Olavo de Carvalho

As discussões políticas que se dão na internet e, especificamente, nas redes sociais me parecem, grosso modo, um fenômeno positivo, por levar a possibilidade de reflexão sobre assuntos de grande importância social (com maior ou menor grau de profundidade) a uma parcela da população muito maior do que os nichos habituais compostos pelos chamados formadores de opinião e pelos receptores primários destes. Difícil imaginar, e isso num passado muito recente, vamos dizer, há quinze anos, moleques colegiais falando com desenvoltura – devemos lembrar que fluência não implica conhecimento significativo, mas ainda assim este é um dado relevante – sobre emendas constitucionais e o poder de investigação do Ministério Público, por exemplo. Em todo o meu período de estudante de ensino médio, matriculado por meus pais numa bem conceituada escola particular, acho que não ouvi as palavras “ministério” e “público” mencionadas em sequência direta nem sequer uma vez, em sala de aula. Provavelmente elas não foram ditas mesmo, eu dormia menos nas aulas relacionadas às chamadas “ciências humanas” do que nas de física, matemática, biologia e química.

Isso posto, a necessária síntese, por vezes grosseira, que se faz de determinados temas para que possam circular em grande escala na internet, acaba incentivando um efeito maléfico que chamo de compra de pacotes ideológicos. É muito trabalhoso chegar a uma opinião própria sobre a infinidade de dilemas que estão aí desde sempre, além dos que surgem todos os dias. Pela lei do menor esforço, é conveniente, a partir de uma identificação inicial, aceitar como corretas uma série de posições conjugadas por expoentes de determinada linha de pensamento, que não se pode misturar com as de outras figuras de proa do assim considerado polo oposto, sob o risco de uma grande desorientação. Bem, o mundo é confuso.

O efeito prático disso é uma “fla-flu-zação” do pensamento brasileiro. Se o Chico Buarque tem um cancioneiro louvado, isso é uma barbaridade que deve ser exposta com requintes de sarcasmo: afinal, ele não passa de um petistazinho hipócrita, nascido em berço de ouro e adorador de Cuba; se a Veja veicular alguma informação, ela está automaticamente desqualificada, não merecendo nem sequer um olhar atento, que dirá confiança: afinal, é uma revista fascistoide da imprensa golpista, a serviço dos interesses do grande capital.

Particularmente, não gosto de me vincular a uma torcida de moldes futebolísticos para a formação de minhas opiniões políticas – ou artísticas, religiosas, gastronômicas, comportamentais. Eu adoro as canções dos irmãos Gershwin, mas nem por isso considero imbecis aqueles que se entretêm com a obra de Michel Teló. Ninguém deve ser considerado imbecil por gostar de música ruim, ainda mais por aqueles que têm Pearl Jam e Red Hot Chilli Peppers como modelo de qualidade artística.

Piadinhas à parte, fui instado pelo meu amigo Paulo Briguet a prestar mais atenção aos comentários de , buscando um contato com sua obra que me permitisse ir além de minha impressão superficial – “velho maluco”. Não li nenhum de seus livros (não me vieram à mão), mas posso dizer que gastei um bom dia vendo, no youtube, muitos de seus vídeos feitos originalmente para seu programa True Outspeak. Os admiradores do Olavo de Carvalho me diriam, com razão, que é uma amostra insuficiente de seu trabalho para a emissão de qualquer juízo significativo. Mesmo concordando com essa possível objeção, meu estudo de um dia já me trouxe algumas considerações interessantes.

Quando Olavo de Carvalho afirma que sua condição de autor é a melhor resposta para aqueles que o querem desqualificar por não ter formação acadêmica, é de uma clareza digna de aplausos; quando denuncia grupos universitários autocentrados, comandando há décadas instituições de ensino brasileiras e ignorando solenemente autores que contrariam suas convicções, ainda tachando como ofensa pessoal quaisquer tentativas de inserir na pauta nomes de uma corrente “inimiga”, é perfeito.

Pena que ele pratique, sistematicamente, outro tipo de segregação, usando de seu vasto (realmente invejável) repertório de leituras, aliado a um sarcasmo algo impiedoso e a uma grande virulência verbal, para rebaixar qualquer oponente no campo das idéias. É como se, para discordar de Olavo de Carvalho, o sujeito precisasse entender todas as referências e citações de seu discurso (algumas vagamente relacionadas ao tema em questão); caso não acompanhe, é um jumento, imbecil, provavelmente ateu, abortista, comunista ou, na melhor das hipóteses, um idiota útil. Neste procedimento, doutores de nossas universidades, Olavo de Carvalho e endinheirados que querem furar fila em boates se assemelham: todos fomentam a entediante cultura do “você sabe com quem está falando?”.

Não é uma prática bonita, esta do sr. Olavo de Carvalho, e só por isso jamais engrossaria o rol de seus fãs. Mais: discordo fortemente de algumas de suas bandeiras recorrentes, principalmente quando envolvem religiosidade. Irei além na ousadia e direi que algumas de suas predições, a partir de indícios dispersos, beiram o delírio. E que sua postura, no mínimo indiferente, mas talvez incentivadora, frente à veneração religiosa que seus “seguidores” lhe prestam é inadequada para um católico.

Isso tudo não me impede de admirar sua inteligência e loquacidade. Esse reconhecimento, por óbvio, é particularmente importante para se levar a sério aqueles que discordam da maioria de suas opiniões. Se você acha que o Olavo de Carvalho é um simples imbecil, está deixando claro quem é o simples imbecil da história; curiosamente, o mesmo pode ser dito em relação ao Lula, eleito pelo próprio Olavo como seu antípoda.

Vejo momentos de brilhantismo em seu discurso mesmo quando está pregando (creio que o verbo seja adequado) algo com cuja essência não posso concordar. Olavo de Carvalho é notoriamente contra a possibilidade de haver o assim chamado casamento gay; Drauzio Varella tem posição diferente, e eu também. No aspecto fundamental, estou do lado do doutor nesse embate, mas não posso deixar de reconhecer que Olavo está coberto de razão quando diz que é absurdo tentar legitimar, como Drauzio fez em coluna para a Folha de S. Paulo, as relações homossexuais usando como argumento o fato de serem verificáveis desde que o mundo é mundo, nas mais várias espécies – o mesmo pode ser dito em relação ao assassinato.

Olavo, no entanto, também é absurdo quando coloca, como indício de relação necessária entre homossexualismo e pedofilia, o fato de Luiz Mott, líder brasileiro do movimento gay, ter dado depoimento à televisão enquanto, distraidamente, alisava a estátua de uma criança, na parte equivalente à bunda. Ora, mesmo se Mott registrasse em três vias que é homossexual e pedófilo, inferir essa relação seria leviano. Como não é possível acreditar que um homem afeito à lógica como Olavo de Carvalho tome essa conclusão como verdadeira depois de pensar dois segundos, é de se sugerir ao professor menos paixão em suas declarações, sob o risco de comprometer sua postura de filósofo.

O mesmo se pode dizer em relação ao seguinte desafio proposto a Jean Wyllys: responder como, usando uma extensão de raciocínio, uma vez que a “cura gay” está desautorizada, profissionais da saúde poderiam tratar de alguém que chegasse ao consultório dizendo sofrer pela condição de masturbador compulsivo, e por isso solicitando ajuda. Não seria uma interferência indevida num comportamento sexual? Como peça de humor, confesso que o ato foi ótimo, principalmente quando Olavo encenou a resposta de um psiquiatra em termos próximos a “fala baixo, meu filho, tá querendo me encrencar?, vá bater sua punheta em paz…”. Mas como questionamento sério… Se o deputado do PSOL ainda não respondeu, permitir-me-ei tomar o lugar dele, em termos do gosto de Olavo de Carvalho: se um camarada chega a um consultório dizendo que dá o cu, não há o que se tratar; se ele diz que fode bucetas, também não; se ele diz que se masturba, qualquer profissional razoável dirá que isso é normal. Agora, se o sujeito diz que está dando tanto o rabo que não consegue mais sentar, temos algo a se ver; se diz que fode tantas bucetas que não teve tempo para ir ao serviço e perdeu o emprego, o caso requer atenção; se diz que soca tanta bronha que teve apagadas as digitais e a linha da vida, melhor lhe dar ouvidos. O problema não é o cu, a buceta ou a mão, mas sim a compulsão sexual.

É estúpido presumir que Olavo de Carvalho não conseguisse chegar sozinho a essa conclusão, assim como seria covarde resumir suas contribuições à inteligência brasileira lembrando episódios lamentáveis em que ele, diletante do rigor científico, apressadamente propaga boatos hilariantes de internet (“estão usando fetos para adoçar Pepsi”), sem nem pensar em checar fontes, conferir dados… Mas os seres humanos somos assim mesmo, suscetíveis a arroubos emocionais, contraditórios, irascíveis. Olavo de Carvalho não é um mero cuspidor de cretinices, tampouco infalível.

Incomodam-me menos suas posições contrárias às minhas do que a absoluta falta de gentileza aparente em sua pessoa pública. Mas sei que, sem os fogos de artifício polemistas, Olavo de Carvalho não teria conseguido se fazer notar para dar sua contribuição ao pensamento nacional. E também sei que não preciso aplaudir essa contribuição, nem simpatizar ou concordar com ela, para admiti-la relevante. Pode ele ser tomado como um velho maluco? Não sei – quer dizer, o IBGE garante o “velho”, a dúvida é quanto ao “maluco”. Mas ainda que se assuma sua maluquice, o interesse não está em apontá-la, mas em explicar onde e de que modo se manifesta.

Anúncios

Vinicius de Moraes não é um letrista bossa nova

A ocasião do centenário de oferece chance de visibilidade para reflexões sobre sua produção artística, muito abrangente quanto a formas, temáticas e gêneros.

Por sua faceta de letrista lhe ter rendido grande projeção popular – principalmente considerando o fato de que Vinicius apareceu frequentemente, a partir de 1962, como um dos mais constantes intérpretes de suas próprias canções –, esse aspecto de sua obra é, ainda hoje, o mais comumente associado a seu nome para a maior parte da população, que consome obras lítero-musicais em muito maior quantidade (e mais facilmente) do que consome poemas impressos.

O Vinicius letrista tem sua importância e seu grau de influência exercido sobre gerações posteriores amplamente reconhecidos – e aqui optamos por enfocar a análise no letrista, quando discorremos sobre sua produção artística relacionada à autoria de canções, mas sem desprezar o fato de que o   é autor de melodias muito conhecidas, como as de “Valsinha”, “Pela Luz dos Olhos Teus” e “Serenata do Adeus”, entre outras. Essa notoriedade do cantor e compositor, com sua imagem boêmia facilmente reconhecível, tendo até hoje exposição em mídias de massa como a televisão, passados mais de 30 anos de sua morte, é benéfica por propiciar a familiarização com um grande nome da literatura brasileira a camadas da população que muito provavelmente não o conheceriam caso sua produção poética tivesse ficado restrita aos livros; por outro lado, os traços folclorizados do Vinicius músico ajudam a propagar análises superficiais sobre esse aspecto de seu trabalho, rasteiras não apenas em relação à crítica destinada a sua obra poética editada em livros, mas também em relação aos estudos destinados a entender a obra de letristas brasileiros diretamente influenciados por ele, como Chico Buarque e Caetano Veloso.

O mito de Vinicius como um letrista “” é um dos mais difundidos – e um dos mais facilmente refutáveis. Evidentemente, Vinicius esteve presente na gênese do gênero musical, sendo geralmente visto como um de seus principais alicerces, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto. Também é verdadeiro que sua crescente migração, a partir do advento da , da poesia destinada à impressão em livros para o mercado musical gerou o segundo grande impulso de prestígio, entre as chamadas elites, para a canção brasileira: depois da chancela, na década de 1930, de um branco de classe média, estudante de medicina (Noel Rosa), na década de 1950 quem terminou a solidificação, para o samba carioca, da possibilidade de intercâmbio entre “morro e asfalto” foi Vinicius, com suas credenciais de diplomata e poeta com notoriedade em toda a América do Sul, tendo ainda no currículo estudos na Universidade de Oxford. A canção brasileira definitivamente ganhou contornos intelectualizados a partir da e das letras de Vinicius (que teve canções registradas ainda na década de 1930, mas passou a compor sistematicamente a partir de 1956). Se desde então as letras de canção merecem constante atenção da academia e da mídia como objeto relevante para se entender a literatura, de maneira particular, e a cultura, de modo geral, brasileiras, Vinicius de Moraes deve ser apontado como um dos principais responsáveis, senão o maior.

O engano começa quando se associa a importância do letrista Vinicius de Moraes e sua relação com a bossa nova – premissas verdadeiras – com uma caracterização do letrista Vinicius como diletante de uma estética “bossa nova” ao escrever suas letras. Essa organização da bossa nova como movimento com carga ideológica e dogmas bem definidos absolutamente não foi imaginada por Vinicius de Moraes, Tom Jobim ou João Gilberto.

Atribuir a criação da estampa “bossa nova” a uma só figura é temerário, mas parece seguro chamar a atenção para o ímpeto com que Ronaldo Bôscoli, tanto por meio de seu papel como letrista e produtor quanto pelas suas declarações à imprensa, tentou identificar o gênero com um modo ameno de ver a vida – e com a zona sul carioca, por extensão. Uma letra típica da bossa nova deveria louvar “o amor, o sorriso e a flor”, chamar a atenção para o que “é sol, é sal, é sul”, jamais perder tempo com aborrecidos temas sociais e evitar o mau gosto do exagero dramático das chamadas “canções de fossa”, muito em voga no momento imediatamente anterior ao surgimento da bossa nova, embaladas principalmente pelo compasso de samba-canção. A síntese de tudo o que a bossa nova, segundo Bôscoli, deveria evitar estava presente nos versos de Antônio Maria para a canção “Ninguém me ama”: “Ninguém me ama, ninguém me quer/Ninguém me chama de meu amor/A vida passa, e eu sem ninguém/E quem me abraça não me quer bem//Vim pela noite tão longa de fracasso em fracasso/E hoje, descrente de tudo, me resta o cansaço/Cansaço da vida, cansaço de mim/Velhice chegando e eu chegando ao fim”. Em que pesem as restrições às observações biográficas para a análise de um fenômeno cultural, deve ser lembrada a grande amizade de Maria e Vinicius: difícil acreditar que este quisesse criar um movimento para se opor àquele.

A confusão é estendida quando se toma o título da canção-gênese do movimento, “Chega de saudade”, como uma carta de intenções contra a exposição de desventuras amorosas na canção brasileira. O título da outra letra de Vinicius escolhida por João Gilberto para integrar o álbum Chega de Saudade também pode reforçar essa impressão: “Brigas, Nunca Mais”. E, de um modo geral, as canções de Vinicius interpretadas por João Gilberto ao longo de sua carreira seguem num tom ameno, mesmo quando tratam do fim de relacionamentos. Lembremos de alguns desses títulos: “A felicidade”, “O amor em paz”, “Coisa mais linda”, “Você e eu”, “O grande amor”, “Insensatez”, “Ela é carioca” e, é claro, “Garota de Ipanema”.

Os apreços pessoais de João Gilberto, evidenciados em sua seleção de repertório, jamais podem ser tomados, no entanto, como representativos da totalidade da obra de Vinicius como letrista. No álbum Canção do Amor Demais (1958), de Elizeth Cardoso, que contém a gravação original de “Chega de Saudade”, a canção-título traz versos como “Quero chorar porque te amei demais/Quero morrer porque me deste a vida” e “E já nem sei o que vai ser de mim/Tudo me diz que amar será meu fim”, enquanto a “Serenata do Adeus” diz à mulher amada “[…] estrela a refulgir/Parte, mas antes de partir/Rasga meu coração/Crava as garras no meu peito em dor/E esvai em sangue todo o amor/Toda a desilusão”. Os dois exemplos já tornam prescindível uma lista exaustiva de exemplos atestando que, no preciso momento da criação da bossa nova, Vinicius compunha, simultaneamente, letras muito distantes da lírica associada ao gênero.

Certamente, ao direcionar mais seu trabalho para a produção de letras de canções, abandonando progressivamente os poemas para livro, Vinicius teve de adaptar-se em termos de métrica, forma, ritmo e linguagem. Não cabe, no entanto, dimensionar exageradamente as mudanças que a passagem de Vinicius à canção causaram a seu fazer poético: assumida e intencionalmente, desde Poemas, Sonetos e Baladas, livro de 1946, o poeta vinha buscando uma temática mais cotidiana e um tom mais coloquial; quanto à forma, alternam-se nessa obra poemas rígidos como o famoso “Soneto de Fidelidade” e o prosaico “Dia da criação”. Poucos anos depois, publicaria Pátria Minha (1949), poema-livro com nítidas críticas sociais, repetidas em “O operário em construção” (1959).

Toda essa diversidade do Vinicius “poeta sério” apenas sofreu uma extensão natural na fase em que se dedicou primordialmente às letras de canção, sem que possa ser identificada ruptura significativa. Vale lembrar que a temática de suas letras constantemente se adaptou às peculiaridades de seus primeiros parceiros constantes: com Tom Jobim, primazia às canções de amor; a parceria com Carlos Lyra propiciou a aparição da temática social, como em “Marcha da quarta-feira de cinzas”, “Samba do carioca” e “Maria Moita”; já com Baden Powell, a religiosidade se fez presente em toda a série dos afro-sambas.

Vinicius de Moraes foi fundamental para a criação da bossa nova, mas sua produção musical vai muito além do gênero e de seus clichês – e o mesmo pode ser dito, aliás, em relação a Tom Jobim e João Gilberto.