O educativo mensalão

As circunstâncias não merecem ser comemoradas, é verdade, mas o triste episódio do mensalão gerou ao menos um aspecto educativo: seu julgamento vem dando visibilidade inédita ao trabalho do STF. Nos botecos, nas filas dos supermercados, as pessoas comentam sobre os votos dos ministros, sabem seus nomes, dão palpites sobre seus perfis. Claro que a maior parte do falatório é ingênua e cheia de impropriedades, mas mesmo o papo rasteiro já é muito útil num país tão pouco informado sobre suas instituições.

Estudei num colégio caro, desses que se gabam de suas taxas de aprovação nos vestibulares. Pois bem, em toda a minha vida de colegial de elite, a discussão sobre o Poder Público foi tão longe quanto o Executivo executa, o Judiciário julga, o Legislativo faz leis. Não tenho motivos para achar que em outras instituições de ensino o panorama seja muito diverso ou que a situação tenha mudado significativamente de dez anos para cá. A implantação na grade do Ensino Médio de uma matéria que expusesse os princípios do Direito traria benefícios óbvios e imensos aos estudantes – mas os projetos político-pedagógicos têm assuntos bem mais importantes a tratar do que o aprendizado dos alunos, ora bolas.

Claro que essa exposição rasa dos conteúdos não está presente em todo o currículo, ah não, algumas matérias vão fundo em determinados pontos. Alunos colegiais aprendem a distinguir as figuras do questor, pretor e censor na República Romana (mas nunca ouviram falar de Ministério Público); recebem lições detalhadas sobre a respiração dos anelídeos e as patas do camarão (mas Anvisa soa a eles como nome de prato espanhol); decoram bravamente os elementos da tabela periódica (mas não sabem de que trata uma agência de fomento à pesquisa); esmeram-se em exercícios para identificar uma oração subordinada adverbial temporal reduzida de gerúndio (mas não conseguem identificar o editorial entre as páginas de um jornal). A maior parte do conteúdo escolar está completamente alienada das necessidades a serem conhecidas pelos alunos depois de aprenderem que passar no vestibular não é o maior problema da vida.

Evidente, não serei eu a menosprezar a importância de entrar em contato com as bases que propiciaram os avanços verificados hoje, tanto nas ciências naturais quanto nas humanidades. Apenas penso que esse apego cego à cronologia poderia ser substituído por um procedimento didático que emulasse de maneira mais eficiente o processo regular de construção dos conhecimentos humanos: a partir de uma dificuldade (ou incógnita) verificada no presente, busca-se o respaldo para solucionar a questão.

Isso se dá naturalmente entre a molecada mais espertinha, é assim que se instruem aqueles nos quais percebemos mais “conhecimento geral”, como se convencionou dizer – não nos bancos escolares. A mocinha vê no facebook a propaganda de uma operadora de celular usando uma canção antiga (quase 30 anos!) de uma banda que, ela descobre, chama-se Legião Urbana. Gostando do que ouve, vai atrás da discografia do grupo e encontra outra canção chamada “L’Avventura”. Que diabo é isso? Ah, é um filme dum camarada chamado Antonioni. Por extensão, acaba travando contato com a obra de diretores afins, chega ao neo-realismo italiano e logo estará apta a dissertar razoavelmente sobre o panorama europeu no pós-guerra – aprendendo (e se divertindo) com muito mais facilidade do que se fosse apresentada, do nada, a um maldito texto sobre o Plano Marshall.

Enquanto as escolas ignorarem o presente, enquanto desprezarem a curiosidade e o anseio natural de entender referências como elementos fundamentais para o processo educativo, seremos obrigados a ver algo de bom num amontoado de canalhices como o mensalão.

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Lupércio, do Lanches Prensados

Tinha 12 anos quando conheci o Lupércio, do Lanches Prensados. Ele mesmo era um rapaz de 24, quem diria, em minha visão infantil sempre pareceu tão mais velho, tão imponente. Só sei agora dessa questão de idade porque li seu obituário. O Lupércio morreu mesmo. O Danilo havia me contado há algumas semanas, sem muita certeza, só ontem me lembrei de checar.

Meu conceito de comércio de sanduíches tinha duas variações: McDonald’s, de difícil acesso por questões geográficas e financeiras, e aqueles carrinhos de lanche bem requenguelas, estilo porta de terminal. Isso até o Lanches Prensados aparecer na pracinha ao lado de casa, revolução. Um trailer, letreiros luminosos, lâmpadas brancas, duas geladeiras horizontais, cardápio com várias páginas, esbanjamento de três funcionários; o chapeiro, Lupércio, usava gorro, máscara cirúrgica, luvas descartáveis. Não sei se o aparato realmente tinha serventia higiênica, mas era impressionante. E, melhor, impressionou nossas mães o suficiente para que concedessem seu aval para as visitas ao prensadão. Vá lá, não é a melhor alimentação do mundo, mas já que a molecada só come porcaria mesmo, este pelo menos parece limpinho.

E como abusamos desse direito de ir ao prensadão. O pessoal do condomínio frequentava muito, mas acho que eu e o Falleiros éramos campeões. Todo santo dia naquela biboca, era barato, era uma delícia. Será que era mesmo? Analisando em retrospecto, os hambúrgueres eram industrializados, os sanduíches com carne chapada similares a tantos outros… Havia um com frango desfiado num molho próprio realmente interessante, diferente do pó de frango seco habitual para a gastronomia de rua. Bem, eu provei todos os itens do menu, quando os comi eram todos uma delícia, é o que importa.

Os encantos do prensadão também fizeram seus estragos, levaram ao êxodo todos os carrinhos ambulantes daquela área. Anos passando, bares abrindo para logo irem à falência – e o prensadão lá, firme e forte.

A figura máxima do prensadão sempre foi o Lupércio, mesmo antes de comprar o negócio – sem abrir mão de continuar fazendo os lanches. O homem era enorme, chamava a atenção naturalmente, tinha a sabedoria e a tarimba habitual de quem vive do comércio noturno, mas possuía um senso de humor incomum para sua classe. “Frio é hereditário”, em oposição ao já batido “frio é psicológico”, era uma de suas máximas, sempre repetida às mocinhas que insistiam em aparecer de saia curta para comer lanche no inverno. Se as reclamações eram sempre as mesmas, a tirada do Lupércio podia ser invariável também. Eu ria muito.

Se dissesse que o Lupércio foi meu amigo, estaria mentindo. Mas ele sabia algumas coisas de mim, eu ia com a cara dele. Tanto tempo. Ele me viu bêbado, ele me viu com diferentes namoradas, discordamos sobre política, concordamos sobre o caráter dos boyzinhos que passavam disputando racha. Não vou dizer que o Lupércio me viu crescer, para não exagerar na pieguice e porque, com 12 anos, já tinha um metro e oitenta.

Não sei ao certo o que aconteceu, a gente nunca sabe. Uma série de coisas, acho: meus pais se mudaram do condomínio, passei a dirigir e poder visitar espeluncas distantes, minha apreciação gastronômica foi se tornando um pouco (só um pouco) mais sofisticada. De vez em quando ainda aparecia lá, o lanche não parecia tão bom – “Mudaria o Natal ou mudei eu?”. Encontrava com o Lupércio pela vizinhança, geralmente no supermercado. Juro, sempre tive receio de que me achasse um traidor. Se ele considerava, não o demonstrava: sempre sorriso, chamando-me de “seu An-dã-rhué”, tentativa incompreensível de dizer meu nome com pronúncia anglicista.

Lupércio Arcanjo da Cruz, morreu aos 39 anos, em 14 de abril. Já faz tempo, quatro meses, não entendo por que ninguém me disse antes. Talvez também não tenham ficado sabendo, talvez (inconscientemente) não tenham julgado o fato importante o suficiente para ser repassado a mim, daí o esquecimento. Nada para se culpar os outros, a vida é assim mesmo. Queria tanto lembrar qual foi a última vez em que estive no prensadão, não consigo. Um ano e meio, dois, três anos? Sei que, em 1997, o Lupércio apareceu com seus lanches na pracinha lá perto de casa e, nossa, foi um grande acontecimento.

Considerações gastronômicas

Nos guias gastronômicos, é comum a inclusão de uma categoria menos nobre, mas de grande destaque: o “bom e barato”. A ideia é boa, sou o primeiro a admitir, o problema é que vem sendo usada de maneira incorreta. Os restaurantes escolhidos não são realmente baratos, apenas têm preços um pouco menos escorchantes do que aqueles estrelados. Dificilmente um trabalhador conseguirá encher a barriga num lugar desses no horário de almoço do serviço.

Ora, quem procura um restaurante “bom e barato” está mesmo a fim é de um “PF nervoso” ou de um “quilão massa”. Pelo preço de um desses “bom e barato” de revista, melhor economizar logo umas pratas para fazer um social com a namorada num rolê mais bacaninha, fim de semana está aí.

Proponho uma troca conceitual: em vez de distinguir o “bom e barato”, passemos a promover o “meia boca e quase de graça”. Aí sim teremos algo útil, meus caros editores.

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Carnes bovinas têm cortes disputadíssimos; o porco é cada vez mais valorizado e até ganhou, recentemente, status de saudável; peixes (e os frutos do mar, em geral) são nobres, há espécies caríssimas; comer miúdos, quem diria, agora tem ares cult; os ovos, aparentemente tão banais, propiciam pratos sofisticados; carnes exóticas sempre chamam a atenção; mesmo entre as aves, aparecerão sempre com mais destaque a perdiz, o faisão, a cordorna, o pato, o marreco… Não adianta, o frango tem mesmo a mais banal das carnes. E para os entendidos de gastronomia, não há forma de proteína animal mais ordinária e desprezível do que a carne do peito de frango.

Mas eu gosto, devo confessar. Excelente base neutra para molhos os mais vários – e sei que essa minha argumentação de defesa pode soar como o apontamento de um demérito, mas não ligo: o peito de frango me entenderá.

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Vejo homens e mulheres (principalmente mulheres) fracassarem em repetidas tentativas de emagrecer. Ouso aqui trazer à luz um dos mais comuns motivos para o malogro: o incorrer desnecessário no que chamarei, para fins didáticos, de “princípio do acúmulo de tormentos”.

A mocinha quer perder uns quilos e, por extensão viciosa, acha que deve alimentar-se de maneira saudável. Aprenda: uma coisa não tem nada a ver com a outra. Querendo emagrecer, a obrigação é comer pouco, o que é um saco; não há por que se machucar com o tormento adicional de comer coisas ruins.

A relação entre comida saudável e comida ruim vem de minha apreciação subjetiva, talvez seja um pouco forçada, mas vejamos: o que é mais gostoso, uma maçã, uma maldita barrinha de cereais ou um chocolate diamante negro? Pois é, qualquer pessoa normal não tem dúvidas quanto à questão. E todos esses itens têm números muito próximos de calorias. Mas o que acontece e acontece por aí é vermos as moças se enchendo de maçãs e malditas barrinhas de cereais, abstendo-se dos amados chocolates e, consequência óbvia, mais cedo ou mais tarde acabam pirando e mandando o regime às favas.

Certo, não serei eu a negar as inúmeras vantagens de uma alimentação saudável. Mas, convenhamos, é mais fácil desfrutar dessas inúmeras vantagens quando já se deixou de ser uma pequena bola. Assim, esbelto, as malditas barrinhas de cereais orgânicos só trazem um motivo de infelicidade (abrir mão do prazer de alimentar-se), em vez de três simultâneos: comer mal, comer pouco e ser gordo.

Por isso, pequena, segue o conselho do poeta português: come chocolates!

PS: A praga do politicamente correto me obriga à explicação. Há pessoas gordas perfeitamente felizes, bem o sei. Mas, se uma pessoa gorda está querendo emagrecer, é porque, de alguma forma, está infeliz com seu corpo, seja isso imposição abjeta da sociedade de consumo ou não, não vem ao caso. E, mais importante, achei que “três motivos para infelicidade: comer mal, comer pouco e ser gordo” ficou engraçado.

Tempos modernos

Em resposta às claras tentativas do advogado criminalista Márcio Thomaz Bastos de protelar o julgamento do mensalão, evitando assim que o ministro Cezar Peluso, prestes a aposentar-se por limite de idade, possa dar seu voto, as ativistas da filial brasileira do Femen resolveram fazer topless na Avenida Paulista em pleno domingo de sol.

O fato serviu de inspiração para uma piada de Rafinha Bastos que causou polêmica nas redes sociais, rendendo-lhe mais 500 milhões de seguidores, é verdade, mas também motivando a ocupação da reitoria da Universidade Federal do Rio de Janeiro por parte de estudantes que exigem a paz entre Israel e Palestina na sua pauta de reivindicações.

Apoiando esses bravos discentes que renovam a combalida bandeira do movimento estudantil, um publicitário então desconhecido lançou, em seu blog, moção exigindo opção de cardápio vegetariano na Barranco, tradicional churrascaria de Porto Alegre, já tendo conquistado a impressionante marca de 12 bilhões de subscreventes, que se dispuseram a registrar nome e RG na página.

A ironia de a população mundial ser menor do que o número de apoiadores no movimento não passou desapercebida por Caetano Veloso, que escreveu artigo relacionando a aparente contradição ao elemento antropofágico trazido à cultura brasileira pela tropicália, análise ousada e merecedora de resposta por parte do crítico literário Roberto Schwarz, que afirma ter abordado o assunto de maneira científica e isenta, mas provocou indignação por parte de nosso septuagenário compositor, pois, segundo ele, é absurda a afirmação de que negligencia a função política da arte em sua atual produção, aliás, hoje é seu aniversário, viva Caetano.

O acalorado debate entre os dois intelectuais foi considerado discussão do sexo dos anjos pela Carta Capital, em raro caso de concordância (parcial, é verdade) com a Veja, que ironizou o imbróglio por meio de seus articulistas e aproveitou para traçar uma relação entre o episódio e a decepcionante participação do Brasil nas Olimpíadas de Londres, culpando o PT por esse problema e também pelo fato de o hino nacional ser de  difícil compreensão, repleto como é de inversões sintáticas.

Toda a crítica se tornou imediatamente anacrônica quando um maratonista brasileiro chegou em último lugar na prova, três meses e 12 dias depois do primeiro colocado, mas ainda assim foi aclamado por todo o mundo, exposto nas redes de TV como símbolo do espírito olímpico, recebeu inclusive mais aplausos do que o nadador Michael Phelps, multicampeão recordista com 523 medalhas de ouro de acordo com a última checagem.

Especula-se que o glorioso malogro do atleta, triunfo da política externa do governo Dilma Rousseff, possa finalmente render ao Brasil um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, além de já ter gerado emotiva crônica de Pedro Bial, um volume de autoajuda de Augusto Cury (best-seller, 15 trilhões de cópias e contando), uma canção de Paul McCartney, um filme de Oliver Stone e um depoimento dilacerante da ativista cubana Yoani Sánchez.

Com isso tudo posto, só posso lamentar a falta de divulgação do Santoíche, melhor hambúrguer do Paraná.