Procura-se um emo

Parece que o gênero (gênero?) nem está mais tão em voga; ainda assim percebo, volta e meia, alguém usando o termo “emo” com intenções ofensivas – fenômeno um tanto curioso. Assim como não há crime sem cadáver, não pode haver um movimento (musical? artístico? comportamental? de vestimenta e moda?) sem alguém que reivindique sua liderança. Há alguns grupos musicais tachados de emo, é verdade, mas estes têm por resposta-padrão dizer que estão “além disso”. Não fosse o ridículo total da expressão (e a natural lembrança do contexto em que geralmente é usada), diria que os emos são invenção da mídia (burguesa). Onde estão os emos que incomodam tanto? Apresente-se um, só unzinho, por favor.

Se eles não vêm espontaneamente, para facilitar nossa busca, analisemos como se costuma definir um emo: ser de sensibilidade extremada, que não tem vergonha de mostrar suas emoções, por vezes chegando às lágrimas ou perto disso. O emo também lamenta suas perdas ou desventuras amorosas e expõe uma visão melancólica da vida. Ora, isso não me parece motivo para reprimenda, tampouco é invenção recente. Aliás, considerado apenas esse conceito, a procura fica um tanto complicada: quem nunca chorou desgraçadamente suas mágoas de amor para um amigo e depois sentiu vergonha ao lembrar do episódio, um bom tempo depois, já longe da fossa? Seria difícil identificar um emo porque todos o somos?

Poder-se-ia argumentar que alugar os ouvidos de um camarada em situação de necessidade é uma coisa, amigos são para isso mesmo, mas querer eternizar em canção tal sentimento constrangedor é demais, ninguém merece. Então artistas tão díspares quanto Morrissey e Dolores Duran são emos? Quando escreveu “I’m going out of my mind/With a pain that stops and starts/Like a corkscrew to my heart/Ever since we’ve been apart”, Bob Dylan estava numa fase emo? Frank Sinatra Sings for Only The Lonely, com esse título, só pode ser um disco emo. Merecem todos ser ridicularizados?

Ah, mas os emos têm aquelas roupas coloridas insuportáveis e pintam as unhas e fazem chapinha no cabelo… Para ficar em três, David Bowie, Miles Davis (ao menos no final da carreira) e Ney Matogrosso também não são modelos de discrição no vestuário, mas são louvados pelo caráter transgressor.

Parece-me claro que não são as emoções expostas nem as modas lançadas o ponto censurável. O duro de tragar são as letras pobres, o acúmulo de clichês musicais, a imagem se sobressaindo em relação ao conteúdo, a vulgarização e uniformidade temática para dissertar sobre temas complexos.

Só que essas características no tratamento atual da canção popular não são, infelizmente, prerrogativa dos emos ou dos chamados emos. A maioria entre aqueles que sentem prazer atacando os emozinhos inofensivos tem um gosto musical tão infantil quanto o de suas vítimas. Tudo se resume a escolher entre blusa colorida e chapinha no cabelo ou tênis all-star e calça jeans justa, este último par acompanhado de “atitude”, é claro, oh palavra maldita. Um bocado autêntico de sensibilidade extremada e emoções desenvolvidas não seria mau.

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Preconceitos e convicções

Está em todos os lugares, mas nunca se sabe de onde vem. Rápido, audaz, torna viáveis os caminhos tortos. Em momentos de precisão, para quem nele acredita, pode ser de grande valia. Admirável a multiplicidade de seus poderes, inimaginável nossa vida sem sua presença. Mas se assim quiser, digo melhor, se não fizer questão do contrário, pode tornar-se obstáculo na jornada de um homem. Que figura quase transcendental o motoqueiro, não?

(Faço aqui a distinção entre o motoqueiro e o motociclista, levando em conta tudo o que há de bom e ruim implícito em cada um dos termos. Desnecessário explicar essa distinção: motoqueiros e motociclistas a conhecem bem; aqueles que não são nenhum dos dois, melhor ainda.)

Quem me veio foi um motoqueiro, ou eu é que fui nele, será? Por preconceitos adquiridos ao longo da vida, reforçados naquele momento pelo fato de estar atrasado para o trabalho, num grau de mau humor ainda mais elevado do que o normal, tendia a achar que o motoqueiro era culpado a priori pelo acidente, sem me dar ao trabalho de pensar no que acontecera. Eu nem havia expressado minha posição, mas o motoqueiro já discordava dela. Pude saber da discrepância de análises pelas suas singelas palavras, eu estava maluco ou cego? Não o havia visto passando, porra?

E sem dúvidas fazia figura sua indignação, seus palavrões sonoros, um quadro multisensorial que incluía a moto atravessada na esquina e um monte aromático de arroz e feijão torrando no asfalto cruel da uma hora da tarde. O cara estava entregando marmitas.

Com o seu ímpeto e a pressão dos curiosos a rondar a cena (não importa onde ou em que horário, sempre surgirão numerosos desocupados para se entreter com uma pequena tragédia), intimidei-me. Quase confessei minha culpa tão rapidamente quanto presumi minha inocência. Mas, em ambos os casos, o pensamento não se fortaleceu a ponto do registro em palavras. Afinal, eu estava bem, ele estava bem, sua moto estava intacta, no meu carro só um amassadinho, realmente não podia avaliar se ele me abalroara ou se eu o havia fechado, o melhor era deixar a aferição das responsabilidades a cargo dos profissionais competentes.

E o motoqueiro mudou rapidinho de tom quando falei em polícia e seguradora, aliás, foi somente nesse ponto que consegui abrir a boca. Sabe como é, ele estava trabalhando sem habilitação para moto, não dava para a gente se acertar por fora? Considerei-me vencedor, parte do público ouvira sua confissão e dava risadas sarcásticas, um desses pequenos momentos gloriosos para pobres diabos como eu. Se ele não tinha carteira, minha isenção de culpa era certa, mas realmente não valia a pena o transtorno de chamar a polícia, acionar o seguro, o atraso no trabalho, a questão era mais vistosa do que realmente problemática. No final das contas, um amassadinho no carro. Que seguíssemos com nossas vidas, declarei, com a segurança de quem se acha em posição de dar a última palavra.

Mas havia as marmitas, alheias arruinadas marmitas. O patrão iria cobrá-lo, ele não estava em muita liquidez, não dava para eu ajudar a cobrir os prejuízos? Era seu segundo pedido a mim, admirei sua cara de pau, aquiesci com os ombros, as mãos e uma careta, já abrindo a carteira, até que o motoqueiro me passou a conta: sete marmitas grandes. Aí acabou a cordeirice, aí tive de falar.

Um homem evolui, supera preconceitos, abre mão da vitória por nobreza, certo. Mas um homem de verdade não pode abandonar suas mais altas e arraigadas convicções, ah isso não. E marmitas grandes não valem a pena, disso tenho certeza. Só vêm com mais arroz, quando muito feijão, olhe ali no asfalto, onde está a carne? Isso não posso, há um limite, jamais pagarei por marmita grande, é um roubo.

Dei-lhe o dinheiro equivalente a sete marmitas médias. Ele riu e teve de concordar com minha análise. É mesmo um motoqueiro gente boa, chama-se Zé.

Inimigos e desafetos

Tenho um misto de pena e angústia quando vejo uma garota choramingando sobre outra fulana, referindo-se a ela como “inimiga”. Geralmente os motivos são prosaicos, do tipo transferência de namorados ou fofocas sobre cortes de cabelo malsucedidos. A moça não percebe o óbvio: é esse tipo de pretensão, essa empáfia toda que a deve ter levado a perder o carinha ou arriscar aquele corte de cabelo estapafúrdio, qualquer cego poderia ver que não daria certo.

Só gente importante tem inimigos. Seu ex pode ser um cretino, uma desgraçada está espalhando por aí que você é uma patricinha arrogante, seu colega de trabalho a está maldizendo para o chefe – nada disso faz dessas pessoas, verdadeiramente execráveis, inimigos seus.

O grau de repulsa ou a ação a que o ódio a pode levar também não definem a inimizade: se você cortasse a cabeça de um desses, nem por isso seria prova de ter conseguido inimigos. Não basta ser doida varrida para alcançar esse posto, querida, precisa comer muito feijão ainda. Admita, você não é relevante o suficiente para ter inimigos.

Esforçando-se bastante, ou sendo babacas perfeitos, gentes como eu e você podem ter alguns desafetos; se fizermos disso ocupação de vida, conseguiremos rivais; caso haja um embate intelectual qualificado, podemos arriscar o termo “antípodas”, e só em situações muito especiais, extremas. Mas ter inimigos não é para o nosso bico, conformemo-nos.

Jesus Cristo tinha inimigos, Joana d’Arc tinha inimigos, o Super Homem e o Batman têm inimigos, não dá para competir com esses caras. E, pelo amor de Deus, não é o caso de invejar quem teve a manha de conseguir inimigos. Basta lembrar como Cristo e Joana d’Arc terminaram suas vidas terrenas, maneira nada agradável. Quanto ao Batman e ao Super Homem, parece estar confirmado que são mesmo fictícios.

Em segundo lugar, a ânsia por ser importante ao ponto de conseguir inimigos leva muito mais facilmente ao caminho do mal. Esse Laszlo Csatary, criminoso nazista de 97 anos que foi encontrado em Budapeste na semana passada, é um homem importante, não se pode negar que conseguiu um bocado de inimigos. Um monstro.

Um monstro covarde, nesse particular caso, passou a vida inteira fugindo. Mas há gente verdadeiramente disposta a desprezar as chances de sofrimento físico para alcançar a glória. Grande porcaria, ouso dizer, a coragem é uma virtude superestimada, apenas louvável em circunstâncias muito específicas. Não faltou coragem a Hitler, não se pode negar a bravura de Che Guevara – e nem por isso havemos de concordar com suas posturas.

Melhor para nós permanecermos aqui, dignamente acovardados e desimportantes, elaborando piadas divertidas sobre nossos queridos desafetos. Nossa vida não teria tanta graça sem eles, graça que se extingue quando se trata de inimigos.

UFC (ou MMA) e sorvete de chocolate

Não chego a ser do time que fica indignado fazendo discursos sobre como isso é a barbárie institucionalizada – posso até pensar coisa parecida, mas poupo da ladainha quem está a minha volta. O tal do UFC, ou MMA, sei lá, confuso esse negócio, simplesmente me entedia, jamais assistiria a uma luta sozinho em casa.

Mas parecia o programa óbvio de sábado, eu gosto de reuniões de amigos, surgem sempre boas piadas ruins daí, e outros colegas que compartilhavam a falta de entusiasmo pela porrada não estavam num ânimo gregário, preferiam ficar em casa lendo Foucault, opção da qual dificilmente se tiram boas piadas ruins.

Ademais, mamãe me ensina que recusar convites se torna, com o passar do tempo, má política, à medida que as pessoas progressivamente deixam de convidá-lo para programas que podem ser, desta vez, interessantes. Em suma, o desconforto de aturar uma pancadariazinha de homens em trajes sumários, em posições semelhantes à cópula, torna-se insignificante ante a beleza de ver gente querida em empolgação coletiva.

Porque acho legal ver gente empolgada, seja com o que for, há algo de poético nisso. Ver todos aqueles amigos subitamente especialistas comentando sobre as especificidades do repertório de golpes de cada lutador me lembra a paixão que eu mesmo imponho à voz quando menciono a sorveteria em que estive em São Paulo, quatro tipos de sabor de chocolate diferentes, cada um com cacau de uma região diferente do mundo.

Há gente que não fica emocionada ante a perspectiva de quatro sorvetes de chocolate diferentes num mesmo estabelecimento, eu acho incompreensível, mas respeito. Do mesmo modo, espero passar sem sofrer bullying por não morrer de amores por MMA, ou UFC, pelo amor de Deus alguém me explique a diferença.

Já que estava entrando em território desconhecido, no entanto, era de bom tom estudar um pouquinho antes de aparecer – além de levar umas cervejas. Li no jornal sobre a luta do dia, o americano que acabaria derrotado pelo Anderson Silva disse umas coisas engraçadíssimas, algo sobre dar um tapa na bunda da mulher do adversário se ela errasse o ponto do bife.

Resolvi dizer que admirava o senso de humor do cara, tinha até um sabor brasileiro, lembrava diálogos do Mazzaropi. Pegou mal, olharam para mim como se houvesse assoado o nariz com a bandeira. Troquei de assunto, comecei com umas histórias dos velhos tempos, bem divertidas, devo assumir sem modéstia, mas volta e meia eu perdia a atenção do público e levava um tempo até perceber que mais uma luta havia começado, umas quinze mil preliminares.

Para não ser inconveniente, resolvi focar-me nas lutas mesmo, mas aí parecia menina forçada a ver futebol pelo namorado, saí perguntando o que é isso, o que é aquilo – e outras coisas, já me esqueci, mas devem ser equivalentes a como funciona esse tal de impedimento, por que o time de azul está jogando a bola para o outro lado depois do intervalo, como pode estar indo para os pênaltis se a partida terminou em um a zero?

Ainda bem que o tal do Anderson Silva acabou ganhando, certamente dariam um jeito de me culpar se o cara apanhasse, seria tachado de pé frio ou termo semelhante quando aplicado ao MMA, ou UFC. Só minha cerveja fez mesmo sucesso, após certa resistência todos se serviram, donde tiro minha conclusão: quando for assistir UFC, ou MMA, em casa alheia, leve cerveja.

PS: Para fins de justiça e esclarecimento, devo mencionar que as quatro variações de chocolate da sorveteria paulistana não eram “chocolate com cereja”, “chocolate com avelã” e quetais, coisa que qualquer estabelecimento vagabundo tem. Não, simplesmente “chocolate”, só variando a quantidade e procedência do cacau. Magnífico.

Para Roma, com amor e microfones

Deus e todos os meus amigos sabem de minha intensa admiração pelo cineasta Woody Allen. No pouco que têm em comum, aliás, Deus, em sua onisciência, e meus amigos, em sua falta de opção, devem estar de saco cheio de tanto me ouvir falar do homem.

Difícil estabelecer relações de confiança: seu sócio pode passar você para trás, a namorada pode começar a amá-lo “como amigo”, um presidente louco pode confiscar a poupança e assim por diante. De Woody Allen, no entanto, esperamos tranquilamente um filme anual, e a expectativa nunca vira decepção – o mundo é um lugar melhor por causa disso. Será uma pena se tudo se for mesmo pelos ares neste dezembro, perderíamos assim o projeto de 2013 do velhinho.

Tem gente que passa o ano esperando o carnaval, bom para eles, desde meus quinze anos aguardo a safra anual de Woody Allen. Comecei com “A Rosa Púrpura do Cairo”, meu preferido até hoje, e o primeiro que conferi no cinema foi “Celebridades”, de 1998, que só estreou no Brasil em 2000.

Eu me achava muito esperto e precoce, ali, vendo filme em preto e branco, mas minha colega de Colégio Universitário Samantha Calijuri, depois vim a saber, já havia assistido a “Desconstruindo Harry”, seu filme anterior (por acaso, uma obra-prima), no glorioso Cine-Teatro Ouro Verde, de Londrina. Nunca a perdoarei por isso, naquela idade você deve ter a primazia de “descobrir” os artistas, mesmo que sejam mundialmente famosos.

Todo esse longo preâmbulo para deixar claro que sou insuspeito quando o assunto é criticar o cara. Mas nem este tiete aqui pôde deixar de reparar nos microfones vazando no alto do quadro neste seu mais recente trabalho, “Para Roma, com Amor”. Não é coisa de uma vezinha, nem duas, nem três, são, sei lá, umas dez cenas em que o equipamento nos agride os olhos.

O único filme em que me lembro de ter visto algo parecido foi um do Glauber Rocha chamado “Câncer”, mas, neste caso, pode-se argumentar que o descuido fazia parte de uma proposta estética, acho essa proposta meio papo furado, mas, vá lá, ainda é um argumento. No caso do Woody, só desleixo injustificável mesmo, e o tipo de coisa que compromete toda a apreciação do trabalho, não sei dizer o quanto teria gostado deste “Para Roma” caso não houvesse microfones aparecendo o tempo todo.

A opção mais tentadora é culpar a idade do homem, “não está mais aguentando o tranco”, ou dizer que, fazendo um filme por ano, impossível manter a qualidade. Bobagem. Desde que aprendi quem era Woody Allen, ouço o papo de que ele está em decadência, e por umas quatro vezes já fui testemunha de seu “renascimento” decretado pela crítica. Quanto a sua regularidade, acho uma bênção, nada garante que com mais tempo de maturação suas sacadas viriam melhores, o processo criativo é assim, algumas ideias são boas, outras nem tanto, e no caso do Woody seu padrão de meia-boca está muito muito acima da média.

O incrível é que a Lívia, mais observadora do que eu, entre tantas outras virtudes em que me é superior, viu o filme ao meu lado e não notou nada. Li dezenas de resenhas, alguns críticos gostaram, outros desceram o pau, mas ninguém pareceu enxergar os malditos microfones. Além de nosso velhinho míope, os copiões passam pelo diretor de fotografia, montador, produtores, um monte de gente. E na pós-produção, hoje em dia, não é coisa do outro mundo corrigir essa falta, com o prosaico recurso de fechar um pouco o quadro ou aplicando máscaras digitais (pessoa mais informada acabou de me ensinar esse termo).

Como eu, no Brasil, dois meses depois da estreia italiana, ainda pude me distrair com microfones? Apelo para que façam alguma coisa quanto a isso quando o filme for transposto para dvd.

Mas com ou sem microfones, ano que vem estarei lá para ver o novo Woody Allen. Ele nos é fiel, assim devemos lhe ser também.