Nelson Alexandre ou Convite à realidade

Faz uns três anos, meu amigo Alexandre Gaioto me convidou para participar do projeto “Contos Maringaenses”. Fiquei meio tímido, por várias razões: sou naturalmente tímido, estava há pouquíssimos meses em Maringá (de modo que não poderia me considerar maringaense), sempre escrevi majoritariamente crônicas (de modo que não poderia me considerar contista, mesmo que a estrutura narrativa de um ou outro texto meu resvalasse no gênero) e não conhecia quase ninguém do grupo. Ainda assim, cara de pau compensando a timidez, topei a parada, parecia um projeto bacana e seria grosseiro esnobar a oportunidade.

Em dez minutos de reunião, não havia nem conseguido terminar a primeira cerveja e decidir quais meninas eram mais bonitas, mas percebi claramente ali o sentimento tácito e consensual de que Nelson Alexandre era o melhor de todos nós. No e-book que inaugurou o grupo (e no blog “Contos Maringaenses”, que continua sendo alimentado até hoje), há muitos textos interessantes de autores vários. Mas estávamos ali entre jornalistas, advogados, engenheiros, professores, estudantes que nas horas vagas emprestavam seu talento à literatura, por diletantismo, vaidade ou esforço para dar início a uma obra, obtendo resultados melhores ou piores. Nelson não se enquadrava: era simplesmente escritor, e nas horas vagas vivia o material que, com inspiração e labuta, viria a transformar-se em sua arte.

Parecia não haver outra possibilidade a Nelson senão a literatura – e isso tornava seus textos impressionantemente reais, ainda que o enredo pudesse estar repleto de histórias impossíveis. Mesmo na mesa do boteco, de bermuda, falando de improviso gaguejante sobre seus projetos e percepções da arte, o camarada defendia seus pontos de vista com uma paixão impossível de não ser admirada, mesmo para quem eventualmente discordasse de seus argumentos. E não éramos apenas nós, neófitos ante um cara mais velho, que lhe prestávamos respeito: Nelson já havia recebido a chancela de escritores notáveis, tinha livros engatilhados, dava a impressão de ser o próximo nome a estourar.

Pode até ser poética a literatura como única possibilidade, mas a vida está mais para prosa seca. A chancela dos figurões rendeu menos do que o esperado, seu livro foi editado e distribuído de maneira equivocada, pequenos infortúnios somados corroboraram o velho ditado de que desgraça pouca…

Fiquei triste. Triste de ver o Nelson abatido, sem emprego, blasfemando, com aquela cara de “quanto tempo perdido” ao falar de sua obra. Mas isso já passa, logo se dá um jeito, com ajuda de amigos, ou terapia, ou superação pessoal, ou sorte, ou Deus – ou tudo isso e mais um pouco junto.

Fiquei mais triste por Maringá. Com sua bela universidade, elite acadêmica nacional, oferecendo um programa de doutorado em letras repleto de sumidades discutindo o materialismo lacaniano nas orações subordinadas substantivas completivas nominais reduzidas de infinitivo constantes da terceira parte do Triste Fim de Policarpo Quaresma, de Lima Barreto – mas sem olhos para a obviedade de ter ali na esquina um contista desgraçado de bom, sem nada a dever para os mais laureados do país. Maringá e sua pretensão de convidar repetidamente à dança, ao teatro, à música, ao cinema, ao circo, aos atropelamentos na Avenida Colombo – convidando irrefletidamente sem dar bola para o convite antigo e reiterado de dar o devido reconhecimento a um grande escritor local. A cultura de Maringá precisa se pôr à altura de Nelson Alexandre.

PS: Esta crônica foi escrita antes do anúncio de que Marcos Peres, com seu “O Evangelho Segundo Hitler”, foi o vencedor do prêmio Sesc de Literatura. Muito feliz pelo Marcos. Novamente triste pelo reforço da percepção de que é mais fácil um bom artista ser reconhecido em nível nacional do que em sua própria casa, quando a casa é Maringá.

Lembranças do futuro

Das lembranças mais antigas da infância: era época de natal e eu queria porque queria um jogo de tabuleiro. Nem sei do que se tratava o negócio, mas era o jogo do Gugu e tinha o dito cujo, loirão e meio afrescalhado, estampando a caixa do jogo. Meus pais deixaram bem claro que deles eu não ganharia o jogo, não nesta vida, em hipótese alguma. Imagina, brinquedo licenciado pelo Gugu era o que de pior poderia haver na sociedade de consumo. Investir dinheiro conquistado com muito esforço e trabalho num jogo que, não fosse o apresentador e seu sorrisão falso na estampa, custaria metade do preço. Juntar-se à cambada de mentecaptos que sustentam um homem imbecilizante, alienante, sei lá mais o quê. O Sílvio Santos pelo menos tinha uma rapidez verbal invejável, grande comunicador a serviço do mal. Agora, aquele lá, nem isso. Uma figura de dar engulhos. O filho deles não precisava acreditar em Papai Noel, não precisava de jogo do Gugu – mais tarde, eles também acharam que eu não precisava de patins roller, mas acabaram cedendo.

Veio o natal e, embora eu tivesse ouvido de cabeça baixa, seguidas vezes, o mesmo discurso – com ligeiras variações entre os termos “mentecapto”, “idiota”, “imbecil”, “ignorante”, “pateta”, “abjeto”, “torpe” e outros que minha memória não alcança –, ainda tinha alguma esperança de que o espírito da noite feliz diluísse o fervor revolucionário de meus pais. Doce ilusão. Fiquei sem o jogo, nem lembro o que me deram no lugar, pouco interessava, não tinha o que queria.

Hoje eu me orgulho de meus pais não me terem dado o jogo do Gugu – mesmo o roller, coloquei no pé meia dúzia de vezes e, desajeitado como ainda o sou, nunca mais. Talvez eu não precisasse mesmo dos patins. Certamente não precisava do jogo do Gugu. Aprender a lidar com frustrações faz parte de uma educação digna, aprender a ver as coisas com espírito crítico, também.

Claro que desaprovo o exagero retórico de meus pais para uma criança – e nesta crônica exagero ainda mais, para efeitos cômicos. Eles também mudaram, o muro caiu, todo mundo sabe que o Fidel é mesmo um ditador, veio o mensalão, juntos vibramos com o começo do Lost e nos decepcionamos com o final daquele magnífico enlatado imperialista. O mundo dá voltas, mas, sabe, quando chegar a minha vez, também não quero meus filhos servindo de propaganda ambulante do apresentador mentecapto (idiota, imbecil, torpe…) da vez. Isso tudo posto, cara!, como eu sofri por não ter aquele jogo!

O que quero dizer é que a análise racional, a posteriori, desqualificando a importância de determinado evento não diminui a intensidade das emoções vividas em tal situação, com todas as consequências possíveis de surgir daí. O jogo do Gugu é insignificante, a necessidade de tê-lo era irreal – mas não foi irreal a dor que senti, a experiência significou muito. Porra!, eu lembro até hoje!, isso faz mais anos do que eu gostaria de admitir. Podemos ficar miseráveis (ou radiantes), de verdade, por muito pouco.

E eu tenho aqui um monte de episódios de seriados que baixei, mas ainda não os vi, falta ânimo para encará-los sem a trilha sonora das suas risadas, sem o apoio do seu colo, sem os debates que sucedem à sessão e evoluem para assuntos os mais despropositados.
Há alguns dias não estou do seu lado, alguns poucos dias. Logo nos veremos.

Vêm e me dizem que é só uma fase de distância, a vida moderna faz isso com muitos casais hoje em dia, o importante é que gostamos um do outro, confiamos um no outro, somos parecidos em muita coisa, combinamos, é melhor estar com alguém por vontade do que por necessidade etc.

Estão todos certos, como é de praxe para quem observa do alto. Mas o que eles sabem do que sinto, a força com que me dói, o quanto isso me abate, o quanto isso me custa?

LEC X Coritiba – o papo de boteco e o registro oficial

Ficar sociologizando futebol é, grosso modo, chato pra caramba. Além disso, implica o constante risco de descambar para evidentes exageros do tipo torcer contra a Seleção Brasileira alegando que a euforia com a vitória esportiva mascara as mazelas do país. Tentemos passar longe dessas bobagens.

Ao torcedor casual que de vez em quando comparece ao estádio, no entanto, é impossível não se impressionar com certos fatos inusitados, exteriores à natureza do jogo em si, que frequentemente se observam nesses grandes eventos de catarse coletiva. Estive anteontem em Londrina para assistir ao jogo do time da minha cidade contra o Coritiba e me espantei. Novamente, fujamos da armadilha, não quero tirar disso o suporte para conclusões generalizantes levianas, apenas observar fatos curiosos que podem ser reunidos sob o simples chavão “como a paixão mexe com as pessoas”.

O Coritiba conquistou o primeiro turno do campeonato paranaense ao vencer a partida por1 a0. Houve três lances polêmicos em que a bola pareceu tocar, dentro da grande área, na mão de defensores do time da capital. Se o árbitro houvesse marcado os pênaltis, o decorrer da partida muito provavelmente teria sido diverso, ainda mais tendo em vista que o gol do Coritiba foi marcado em contra-ataque após uma dessas jogadas controversas. Houve uma gritaria desgraçada, confusão, briga dentro e fora de campo, imprensa local exaltada, até o prefeito deu seus dois centavos sobre o assunto – de maneira elegante, felizmente.

Com a recusa das entidades que comandam o futebol – não cabe aqui entrar no mérito dessa discussão – de adotar soluções tecnológicas para ajudar o árbitro em lances duvidosos, sempre é muito temerário cravar categoricamente o que se deu ou não se deu. A maioria dos ditos especialistas, no entanto, afirma mesmo que pelo menos duas das jogadas deveriam ter sido interrompidas com a marcação de pênalti favorecendo o Londrina.

Para efeito de exercício, consideremos imponderadamente que os especialistas têm total razão – antes que os conterrâneos me acusem de traidor, confesso que em minha opinião de leigo muito leigo houve realmente os pênaltis. No calor do jogo, faz parte do espetáculo xingar o juiz de ladrão filho da puta. Estive lá e engrossei o coro. No boteco, os insultos tendem a continuar sem que isso seja digno de nota.
Mas acho estranho ver advogados notórios que trabalham com o princípio da presunção da inocência, jornalistas que sabem da importância de checar dados com rigor e ouvir todos os lados da história, cristãos que devem evitar o falso testemunho – todos eles declarando por escrito, publicamente, ou dando depoimentos gravados, dizendo que o Londrina Esporte Clube foi roubado pelo árbitro e que a Federação Paranaense de Futebol está comprada pelos times da capital.

Se surgissem provas de que o LEC foi roubado pelo árbitro e de que a FPF está comprada pelos times da capital, eu não me espantaria – há precedentes de irregularidades afins no futebol nacional. Enquanto isso, no entanto, haja vista que o mero erro humano é uma possibilidade longe de inverossímil, parece-me mais sensato moderar o tom. As alternativas “equívocos da arbitragem prejudicaram o Londrina”, “torcida se revolta e fala em roubo” e “árbitro já esteve envolvido em lances polêmicos no futebol do Rio de Janeiro” são mais adequadas. Pelo menos para as câmeras de televisão, páginas de jornais ou redes sociais – um meio que registra depoimentos com força inversamente proporcional ao tempo gasto pelas pessoas pensando antes de escrever a primeira bobagem vinda à cabeça.

Mas no particular, meus caros, vale soltar todo o repertório de chulices e tomar com gosto e orgulho o horrível Picolec azul e branco. O Tubarão voltou.