A galinha pintadinha: uma análise sóciopsicoliterária-político-antropodialética – texto completo

Este ensaio me foi enviado pelo Prof. Dr. João Ângelo Moraes (Unaerp). Reproduzo-o aqui por considerar que os bons textos acadêmicos merecem ser divulgados também fora das universidades.

“A galinha pintadinha/E o galo carijó/A galinha usa saia/E o galo paletó//A galinha ficou doente/O galo nem ligou/Os pintinhos foram correndo/Pra chamar o seu doutor//O doutor era o peru/A enfermeira, o urubu/A agulha da injeção/Era a pena de um pavão”.

O projeto “A galinha pintadinha”, iniciado em 2009 por publicitários paulistas, vem conseguindo expressivo sucesso com a divulgação de canções infantis. Estima-se que já foram vendidos mais de 450 mil DVDs do grupo. No repertório, há temas tradicionais para crianças (“Marcha Soldado”, “Alecrim Dourado”), mas também composições originais.

Ouvidos apressados de adultos tendem a identificar nessas novas canções apenas rimas simples e melodias pegajosas, não atentando à ampla significação das fábulas repetidas por crianças de todo o país. Este trabalho propõe uma visão menos ingênua desse projeto, tomando como base a canção “A galinha pintadinha”, de sintomático título homônimo ao próprio grupo. Por meio de breve análise, pretende-se evidenciar a carga ideológica dos versos e pôr em foco as possibilidades polissemânticas dos signos espalhados na letra da canção.

Como constante em todo o trabalho do “A galinha pintadinha”, percebe-se a denúncia da sociedade patriarcal e o incentivo à libertação feminina, que passa pela assunção de uma sexualidade plena, isenta da culpa católica e dos freios morais atavicamente perpetrados pela elite dominante.

Quanto à estrutura formal, a canção “A galinha pintadinha” segue um padrão clássico: na primeira estrofe, apresentam-se os personagens (a galinha pintadinha e o galo carijó); na segunda, há a evidência do conflito (a doença da galinha negligenciada pelo galo e o alarme das crias); no terceiro, a resolução.

É no desfecho que o já referido ouvinte apressado pode não se satisfazer com a resposta às questões levantadas na segunda estrofe: afinal, a galinha se curou?; o casamento foi abalado pela falta de apoio do galo à cônjuge?; por que, afinal, a introdução aparentemente despropositada, justamente no fim da canção, de personagens díspares como o peru, o urubu e o pavão?

O inevitável incômodo com essas incongruências não chega a ser racionalizado pelo ouvinte médio, que tende a menosprezar as mensagens das canções infantis. “Música para criança não tem de fazer sentido mesmo, é só ser animadinha e rimar em ‘ão’ que fica tudo certo”, gritam, ainda que em nível inconsciente, muitos pais brasileiros – se o pestinha finalmente se calou ouvindo aquilo, desvendar a letra da canção passa longe de prioridade. Este autor ainda não teve a bênção de ser pai, gozando assim de tempo para algumas inferências. Vamos a elas.

A apresentação dos protagonistas traz apenas dois atributos para cada um deles. Já de saída, as qualificações apontam para um arranjo familiar tradicional, de ascendência masculina. A galinha é “pintadinha” (adjetivo no diminutivo, apontando para delicadeza), ao passo que o galo é “carijó” (a atenção vai para sua raça, nobre, forte); quanto aos trajes, temos para o macho o imponente paletó e para a fêmea a saia, peça que permite acesso rápido à genitália feminina quando a concupiscência do galo aflora. Notemos também que as rimas dessa estrofe, em sonoros “o” tônicos e abertos, estão apenas nos versos pares, dedicados ao macho. A métrica é fixa, de sete sílabas poéticas (redondilhas maiores), metro mais popular da língua portuguesa (“Atirei o pau no gato”, “Batatinha quando nasce”, “Quando olhei a terra ardendo”).

O conflito da segunda estrofe se dá com a doença da galinha seguida da indiferença do galo. Parece claro que, estando a fêmea impossibilitada de cumprir sua função reprodutora, não tem mais préstimo para o macho. As crias são apresentadas na canção já em cenário de nervosismo (“correndo”), evidenciando o quão traumática pode ser para os filhos a instituição familiar baseada num casamento disfuncional. O desarranjo do conteúdo da canção é acompanhado pela mudança abrupta da forma, que deixa as redondilhas e passa a ter versos de metro irregular.

A terceira e mais enigmática estrofe revela, como elementos de cura da galinha, um peru, um urubu e a pena de um pavão. Para ajudar-nos a entender as metáforas, faz-se útil pensar nas lembranças mais comuns quando o nome dessas aves vem à tona. O peru pode designar a genitália masculina e é um alimento tradicionalmente servido (morto) no Natal (data que celebra a vida e a redenção); o urubu é uma ave carniceira; o pavão, associado à vaidade, é notório pela beleza de suas penas. Tem-se aqui a clara mensagem de que, para o renascimento da galinha, torna-se necessária uma morte – o fim do matrimônio. Essa nova vida será caracterizada pela atividade sexual intensa, desvinculada da necessidade procriadora, e pela autoestima da personagem feminina elevada com o fim do represamento de sua vaidade, subjugada pelo peso de anos de convivência com um macho opressor. A galinha é uma galinha – no sentido do termo empregado com carga pejorativa – e gosta de si mesma sendo assim. A ordem se restabelece com a livre galinhagem, e o metro pode voltar à forma fixa das redondilhas.

Concluímos que o projeto “A galinha pintadinha”, apesar de louvável na medida em que defende uma visão familiar progressista e prega a emancipação feminina, deve ser exposto com cautela às crianças. Recomenda-se o uso de notas explicativas e contextualização histórica, pois a exposição não assistida a um texto literário tão intenso pode gerar incompreensão de consequências maléficas em menores de 14 anos. Devemos cuidar para que as justas reivindicações de tolerância sexual e equidade entre homens e mulheres não sejam desvirtuadas e compreendidas como meros libelos políticos extremistas embebidos de radicalismos antimatrimoniais.

Esta crônica é dedicada a todos os estudantes de Literatura.

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Contando com a miopia de Iemanjá

Não sei muito bem qual a diferença entre as funções de Iemanjá, Janaína, Iara, Santa Clara, Oxum, Ogum, Exu, Xangô Agodô, barco, canoa, jangada, galeota, fragata, navio, caravela; odeio areia na pele, calor grudento, água salgada, água de coco (lembra-me o gosto de soro caseiro), o contato inevitável com fezes e urina alheias diluídas, latas de coca-cola morna sendo vendidas por cinco pilas e a exposição pública (ainda que parcial) de minha nudez; nem para camarão eu dou muita bola, para falar bem a verdade.

Mas eu gosto da paisagem marítima e dos relatos das grandes navegações; adorei assistir a “O Grande Motim”, com Clark Gable e Charles Laughton, e ao “Captain Blood”, com Errol Flynn; vibrei com a leitura de “Mar Morto” e, nossa!, como acho lindos as canções praieiras de Caymmi (“Dia dois de fevereiro/Dia de festa no mar/Eu quero ser o primeiro/A salvar Iemanjá”) e os afro-sambas de Baden e Vinicius (“Se você quiser amar/Se você quiser amor/Vem comigo a Salvador/Para ouvir Iemanjá”). Sobretudo, não resisto a convites inusitados repentinos e à possibilidade de uma pequena aventura.

Por impossibilidade de Salvador, escolhemos Caiobá mesmo. A Lívia veio me lembrar que o dia seguinte era dois de fevereiro, dia de Iemanjá (isso eu já sabia, por causa da canção). Que tal se fôssemos até o litoral jogar umas flores no mar, as praias ficam tão perto de Curitiba, nunca aproveitamos isso… Topei na hora − atraiu-me o absurdo da ideia deste triste descrente preparando oferendas para Iemanjá.

A véspera já foi divertida: roubamos flores azuis do parque, a Lívia fez barquinhos e comprou velas biodegradáveis − artigos ambientalmente corretos são mais difíceis de afanar. Arregimentamos também os camaradas Gabriel e Rodrigo, que muito providencialmente forneceram, além da inestimável companhia, uma ajuda de custo para o combustível.

Posso dizer que a viagem foi divertidíssima, mas talvez tenhamos demorado um pouco a chegar ao destino. Talvez, quem sabe, o atraso tenha a ver com certa garrafa de cachaça de banana encontrada no caminho. Confiamos na generosidade dos anfitriões − restaurante caseiro, aquele clima à vontade − e estendemos por conta própria a cortesia de uma pequena dose de aperitivo para uma garrafa quase inteira, motivando salutar troca de motorista.

Já era tarde quando paramosem Caiobá. Aparentemente, fiquei sabendo, isso influi na potência (esse é o termo correto?) das ondas. Para que os barcos com as oferendas não voltassem à areia − seria um lastimável sinal de recusa, por parte de Iemanjá, de nossos desejos −, Gabriel e Rodrigo foram deixá-los lá longe. Não quis ficar diminuído entre os amigos na frente da namorada, que sabiamente ficou na areia, e lá me fui com eles. Para meus queridos malandros cariocas, o clima estava “Garota de Ipanema”, mas eu j estava num espírito “É Doce Morrer no Mar”.

Não cheguei a oferecer presente para Iemanjá: ela que mo arrancou das mãos, assumindo forma de impiedosa onda. Talvez a impaciência da entidade espiritual tenha a ver com a falta de ofertas por estas bandas do Paraná, anos-luz atrás de Rio de Janeiro e Bahia. Junto com o agrado que já forneceria voluntariamente, Iemanjá também achou por bem tomar-me os óculos − este pato míope esqueceu de tirá-los para entrar na água.

Que barquinho com flor roubada que nada! Ofereço meus óculos (quanta carga simbólica!), minha visão, meu destino. Ó Iemanjá, conduza-me em meus caminhos − ou ao menos me ajude a não fazer papel tão ridículo em minha próxima excursão ao litoral.