Dinheiro e poder

– Que maravilha, seu José da Silva. E agora, o que pretende fazer com esse magnífico prêmio de um milhão de reais?

– Ah, eu tô muito feliz, já ajuda bastante. Vou terminar de pagar as dívidas, comprar uma casa própria pra mãe, um apartamento no Leblon pra família, uma Ferrari, mais uns carrinhos pros filhos, sustentar três amantes, promover orgias regadas a champagne e cocaína, comprar uma girafa, um chafariz, investir em ações da Petrobrás, adquirir uma fazenda no Mato Grosso, separar uma boa parte pros amigos e familiares distantes que voltarão do além, doar dez por cento pra caridade, arranjar um estoque vitalício de charutos cubanos e comer três churros com dose dupla de doce de leite.

– Que coisa linda, é o Mega Prêmio realizando sonhos!

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Em dezembro último, fizeram uma aposta conjunta na redação para a Mega Sena. Não participei. Nosso grande editor Clóvis veio brincar comigo dizendo algo do tipo, “segunda-feira, vai todo mundo estar rico e você vai ficar sozinho e pobre para fechar o jornal”.

Infelizmente, a previsão não se concretizou.

Mas juro, se o pessoal tivesse ficado todo milionário e ainda me encontrasse antes de sair correndo, daria os parabéns e o meu “que bom para vocês” viria sem um pingo de arrependimento ou inveja. Imagino que deva ser difícil de acreditar numa coisa dessas, só posso dar minha palavra.

Estou sempre fora de apostas e sorteios. Não faço isso por moralismo, dogma religioso ou desapego ao dinheiro. Acho que deve ser muito bom ter grana sobrando, na verdade. Mas é o velho ditado, “easy comes, easy goes”, ganhar uma bolada desse jeito não traz a doce sensação da conquista. O ser humano se adapta facilmente a condições muito distintas, logo tomar Veuve Clicquot e morar num apartamento de cinco mil metros quadrados deixa de ser um prazer para se transformar num hábito.

O gozo do poder e da influência é muito superior ao de simplesmente ter dinheiro na conta bancária. Isso explica por que políticos já nadando em grana continuam se envolvendo em maracutaias, querendo sempre mais.

Deixa a Mega Sena para os outros. Sabe o que eu queria de verdade? Ser o cara que, uma vez na vida, inicia o coro na audiência de um determinado show pedindo uma canção específica. Ou, num evento esportivo, comanda a torcida num grito de guerra. “Juiz ladrão, porrada é solução” ou qualquer coisa assim.

Você, um zé mané qualquer perdido entre milhares de pessoas, começa a gritar palavras que uma multidão passa a repetir, hipnotizada. Por uns instantes gloriosos, o sentimento é de ser maior do que o próprio artista ou o jogo em questão. Liderar as massas. E isso absolutamente não é raridade, em todo show ou jogo de futebol algumas pessoas conseguem. Já tentei algumas vezes, mas nunca fui feliz.

Que belo papel, André. Desprezando milionários para admirar bêbados de auditório e líderes de torcida… Não adianta, estou mesmo condenado a ser pobre.

Um cigarro antes da sobremesa

O apartamento para o qual estou me mudando tem um cofre no quarto. Um cofre. De altura, deve ter um metro. O peso, não sei estimar, mas posso garantir que é bem mais do que meus pobres braços aguentam, até mesmo para arrastá-lo – vãs tentativas. Que tipo de pessoa abandona um cofre vazio no apartamento e o deixa para novos inquilinos descapitalizados? Se eu procurar bem, acabarei achando as setes esposas do Barba Azul em algum lugar do imóvel. Um cofre, francamente, isso não me é de valia alguma. Se fosse para escolher apartamentos com itens excêntricos, bem que este poderia ter uma passagem secreta. Sempre quis uma passagem secreta, quem não quer uma passagem secreta?, elas são legais. Mesmo levando do nada ao lugar nenhum, a ideia de ela ser secreta é que traz o charme. Disposto numa passagem secreta, talvez o cofre fosse bacana. Ali, irremovível do meu quarto, é só um trambolho inconveniente.

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Restaurantes self-service são condenados por todo mundo que diz entender alguma coisa de gastronomia. A ideia de misturar vários tipos de comida, sem critério algum, e ir amontoando num prato arroz, feijão, farofa, macarrão com molho de tomate e alguma coisa aos quatro queijos (sempre há alguma coisa aos quatro queijos) não deve parecer mesmo muito bela aos olhos da família Fasano. Mas questões estéticas à parte, os self-service existem, são práticos e nos acostumamos a eles em nossas vidas – falo aqui em nome dos que não podem apreciar os serviços da família Fasano. Isso posto, por que diabos é tão difícil encontrar um quilão aberto à noite? Há alguma lei dizendo que eles só podem funcionar em horário de almoço? Quero ir a um self-service noturno, e um que tenha gelatina verde de graça, como é de praxe nas melhores casas do gênero.

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Andam complicando demais as nossas vidas. Deve ser algum mecanismo de compensação divina: em contraponto à telefonia celular, transações bancárias informatizadas e Internet, arranjam um jeito de dificultar o que era simples. O exemplo clássico, já muito explorado em sitcoms, são os controles remotos das televisões, cada vez mais cheios de botões e indecifráveis. Os joysticks dos videogames seguem na mesma linha. Mas me surpreendi ao perceber que mesmo longe da área da tecnologia a coisa anda embananada. Até onde me lembrava, o Jogo da Vida era uma brincadeira estúpida de tabuleiro, basicamente ir andando com um carrinho e seguir as instruções das casas. Pois bem, fui me meter a jogar isso outro dia e precisaria de uma droga dum curso de Economia para entender direito as regras – ou será que eu apenas emburreci? Só me resta mesmo o Ludo Real, aquele maravilhoso jogo em que você só precisa lançar dados e andar com seu peão. Não é exigida nenhuma inteligência, qualquer macaco tem chances iguais às suas, sem possibilidades de trapaça, não se depende de nada além da sorte. Não é poético?

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A canção do menino Michel Teló não é tão ruim quanto querem fazer você pensar. Para desqualificá-la, prendem-se à pobreza lírica do tema. Eu pergunto: e daí? É uma música gostosinha, grudenta, presta-se ao seu intuito de fazer dançar. “A-wop bop-a loo-mop, a-lop bam-boom! Tutti Frutti, aw-rooty” também não se assemelha muito a Shakespeare e é um clássico incontestável, certo? Nada na discografia do Pearl Jam é tão bom quanto “Ai, Se Eu Te Pego”.