Gerald Thomas e Nicole Bahls

Uma pena essa polêmica envolvendo Gerald Thomas e Nicole Bahls. Para quem esteve nos anéis de Saturno durante as duas últimas semanas: na ocasião de um evento de lançamento de um livro de sua autoria, o diretor teatral reagiu à intervenção da equipe do Pânico na TV, da qual Nicole faz parte, tentando colocar a mão sobre as poucas partes do corpo da modelo ainda cobertas por um vestido. Na internet, choveram acusações de que Thomas estaria “fomentando a cultura do estupro”; Nicole se disse “muito triste”.

Uma pena porque fica a impressão de que tudo não passa de um mal-entendido, muito tipicamente explorado pela imprensa burguesa-marrom-golpista. Apesar de aparentemente terem ocupações bastante diferentes, Thomas e Nicole guardam a semelhança de serem figuras-chave de nossa cultura, fazendo-nos repensar, com suas obras, nosso papel na sociedade e nos levando a questionar a hipocrisia estabelecida pelo status quo. Para vultos de tal porte, as regras estabelecidas como convenção social são um entulho obsoleto – é isso que precisamos entender.

Deixemos a análise superficial e percebamos como, na verdade, estão próximos Nicole e Thomas. Este com seu teatro de pura criação, que nos traz o êxtase na forma de desconforto, ao ignorar a noção antiquada de beleza e ao nos confrontar com a mesquinharia da moral burguesa há tanto estabelecida; aquela, com seu papel pós-moderno e pós-feminista, num rico trabalho de desconstrução de arquétipos e estereótipos, explorando as reações ideológicas da sociedade ao evidenciar a sexualidade feminina e ao desprezar o conceito de “inteligência” determinado pelas elites dominantes, trazendo à tona temas-tabu como aborto, adultério, masturbação, incesto, poligamia, prostituição, deficiência mental e – voilà! – estupro. Foi justamente no exercício pleno de suas funções que se deu o embate entre esses dois monstros sagrados da cultura contemporânea brasileira. Como dizem por aí, os dois se merecem.

Thomas e Nicole são dois lados da mesma moeda. Ah!, fosse-me dado o prazer de conhecê-los pessoalmente, que deleite!, que experiência plena! Com ambos me divertiria às pampas, embora as atividades a se fazer com cada um deles tenham de ser, evidente, de natureza bastante distinta.

Com Gerald Thomas eu assistiria a “A Noviça Rebelde”; já com Nicole, eu programaria uma sessão dupla com “Persona” seguido de “American Pie 2” – que lindo!, que mosaico de referências! Com Gerald Thomas eu me exercitaria fazendo exercícios de nado sincronizado no Piscinão de Ramos, nós dois nus, of course; com Nicole, programaria uma intervenção pública enxadrística na qual, a cada peça capturada na partida, o jogador tivesse de colocar uma peça de roupa, terminando o derrotado vestido com uma burca.

Com Nicole eu tomaria Velho Barreiro no bar do Zinho, harmonizando com foie gras, trufas brancas e pistilos de açafrão; com Thomas eu iria de Romanée-Conti em copo de plástico, harmonizando com pão com ovo. Com Thomas eu faria amor na Praça da Sé, e com Nicole eu me internaria num Convento Carmelita para o resto da vida.

Pela banalização do eu te amo

Espanto-me ao ver muitas dessas campanhas de internet protestando contra a banalização do “eu te amo”. A frase de efeito que serve como síntese dessa corrente é “eu te amo não é bom dia” – a ideia toda é que devemos reservar o “eu te amo” para momentos muito especiais, quando tivermos plena certeza da pureza do sentimento e da compatibilidade divina com a magnífica pessoa para quem estamos nos declarando.

Eu não entendo. Há tantos bons motivos para rebelar-se – a queda de qualidade dos sorvetes da Kibon, os vinte anos de espera desde que Woody Allen fez seu último filme com a Diane Keaton – e o pessoal vai erguer bandeira contra o “eu te amo”? Qual é! Será que só eu sou tão indesejável assim a ponto de não receber tantos “eu te amo” quanto “bom dia”? Aliás, nem muitos “bom dia!”, desses com exclamação mesmo, eu venho recebendo: ultimamente, a turma se limita a algum grunhido com leve sabor de saudação, algo do tipo “e aí?”, “iei”, “rã”, geralmente sem tirar os olhos da tela de computador.

Sou super a favor da banalização do “eu te amo”. Por mim, se eu chegasse na redação e fosse cumprimentado por todos com um “eu te amo”, desde o porteiro até o editor-chefe, acharia ótimo e ainda retribuiria com “eu te amo também, meu amor, para sempre”. Todo mundo ficaria mais feliz.

E daí se não é uma frase pensada e repensada, autenticada em cartório, com valor de mandamento bíblico e peso de compromisso vitalício? Se a segurança afetiva de alguém depende de três míseras palavras em vez de um grande quadro de compatibilidade nas mais diversas áreas, um desejo de planos conjuntos, um sistema de valores parecido etc. – bem, aí reclame com o seu analista sobre a qualidade da terapia, não me coloque a culpa no “eu te amo”. Vamos parar de mitificar o “eu te amo”, cacete. É só uma frase sonora, agradável, guardá-la para o pretenso “momento certo” não determinará a qualidade de uma relação.

Pelo contrário, ficar se perdendo na neurose de reservar o “eu te amo” para a eventualidade de haver uma mística iluminação, com um raio trazendo a certeza plena do afeto monogâmico eterno e sem frustrações – algo que apenas podemos desejar, mas nunca garantir sem sermos ingênuos ou mentirosos –, traz embaraços e pode até colocar traumas difíceis de superar numa relação que até então estava indo bem.

É ridículo que haja, nos relacionamentos modernos, um impasse constrangedor para saber quem será o primeiro a dizer a frase mágica. O camarada toma coragem, diz “eu te amo”, e recebe um “obrigado” de volta – fim de caso, basicamente. Não há como continuar a partir daí, e às vezes nem era para tanto, simples caso de temor verbal que destrói algo que se vinha erguendo belamente.

Além do clássico “obrigado”, há diversas outras formas equívocas consagradas de responder a um “eu te amo”: a psicanalítica (“Fale mais sobre isso, o que te leva a dizer ‘eu te amo’? Por que você acha que ama? Qual sua relação com sua mãe?”), a filosófica (“Amar? Mas o que é o amor? Como defini-lo?”), a sociológica (“Qual o contexto para você estar dizendo que me ama? Quanto você quis mesmo dizer isso e quanto é uma resposta ideológica para o que a sociedade espera de uma relação?”), a cética (“Ah, para com esse papo, você não quer mesmo dizer isso”) e a João-sem-braço (“Ahn, mas olha, não esquece de trazer o vinho pro domingo, tá? Vai ser legal.”), entre outras.

E quando em dúvida sobre terminar ou não um caso, as terríveis ocasiões em que para se tomar uma decisão o mais importante parece ser a manutenção da validade do “eu te amo”? Ai, eu sei que está difícil, mas você esqueceu de tudo, você não me ama mais? Chantagem emocional barata, para a qual cedo uma boa resposta, gratuitamente: “Não sei, e houve um tempo em que eu sabia.”

Mas se o camarada encher muito o saco, diga “eu te amo” e vire as costas do mesmo jeito. Diga “eu te amo” e deixe os juízos para Deus. Se for o caso de dilema, diga mais “eu te amo” do que “bom dia” – ninguém sairá ferido por isso.

A dentadura

Dinheiro não traz felicidade. Há quem concorda veementemente com o ditado, dando exemplos de ricos suicidas e coisas do gênero; também existem os que o rechaçam em tom de sarcasmo, “se não traz felicidade, por favor, anote minha conta bancária, estou aberto a doações”. Ambas posições simplistas e apressadas, que partem do particular para compor grandes generalizações – falácias de raciocínio, portanto.

Trabalhando com rigor científico, podemos traçar uma analogia entre esse notório ditado, que tenta estabelecer uma relação de causa e efeito entre dinheiro e felicidade, e romances inaugurais de escolas literárias no Brasil, como “A Moreninha”, por exemplo. Em ambos os casos, temos textos que podem soar retrógrados e sem valor per se, mas devem ser entendidos dentro de seu contexto histórico para a devida apreciação e estabelecimento da importância.

Tudo bem, hoje em dia pode parecer maluquice apregoar que dinheiro não traz felicidade, quando permite a redentora chance dos implantes dentários. Afinal, convenhamos, um filho de Deus pode até mostrar força de espírito e conseguir ser uma pessoa bem-resolvida usando dentadura – há quem seja feliz com males bem piores sobre a fronte –, mas certamente precisará de esforço e trabalho psíquico para tanto. Pô, dentadura é foda, né?

Antes da popularização dos implantes, no entanto, era de inegável sapiência a afirmação de que o dinheiro não traz felicidade, tendo a dentadura como símbolo máximo da sensatez do dito. Qual a serventia de ser Eike Batista se, na triste hipótese da perda de dentes, tem-se na inglória dentadura seu melhor apoio?

Sou um rei, tudo o que olhos podem ver até a linha do horizonte está em meus domínios, palácios, servos, harém, leite e mel, Galvão Bueno vem tomar vinho e fumar charuto comigo às sextas-feiras – qual a vantagem, se basta um camponês ainda com dentes para humilhar a mim, senhor entre os senhores, mas com o rosto emoldurado por dentadura?

Sei de uma garota que teve o infortúnio de perder os dentes ainda jovem, 30 e poucos anos. Para tornar seu sorriso mais verossímil, mandou o dentista colocar um aparelho em sua dentadura, voltando ao consultório todo mês para trocar as borrachinhas, fazer a manutenção… Difícil pensar em imagem mais aterradora de autoengano. Essa triste mulher não precisa de um companheiro para a vida toda, amor eterno, poder político, desfrute social, um milhão de amigos, iluminação religiosa – fariam melhor a ela os R$ 40 mil necessários a um bom implante. O dinheiro aqui adquire uma dimensão espiritual, para além da possibilidade de ascendência na luta de classes, à qual é pejorativamente vinculado.

Só dinheiro não basta para tornar alguém feliz, mas torna prescindível o uso de dentadura. Parafraseando Bob Dylan, a felicidade não está entre as prioridades de quem anseia por um implante dentário.

 

Com a valiosa colaboração de Marcela Ortolan.