Cinema e TV

Sabe aquela pergunta clássica em perfis de celebridades? “Se pudesse escolher uma personalidade, viva ou morta, para jantar com você, quem seria?”. Não sou celebridade e ninguém se deu ao trabalho de me fazer tal questionamento, mas dou a resposta mesmo assim: Fred Astaire.

Aí estava um camarada talentoso, dançarino, coreógrafo, ator, cantor, pianista. Há alguns outros exemplos, bem mais destacados até, de artistas polivalentes – mas não me parecem pessoas agradáveis para se ter em uma mesa de jantar. É verdade, é célebre o perfeccionismo de Astaire em relação aos seus números de dança, exigia ensaios e mais ensaios das parceiras.

Mas, mesmo assim, está distante da imagem do gênio irascível e megalomaníaco. Astaire nos passa uma impressão de familiaridade: é como se fosse um tio elegante, carismático e boa-praça, embora seja difícil alguém achar um tio que dance como ele.

Astaire nasceu em 1899, e desde criancinha dançava ao lado de sua irmã, Adele, em espetáculos de teatro. Em Hollywood, começou a atuar nos anos 30, na era da depressão. Mesmo naquela época, seus filmes eram considerados mero escapismo, com roteiros muito bobos: em seus primeiros trabalhos, ao lado de Ginger Rogers, são sempre variações de “homem conhece mulher, apaixona-se, corre atrás dela, há algum mal-entendido entre os dois, o mal-entendido se desfaz, surge mais alguma barreira, que é superada, e o casal vive feliz para sempre”.

Mas esse escapismo funciona bem até hoje, os filmes de Astaire ainda deixam os espectadores felizes e leves, 75 anos após a realização. E esse fator atemporal não é justamente um dos maiores índices de avaliação de uma obra de arte?

Claro que a permanência de seus filmes está fortemente ligada à dança – da qual não se precisa dizer muito, é o maior dançarino da história do cinema e foi elogiado por gente como Nureyev – e à música. Mesmo modestíssimo em relação a suas habilidades como cantor (tinha uma voz de pouca extensão), era um intérprete muito querido entre os maiores compositores da época, pela fidelidade com que reproduzia as melodias e a clareza ao dizer as letras.

Uma pequena lista dos clássicos que tiveram sua primeira gravação com Astaire inclui “Night and Day”, “Cheek to Cheek”, “Let’s Face the Music and Dance”, “Change Partners”, “The Way You Look Tonight”, “Fascinating Rhythm” e “One for My Baby”. Algum outro nome introduziu tantos standards ao cancioneiro americano? (Curiosidade: dizem que a última palavra dita por George Gershwin foi “Astaire”.)

Pensar nessa durabilidade do que era o entretenimento mais popular possível do cinema de então nos faz olhar com certa tristeza para o panorama atual de Hollywood. Em 2011, das dez maiores bilheterias do ano, nove foram continuações; entre as quarenta maiores bilheterias, apenas um trabalho concorreu ao Oscar de melhor filme, “Histórias Cruzadas”, o pior entre os indicados. Será que algo dessa safra de blockbusters sobreviverá?

Curiosamente, uma resposta à infantilização do cinema americano vem de onde menos se poderia esperar: a TV. Durante muitos anos, “os enlatados norte-americanos” foram considerados o que se poderia ter de pior da indústria cultural. Mas basta se isentar de alguns preconceitos para constatar que a média dos roteiros para seriados está muito acima da média dos roteiros cinematográficos do país.

As melhores séries têm humor fino e diálogos rápidos, repletos de referências sofisticadas que não podem ser compreendidas por crianças e adolescentes. Mesmo terminando após o seu auge, “House”, que teve seu último capítulo na semana passada, deixará saudades; “Mad Men” merece ser acompanhada como o que é, um trabalho artístico; e “Seinfeld”, quinze anos após seu encerramento, está estabelecida como um dos grandes momentos do humor no século XX.

O eu-lírico feminino em Chico Buarque

Na semana passada, ouvi pela milionésima vez que Chico Buarque “entende a alma feminina” – uma garota me disse isso enquanto escutava a canção “Tatuagem”. Todos sabemos que é um tremendo lugar-comum esse negócio de ligar a alma feminina ao Chico. Uma questão interessante seria descobrir quando se passou a fazer essa relação; qual o primeiro registro, na mídia ou na academia, de alguém usando a ideia.

Tal trabalho exigiria uma pesquisa historiográfica rigorosa, demandaria tempo. Mas mesmo somente utilizando alguns poucos fatos notórios, já podemos lançar luz sobre questões que não vêm sendo adequadamente debatidas quando o assunto é o eu-lírico feminino na obra de Chico Buarque – e na canção brasileira, de maneira mais ampla.

Nos Estados Unidos, todos os melhores letristas homens escreveram abundantemente no feminino. Vamos citar aí, para fins de exemplo, entre tantos que poderiam ser listados, Cole Porter, Ira Gershwin, Irving Berlin, Lorenz Hart e Stephen Sondheim. No Brasil, a associação imediata vem sempre e unicamente com Chico Buarque, embora consigamos pescar alguns outros exemplos pingados de canções femininas escritas por homens. O que acontece? Os americanos seriam privilegiados ao ter compositores mais sensíveis, que entendem como se sente uma mulher?

A questão, quero acreditar, é outra. O cancioneiro americano se estabeleceu graças a musicais para teatro e cinema. Os letristas eram obrigados a usar o feminino, pois escreviam para personagens femininas – simples assim. E daí surgiram coisinhas como “My Funny Valentine”, “Bewitched”, “The Man I Love”, “Someone to Watch Over Me” e “Love for Sale” – para ficar apenas nas que todo mundo conhece, ou deveria conhecer.

No Brasil, a tradição se formou de maneira diferente: compositores escreviam suas canções para cantores de rádio, que poderiam ser homens ou mulheres. É interessante notar que, mesmo entre nossas letristas mulheres, o eu-lírico feminino claro e inequívoco não era comum. Em “Castigo”, de Dolores Duran, tradicionalmente o intérprete masculino canta “Eu não seria este ser que chora”, e o feminino, “Eu não seria esta mulher que chora”.

Se podemos estabelecer um marco para uma mudança de uso do eu-lírico feminino na canção brasileira, devemos lembrar da peça “Calabar – O Elogio da Traição” (1972/1973), de Chico Buarque e Ruy Guerra, com cinco canções femininas. A partir daí, Chico passaria a compor muito frequentemente no eu-lírico feminino, e na maioria absoluta das vezes em canções para teatro ou cinema.

O que quero observar é que, se Chico é exceção entre os compositores brasileiros ao escrever muito no feminino, também é exceção ao ter grande parte de sua obra escrita “sob encomenda” – como já observou em diversas entrevistas. O meio, neste caso, proporciona a situação adequada para que o compositor sensível possa se expressar de diversas maneiras, inclusive no eu-lírico feminino.

Se muito se fala da influência dos compositores da Broadway e de Hollywood na obra de músicos brasileiros de uma geração anterior – Tom Jobim, acima de todos –, quase nunca se relaciona Chico Buarque a eles. Por quê? A hipótese mais plausível, para mim, está relacionada ao fato de Chico fazer parte de uma geração de artistas muito presente no combate ao regime de 64. Tornava-se vexatória qualquer relação com americanos “imperialistas”.

Mas, passados tantos anos, creio que não haver mais constrangimento em notar que, entre outros fatores, pela multiplicidade de gêneros musicais adotados, pelo rimário virtuosístico, pela fluidez com que mistura referências eruditas e de cultura pop e, por que não?, pela naturalidade no eu-lírico feminino, Chico Buarque está muito mais próximo de um Cole Porter do que de Noel Rosa, de quem tantas vezes foi identificado como sucessor.

Caminhada

Na videolocadora, nome obsoleto para um tipo de empresa caindo na obsolescência, encontro um colega que não via há tempos. Ele me pergunta o que estou procurando. Considero a questão meio indiscreta, isso não é pergunta que se faça em videolocadoras, farmácias ou filas de banco. Em nome dos velhos tempos, suspiro e resolvo responder: “Arca Russa”. Não sei se devo buscar em “Cinema europeu e oriental”, “História”, “Documentário”, “Drama”, por isso a demora na procura. Mas não deixa de ser um prazer ficar ali fuçando nos títulos.

Muito naturalmente, ele me pergunta por que eu não peço ajuda a algum atendente. Com mais naturalidade ainda, respondo que pedir ajuda ao funcionário seria trapacear, toda a graça do negócio está em achar o filme você mesmo. Ele me diz “pode crer”. Já havia tolerado sua indiscrição anterior, mas agora não posso mais me conter.

– Você não tem o direito de usar o “pode crer” comigo! Eu inventei o “pode crer”!

Percebi que, quando alguém fala algo muito estúpido ou sem sentido (“se você parar pra pensar, a ditadura foi boa”, “João Gilberto é invenção da mídia”, “ninguém sério ainda usa verde”), não vale a pena discutir: se a pessoa teve a coragem de compartilhar, em voz alta, tamanhas preciosidades, não serão simples argumentos que a farão mudar de ideia.

A solução é entrar no módulo “pode crer”, no qual, sem o confronto tão estimulante aos arroubos verbais, seu interlocutor por si próprio deixa de abrir a boca. Em casos agudos, podem ser alternados “pode crer” e “bem isso” – a razão ideal é de três “pode crer” para um “bem isso”. E agora, aquele camarada, depois de invadir minha intimidade, quer me dar um “pode crer”. Que desfeita.

Encontro o filme (havia uma prateleira escondida só para cinema russo, olha só, ele nunca entenderá esse prazer) e saio sem me despedir. Está chovendo. Durante muito tempo evitei os guarda-chuvas, por considerá-los pouco úteis – se está chovendo pouco, aguento o tranco; se chove muito, vou me molhar de qualquer jeito – e por ter medo daquela história de que são instrumentos alienígenas: todo mundo já perdeu alguns guarda-chuvas, mas nunca topamos com os alheios dando sopa. Onde eles vão parar?

Mas após algumas experiências traumatizantes, deixei de lado a rebeldia juvenil e passei a carregar um (adquirido por sete reais) na mochila. É a primeira vez que vou usá-lo. Por ironia divina – e por minha mesquinharia –, está quebrado, com seu pano pendendo comicamente sobre meu ombro. Não me importo, agora seguirei com ele até o fim. A moça passa com um guarda-chuva mais digno e não contém o riso ante o desconhecido molhado. Eu mereço.

Paro no supermercado e pago a compra com cartão de crédito. A caixa me dá o troco, agradeço e sigo. Fico com o dinheiro na mão, sentindo que alguma coisa está estranha. Demoro quase um minuto até perceber que aquela grana não pode ser minha. Volto à caixa e devolvo as notas que me foram dadas indevidamente (“eu paguei com cartão de crédito, moça”). Ela me cobre de elogios, ah se todo mundo fosse assim, ainda bem que eu voltei, senão ela teria prejuízo. Respondo simplesmente que minha mãe me ensinou dessa maneira, amanhã é dia das mães, não deixa de ser uma discreta homenagem, assim penso.

Orgulhoso, volto à rua e já está sol. Uma senhora me aborda, diz que precisa de dinheiro para completar a passagem para não sei onde. Bruscamente, digo que não tenho nada e continuo andando.

Eleição para síndico

Assim como é injusto falar em “não sabe nem fritar um ovo” para indicar o mau cozinheiro (conseguir um belo ovo frito é uma arte), não entendo quando dizem “esse aí não se elege nem para síndico” querendo dar  um exemplo de disputa fácil. As votações para síndico costumam ser acirradíssimas – e divertidas –, sabe bem todo aquele que já participou de uma assembleia condominial. Haja vista as parcas vantagens financeiras e as poucas possibilidades de negociatas e conchavos, acredito que ser síndico até poderia ser exigência curricular para aqueles que concorrem a cargos no Executivo e Legislativo.

Seres abnegados, os nossos síndicos. Alguma coisa que me escapa deve servir-lhes de motivação. Não é possível que só a isenção do pagamento de condomínio compense tanta encheção de saco, as ligações de madrugada, as contas e os planejamentos, a velhinha do 33 querendo saber quando o jardim será arrumado.

Mas alguns fazem mesmo questão de ganhar a eleição para síndico e, lá estando, apegam-se ao cargo com unhas e dentes. Dão-se até ao direito de exibir sintomas típicos da síndrome de pequeno poder, com demonstrações esporádicas de arrogância injustificada, sadismo autoritário e sarcasmo ao tratar com pessoas. Como a maioria absoluta tem horror a pensar em assumir a bronca, os mesmos dois ou três de cada prédio costumam se revezar no cargo por gerações. Ruim com eles, pior sem eles; ou, para citar sábio ditado que aprendi com minha avó, deve evitar-se a concretização do “depois de mim virá quem bom de mim fará”. Um pouco de conservadorismo pode ser bom nestas horas.

Sou novo aqui no meu prédio. Parece que o síndico é síndico há 15 mil anos, deixando como marca de gestão vidros trincados e uma taxa de condomínio muito abaixo da média. Ele está tentando mais uma reeleição, e admito que sou fã dessa plataforma eleitoral.

Mas há uma dona querendo romper sua hegemonia, passou de porta em porta pedindo votos, entregando panfletos. Elogiei com sinceridade sua disposição, mesmo sem prometer-lhe meu voto.

A primeira assembleia foi um arraso. Prometeu mudanças, reformas, revolução, coleta seletiva, desenvolvimento sustentável – e antes que a velhinha do 33 pudesse fazer sua habitual intervenção, expôs apaixonadamente um plano detalhado de melhorias no jardim. Aplausos, suspiros, sorrisos.

O velho síndico se fez tímido, mencionou continuidade do trabalho, disse que tem bastante tempo para se dedicar às tarefas do prédio. E até nisso foi humilhado, com o discurso da dona assumindo tons surreais.

– Bem, tempo é o que não me falta, não tenho filhos, não trabalho, nunca trabalhei, não tenho nada a fazer além de empenhar corpo e alma para fazer deste um condomínio do qual possamos nos orgulhar – nova aclamação por sua espirituosidade, gargalhadas dos condôminos.

Até eu tendi a ficar com a dona, mas aí reparei que o velho síndico, há tempos egresso de seu Pará, estava com uma camisa do Paysandu. Nosso país admite corruptos, corruptores, estelionatários, estupradores e matricidas, mas o vira-casaca não é perdoado. O velho síndico sabe que está preso ao Paysandu até o fim de seus dias – mas nada o obrigava também a ficar expondo publicamente, neste frio sul do país, seu afeto pelo Papão da Curuzu. Alguém com tamanha lealdade merece reconhecimento. Terá meu voto.

E quer saber? A dona, apesar da eloquência, trata os empregados do prédio por “querido” quando está lhes passando vexatórias reprimendas públicas. Reparei nisso, outros devem ter reparado também. E mesmo com a apatia no show preliminar, nosso velho síndico ganha mais uma, aposto. Os vidros trincados não importam tanto assim.