Citações de Caio Fernando Abreu

Muitos fãs de Caio Fernando Abreu precisam de renovação constante no estoque de citações. Como a ideia de ler um livro pode ser muito penosa, compartilho aqui minha pesquisa de seleção de algumas das passagens mais edificantes e ternas (e autênticas!) contidas na já clássica coletânea de contos “Morangos Mofados”, geralmente considerada o ponto máximo da obra de Abreu. Divulguem à vontade em facebooks, twitters e demais redes sociais. Ajudar os outros é sempre uma felicidade. Se alguém conseguisse impressionar um pretendente ao reproduzir um desses belos trechos que pesquei, seria a melhor recompensa para meu trabalho.

“Alice, já falei que é loucura, para de bater essas malditas carreiras, teu nariz vai acabar furando, melhor ser monja budista em Vitória do Espírito Santo ou carmelita descalça em Calcutá ou a mais puta das putas na putaqueapariu.”

“Eu não queria aceitar que fosse isso: éramos diferentes, éramos melhores, éramos  superiores, éramos  escolhidos, éramos  mais, éramos vagamente sagrados, mas no final das contas os bicos dos meus peitos não endureceram e o teu pau não levantou.”

“Mato, não mato, atordoo minha sede com sapatinhas do Ferro’s Bar ou encho a cara sozinha aos sábados esperando o telefone tocar, e nunca toca, neste apartamento que pago com o suor do po-ten-ci-al criativo da bunda que dou oito horas diárias para aquela multinacional fodida.”

“Caminhamos tontos até o banheiro onde sustento sua cabeça para  que  vomite, e sem  querer  vomito  junto,  ao  mesmo  tempo,  os  dois abraçados, fragmentos azedos sobre as línguas misturadas, mas ela puxa a descarga e vai me empurrando para a sala, para a porta, pedindo que me vá.”

“Mas chovia ainda, meus  olhos ardiam de frio, o nariz começava a escorrer, eu limpava com as costas das mãos e o líquido do nariz endurecia logo sobre os pelos.”

“Ele enfiou a mão dentro da sunga, tirou duas bolinhas num envelope metálico. Tomou uma e me estendeu a outra. Não, eu disse, eu quero minha lucidez de qualquer jeito. Mas estava completamente louco. E queria, como queria aquela bolinha química quente vinda direto do meio dos pentelhos dele.”

“Mas era a ti, a ele ou a mim que o homem visitava às vezes? De quem seria a língua sem nojo que explorava o mais fundo de todos os buracos do corpo dele? Da janela eu observava as mãos abrindo apressadas o fecho das calças, os dedos hábeis afastando panos, as narinas sugando o cheiro secreto das virilhas.”

“Antes que a tocasse, ela encontrou o animalzinho branco, de focinho rosado, e apanhando um pedaço de pau bateu, bateu e bateu até que o bicho se tornasse um mingau de sangue e ossos partidos e pêlos raros onde boiava um par de olhos abertos que não morriam.”

“Quando vomito sobre o pão, não consigo comer nem vomitar depois. Gosto de vomitar, é um pouco como se conseguisse chorar. Quem sabe você conseguiria pelo menos me ensinar um jeito de vomitar sem precisar comer?”

“Corpos ensandecidos na selvageria dos gestos mais furiosos e mais amenos, entre suores, gemidos e secreções de líquidos pujantes feito cachoeiras tropicais, sete quedas, sete orgasmos terei eu de cada vez que me engolfe náufraga em sua ejaculação amazônica.”

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Ilusionismo

Desde que no mundo existe uma juventude, ela está perdida. Adão, recém-expulso do Éden, já devia lamentar pelos rumos de sua descendência – não sem razão, como depois se verificou. As razões para condenar os caminhos dos jovens variam de acordo com a época, mas geralmente giram em torno de alguns grandes temas: inaptidão para o trabalho braçal, concupiscência desmedida, desrespeito aos valores tradicionais etc. Vilões mais recentes são o rock and roll, as drogas alucinógenas, os jogos de videogame e a falta de rabanetes na dieta.

Isso tudo deve mesmo fazer mal, quem sou eu para discordar, mas o que me espanta mesmo é perceber que os mágicos não mais são atraentes para a criançada. O palhaço já é há tempos uma figura trágica, mas agora filmes e contos começam a explorar a decadência do mágico, caminhando solitário sem que ninguém dê bola para seus truques. Que tipo de sociedade é essa em que as criancinhas não mais se espantam com um coelho sendo tirado de uma cartola? Ou com os truques de baralho, sempre meus preferidos, cartas que se multiplicam a poucos centímetros do espectador?

Como não admirar a velocidade, a abnegação e as horas de treino empenhadas por esses profissionais que conseguem ludibriar aquele que é tido como o mais confiável dos sentidos? Tomé só acreditava vendo, lembremo-nos. E se Jesus tornasse a multiplicar pães nestes nossos tempos, precisaria de luzes, gelo seco e trilha sonora se quisesse atrair menores de 50 anos a sua audiência.

Sim, porque os únicos assim chamados mágicos para quem ainda se dá alguma bola são aqueles dependentes de todo um aparato tecnológico, geralmente personagens mais apreciados por televisão. O que me vem de uma tela – seja o que for, um trem desaparecendo, o Mar Vermelho se abrindo – jamais poderá me impressionar tanto quanto o camarada à minha frente, eu posso ver-lhe as rugas das mãos, adivinhando que pensei num valete de copas.

Quando me forem fazer uma despedida de solteiro, por favor, antes de alguma stripper em promoção no site de compras coletivas, contratem-me o show de algum mágico, será bem mais divertido. Tudo bem, pode ser uma mágica, mas ela tem de usar cartola e saber excelentes truques com baralho.

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 Fosse eu muito rico – nem tenho essa pretensão, mas fosse eu muito rico, não faria questão de uma casa de cinco mil metros quadrados, trinta cômodos, banheiros com toalhas egípcias, vista para o mar, carros reluzentes na garagem, empregados me servindo. Tudo bobagem. Eu só daria um jeito de arranjar uma passagem secreta em meu lar. Não importa de que lugar sairia, aonde me levasse. Dificilmente teria algo relevante para ocultar. Mas a ideia de uma passagem secreta, não é magnífica?

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 Por que, quando se quer elogiar a beleza de uma flor artificial, diz-se que ela parece de verdade, enquanto se elogia a beleza de uma flor verdadeira dizendo que ela parece de mentira?

Ir ao cinema sozinho

Você me diz que não consegue se encontrar com o namorado, já terminou e voltou mil vezes, que seu emprego a faz sentir-se miserável todos os dias, que precisa emagrecer no mínimo cinco quilos, a diarista não limpa a casa direito e ainda parece ter gosto especial em esconder seus pertences. Para completar, o Palmeiras pelo jeito será rebaixado.

Não sei por que veio a mim dizer essas coisas todas, espero não esteja desejando minha compaixão. Não sou palmeirense, o possível rebaixamento do time não me abala e também não afeta grande parte da população, mas o restante de seus problemas é comum a muita gente, o tempo todo. Com o perdão da rudeza, você está longe de ser uma mártir por causa disso.

Os conselhos que posso dar também são genéricos: arranje outro cara, ex é ex e já teve sua vez, ouça o In The Wee Small Hours e rebata com um filme dos irmãos Marx, busque outro emprego se a situação realmente estiver insustentável, você tem condições e qualificações para uma mudança de rumo a essa altura da vida, tome vergonha na cara e faça um regime (embora eu nem ache que haja tanta necessidade assim), limpe sua casa você mesmo ou se conforme com as limitações do ser humano.

O que me preocupou mesmo não foi seu rosário de queixas, acredito tenha sido mais uma necessidade de desabafar, você saberá lidar com isso com a eficiência que conheço, tenho certeza. Deixou-me encucado uma observação marginal sua, mencionou distraída, murmurante, talvez nem adivinhasse que eu estava atento. Disse que havia deixado de assistir a tal filme no cinema, um que estava aguardando para ver, porque o namorado não estava a fim e não havia arranjado outra companhia. Olha, de tudo o que me falou, isso sim é uma questão séria.

De que vale ter à disposição diarista de eficiência utópica, ter namorado com devoção de romantismo inglês, silhueta de Gisele Bündchen, Palmeiras em primeiro na tabela, até mesmo a possibilidade de viver de renda, de que vale tudo isso se você nem consegue ir ao cinema sozinha?

Já que me colocou em posição de conselheiro, permita-me cumprir o papel, embora não do modo esperado: não deixe de fazer algo de que gosta por falta de companhia, não dependa tanto do outro para sua felicidade. É uma boa terapia, ir ao cinema sozinha, o filme não ficará melhor ou pior pelo fato de a cadeira ao lado estar ocupada por um desconhecido ou pelas moléculas de oxigênio, nitrogênio e sei lá mais quais componentes do ar.

Vá ao cinema sozinha, de preferência com uma roupa esculachada, confortável, não ouse pensar em maquiagem, não olhe para aos lados, não pense no que lhe falta – e não compre pipoca para comer durante a sessão, é um hábito detestável. Apenas em paz consigo mesma, fazendo um agrado a sua própria e adorável pessoa, você merece. Isso posto, é uma pena a programação da cidade estar tão chinfrim.

As eleições e o lollo

As virtudes que fariam de alguém um bom político não são as mesmas que fazem de alguém um bom candidato – na maioria das vezes, são qualidades completamente opostas. Aí está o problema.

Em ressaca moral pós-eleições, caminhava lento pela rua com esse pensamento melancólico. É raro, mas às vezes o panorama político ainda consegue me afetar, deixar-me propenso a divagações para as quais a maioria de meus conhecidos já perdeu a paciência, imersos que estão num triste clima de “tanto faz”. Foi quando o boteco redentor trouxe luz à tarde que caía.

Nada de afogar as mágoas no álcool, não pensem isso, o que o boteco me ofereceu à visão foi bem mais ameno. Exposto no balcão maltratado, um chocolate: lollo. Parecia uma miragem ou uma visão. É raro, mas às vezes consigo ficar feliz com pequenas coisas.

Para quem não sabe, lollo foi um chocolate comercializado até 1992, quando vergonhosamente teve o nome trocado para milkybar. Depois, parou de ser vendido separadamente mesmo sob esse feioso nome inglês, restando apenas como integrante das caixas de bombom.

E como vim a saber no boteco, lollo está de volta. Inclusive com a singela embalagem da vaquinha amarela. Não sei como isso não havia sido anunciado em manchetes, nas discussões do facebook, nos tópicos mais comentados do twitter. Que maneira de receber uma notícia dessa magnitude, assim, passando distraído pelo boteco, senti falta de um preparo psicológico prévio, tais emoções repentinas podem ser perigosas. Durante anos, quando queria dar exemplo de meu caráter teimoso – não persistente, teimoso mesmo –, mencionava o fato de continuar chamando milkybar de lollo. Agora não é mais necessário levantar bandeiras inglórias, lollo está de volta, por quanto tempo não sei.

Pesquisando depois, descobri que outras pessoas – menos do que eu gostaria, não a ponto de formar uma corrente de exaltação na internet – compartilhavam de meu saudosismo e saudaram a volta do chocolate. Mas é aquela coisa: a gente sente saudade do lollo ou de quem nós éramos quando comíamos o doce com esse nome?

Bem, posso apenas falar de meu próprio caso. Até 1992, minha mãe me colocava horário para dormir. Eu nunca havia visto um filme do Fred Astaire. Nunca havia passado uma noite bonita ao lado da mulher amada ou uma noite agridoce curtindo uma paixão platônica. Não sabia o que era andar a esmo, com um ou dois amigos, de madrugada, por uma rua qualquer. Não podia beber gim-tônica. Tinha de carregar uma lancheira para ir à escola e ambicionava com fervor ser o distinto proprietário de um tênis M2000. Ora, até meu acesso aos lollos era limitado. Com todo o respeito aos que consideram a infância um paraíso, não se pode ser verdadeiramente feliz sob essas circunstâncias. Gosto mais de mim agora.

O problema foi mesmo a mudança do chocolate, que passou por uma anglicização ridícula no nome, ganhou uma embalagem feiosa e, como se não fosse bastante, piorou em gosto, simples assim, como tantos outros produtos industrializados. Olhem a situação do leite que nos é vendido hoje em dia, não forma mais nata. As novas gerações não saberão o que é se ver formar aquela película sobre um copo de leite depois de alguns minutos de repouso – isso sim é motivo para lamentar a infância perdida.

O engraçado é que minha sincera empolgação não foi suficiente para me fazer comprar um lollo. Talvez por medo de não o perceber tão gostoso, com sabor insuficiente para compensar o amargo das velhas novidades políticas.

Reflexões sobre a coxinha de siri

Um caso real, embora pareça piada: estava o rapaz no boteco quando se enamorou de umas coxinhas dispostas na estufa. Perguntou ao dono da espelunca qual era o sabor do belo salgado e ficou empolgado ao saber que eram de siri. Que diferente. Ao morder a iguaria, no entanto, decepção: embora não estivesse ruim, o recheio era feito do simples e velho frango.

– Meu senhor, desculpa, mas acho que meu salgado veio errado. Este aqui é de frango, não de siri…

– É claro que é de frango, seu imbecil. Onde já se viu coxinha de siri? Cada um que me aparece… “De que é feita essa coxinha?” Come de uma vez.

A história é divertida porque personagens rabugentos são sempre legais. E não dá para ficar com dó do protagonista, né? A partir do momento em que ouvi esse relato, “pedir coxinha de siri” se tornou para mim metáfora perfeita para um agir cheio de frescura.

Pois não é que descubro, outro dia, por acaso – tudo bem, não foi muito por acaso, adoro perder meu tempo fuçando, na internet, sobre comida –, que um nobre estabelecimento de São Paulo vende não só coxinhas de siri, mas também de couve com aliche, berinjela com tomate seco, peito de peru com queijo branco, cordeiro e salmão? Quantos palavrões diria o dono de boteco se soubesse disso?

Num primeiro momento, minha reação também foi raivosa. Como ousam zombar dessa maneira de um de nossos mais notórios salgados? Qual o ponto de madamezar um item cuja apreciação perfeita só pode se dar em pés-sujos ou padocas, preferencialmente com o comensal recostado num balcão?

Depois de alguns instantes, fui ponderando. Porque embora criar símbolos e hábitos seja algo bacana, a defesa exacerbada da tradição e o purismo irrefletido logo pendem para o francamente retrógrado. E se a maldita coxinha de siri for boa, vou deixar de comê-la só porque foge do manual? Houvesse mesmo necessidade de honrar a tradição alimentar, estaríamos comendo carne crua – desconto aqui o fato de que muitos efetivamente ainda comem carne crua, dando nomes sofisticados para isso.

Para muito além da área gastronômica, foi a quebra dos paradigmas, a coragem de romper com o estabelecido que propiciou algumas das maiores invenções da humanidade: a roda, a imprensa de Gutenberg, o supermercado 24 horas, o divórcio – este, uma instituição de importância subestimada. Acredito que seria necessária uma troca: em vez do casamento, o divórcio deveria exigir votos perpétuos. Esse negócio de casal que volta evidentemente não pode dar certo: ex é ex e já teve sua vez.

Mas deixando de lado a divagação derivada e voltando à primitiva, vejo ter havido extrapolação minha ao tentar pôr a coxinha de siri no mesmo patamar elevado do supermercado 24 horas, do sexo com camisinha e da minissaia. Porque, no caso do salgado, não se trata de romper com o padrão para o surgimento de algo realmente novo. Massa de batata com recheio de siri poderia simplesmente receber o genérico nome de “bolinho”. Batizar essa invencionice – que pouco tem de original – de coxinha é apropriação indébita da glória alheia.

E, cá entre nós, impossível a coxinha na variante siri ficar melhor do que a original – contanto que haja salsinha no recheio.