Permitamo-nos sorrir

Ante a calvície, a pizza com ketchup, as portas-sanfona, os previsíveis imprevistos, ante o gosto de barro dos peixes de água doce permitamo-nos sorrir. No silêncio constrangedor dos elevadores, no estádio entre a torcida desarrazoada, na fila do teatro façamos amizades efêmeras e permitamo-nos rir. Sorrir ou rir, deixemos o trabalho de conceituar a diferença entre os dois para as pessoas sem sorriso, riamos dela e delas.

Vamos rir, com desdém, de quem ri demais, do riso frouxo, riso desqualificado, riso protocolar, unha em quadro negro, enervemo-nos sobremaneira e ainda assim riamos, entre dentes. Vamos sorrir por mais motivos, os mais vários – tudo é razão para rir (ou sorrir), basta achar o tom adequado. Chaplin não fez piada do nazismo?, enfrentemos a morte, as desgraças próprias e alheias, a injustiça, a miséria e a coxinha requentada no micro-ondas com um corajoso sorriso. Estar apto a rir de mais coisas não implica, no entanto, rir sempre e desregradamente. Não banalizemos a sacralidade do riso, mas estejamos prontos para que um momento sacro não nos passe sem que o brindemos com um sorriso.

Então há a viagem magnífica pelo litoral (a vaca no meio da estrada, o pneu furado), a mudança para a casa nova (o chuveiro queimado, a goteira no teto), o novo filme do Woody Allen (a nova canção da Lady Gaga), Christina Hendricks, Avenida Paulista, amor de mãe (Regina Casé, Rua 25 de Março, ex-namoradas). Faremos melhor se sorrirmos ao pensar nisso, não deixando de rir do bife bem-passado, do leite desnatado, da releitura pós-moderna de Shakespeare e do coito interrompido.

E também não precisamos fechar a cara por causa do guarda-chuva quebrado, dos drinks com canudinhos, dos hambúrgueres degustados com garfo e faca, da atual conjuntura política e das gentes que preferem Friends a Seinfeld. Até a composição atual dos sorvetes Kibon – espuma de barbear com açúcar – merece um sorriso nostálgico, e merece um sorriso esperançoso a perspectiva do Londrina na Série D do Brasileirão, um sorriso nervoso mais uma entrada num avião, um sorriso apaixonado o reencontro com a mulher amada.

Alguém disse, certa vez, que não existe felicidade, apenas existem momentos felizes; sem dúvidas, é uma frase de efeito, o negócio pegou e se espalhou por aí, transformando-se em chavão. Momentos felizes merecem sorrisos, claro, não desmereçamos o valor de cada um desses pequenos instantes. Só não deixemos que a busca por momentos felizes – em vez da plena felicidade – se confunda com a priorização de prazeres efêmeros. Não, queiramos mais, queiramos filme do Fred Astaire, a felicidade plena, geral e irrestrita, tão palpável e reconhecível quanto a fome, a sede, o medo e o desejo. E aí haveremos de rir de alegres.

Partido do Trabalhadores: fobia e paixão

Sabe quando se concorda com alguém sobre determinado ponto, mas os argumentos usados por essa pessoa – e a forma de exprimir a opinião – são tão diferentes dos seus que você se vê obrigado a repensar suas convicções?

Pois é. Um amigo encaminhou um artigo para minha apreciação, recomendando-o fortemente. Acho que ele esperava recepção mais entusiástica de minha parte, mas não me senti confortável com o que li. Basicamente, o autor do texto assinalava os perigos do centralismo e das tendências totalitárias do governo federal do Partido dos Trabalhadores. Eu também vejo esses riscos, e mais: como fui criado em família de militantes petistas, à indignação por muitas das mazelas deste governo se soma um forte sentimento de melancolia. Mas há formas e formas de criticar – e o jeito escolhido de fazer a crítica pode ser muito revelador.

Quem me conheceu como adolescente rebelde no colégio, ativo na militância estudantil, deve estranhar quão pouco escrevo sobre política em minhas crônicas. Um misto de desânimo e sentimento de que há gente muito mais habilitada para comentar a área. Mas acho que a resposta dada por mim a meu amigo (aqui com ligeiríssimos cortes) pode ter interesse mais amplo, e diz em pouco espaço muito do que penso sobre a polarização partidária no Brasil.

“Quanto ao conteúdo, concordo com o autor desse texto na maioria dos pontos. Longe de mim, ‘na atual conjuntura’, levantar um dedo para defender o PT. Incomoda-me, no entanto, o tom raivoso do autor; como se o PT houvesse corrompido um paraíso terrestre e inaugurado a prática de corrupção no Brasil, como se o partido fosse o único a privilegiar um projeto de poder em detrimento de um projeto de governo. Acho que também não é por aí.

Esse padrão de discurso, que é uma mescla de PTfobia e humor mordaz temperada com alguns termos empolados, aproxima-se perigosamente de dar razão a quem não a tem – ou seja, a quem minimiza tudo de ruim que aconteceu neste governo dizendo que o PT é “perseguido pelas elites”. Quando lembramos que essa PTfobia já era muito difundida antes de o partido assumir o governo federal, minha impressão se reforça: o tom era exatamente igual, mas os argumentos e os medos muito distintos. Fica parecendo que, para esse tipo de articulista, é mais importante provar que o PT é um horror do que propor soluções para a melhora do país. Análise política não deve se aproximar de argumentos de torcida de futebol.

Em português rasteiro: houve o mensalão, sim senhor, e as práticas totalitárias do partido são de causar náusea, principalmente a quem já simpatizou com ele, como eu e você. Mas acho que, em nossas (justas) críticas ao PT, devemos fugir como o diabo da cruz de um tom minimamente próximo ao “ai, que nojo desses petistas, éramos felizes e não sabíamos, um analfabeto cachaceiro mandando no país” etc. Isso favorece caricaturizações e dificulta trazer à realidade quem está apaixonado.

Pois eu acho que só mesmo a paixão justifica alguém defendendo o PT hoje em dia. Claro, digo que só a paixão justifica me referindo àqueles que não ganham nada com o governo petista – mas estes são muitos, ainda, e podem ser gente muito boa. Eu acredito nisso. Os simpatizantes do PT não são todos “petralhas”, sabe?

E para responder a esse transe emocional (até bem compreensível, haja vista o fato de o PT ter sido o depositário de muitas esperanças de toda uma geração, e é difícil desapegar-se disso), acho que a razão é uma arma muito mais eficaz do que o ódio. Falo de argumentos racionais expostos de maneira serena, pois o sarcasmo só serve como pregação aos convertidos. Quem já não simpatiza com o PT adora, curte, milhões de likes no facebook e trilhões de compartilhamentos. Quem está sendo chamado de burro (ou de conivente com corrupção), no entanto, não irá gostar muito.

Nas raras vezes em que ainda me dou ao trabalho de fazer alguma forma de militância política, tenho como meta compartilhar com quem está à minha volta algum ponto em que eu considere estar mais esclarecido do que a média da audiência. O objetivo não é ganhar aplausos pelo meu pretenso brilhantismo – esse tipo de necessidade fútil eu tento preencher com esta viadagem de ficar fazendo contos e crônicas.”

Ditados e chavões

“Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”

 

Balela – ao menos como metáfora de incentivo à persistência humana incondicional. Geologicamente, sabe-se que a ação das águas (e ventos) pode modelar formações rochosas, como falésias e outros termos afins que eu precisaria pesquisar no google para conhecer, mas estou com preguiça de fazê-lo, boa água mole que sou. Vejam, não são propriamente furos, é uma esculpidazinha de leve; mesmo assim, coisa para milhares e milhares de anos até ser conseguido algum estrago minimamente digno na rocha, coisa muito distante de um buraco de metrô, por exemplo, que dirá um furo de orelha como o daqueles rapazes que usam alargadores. Não, leva muito tempo até água mole “furar” pedra, o tempo da mãe natureza, nada ao alcance de nós, pobres pecadores neste vale de lágrimas. Quando os humanos nos vestimos indevidamente com essa pretensão, acabamos esbarrando em outro ditado (contraditório em relação a este) e damos murro em ponta de faca em vez de furar pedra com água mole. Como meu primo Carlinhos, que do alto de seu 1,67m treinou anos e anos para ser jogador de basquete. Mas deu tudo certo, hoje ele trabalha numa loja de calçados e se sente realizado quando consegue vender um Nike Jordan.

 

“É horrível ser reduzido a um estereótipo.”

 

Ai, jura? Não deve ser muito bacana ouvir referências à própria pessoa como “a bichona afetada”, “o gordo nojento”, “a sogra megera”, “a secretária biscate” – aí temos ponto pacífico. Mas nunca vi alguém fazer cara feia ao ser reduzido a “gênio da raça”, “profissional brilhante”, “beleza divina”, “mãe exemplar” e quetais. Fica bastante claro que o problema não é ser estereotipado (isso pode agradar sobremaneira), mas ter conhecimento de referências pejorativas sobre si mesmo sendo espalhadas aos quatro cantos. Devemos ser humildes, no entanto, e promover a autoanálise e as reflexões positivas mesmo a partir do mais baixo achincalhe. Eu sei, secretária biscate, você tem muitas características marcantes e mais perenes do que ter dado para o chefe e consequentemente conseguido um aumento; de algum modo estranho, no entanto, o pessoal prefere lembrar desse seu traço desimportante quando se refere a você. Não será hora de pensar na imagem que está passando àqueles de seu convívio? Vamos trabalhar isso, amiga?

 

“Dinheiro não traz felicidade.”

 

Perfeito, nem dá para discutir sobre isso. Com o perdão do velho truque da redução ao extremo, imagine-se ganhando sozinho na Mega Sena – no meu caso, uma hipótese que não se confirmará, porque não aposto. Mas vamos supor que um amigo generoso fizesse uma aposta em meu nome, passasse a mim um bilhete que depois se revelaria premiado. Cara, com tanta grana assim, ficaria muito deprimido. Já pensou o tanto de mudanças radicais que essa “nova condição” acarretaria? Mudanças são desconfortáveis. Ter de reavaliar suas metas, sua relação de amizades e de confiança. A dificuldade de travar novos contatos, o ceticismo, sentir-se pouco amado, usado, qualquer um que se aproxime deve ser por interesse, começa-se a pensar que todos estão lhe olhando na rua, que todos sabem, que você perdeu sua identidade para virar uma cifra… Ganhar na Mega Sena deve ser uma tragédia.