Limonadas

Água, limão, açúcar. Gelo é um item opcional, e deve ser mesmo o mais complicado de se conseguir. Quando cubos de água congelada são o ingrediente mais difícil, percebe-se que não é tarefa das mais notáveis fazer uma limonada, não impressiona garotas, não conta pontos com o chefe, não há margem para inclusão na plataforma lattes – e olha que lá existe campo para mencionar habilidades bem menos relevantes.

O preço realmente não prejudica o orçamento de ninguém: o quilo do limão custa centavos, açúcar também não é das coisas mais caras, água por enquanto há de sobra pelo mundo, e acredito que seu uso em limonadas ainda está permitido pelos nossos irmãos militantes do desenvolvimento sustentável, sem que seja considerado ignominioso desperdício.

Gelo feito em casa é bem mais barato, só que há de se tomar alguns cuidados, usar formas de tamanho decente, colocá-las longe da picanha que você congelou em 2007. Não havendo engenho ou espaço, pode-se comprar um sacão no supermercado com gelo suficiente para resfriar limonadas de batalhões.

Uma vez providenciados seus componentes, a feitura da limonada também não oferece dificuldades adicionais: basta misturar um pouco do suco do limão a frações razoáveis de água e açúcar (o gelo é bastante recomendável quando a água está morna), misturar e, belo, tem-se uma limonada.

Expostas essas facilidades, às quais deve se adicionar uma observação de cunho pessoal, mas compartilhada por muita de nossa brava gente – limonada é uma bebida massa, bacanuda, firmeza-tereza, fera-nenê –, sobra um espanto de teor generalista: com tais predicados, por que é tão difícil encontrar uma limonada decente por aí? Qual o problema dessa gente?

Elejo como vilã a tal da limonada suíça. É como se o pessoal que trabalha no ramo alimentício tivesse vergonha de servir iguaria tão prosaica – oras, uma limonada – e tivesse inventado um diferencial, a casca do limão batida junto com o suco (grande coisa). A escolha dificulta o preparo, traz contestável ganho de sabor e, de quebra, exponencializa as possibilidades de desastre: o cálculo de proporções se modifica e, caso a bebida não seja consumida de imediato, torna-se insuportavelmente amarga.

A modinha deve ter começado em lugares mais metidos a besta, mas agora já estamos num ponto em que não se pode entrar numa maldita padaria de bairro e arranjarmos uma limonada sem que seja “suíça”. Ademais, duvido que essa forma de complicar a limonada tenha mesmo sido inventada na Suíça, se tivesse de apostar ficaria com a Vila Madalena.

No entanto, ah se todos os problemas do mundo fossem como esse, a mazela tem fácil solução: faça sua limonadaem casa. Aíque parto do espanto generalista para o particular: por que diabos, sabendo de toda essa alarmante situação e me preocupando com ela a ponto de escrever uma crônica, fui cair na besteira de comprar limonada industrializada?

Absolutamente não faz sentido. Não poderia ser bom, não é. E aquela desgraça é mais cara do que os sucos industrializados de outras frutas. Isso tudo posto, se está sendo vendido por uma grande multinacional, é porque outras pessoas o compram, não sou só eu de otário.

Limonadas suíças (e industrializadas) entram para o rol daquelas coisas que sabidamente não funcionam, mas as pessoas continuam insistindo em tentar, sabe-se lá por quê: estão em boa companhia com brainstormings, relacionamentos abertos, reuniões da antiga turma do colégio, pizza doce e shampoo 2 em 1.

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Silvio Santos não é velho

Então Silvio Santos resolveu parar de mandar o Jassa tingir seus cabelos em tom acaju. Ou decidiu assumir os cabelos brancos, como dizem por aí. E é engraçado porque, embora o “assumir” tenha, isoladamente, certo sentido negativo, de algo embaraçoso que finalmente se admite, vejo que a expressão completa, “assumir os cabelos brancos”, vem sendo usada ultimamente de modo elogioso, como saudando o camarada por não ter vergonha do peso que o tempo impôs sobre suas madeixas.

Para algumas pessoas, o tempo levado para ter os cabelos tomados pelo branco não é de muitos anos – o que não é necessariamente ruim, a gama de exemplos vai de meu cunhado até o George Clooney. Mas, de modo geral, brancura capilar está relacionada à experiência, ou à velhice mesmo, “respeite os meus cabelos brancos”.

Talvez o velho Silvio finalmente tenha se sentido preparado para parar de pintar os cabelos porque agora ele já começa a ser, de fato, um Silvio velho. Oitenta e um anos. O que me pego pensando é que, como todas as pessoas de minha geração, sei quem é Silvio Santos desde que me conheço por gente. E as primeiras informações que assimilei sobre sua pessoa foram: a) ele é bom de lábia (não sabia exatamente o que queria dizer a expressão, mas a ouvi muitíssimas vezes relacionada ao Silvio, deixando pouca margem para dúvidas quanto à veracidade da assertiva); b) ele é velho.

Mas como assim? Em 1990, Silvio Santos já era velho – assim o via, do alto de meus cinco anos.  E assim me falavam, acho que não chegava à conclusão por meios próprios. Afinal, ele não tinha cabelos brancos, alguém teria de me explicar que ele era velho, a coisa não era tão óbvia. Mas essa impressão antiga, ainda que firme e compartilhada por muitos à minha volta, mostra-se totalmente subjetiva e se torna insignificante ante a frieza dos números: na época, o cara não tinha nem sessenta anos completos. Eu quero dizer, era um rapazinho. Que absurdo ser considerado idoso por todo mundo.

Lembro de piadas sobre o Silvio Santos ser imortal desde muito pequeno. Pareciam fazer sentido, hoje já não as entendo. Agora, 81 primaveras, é que se pode dizer que o homem começa, ligeiramente, a envelhecer.

Essa distorção infantil sobre a idade é tão forte que me levava a enxergar Silvio Santos e Roberto Marinho no mesmo balaio, aqueles homens velhos donos de redes de televisão. E havia diferença de 26 anos entre os dois, toda uma geração.

Quando se é criança, qualquer pessoa dez anos mais velha do que seus pais é velha. A coisa muda muito de figura quando se aproxima da idade que seus pais tinham quando o colocaram no mundo – acho que essa é uma variante contemporânea da crise dos 30, numa época em que as pessoas, via de regra, demoram mais para ter menos filhos.

O paradoxo gerado é que a média etária global se torna superior, mas consideramos como velhas menos pessoas – os pais têm mais idade em relação a gerações anteriores, e o patamar de comparação se afrouxa. Explicando-me: se tenho dez aninhos e a querida mamãe tem 55, não considerarei velho alguém de 60.

Silvio Santos não é tão velho assim, Cauby Peixoto não é tão velho, Ângela Maria tem lenha pra queimar. Ok, Oscar Niemeyer é velho pra caramba, mas se não defendesse Stalin seria um pouco mais moço.

Respeito às regras

Eu não entendo o que vem a ser esta série de marchas das vadias. Explicando-me, compreendo que seja revoltante um homem dizer que, caso mulheres não queiram ser estupradas, devem evitar vestir-se como vadias. Como isso gera marchas intituladas “das vadias”, cuja característica mais marcante são moças com pouca ou nenhuma roupa, já está fora da minha margem de alcance. Mas não me preocupo com isso e também não repreendo quem considera essa postura uma forma eficaz de protesto. Apenas discordo, respeitosamente.

Tenho algum entendimento, contudo, do que é censura. E o termo não se aplica ao caso de pessoas sofrendo sanções do facebook por postarem (ou reproduzirem) fotografias de mulheres com os peitos de fora na rede social.

Claro, algum purista poderia me estender o dicionário para argumentar que é censura, sim senhor. Mas usando a amplitude de acepções do termo, se eu fizesse olhar feio para um amigo quando ele arrotasse num jantar em presença de minha mãe, também seria um temível censor.

Parece-me certo que, quando almas indignadas se queixam da “censura” do facebook, fazem referência à censura das liberdades artística, de opinião e de expressão – particularmente à censura prévia vigente durante boa parte do governo militar instaurado em 1964. E aí que a comparação se torna descabida.

O sr. Zuckerberg, junto com alguns sócios privilegiados, tem um página na internet. Um montão de gente é cadastrado nesse site, para a sorte desse jovem empresário. Antes de desfrutar dos serviços do facebook, tivemos de dar um “ok” para um monte de termos que incluíam, entre outras frases que ninguém lê, um veto à divulgação de fotos de nudez.

Isso não é censura. Se ele quisesse, poderia arbitrar que não podem ser postadas fotos de sol poente. Ou impedir a citação de frases, verdadeiras ou falsas, da Clarice Lispector. Ou proibir a escrita do encontro consonantal “cr” dentro de sua rede. Ainda assim não seria censura. (E também não foi censura o fato de Rafinha Bastos ter sofrido punição de seus empregadores depois de fazer piada com a esposa de um patrocinador da empresa para a qual trabalhava. Foi uma resposta de mercado bastante natural, só isso.)

O facebook é negócio de Zuckerberg e isso lhe dá o direito de criar as normas que quiser – desde que não infrinja a lei, impedindo o acesso de pessoas com base em distinção de crença ou cor, por exemplo. Quem não estiver satisfeito tem espaço de sobra na internet para postar fotos com peitos de fora, sóis poentes, citações da Clarice Lispector e todas as combinações de letras possíveis.

Durante o regime militar, por vivermos num estado de exceção, a desobediência civil era um ato de coragem, muitas vezes nobre. Mas essa “página infeliz de nossa História” parece ter legado, além de todo o atraso econômico/social, uma aversão despropositada ao simples cumprimento de regras. Talvez seja o receio atávico da submissão a uma força injusta. Ou estupidez de uma geração mais recente que apenas ouviu histórias grandiosas e também quer brincar de maio de 68, como se houvesse sido uma grande festa. Montam-se cavalos de batalha por nada, e a criação de quaisquer limites são “ditadura”, “censura” ou “babaquice”.

Os exemplos estão em tudo quanto é lugar. Num caixa rápido de supermercado, onde há um número máximo de unidades a passar, sobram “distraídos” com carrinhos lotados, não estão nem aí – vá tentar adverti-los de que estão errados; se você sabe a diferença de uso entre “por que”, “por quê”, “porque” e “porquê”, não passa de um antiquado obscurantista pedante; a Polícia Militar, em toda e qualquer situação, é vista como um órgão repressor, e quando entra em universidades constrange e impede… O que mesmo?

Reconhecer a autoridade não é vexame, respeito não é burrice, cumprir regras não é alienação. A ditadura militar já acabou há mais tempo do que durou.