O lado certo da cama

O meu lado certo da cama é o direito (considerando que se está deitado de barriga para cima), sempre foi e sempre será. Qual seria o seu lado certo da cama, meu camarada? Posso apostar que você tem um, mesmo que nunca tenha pensado sobre isso. Apesar de difícil, podemos até ser neutros quanto à preferência por Corinthians ou Palmeiras, Chico ou Caetano, PT ou PSDB, casar ou comprar uma bicicleta. Mas sempre há uma decisão, certa e irrevogável, quanto ao lado da cama em que se dorme. Observem-se, lembrem-se de papai e mamãe, pratiquem voyeurismo com um binóculos espiando a janela do vizinho: os membros de um casal escolhem um lado da cama para dormir e mantêm a rotina até a morte – ou até o divórcio com belicosa divisão de bens, como é mais comum nestes dias.

Curioso observar que a escolha de lados, no mais das vezes, dá-se sem reflexão ou discussão entre o casal. Inconscientemente, talvez. E se por acaso ou rotação lúbrica a pessoa se vê fora de seu lado da cama habitual, há a sensação imediata de desconforto. Como um destro escrevendo com a canhota, um churrasqueiro comendo hambúrguer de soja, um fã de Pearl Jam ouvindo canções do Cole Porter.

Numa recente conversa de travesseiro, ocasião propícia para assuntos os mais despropositados surgirem, fui delicadamente “acusado” de ter imposto a divisão dos lados da cama. Mas se não houve verbalização quanto ao assunto (muito menos avanço físico, jamais chutei a Lívia para a esquerda, juro) como poderia ter havido alguma imposição? Não consigo racionalizar sobre as razões por que prefiro o – a esta altura seria mais correto falar em “preciso do” – lado direito da cama.

A melhor explicação que consigo achar é o fato de que, estando em meu posto estabelecido, meu braço direito fica por cima quando quero abraçar a namorada, situação mais confortável para mim, sou destro. Admito que esse é um palpite fraco e pouquíssimo representativo para o estudo do fenômeno – fica aí uma proposta de pesquisa para cientistas sociais, psicólogos, antropólogos e ocupantes de cargos comissionados no Congresso Nacional. Prefiro pensar em acomodação natural dos corpos, numa maneira quase mística.

Será que o lado certo da cama pode servir como indício do caráter de cada um? Ou pelo contrário, dormir do lado esquerdo ou direito por anos seguidos acaba determinando a personalidade de um filho de Deus? Seria curioso descobrir que Stálin e seu bigode, no fundo, tendiam para a direita. Talvez Mussolini, no isolamento de sua alcova, fosse inverterado esquerdista. E se fossem flagrados no leito, os políticos do PMDB teriam problemas para manter o arco de alianças: quando se trata de cama, não adiantam evasivas, tergiversações, terceiras vias, convicções flexíveis – todos são clara e definitivamente direita ou esquerda.

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Helena e Marina

Dorival Caymmi pediu a Marina, personagem provavelmente fictícia de sua canção, para que não se pintasse; eu peço a Helena, personagem certamente real e viva, minha priminha de 11 anos, para que não alise os cabelos. Tem cachinhos que são uma graça, a Helena.

Não pretendo competir em beleza (e projeção) com o apelo musical do compositor baiano, que continua a motivar o batismo de muitas Marinas em nosso país, apesar de ter sido escrito no longínquo 1944. Mas pondo a diferença de dotes artísticos de lado (ou “de parte”, como diria Caymmi), estou seguro em dizer que meu pedido é mais razoável.

A música merece mesmo a posição de clássico alcançada, mas vamos convir que o sermão aplicado na pobre Marina tem um tanto de machismo, não? Suavizado pelo uso exemplar da linguagem poética (“você faça tudo, mas faça um favor”), por galanteios (“você já é bonita com o que Deus lhe deu”) e uma mágoa fofinha (“tô de mal com você”), nota-se um discurso bem pesado: o personagem masculino da canção se diz proprietário do rosto da moça, mostra-se irascível (“quando eu me zango, Marina, não sei perdoar”) e com uma empáfia estratosférica (“você não arranjava outro igual”, com esse “igual” claramente tendo valor semelhante a “tão bom quanto eu”). Tudo isso por conta de um pouco de rímel, blush e um batonzinho? Ora, francamente.

Um analista mais ousado da canção poderia sugerir que “pintar-se”, no texto, é metáfora para a prostituição ou símbolo de uma mulher que deseja se mostrar sexualmente disponível para outros além de seu cônjuge – ou namorado, ou amante titular, o que seja. Mas acho que a interpretação literal é mesmo a mais segura: temos aqui um personagem da primeira metade do século XX, que condena (e não sabe conviver com) quaisquer demonstrações de vaidade feminina. Uma visão comum à época, como podemos perceber quando Ataulfo Alves e Mário Lago louvam uma Amélia sem “a menor vaidade” em outro clássico do cancioneiro brasileiro, composto no mesmo período.

Voltando a minha priminha: eu já acho que você tem mais é de envaidecer-se mesmo, Helena, com os seus cabelos e com tudo o mais que compõe a sua beleza. Tem motivos para isso e é justo que busque realçar seus traços quando puder. Só me permita tomar emprestada do velho Caymmi a parte do “já é bonita com o que Deus lhe deu”.

Poderia chegar com aquele papo de que o desejo de cabelos lisos reflete a imposição de um padrão de beleza determinado pelos detentores do poder, blá blá blá, mas não acho que essa seja a questão mais importante, além de não servir como argumento eficiente.

Há outros elementos mais tangíveis, e destaco aqui três deles: a praticidade – é mais fácil realçar seus cachos do que alisar o cabelo a toda hora, tornando-se “escrava da chapinha”; a distinção – pode hoje parecer mais confortável equiparar-se à multidão de garotas com cabelos lisos, mas estas só se veem em maior número porque é mais fácil nivelar as madeixas desse modo. Brigar para fazer parte do ordinário não faz sentido. Tantos querem ser extraordinários a qualquer custo, você já o é, e de maneira bela, o que nos leva ao terceiro ponto; a sensibilidade ao apelo popular – se diferentes pessoas, de distintos meios, sem combinação prévia, repetem a mesma coisa, é saudável rever as convicções e ouvir o que o mundo nos diz. E neste caso, o que todo mundo está dizendo é para você parar de besteira querendo esticar esse cabelo, quando tem cachinhos tão bonitos.

Mas se você não quiser dar ouvidos, tudo bem: não tô de mal, não preciso perdoar, seu cabelo não é meu. Estamos em 2013, as mulheres são donas de seus narizes – mas não se fazem mais tantas canções bonitas.