Não-Me-Toque

Os corintianos ainda comemoram, com todo o mérito, a conquista do campeonato mundial; há quem esteja assustado com a possibilidade do fim do mundo, anunciado para daqui a três dias, de acordo com algumas interpretações do calendário maia; caso sobrevivamos a mais essa profecia, são compras natalinas a fazer, festanças a preparar, planejamento de férias; e mesmo com essa agenda cheia, os escândalos políticos continuam a aparecer, fornecendo pautas aos jornais no fim de ano.

Com tanto acontecendo, quem haverá de se lembrar do aniversário do município gaúcho de Não-Me-Toque, que hoje completa 58 anos de fundação? Talvez nem os próprios não-me-toquenses estejam dando muita bola para a data, o que seria um pecado. Mas não, prefiro pensar que esses honrados cidadãos folguem hoje em bonita festa, condizente com a grandeza da efeméride.

Ah, eu preciso falar de Não-Me-Toque, seria tão injusto esquecer os anos de Não-Me-Toque apenas porque outros eventos concomitantes movimentam mais gentes. Na verdade, devo confessar, queria mesmo era estar em Não-Me-Toque. Não deve haver melhor lugar para ficar imune às asperezas da vida do que uma cidade com esse nome.

Jesus diz “não me toques” a Maria Madelena quando ela o reconhece após a ressurreição – a frase é motivo de controvérsia entre estudiosos bíblicos, distintas interpretações. Mesmo a origem do nome “Não-Me-Toque” para o município gaúcho não é certa, muitas histórias díspares. Eu não me importo, seja lá qual a razão para Não-Me-Toque assim ser chamada, a sonoridade me apraz.

Há 15 mil pessoas em Não-Me-Toque, mas hei de encontrar logo a menina mais bonita da cidade e presenteá-la com uma rosa amarela. A avó de alguém sabe fazer magníficos doces em Não-Me-Toque, e como boa anfitriã oferecerá quitutes a este visitante, hei de comê-los com prazer. Todos andam bastante por lá, há belos lugares para caminhada, de modo que não há necessidade de contar as calorias. Os torcedores do Corinthians atravessaram sei lá quantos mil quilômetros para acompanhar o time, dizem que estão em todos os lugares do mundo, mas os fogos de artifício barulhentos não chegam a Não-Me-Toque. Bela cidade invulnerável.

Não deve haver cinema por lá, mas eu posso levar meu acervo de filmes, convidar o pessoal para algumas sessões. Serei amigo das pessoas mais legais de Não-Me-Toque. Contarei piadas, ganharei no truco, cantarei canções bonitas e serei aplaudido. Até as crianças devem ser legais e calminhas. Cigarro não dá câncer em Não-Me-Toque.

Na igreja da cidade, o padre é um velhinho sábio, que pode me ouvir com paciência e falar coisas sobre o perdão. Depois de escutá-lo, posso até partir tranquilo, deixar Não-Me-Toque. E voltar quando necessário for, sem medo.

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Cortadores de cana e coisas do além

Por que tanta gente parece temer as coisas do outro mundo? Em geral, considero-me um tanto medroso, mas nesse particular caso não consigo entender as razões para a angústia. Sem precisar ir muito longe, neste nosso planetinha aqui mesmo, enfrentamos furacões, raios, enchentes, terremotos, genocídios, fome, frio, doenças degenerativas, solidão, culpa, depressão e pastas “sabor requeijão à base de amido”. Colocar só umas alminhas penadas para competir com esse elenco (um tanto resumido!) não passa de uma grande covardia.

Já manifestei essa convicção em público, tendo recebido algumas respostas interessantes: o que está neste mundo, no máximo, pode matar-me; não se sabe o que pode vir do desconhecido. Bem, para meu particular apreço, morrer já é ruim o suficiente. Lembremos, porém – não preciso entrar em detalhes para não amargar ainda mais o dia do leitor –, que um vivente pode ter de passar por um número alto de horríveis condições limitadoras antes de ir de vez para o outro lado do mistério.

Não adianta, o mais assustador do além não é o que ele possa vir a oferecer. Já temos por aqui excelente oferta de desgraças. O apavorante mesmo é pensar nas privações de quem está num outro plano. Afinal, Deus nos deu um tanto de coisas lindas para compensar os perigos desta vida, que são demais. E deve ser chato estar numa dimensão sem acesso aos novos filmes do Woody Allen, aos shows da Monica Salmaso, a um bom boteco com mesa de sinuca torta, a um sorvete de doce de leite redentor, à possibilidade de uma paixão que se consuma no encontro das ideias, dos risos e da carne.

Por algum mecanismo de associação que não consigo explicar, pensar nas coisas do outro mundo me faz lembrar dos cortadores de cana-de-açúcar, bem concretos e terrenos. Aprendi uma ou outra coisa sobre o setor sucroalcooleiro nos últimos dias, razões profissionais. A mais impressionante é a quantidade de cana deste país: é colhido por ano algo próximo a 700 bilhões de quilos. Eu nem sabia que havia tanto peso no mundo. Já acho minha televisão pesada demais para carregar da sala ao quarto.

Todo mundo fala de soja, que realmente ocupa três vezes mais área plantada no Brasil, mas a cana é uma plantinha robusta. Postas as duas safras numa gigantesca balança imaginária, a soja teria apenas um décimo do peso. Na verdade, somada toda a produção de alimentos do Brasil, o resultado é mais ou menos metade dos 700 milhões de toneladas de cana. E a maioria dessa produção é colhida no braço. A mecanização não chegou a muitas áreas.

Quando eu estava fazendo corpo mole por alguma razão, meu pai costumava dizer-me, “queria ver você trabalhando na plantação de cana”. Sábia advertência. Num dia médio, é esperado que um cortador colha dez toneladas – e essa é apenas a quantia oficial, considerada salutar pelo Ministério Público. Como recebem por volume de trabalho, aproximadamente R$ 2,50 por tonelada, muitos querem ir além das míseras dez toneladinhas. Eventualmente, um ou outro acaba morrendo de exaustão, fazer o quê.

Nessas condições, será que os cortadores de cana têm tempo para ficar pensando em almas penadas e quetais? A resposta “não” é tentadora, para adotar uma sociologia de botequim. Mas fosse obrigado a apostar, diria que muitos dos cortadores devem sim morrer de medo de fantasmas, por que não? Sofrer não nos faz melhores, nem imunes às fraquezas.