseguimos combinar luxo e leveza. Dez na bateria da Beija-Flor, com todas aquelas paradinhas que deram errado? Esta porcaria é comprada.

O diabo é que, em seu inusitado revezamento, Correia nunca conseguia acertar. Jamais viu sua escola do ano ser campeã. Lembro certa vez, a Vila Isabel perdeu por dois décimos, lágrimas escorriam de seus olhos, fiquei assustado. “O Noel merecia esta, André, o Noel merecia.” No ano seguinte, já salgueirense convicto, Correia não pôde apreciar a vitória da Vila.

Eu conheci o Correia em outros carnavais, que ficaram no passado. Lembrarei dele nesta quarta de cinzas: espero que sua escola ganhe, seja lá qual for. Ele merece.

Resoluções tardias

Em pleno fevereiro, deve estar meio tarde para publicar minhas resoluções sobre 2012. É verdade, ainda não passamos pelo carnaval, os que têm condições dizem que o ano está por começar – não sou um desses, infelizmente.

Seria prudente, no entanto, ter mais pressa do que num ano normal, já que, dizem os entendidos e alguns produtores de Hollywood, o mundo acaba antes do próximo Réveillon. Essa postura filosófica poderia ser sintetizada em algo como “se é para fazer um monte de promessas furadas, aproveite enquanto é tempo, meu filho”.

E mesmo sabendo disso, não segui o senso comum e posterguei as resoluções. Analisando em retrospecto, minha negligência talvez venha do fato de que, deixem-me confessar algo, realmente não acredito no fim do mundo para tão logo. Mas, por favor, é só opinião minha, posso estar enganado, eu jurava que o Neymar arrasaria na final contra o Barcelona.

E mesmo se a Terra for para os ares mesmo, precisa tanto alarde? A ideia de morrer é ruim quando você para e pensa no tanto de coisas que perderá, o próximo filme do Woody Allen, nunca mais a caipirinha do Divina Dose, quem sabe o Corinthians ainda seja campeão da Libertadores, vai que resolvem abrir uma nova hamburgueria, com quem sua mulher vai ficar, e se a loira do colégio depois de anos finalmente te desse mole?

Agora, se a festa acaba para todos, se não há patamar de comparação, não há razões para ter ciúmes dos vivos e, portanto, não há motivos para sofrimento.

Além disso, apesar de alguns danos residuais, é de se pensar na economia que um apocalipsezinho proporcionaria aos cofres públicos do Rio de Janeiro, corte radical nas despesas com fogos de artifício.

O duro é saber que, mesmo com todo o tempo bônus a que me dei direito, não consigo pensar em nada além de superficialidades como resoluções de ano novo. E já que atrasei até aqui, vamos agora nos adiantando para programar o Natal (se é que chegaremos até lá).

Comprometo-me a nunca mais comer panetone. Meu ódio pelas frutas cristalizadas é antigo, mas em dezembro último vi um negócio rotulado como “panetone de doce de leite” e achei que estava ali uma boa oportunidade de me enquadrar nas tradições. Afinal, um bolinho cheio de doce de leite não poderia ser ruim, não é mesmo?

Pois bem, descobri dolorosamente que um panetone de doce de leite não é um bolo com doce de leite, é simplesmente um panetone de doce de leite e, nessa condição, tem gosto de panetone. Tal singeleza não me ocorrera. Maquiar o horrendo panetone com a maravilha que é o doce de leite equivale, para mim, a não tomar banho e depois se cobrir de perfume francês. Ter feito essa constatação (e a aceitado com serenidade) pode me tornar uma pessoa melhor neste ano, tenho fé.

E desta vez é verdade, juro, não voltarei a cair na armadilha da peça em espanhol no festival de teatro até dominar minimamente a língua. Sempre o mesmo discurso, só variam os interlocutores, “vem comigo, André, dá pra entender tranquilo, é parecido com português, os jornais tão falando maravilhas desse grupo”. E eu engulo, ano após ano, não sei bem por que, pois a única frase que consigo distinguir nas peças é “muchacho del carajo” – uma expressão recorrente na dramaturgia latino-americana, ao que me parece.

No mais, quero continuar saindo com meus amigos sem o tédio do planejamento antecipado, da permissividade vigiada, dos ligeiros desvios de normas que são suportáveis porque no final tudo se mantém sob controle. Valorizo a espontaneidade. Nada mais deprimente do que a noite do pôquer na primeira quinta-feira do mês, a terça da maconha com amônia, a sexta do adultério ao meio-dia.

Cine Teatro Ouro Verde, solene

Embora bonito, principalmente em seu saguão, o prédio nem era lá tão imponente assim. Seria brincadeira compará-lo ao Teatro Municipal de São Paulo, para ficar apenas entre os que conheço. Mas o Cine Teatro Ouro Verde sempre me recebeu como o mais solene do mundo, por estar em minha cidade, guardando tantas histórias.

Histórias de Londrina, da qual era o mais simbólico monumento artístico; histórias minhas, insignificantes para a posteridade, mas de saudosa memória. Solene, sim, essa a palavra, o Ouro Verde seria o lugar em que tiraria o chapéu e manteria silêncio para entrar – se usasse chapéu, se essas convenções ainda fossem respeitadas. Barulheira e amontoados estúpidos de gente nas entradas dos eventos não eram suficientes para tirar a solenidade do lugar.

Evidente, não sou só eu que tenho lembranças fortes, que guardo respeito enorme por aquela construção. Qualquer um minimamente participante na vida cultural de Londrina terá relatos bonitos a contar, peças, filmes e concertos a que assistiu lá, relacionando as cenas a pessoas com as quais o contato está hoje restrito à saudade.

Numa rápida checagem pelas redes sociais, no entanto, vejo uma manifestação generalizada de pesar por essa tragédia. Incluindo aí gente que não faz a mínima ideia de quem seja Artigas, para quem Astor Piazzolla soa como nome de personagem de desenho animado, para quem o FILO pode ser descrito como um bando de hippies inexplicavelmente formando filas imensas para ver peças indecifráveis.

Falo isso com sincera admiração, melhor explicar, estou passando longe de despeito. Não é hora para ressentimentos torpes do tipo “nunca pôs os pés lá e agora fica dando uma de sentido”. Pelo contrário, acho tocante essa tragédia comover um tipo de público que está além dos frequentadores habituais. É um indício auspicioso de que os londrinenses sabemos reconhecer um ícone, um local quase sagrado para a cidade. Solene, desculpem a insistência.

E, ah, tentaram e tentaram acabar com essa solenidade. Dá raiva até hoje de lembrar aquela malfadada reforma depois da qual o Ouro Verde perdeu a condição de Cine (anterior à de teatro, aliás) e ganhou uma madeira esquisita que fedia merda. Pois bem, fedendo merda o Ouro Verde era belo e solene e era tão bom ir lá.

Não deixa de ser uma terrível ironia que seja o fogo a vitimar nosso Cine Teatro. O fogo, de tantos rituais sagrados, atraindo o homem desde o início da existência. Até essa desgraça é solene.

Como tantas catedrais na História, o Ouro Verde sobreviverá ao incêndio e será reconstruído. Para os londrinenses que ainda virão poderem compartilhar suas histórias do lugar, guardarem seu respeito, décadas a fio. Sempre solene.