Catedral, crucifixos, parada gay e factoides

Acredito que ainda esteja em tempo de dar meus dois centavos sobre o assunto: na semana passada, Maringá virou pauta nacional por causa de um cartaz anunciando sua parada LGBT, popularmente conhecida como parada gay. A ilustração mostra a Catedral da cidade sendo danificada por um raio de luz solar que, ao atravessar a igreja, transforma-se num arco-íris. A criadora do desenho se disse inspirada pela famosa capa do álbum “The Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Houve gente indignada. A Igreja Católica, como era de se esperar, chiou. O arcebispo de Maringá, dom Anuar Battisti, escreveu em seu blog que a Catedral, “antes de símbolo de Maringá, é um símbolo religioso da fé da maioria dos maringaenses”. Por essa razão, colocando-se como representante de todos os que se viram ofendidos em sua fé, solicitou a retirada do cartaz de todos os meios de comunicação – pedido que, posteriormente, o próprio arcebispo considerou inócuo, haja vista o poder propagador da internet.

O argumento de dom Anuar se torna estranho quando lembrada outra polêmica recente envolvendo a Igreja. Um argumento muito constante entre aqueles que defendem a permanência de símbolos religiosos em escolas, tribunais e repartições públicas é justamente o fato de o crucifixo já haver transcendido a simbologia cristã. Ora, por que então a Catedral de Maringá, cartão-postal óbvio da cidade, também não pode ser representada sem levar em conta a religiosidade?

Essa linha de raciocínio é coerente. Mas se ater a ela para discutir a questão pontual do cartaz da parada gay seria cometer a canalhice muito comum de buscar a desqualificação do argumentador, não do argumento. Quem não se sente representado pelo catolicismo tem – sim! – o direito de incomodar-se ao ver um crucifixo num tribunal e pode cobrar pela laicidade do Estado; por sua vez, é lógico que os católicos se zanguem ao ver um símbolo tão solene sendo tratado de maneira, mais do que irreverente, agressiva.

A comparação com a delicada capa do álbum soa como piada: no cartaz, vemos a Catedral sendo explodida por um arco-íris – símbolo associado ao movimento gay. O fato de a autora da arte declarar-se completamente desprovida de intenções bélicas é irrelevante: impossível que não tenha ocorrido aos organizadores do evento que a divulgação de material dessa natureza geraria celeuma tremenda. Alguém deu respaldo ao desenho e queria ver o circo pegando fogo.

O que poderia passar como mera provocação pueril ganha contornos mais significativos quando se atenta para as sabidas intenções eleitorais de figuras de destaque do movimento gay de Maringá. Afinal, o que contribui para a aceitação do diverso e do plural criar briga de maneira tão rasa com os setores mais conservadores da sociedade? Pouco ou nada. Em compensação, figuras de referências do movimento ganham exposição gratuita na mídia – nesse sentido, o episódio do cartaz foi um total sucesso, parabéns aos organizadores.

Há outros indícios da pouca seriedade dessa discussão toda. Bastou dom Anuar declarar, vagamente, a possibilidade (sem prazos) de um dia, quem sabe, ser criada uma Pastoral da Diversidade em Maringá para que tudo fosse dado como belo e resolvido. Qual bom político, o sr. Luiz Modesto, editor do site Maringay, deu a mão ao arcebispo e se disse “encantado”.

Modesto acreditou mesmo nessa ideia? É homem inteligente e sem espaço para ingenuidade: sabe bem que uma Pastoral da Diversidade não está nos planos da Igreja Católica para os próximos cem anos. Mas a balbúrdia já estava feita, não mais convinha ficar batendo de frente com figura tão respeitada e querida na cidade, não é mesmo? E assim a reflexão acerca de questões fundamentais continua sendo preterida em favor de factoides. Pena.

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A cabra do Seu Joaquim

Ah, essa minha sinceridade excessiva, preciso trabalhar isso. Uma estudante de jornalismo veio outro dia me entrevistar sobre meu trabalho, quase me dei ao luxo de ficar envaidecido. Antes que pudesse ajeitar o cabelo e assumir a pose de popstar que ensaiei em frente ao espelho, ela resolveu me perguntar sobre a leitura mais marcante da minha vida – danou-se.

Não consegui dissimular, assim como a mocinha não escondeu a decepção com minha resposta. Deveria estar esperando “Ulisses”, “Em Busca do Tempo Perdido”, “A Montanha Mágica”, algum livro obscuro de autor com mais de 90% do nome formado por consoantes. Mas o que citei foi “A Cabra do Seu Joaquim,” porque não sei mentir, simples assim. Ela deu um sorriso, muito obrigado, e antes de sair prometeu que ligaria se precisasse de mais alguma coisa. Por um instante pensei que estava pedindo emprego para a menina, mas não era o caso.

Como esquecer a cabra do Seu Joaquim? Aquele livro foi a única coisa que ganhei em sorteio na vida, ia pelos meus sete ou oito anos. Nem por isso fiquei feliz: era alguma feira cultural da escola, no final deram prêmios, um colega ganhou um kit de mágicas, com varinha e tudo!, e eu fiquei com a cabra do Joaquim. Eu achava (continuo achando) o ilusionismo a arte suprema, como não ter inveja? Cabra do Seu Joaquim, francamente, do alto de minhas oito primaveras achava aquele universo bucólico muito pouco sofisticado.

O livro ficou largado por semanas, nem lembro por que resolvi dar uma chance para aquelas minguadas páginas. Quando o fiz, no entanto, o terrível e misterioso enredo entrou em minha mente para nunca mais sair, há de me acompanhar até o fim dos dias.

Seu Joaquim tem um monte de cabras. Com uma delas, nascida em sua propriedade, entende-se particularmente bem. Rola uma grande empatia, comunicação não-verbal afiadíssima. A cabra sente-se amada, querida, mas os limites do cercado a incomodam com o passar do tempo. Altamente sensível, Joaquim percebe a aflição de seu bichinho. Apenas com o olhar, transmite sua advertência à cabra afinal anônima, porém distinta em seus cuidados e afeição: “não fuja do cercado, ou você será comida pelo lobo”.

A cabra respeita a ascendência de seu proprietário, mas a chama em seu peito não se extingue. Joaquim se sente impotente, só conseguindo responder com olhares cada vez mais intensos e repressores. Receia que o destino já esteja traçado. O bicho sabe que o velho tem razão em suas preocupações, mas não pode refrear seus anseios de liberdade. Quer a imensidão dos verdes prados.

Numa madrugada, foge, afinal. Passa o dia inteiro gozando a imensidão do universo, sente-se imensamente feliz, quase humana. Ao crepúsculo, numa cena ilustrada com requintes no livro, o inevitável lobo surge e a ataca. Sangue na grama. A cabra agoniza lentamente e morre em dúvida, sem saber se tudo valeu a pena.

Qual é o ponto em direcionar uma história dessas a crianças? Qual é, afinal, a moral da fábula? Quem foge de casa é comido pelo lobo? Levantes devem ser respondidos com derramamento de sangue? Ou, analisando por outro ponto de vista, tudo vale a pena se a alma não é pequena? Carpe diem? Live fast, die young?

Nem os porcos de Orwell, nem o corvo de Poe, as pombas de Raimundo Correia ou a raposa de Fontaine: o animal mais simbólico sempre me será a cabra – de seu Joaquim.

Elogio desinteressado

Por quê? Porque eu gosto do seu nariz, dos seus pés e do seu cotovelo. Você não sabe, não teria como saber até agora, mas enquanto dorme posso passar longos minutos observando seu pescoço – só seu pescoço. E passar então a outra área de seu corpo e me parabenizar pelo objeto de estudo à minha frente, possibilidades infinitas neste jogo um pouco egoísta: você dorme e não sabe o que acontece. Mas às vezes se revira de súbito, acorda por um instante mínimo e me vê. Sempre sorri. Acho que se sente protegida. Então me sinto autorizado a continuar.

É uma das razões, entre tantas outras. Se você nunca saísse de vista, eu poderia continuar as enumerando, sem parar, pelo resto da vida. A inspiração estaria garantida, pois sempre há novidades em cada traço que penso conhecer de cor – ledo e doce engano.

E gosto de lembrar como ficamos pela primeira vez, se fosse inventar um roteiro não conseguiria fazê-lo tão divertido. Sabe, acho essas coisas importantes, boas histórias para contar à descendência. E raízes fortes geram bons frutos, né? Ahn, não sei se essa metáfora biológica está muito correta… Mas algo que começou assim não pode dar errado, céus.

Combinamos no jeito que discordamos. Você sempre está com muito frio ou com muito calor, que menina termicamente difícil de agradar. E adoro como você consegue me prender falando de um assunto que absolutamente não me interessa, mas com uma paixão tal que… Seu entusiasmo torna atraente qualquer assunto, direito previdenciário, geopolítica da África do Sul, as enormes diferenças entre rãs, sapos e pererecas, como as pessoas conseguem se confundir?

Acho que são seus valores, sua busca pelo justo, sua determinação em seguir o que acha correto, sua absoluta confiança em mim. Essas coisas nos fazem ter certeza de que fizemos a escolha perfeita – ou de que a escolha perfeita nos veio por raro presente do destino, ele não costuma ser generoso gratuitamente. Ah sim, estamos juntos para além do sexo e da música, mas inclusive nestes dois quesitos básicos. E se você realmente não gosta de filmes noir dos anos 50, consegue fingir muito bem, qualquer das hipóteses é admirável. Eu desejo, admiro, tenho orgulho de você.

Raro dom de um conseguir completar a história nonsense do outro, antes não achávamos companhia adequada para nossos devaneios, nosso peculiar senso de humor. Rara felicidade de encontrar conforto em palavras simples que qualquer um poderia dizer ou no abraço apertado que absolutamente não é invenção nossa, mas que nos acolhe tão bem – porque somos eu e você, porque somos um casal. E por último, mas não menos importante, e com toda a solenidade, nossa, você é linda linda tão linda.

Isso tudo posto, acho que fiz a lição de casa direitinho, será que você me ajuda com a roupa esta semana? Você sabe que não consigo entender aquela máquina, um ferro para mim é tão misterioso quanto física quântica. Quebra essa, vai.