Trocas desnecessárias

Ter de trocar de cabeleireiro é um tremendo aborrecimento. Num mundo ideal, cada pessoa deveria dar ao seu cabeleireiro um mandato vitalício, assim como têm os membros do STF. A diferença é que, ao contrário dos nobres ministros, os cabeleireiros não precisariam interromper seu ofício aos 70 anos: é na idade provecta que esses profissionais ganham confiabilidade. Bom sinal é quando preferem ser chamados de “barbeiros”.

Foi seguindo esse critério de antiguidade que me pus a buscar o substituto do Ederaldo, troca forçosa por mudança minha de cidade. Com todo o respeito aos bravos que ingressam agora no ofício, mas não dá para levar a sério um cabeleireiro de idade próxima a sua (assim como um analista). Há alguns anos, estabeleci como regra pessoal que um bom cabeleireiro deveria ter o triplo de minha idade (para analistas, o dobro seria o bastante). Ruim em matemática, como em tantas outras matérias, não atentei para o fato de que, haja vista a progressão, em poucos anos só me restariam como opções de cabeleireiro a dona Canô e os membros da Academia Brasileira de Letras. Flexibilizei os limites numéricos, mas ainda fazendo questão de escolher alguém de cabelos brancos – cabeleireiro que pinta seu próprio cabelo é uma lástima.

Após séria pesquisa, escolhi um lugar que parecia adequado: pesadas cadeiras de metal no salão, clientela exclusivamente masculina, cabeleireiro rindo sozinho de suas próprias nojentas piadas fascistoides e misóginas – todo aquele cenário que dá confiança a quem está prestes a entregar seus cabelos a um desconhecido. Se o cara tivesse começado a elogiar o Maluf e se declarado favorável à pena de morte, aí então seria perfeito.

Mas minha boa impressão inicial logo se desfez quando me sentei na cadeira e ouvi a triste pergunta padrão, “como você quer que eu corte?”. Que diabos o velhinho queria que eu respondesse? “Hoje vou ficar com o corte modelo B37”? “Comece com uma incisão da tesoura num ângulo de 50º em relação ao couro cabeludo, tirando 2,3 cm…”? Ou talvez eu devesse proceder de maneira análoga àquelas madames sem noção, levar uma revista com o George Clooney e dizer “quero ficar igual a ele”? Cacete, se eu soubesse instruir o camarada a cortar meu cabelo, não precisava apelar para um velho fascista, fazia eu mesmo o serviço em casa. Ele que está no ramo há 520 anos, deveria ter aprendido alguma coisa além de sugerir que nordestinos voltassem para o lugar de onde vieram. Ederaldo jamais me aborreceria com uma questão estúpida dessas – e suas ocasionais piadas politicamente incorretas jamais escorregaram para o nível repugnante ou criminoso, diga-se mais isso em favor dele.

Claro que o serviço não ficou bem feito, deveria ter fugido enquanto era tempo, depois da demonstração clara de insegurança. Eu próprio não notei nada, confesso. Minhas falas se limitaram a “bem curto, por favor, estou de saco cheio de cabelo” (alguma coisa tinha de responder) e “excelente”, ao final. Eu podia até tentar me enganar, mas não havia hipótese de enganar a Lívia, que notou “buracos” em meu cabelo assim que voltei para casa. Nem me dei ao trabalho de conferir, apenas balancei a cabeça, resignado. Nem é questão de prezar pelo meu visual, uma barbeiragem a mais ou a menos não fará diferença em meu incrível sex appeal. Mas quando você vai ao cabeleireiro, espera ao menos segurança – e revistas ruins.

Qual o padrão para mudar algo que na verdade não precisava de modificação? Talvez deva me arriscar com cabeleireiros impúberes e analistas recém-formados.

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Bichos e gentes

Fico sempre receoso quando começam a falar em “pureza infantil”: crianças podem ser bem malvadinhas, embora os adultos insistam em esquecer disso. Lembra os apelidos que o pessoal da escola dava para o pobre Rodolfo, que tinha a infelicidade de estar um pouco acima do peso médio? Ou o que falavam para a Nicole, sempre suando demais? Pense nas coisas que o Beto fazia com os gatinhos do prédio… Hoje, estou certo, todos esses pestinhas se transformaram em cidadãos respeitáveis e respeitosos, quiçá vegetarianos e militantes em prol da causa dos animais, mas quando pensam em algumas passagens da infância têm de apelar para a condescendência em relação a eles próprios, “não sabíamos o que estávamos fazendo”.

Ao menos quanto a essa questão de sadismo aplicado a bichinhos, estou limpo: jamais judiei de animais, qualquer fosse o tamanho deles, qualquer fosse a circunstância – e não faltaram ocasiões em que recebi incentivos de meus puros coleguinhas. Passados vários anos, um pouquinho mais maduro (mas não muito), continuo estarrecido quando me chegam ao conhecimento indícios de crueldade com animais.

Sinto necessidade dessa postura defensiva antes de uma terrível confissão: não dou bola para bichinhos, nunca quis ter animal de estimação – as girafas não têm tamanho adequado para serem domesticadas. Volta e meia alguém me insiste, mas do meu cachorro você vai gostar, ele é tão sei lá o quê. E quando acontece o inevitável (eu não dou a mínima para o bicho), olham-me como se eu tivesse alguma terrível mancha na alma por não me comover com os encantos do Totó da vez. Não tem jeito: cachorros grandes me dão medo, cachorros pequenos me irritam. E nenhum outro tipo de animal doméstico conseguiu me despertar sentimentos de ternura, já que as girafas não têm tamanho adequado para serem domesticadas, importante repetir.

Sou uma pessoa terrível? Não por isso, quero crer, e falo em nome de todos os camaradas que se sentem constrangidos a forçar uma risada quando amigos colocam aquele vídeo do gatinho tocando teclado no Youtube (que diabos aquilo tem de tão engraçado?). Não vou ficar com discurso besta de “enquanto vocês defendem os pequineses há uma criança morrendo de fome na África”, cada um se dedica à causa que quiser: acho muito importante, por exemplo, lutar pela volta do ketchup Heinz no Santoíche, ainda que isso não contribua pela pacificação das relações entre árabes e judeus.

Mas por favor, deixem-me não dar bola para os bichinhos em paz. Não farei mal a eles por isso. Eu gosto dos rodopios de Fred Astaire, dos girassóis de Van Gogh, das quebras de divisão do João Gilberto e do suco da rodoviária, mas não me concedo o direito de fazer ilações sobre o caráter dos desafortunados que não compartilham de meus apreços.

Também não posso deixar de perceber: este é um fenômeno recente. Quando foi que notícias de animais maltratados começaram a causar mais repercussão do que assassinatos “simples” de seres humanos? Quando pessoas que, por uma razão ou outra, não têm filhos começaram a chamar seus bichinhos de “meu bebê” e a investir em psicólogo canino e joias especificamente desenhadas para pastor alemão? Não estou julgando (não em público) quem tem esse tipo de comportamento, apenas vejo aí fatos que merecem observação e análise. São fatos humanos, e ainda tenho a audácia de preferir gente a bicho.

Modelos de resenha – música, cinema e cama

Depois de uma estreia de sucesso com o álbum X, a banda Y mostra que conseguiu superar com folgas a temida prova do segundo disco, explodindo nas paradas com Z. Os rapazes voltaram com tudo neste trabalho com refrãos pegajosos e riffs de guitarra cheios de pegada. As canções formam um todo vigoroso, visceral, orgânico e sem glúten, com melodias marcantes para assoviar. Também merecem destaque as letras do álbum, que conseguem expor sentimentos de dor e perda obtendo efeitos verdadeiramente poéticos, sem descambar para a melancolia rasteira típica das bandas adolescentes contemporâneas. Há uma sutil diferença entre canções dilacerantes e simples canções de corno – a banda Y aprendeu direitinho a lição. Ao vivo, as canções do álbum rendem ainda mais, como os fãs brasileiros poderão comprovar em breve com a passagem da milionária turnê mundial N. Para uma geração tão carente de porta-vozes, sofrendo com a superexposição de artistas fabricados e de conteúdo vazio, a banda Y mostra que ainda há uma luz no fim do túnel.

 

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Depois de uma estreia de sucesso com o filme X, o diretor Y mostra que conseguiu superar com folgas a temida prova do segundo longa-metragem, fazendo bonito nas bilheterias com Z. O cineasta voltou com tudo neste trabalho com enredo misterioso e montagem não-linear. Muito cedo, Y já mostra que tem estilo e pegada bem delineados. Os planos formam um todo vigoroso, visceral, orgânico e sem glúten, com várias imagens para ficar na memória. Também merecem destaque os diálogos do filme, que conseguem expor sentimentos de dor e perda obtendo efeitos verdadeiramente poéticos, sem descambar para a melancolia rasteira típicas dos filmes para adolescente contemporâneos. Há uma sutil diferença entre a análise profunda dos relacionamentos humanos e simples sentimentalismo barato – Y aprendeu direitinho a lição. Na tela grande, as sequências de Z rendem ainda mais, como os espectadores brasileiros poderão comprovar em breve com a chegada do filme aos cinemas. Para uma geração tão carente de artistas que tenham algo a dizer, sofrendo com o bombardeio de imagens de videogame travestidas sob o rótulo de “blockbuster”, Y mostra que ainda há uma luz no fim do túnel.

 

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Depois de uma noite de sucesso aquele dia na festinha da X, Y mostra que conseguiu superar com folgas a temida prova do segundo encontro, fazendo bonito mais uma vez com Z. O rapaz voltou com tudo, sabendo jogar com seu ar misterioso e uma pegada forte e certeira. Y não deu tempo para Z pensar se cederia ou não, mostrando logo a que veio e mandando ver em amassos contagiantes, vigorosos, viscerais, orgânicos e sem glúten, com vários momentos para Z esquecer a culpa católica. Também merece destaque a folclórica lábia de Y, que consegue aplicar cantadas fatais sem nunca apelar para o grosseiro ou para as constrangedoras frases feitas. Há uma sutil diferença entre os procedimentos que fazem uma mulher sentir-se uma rainha, quando ouve a observação precisa no momento adequado, e aqueles que fazem uma mulher sentir-se nauseada, quando ouve sentimentalismo barato em comentários babões – Y aprendeu direitinho a lição. Na cama grande de motel, a performance de Y rende ainda mais, como Z pôde comprovar no fim de semana. Para uma geração de mulheres tão carente de homens de verdade, sofrendo com o triste dilema de ter de escolher entre os cafajestes de sempre ou os frouxos que se intitulam “bonzinhos”, Y mostra que ainda há uma luz no fim do túnel.

Intimidade de churrasco

Ela disse que eu deveria sorrir mais, sorrir faz bem, e que se preocupava comigo porque eu só parecia me soltar enquanto estava tocando o violão. Quem me deu o sábio conselho não foi minha analista, ou minha mãe, nem minha namorada, tampouco uma amiga, nem sequer uma conhecida. Na verdade, não lembro o nome da mulher que traçava meu perfil definitivo tendo como únicos elementos de interpretação alguns pedaços de uma canção que não consegui tocar até o final e a cara abobada de sono. Mas não a culpo pela ousadia de seus palpites. Afinal, depois de me resumir a história de sua vida, com cenas de tragédia, humor e romance, a partir de uma inocente pergunta retórica minha – “em que você trabalha?” ou qualquer coisa do tipo – natural que esperasse reciprocidade no tratamento franco.

Fascina-me a facilidade com que pessoas ficam íntimas em churrascos, mesmo que a intimidade dure até o fim do porre, deixando poucas lembranças. A intimidade de churrasco é praticamente uma instituição nacional, tendo seus ritos e protocolos. Não consigo me enquadrar muito bem nessa brincadeira – o que me rende a pecha de homem de poucos sorrisos, nos melhores casos, e de insuportável escroto arrogante, nos piores –, mas não deixo de perceber certa poesia na forma como o enredo se repete.

Chegando à festa, você tenta ficar do lado das pessoas que conhece, mas sempre haverá mais rostos desconhecidos do que familiares. Fantasmas colegiais de dificuldade de interação ressurgem quando os poucos conhecidos vão sumindo – encontram outros amigos, vão ao banheiro, estão atrás de uma menina – e a você resta o papel meio humilhante de tentar forçar entrada numa rodinha de conversa.

Aos poucos, no entanto, os diferentes grupos vão se homogeneizando, e para a percepção desse processo contribuem como principais fatores o álcool, os jogos de cartas e os lamentos sobre condições de trabalho e remuneração – esse último item se verifica mais claramente em churrascos compostos por uma maioria de jornalistas.

O auge da centralização de atenções entre os convidados acontece quando se decide desligar o som e entregar um violão a algumas pessoas que se revezam em seu manejo. Dadas as condições gerais, o grosso do que se ouve serão sempre canções medíocres em interpretações muito abaixo da média, mas frequentemente recebidas com generosidade excepcional, pequena glória para nós, amadores.

Por insistência, a verdade em algum momento se impõe, e a audiência do espetáculo começa a dispersar. O trovador da vez nunca segue o exemplo de Pelé, continuando ativo mesmo bem depois do auge e alheio aos espetáculos paralelos que se armam: o camarada que exagerou além do exagero regulamentar vomita no gramado, um casal briga em altos brados, uma criança vagueia perdida, uma moça dança libidinosa em frente a um bêbado babão, uma discussão que parecia amena se transforma em princípio de briga a ser contida por amigos um pouco mais sóbrios, a mulher de olheiras sente prazer ao fazer confissões de preferências sexuais sem que ninguém tenha perguntado algo sobre o tema etc.

É por essa altura que as intimidades se formam, e é meio bonito e meio triste, porque o fato de o momento ser efêmero, todos sabem disso, não impede que seja intenso e real. Fragilidades ficam expostas. Mas nos dias seguintes, no facebook, só haverá fotos de pessoas sorridentes. Qual é mesmo o nome desta?