As manifestações sobre tudo, no Brasil

Retomo de onde havia parado em minha última crônica. “Ironicamente, o maior risco à eficácia deste movimento é sua reivindicação primeira ser atendida: baixam-se vinte centavos das tarifas de metrô e ônibus, as pessoas se acalmam, o assunto é esquecido – ficamos com um problema, mais do que com uma solução.”

Particularmente, sou contrário à revogação do aumento de R$ 0,20 nas tarifas de transporte público em São Paulo. Tento explicar o porquê: esse acréscimo está abaixo da inflação acumulada desde o último aumento das passagens, em janeiro de 2011 – remeter à tarifa de 1994 (só havia duas linhas de metrô!) é apenas um exercício retórico, nem vale a pena explicar o porquê de sua falta de validade a quem não entende de cara. Se há um efetivo decréscimo de receita na área, há duas maneiras de compensá-la, ambas com ônus para a população: ou se deslocam recursos de outros setores, ou se elevam impostos e taxas. Como considero mais justo e eficiente que cada pessoa saiba exatamente aonde está indo seu dinheiro, acho bobagem pedir decréscimo de vinte centavos nessa tarifa, por não decorrer daí o ingenuamente imaginado decréscimo correspondente no custo de vida (ademais, na maioria absoluta dos casos, o empregador desconta uma taxa fixa, equivalente a 6% do salário, para oferecer auxílio-transporte ao funcionário). Faço a ressalva de que, na hipótese de as gentes qualificadas surgirem com uma fórmula para que apenas os proprietários de automóveis subsidiem o transporte público, estou disposto a rever minha opinião.

Todo esse parágrafo para declarar que essa discordância básica com o Movimento Passe Livre (MPL) não me impediu de participar, ontem (17 de junho), da manifestação em São Paulo – a propósito, 65 mil pessoas é o público de uma partida de futebol, havia BEM mais do que isso nas ruas da cidade.

Mesmo quem clama pela diminuição da tarifa há de concordar que, a partir das agressões sofridas por jornalistas paulistanos nas manifestações de 13 de junho, houve uma sensibilização popular que expandiu a pauta dos protestos para além de São Paulo e para muito além dos vinte centavos.

O MPL reafirma que tem um objetivo único, simples, claro e específico: a revogação do aumento. Isso demonstra uma louvável coerência do grupo, ponto para eles. Mas, também é claro, o MPL não mais domina o monstro que criou – o movimento nem conseguiu se resolver sobre o itinerário da caminhada de ontem, como ficou exposto no hilário grito de guerra “tá foda, tá lindo, mas aonde a gente tá indo?”.

Num primeiro momento, essa revolta generalizada contra tudo e contra todos é útil para tirar as pessoas de casa e evidenciar o poder de comoção das ruas tomadas. Em pouco tempo, porém, a falta de foco se torna maléfica, por não oferecer chance de qualificar o sucesso da resposta do poder público e por incentivar grupos políticos, justamente entre os alvos, a se referirem às manifestações como suas fossem, cinicamente. Com o MPL representando uma fração muito diminuta das pessoas que foram às ruas, a hora é adequada para a ascensão de lideranças apartidárias, que estabeleçam uma pauta mais organizada. O uso dos manifestantes como massa de manobra não será tão simples quanto previam os mais pessimistas: bandeiras de partido foram, em todo o país, rechaçadas nas caminhadas.

Daqui a pouco, governadores e prefeitos irão ceder e abaixar a tarifa do transporte público. Não há razão para arcarem com tanto desgaste político, é só tirar dinheiro daqui e colocar ali. O MPL, conforme declarou, dar-se-á por satisfeito. Bem, com o respeito devido a esse grupo, por ter iniciado tudo isso, eu não me darei. E se todos os que estiveram ontem nas ruas se resignarem e decidirem voltar às suas novelas, por tão pouco, terá sido um imenso desperdício de energia.

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As manifestações sobre o transporte público em SP

Sempre desconfio deste tipo de solenidade e deferência, mas realmente acho que a repórter Giuliana Vallone, da Folha de S. Paulo, merece alguma forma de prêmio. A agressão que sofreu – levando no olho um tiro de borracha enquanto cobria a manifestação contra o aumento das tarifas de transporte em São Paulo – por seu caráter brutal e sua gratuidade, força-nos a analisar este levante popular para além das convicções pré-estabelecidas e das bem definidas simpatias ou antipatias em relação a determinados grupos políticos.

Analisando a questão sob um ponto de vista puramente econômico, tendo a concordar com meus amigos assim ditos conservadores/liberais: o maior erro do prefeito Fernando Haddad e do governador Geraldo Alckmin foi não ter imposto um reajuste maior para as tarifas de ônibus e metrô, respectivamente. Um aumento desses, de R$ 3 para R$ 3,20, depois de dois anos sem mudança de preços, abaixo da taxa de inflação, tem forte cheiro demagógico. Se a receita da área está menor, verbas terão de ser deslocadas de outro setor, ou o transporte público terá menos investimentos – qualquer uma das opções é maléfica, simples assim. Ademais, as tarifas paulistanas não estão em descompasso com a de outras grandes metrópoles.

Mas se optarmos por buscar a justeza por meio da matemática e da estatística, devemos levar outros fatos em consideração. Historicamente, manifestações populares com obstrução de serviços contribuem para a consecução dos objetivos de uma classe; categorias com sindicatos bem organizados se valem e se valeram de greves para obter reajustes salariais acima da média. Os incomodados podem chiar, ficar emburrados, praguejar, mas o negócio funciona.

E tende a funcionar justamente porque incomoda. Manifestação ordeira e uniformizada sob o vão do Masp só rende reportagens sarcásticas. Neste ponto, discordando dos meus amigos liberais/conservadores, não acho que o mercado regule o andar da carruagem. Se uma manifestação traz reivindicações descabidas ou com metas lunáticas, a pressão popular para que cesse a obstrução de serviços faz o movimento esvaziar-se naturalmente; caso os pontos sejam justos, os protestos ganham adesões para além do grupo que os organizou. Parece ser este o caso em São Paulo.

Se a revolta contra a tarifa de R$ 3,20 é descabida, o descalabro do transporte público em São Paulo é bem real, e o governo parece dar força ao descrédito da população quanto a melhoras rápidas. São muitíssimos exemplos possíveis, mas vamos falar do metrô: se se promete a abertura de uma estação para a data x, para a vermos em pleno funcionamento podemos esperar uns dez anos depois do prazo inicial, com o saldo de algumas mortezinhas residuais pelo caminho.

Engrossando as fileiras do movimento, há pessoas detestáveis, que reclamam por vinte centavos, mas têm dinheiro de sobra para comprar maconha? Provavelmente, muitas. Há imbecis que não conseguem juntar sujeito e predicado, aproveitando a oportunidade para extravasar seus recalques na depredação de patrimônio público? Mais do que alguns.

Mas não podemos desconsiderar o geral por causa de alguns elementos particulares. Seria como ridicularizar a arte musical usando como único exemplo as canções do Jota Quest, minimizar as benesses da engenharia ilustrando os argumentos apenas com o Minhocão. Ou, como cabe muito bem dizer, demonizar a instituição policial por causa do animal que atirou na Giuliana Vallone – ou ainda por causa de uma ditadura que acabou há 28 anos, tendo durado 21.

Considerar que os participantes destas manifestações são todos massa de manobra do PSTU e companhia é ser tão míope quanto aqueles que acham serem vinte centavos a raiz do problema. Se o tresloucado PSTU tivesse o poder de manobrar tanta gente, ao menos teria representação na Câmara, não é mesmo?

A alienação dos governantes neste caso também é tragicômica. Um roteirista precisaria ser muito bom para pensar em algo mais simbólico: enquanto a cidade pega fogo, vamos de mãos dadas aproveitar as delícias da primavera parisiense.

Ironicamente, o maior risco à eficácia deste movimento é sua reivindicação primeira ser atendida: baixam-se vinte centavos das tarifas de metrô e ônibus, as pessoas se acalmam, o assunto é esquecido – ficamos com um problema, mais do que com uma solução.

Mas podemos também pensar na melhor das hipóteses para o saldo deste caso: um estopim para a tomada de consciência, por parte da população, de seu poder de barganha quando há união em torno de uma causa. Não precisamos de vinte centavos a menos nas tarifas: é necessário que os governantes, dando-se conta do tamanho da encrenca, venham publicamente expor um plano de melhoras para o transporte público, sem evasivas, com metas e prazos bem delimitados. E a cada meta e prazo descumpridos, a população deve tomar novamente as ruas.

Crônicas de Tinão

Fiquei chocado ao descobrir que meu irmão, apenas oito anos mais novo do que eu, nunca havia ouvido falar de Constantino. É uma pena que a História esteja se perdendo para as gerações mais recentes, e me sinto na obrigação de fazer o possível para não deixar feitos memoráveis caírem no esquecimento. Posso dispor apenas de meus textos nessa luta: é pouco, mas já me garante a consciência livre da sensação de não ter feito o que estava a meu alcance.

Bom esclarecer, o Constantino a que me refiro não é o aborrecido imperador romano, de importância duvidosa. Não, presto honras aqui a figura muito mais notável: chamemo-lo simplesmente, a partir daqui, de Tinão, por muitos anos folclórico morador do condomínio Morada do Sol. A figuraça tinha como características mais marcantes a virulência verbal, as súbitas mudanças de temperamento, a notável capacidade de ingestão etílica, o fervor pela Sociedade Esportiva Palmeiras e a muito particular defesa da fauna e flora – que ele tomava como particulares, mantendo viveiros, gaiolas e pomares em espaços exíguos como a graminha atrás do prédio e a garagem do bloco D. Seguem alguns dos lendários episódios por ele protagonizados.

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Tinão olha para cima e, com a assertividade dos sábios, aponta para um pássaro qualquer no céu e atesta: “É este o gavião filho da puta que está matando meus passarinhos!”. Ato contínuo, corre a seu apartamento e volta com uma garrucha. Notando seus vapores alambíquicos e cônscia de seu comportamento temerário, a garotada corre para se esconder, buscando distância do desastre anunciado. Pudemos apenas espiar seu disparo de fazer inveja a John Wayne, fazendo o gavião (era mesmo um gavião?) desabar em movimentos circulares. “Missão cumprida!” – e voltou, trôpego, a seu lar.

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Na noite de 12 de junho de 1993, o Palmeiras ensacou o Corinthians por 4 a 0, conquistando o Campeonato Paulista e saindo de uma seca de 16 anos. Imaginem a felicidade do Tinão – e a quantidade de goró entornado. Saiu em êxtase pelas ruas internas do condomínio, bradando, para o mundo ouvir e tomar conhecimento, “Eu vou mostrar meu cu! Eu vou mostrar meu cu!”. Assim o fez, quando chegou à frente de seu bloco D. Para compensar o desgosto pela forçosa visão de seus alvos glúteos, ofereceu sorvete Kibon a TODAS as crianças do condomínio (que tinha sete prédios, quase cem famílias), contanto fossem elas palmeirenses. Meu amigo Emmanuel ganhou uma taça caprichada, vestia uma camisa do São Paulo. Até hoje não se sabe se Tinão teve uma inaudita complacência para com a audácia da infância ou se não percebeu as cores do time do Morumbi.

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Desta não fui testemunha ocular. Meu amigo Danilo entra no condomínio e vê o filho de Tinão chorando desgraçadamente. “O que aconteceu?”, “Meu pai… la… cô… tô”, “O quê? Seu pai te cortou?”, “Não! Meu pai enfartou!”. Danilo olha para o lado e vê nosso herói estatelado no banco do bloco D, olhos fechados, pescoço pendendo para trás, ruídos e espasmos assustadores sendo produzidos por seu corpo. A seu lado, um engradado com garrafas vazias de cerveja. Prestativo, meu amigo corre para chamar o médico que morava no bloco da frente. O doutor não precisou de mais do que 15 segundos de exame: “Que enfarte o cacete! Isso aí é porre! Dá um banho no velho!”.

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Estava passando em frente à janela de seu apartamento (Tinão morava no térreo), ele me viu e cismou que eu havia roubado goiabas de sua árvore. Eu não gosto de goiaba. Tudo bem, esse fato por si só não me isenta de culpa, também não gostava de amoras e as roubava do saudoso Luiz André, apenas pelo gosto do furto. Mas juro que era inocente no caso em questão. Só que vai convencer o Tinão disso… Mandou os dois filhos ao meu encalço, com o seguinte ultimato: “Ou batem nesse moleque, ou apanham aqui em casa!”. Os dois pobres garotos vieram cumprir a parte a eles cabida no trato, mas acontece que eu estava acompanhado de, sei lá, uns dez outros caras. Tiveram de dar meia-volta e correr para o triste e sabido destino, chegamos a ouvir alguns gritos e protestos dos coitadinhos. Demos risada – criança não presta mesmo. No dia seguinte, Tinão cumprimentou-me como meu melhor amigo fosse.

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Havendo ou não oportunidade adequada, Tinão sempre se gabava de sua dotação sexual. Dizia ele que carregava entre as pernas um pênis de 82 centímetros, excepcional fato anatômico que o impossibilitava de usar preservativos. Qualquer um que tivesse a desventura de cruzar com ele na entrada do banheiro masculino era obrigado a ouvir a proposta: “Vai! Ranca essas calça! Vamo vê quem tem o pau maior!”.

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 Certa feita, o síndico resolveu podar as árvores do condomínio. A medida incluiu o pomar do Tinão. Imagino que nosso administrador devia ter suas razões para ordenar a poda, mas, seja lá quais fossem, não convenceram Tinão. Esforços tiveram de ser empreendidos para evitar derramamento de sangue. Restou apenas o registro da equipe de reportagem chamada por Tinão, seu rosto estampado no jornal com uma careta que, em tempo vista fosse por Anthony Hopkins, fá-lo-ia repensar sua interpretação de Dr. Hannibal Lecter. Pouco tempo depois, envenenaram um dos gatos de Tinão, o admirável Nego. Desta vez, nada demoveu o homem, que jurou vingança, com a mão no escudo do Palmeiras. O problema é que não se confirmou até hoje a identidade do assassino de Nego – mas sobram suspeitas.