Margarina não é manteiga

Quando me contaram da última frase de seu Salomão, todas as minhas convicções sobre o caráter do homem foram ratificadas. Coisa sintomática, as últimas palavras de um homem, para quem tem o privilégio de poder dizê-las antes de partir desta pra melhor. Todo mundo no bairro gostava do velho. Sapateiro, profissão antiga, modos à antiga, honesto, sólido, reto. Até sua morte teve sabor antiquado: exaurido por longa doença, teve a família em volta de sua cama, em sua casa (nada de hospital), para a despedida. No momento solene, notou-se-lhe um último esforço de comunicação, todos se arquearam para escutar o patriarca. Salomão disse convicto, “margarina não é manteiga”, e expirou.

Imaginem, ter a terrível consciência de seu tempo na Terra se esvaindo e escolher deixar, como testamento, um juízo gastronômico. Que homem fantástico. Salomão sabia da necessidade constante de distinguirmos margarina de manteiga.

Aqui passemos à justa análise de sua deixa. Não há atribuição de valor explícita em suas palavras, mas é bastante seguro interpretar, vinda a consideração de um homem de seu porte, que Salomão nos aconselha a não tomar a reles margarina como nobre manteiga. Em termos mais batidos, seria como dizer “não compre gato por lebre”. O velho, bom cristão, sabia da força das mensagens em alegorias e metáforas. E reforçou o poder comunicativo com o apelo do paladar, o mais pecador dos sentidos.

Margarina não é manteiga, os dois itens jamais podem ser tomados como a mesma coisa. Aprendam, crianças prestativas e maridos com listas de compras. Em seu sentido denotativo, a frase já traz ensinamento de indubitável importância. Convenhamos: manteiga está na base da pâtisserie francesa; margarina, no máximo, está na base de comerciais ruins, com representações irritantes e falsas de famílias funcionais. A comparação é ridícula, esperar uma substituição eficaz de manteiga por margarina implica uma ingenuidade imperdoável para maiores de idade. Equivale a acreditar que ver a final da Copa numa tela gigante de plasma ou num caixote com bombril na antena é a mesma coisa – afinal, dá para saber quem fez os gols do mesmo jeito.

É no entendimento conotativo, contudo, que a máxima de Salomão transcende a aparente simplicidade. Quantas vezes, por preguiça, comodismo ou aparente economia, levamos margarina quando precisamos de manteiga? Em nossas vidas domésticas, sociais, sexuais, profissionais. Ficou desta vez com um mecânico qualquer porque aquele de confiança quis cobrar um pouco mais caro? Ah, meu amigo, a diferença de manteiga e margarina se fará notar, mais cedo ou mais tarde. Está num relacionamento margarina porque quebra um galho quanto à solidão? Aprenda a lidar com a frustração de não ter manteiga. Votou num imbecil metido a engraçadão ou num populista arquétipo do atraso, “ai, são todos iguais, este pelo menos mostra o que é”? Lindinho, lambuzar-se de margarina jamais valerá como protesto útil. Precisamos acreditar na manteiga, embora o acesso esteja difícil, conquanto as marcas não mais se distingam.

Ah, velho Salomão, valoroso sapateiro, desses que não mais se encontram, só posso concordar com o senhor, secundá-lo e acrescentar: margarina não é manteiga, gordura hidrogenada não é chantilly.