Saber viver em SP

“Now how can I come on
And tell them the way that they live could be better?”

Brian Wilson e Terry Sachen

Estou com vontade de escrever esta crônica desde o começo de maio, quando fazia uma semana que havia me mudado para a cidade de São Paulo. Esperei um pouquinho, por pudor de mostrar a petulância de um recém-chegado já metido a dar lições; agora, estou aqui faz quatro meses: ainda é temerariamente pretensioso defender este ponto de vista (muitas pessoas reclamam de São Paulo, mas não sabem viver aqui – o problema é mais delas do que da cidade), mas se os 120 dias foram suficientes para Sade fazer todo aquele estrago, também me permitem uns palpites baseados em minha curta experiência de paulistano que, após 25 anos, volta a exercer o título.

Tudo bem, temos problemas sérios (assim como todas as metrópoles brasileiras e muitos dos grandes centros urbanos no mundo) relacionados a mobilidade, segurança, acesso aos serviços públicos, igualdade social, carestia etc. Negá-los seria estupidez ou alienação total – procuro acreditar que não sou de todo estúpido, e não tenho dinheiro suficiente para ser totalmente alienado.

Mas vamos lá, tem gente que força a barra, achando que a cidade ainda deve adaptar-se ao seu próprio feitio e se negando a adaptar-se à cidade. Aceito reclamações sobre o “trânsito infernal” daqueles que moram a 30 quilômetros do centro e teriam, como opção ao uso do veículo particular, umas cinco baldeações a serem feitas, sentindo de maneira exponencial as deficiências de nosso transporte público; agora, daqueles que moram por aqui perto e insistem em enfiar mais um carro na rua, não tenho peninha não. Se o lindinho sabe que nossas vias estão entupidas, por que insiste em sair com o automóvel? Nojinho de metrô apertado? Preguiça de andar dez minutos até a estação? São respostas válidas, mas nesse caso não me venha encher o saco com o blá blá blá de “trânsito impossível”, foi escolha sua. Eu nunca enfrentei um congestionamento desde que cheguei a São Paulo, adivinhem por quê? Não tenho carro. Lotação brava no metrô? Só em horários de pico, e nada que não dê pra você aguardar dois trens passarem e entrar no terceiro, o que gera uns cinco minutos de espera. Longe de mim defender o transporte público paulistano, a melhor palavra para descrevê-lo é o palavrão predileto de cada um, mas há gente que piora as condições de sua própria vida, por burrice ou frescura.

Notem que, logo acima, eu eximi de minhas imprecações aqueles que moram nos ditos locais “afastados”, mas ainda assim temos de pensar nas razões que levam o camarada a ir se estabelecer nos cafundós. Se a resposta é tão simples quanto “foi aonde eu tive condições de vir”, nada a reparar senão em seu louvável esforço para trabalhar e trazer mais conforto a si mesmo e aos seus; agora, se ele está onde Judas perdeu as botas porque só lá encontrou um clima ameno, uma casa com quintal grande, espaço verde para os filhos brincarem com o cachorro… Meu filho, se tudo isso é importante para você, São Paulo pode não ser o lugar certo para se amarrar o bode. Essas condições só se encontrarão em São Paulo, ou à custa de muito muito dinheiro, ou tendo de fazer seu lar num ponto afastado de tal maneira da região onde se concentram os empregos que esse fato acabará anulando a paz de espírito que se espera obter de um bairro de clima ameno, casa com quintal grande, espaço verde… Não há certo e errado, apenas uma questão de estilo: para quem a ideia de “qualidade de vida” equivale a ser despertado pelo canto dos rouxinóis e saber cada detalhe da vida dos vizinhos, provavelmente será muito difícil ser feliz na capital paulista.

Mas há outras noções de qualidade de vida. O que parece bobo é pagar o ônus do “custo São Paulo” sem desfrutar do bônus. Você vê o sujeito naquela lamúria modorrenta e pergunta se ele não aproveita o fato de estar aqui para fazer cursos, participar de palestras, seminários, ir a shows, concertos, exposições, ver as mostras de cinema, assistir a alguma das dezenas de peças em cartaz, comer em lugares bacanas, conferir o que está rolando em parques, museus, livrarias, fazer compras, que seja – pois se há em São Paulo, para todas essas categorias, itens caríssimos, há também mais oportunidades no quesito “bom e barato” do que em qualquer outro lugar do país, além de haver muitas atividades de entrada livre e gratuita. E o que recebe como resposta? “Ah, eu nem gosto dessas coisas. Estou no mesmo emprego há vinte anos, aproveito o fim de semana para dormir, jogar videogame e brigar com a esposa.” Então azar o seu, meu doce, se não tem coragem de vazar daqui e ir a uma casa no campo, onde possa ficar do tamanho da paz.

Aqui há este “custo São Paulo”, que se paga, muito claramente, nos problemas de mobilidade urbana, já abordados aqui. Os outros itens desse preço são muito mais problemas nacionais do que especificamente de São Paulo. Violência? O índice de assassinatos por cem mil habitantes a cada ano está em aproximadamente um terço do número de Curitiba, este reduto do mundo desenvolvido em pleno Brasil. Acesso a serviços? Sofrível, mas ainda está aqui a melhor universidade do país, os melhores hospitais públicos… Desigualdade social? Triste, cuspida na cara de cada transeunte, mas há de se admitir que estão em São Paulo as melhores chances de crescimento para um trabalhador, não é à toa que continuam chegando tantas pessoas aqui.

Custo de vida, agora falando num âmbito denotativo, estritamente monetário? O preço do combustível é o mais baixo do Brasil; visitam-nos comerciantes de todo o país, para adquirir aqui mercadorias (roupas, acessórios e máquinas, principalmente) e revendê-las; temos as menores taxas para importar produtos e as melhores condições para adquiri-los pela Internet, com fretes mais baratos e menores prazos de entrega; se nossa cesta básica é a mais cara, aqui também há muito mais vagas de emprego do que em qualquer outro canto da nação (e mesmo considerando a relação candidato/vaga, São Paulo só fica atrás do Rio de Janeiro); claro, há o preço assombroso dos imóveis – de resto, mais baratos do que no Rio de Janeiro ou em Brasília –, mas é o que se paga por estar num lugar repleto de oportunidades, com vida cultural (nem há necessidade de adjetivos adicionais), um monte de coisas a fazer, lugares a ver, gentes a conhecer… Quem vive nesta cidade precisa saber que São Paulo é a melhor cidade do país, e entender que assumir isso não implica abrir mão de melhorá-la.

Parabéns pra você – a origem, as mãos e a morte

Em memória de meus quatro avós,
Manuel e Maria, César e Assunção –
sim, eles eram portugueses

Eu nunca havia parado para pensar no assunto, simplesmente tinha na minha cabeça que o “Parabéns pra Você” existia desde sempre, mais antigo do que o Pentateuco ou o superfaturamento em secretarias de obras públicas. Mas depois de dias de pesquisa, cotejando várias fontes em distintas bibliotecas – mentira, usei a wikipedia –, descobri que a cantiga norte-americana, adaptada para trocentas línguas, não tem nada de folclórica, com autoria e data de composição bem definidas. E o negócio todo é bem recente: em sua origem, o “Happy Birthday to You” era “Good Morning to All”, composta pelas irmãs professorinhas Patty e Mildred Hill, em fins do século 19, como uma canção de bom dia para crianças no jardim de infância; com o passar dos anos, tão cativante melodia foi sendo espalhada pelos aluninhos, que espontaneamente modificaram sua letra para transformá-la numa celebração de aniversário. O tema só ganhou popularidade na década de 1930, quando a autora da melodia (Mildred) já estava mortinha, não tendo em vida nem glória nem grana por aquela que é provavelmente a canção mais conhecida do mundo. Triste para ela.

Para mim, o mais triste foi o fato de que a descoberta me fez pensar em como seria o aniversário de meus avós, em sua infância portuguesa. As adaptações da cantiga para o português, tanto no Brasil quanto em Portugal, são do começo da década de 1940, meu avós já eram todos crescidinhos – e hoje já são todos mortos, não lhes posso fazer muitas perguntas, meus dons mediúnicos andam meio enferrujados. Sem “Parabéns pra Você” aos meus avós, portanto. O próprio conceito de associar a data de aniversário a uma celebração apareceu no período vitoriano, com a ideia de decorar um bolo com velas tendo sido roubada dos alemães. Festas de aniversário como fenômeno popular, a noção disseminada de que os pais, ao deixar passar sem comemoração a nova primavera dos filhotes, são monstros sem coração – tudo coisa da segunda metade do século 20, isto é, ontem. Que diabo acontecia a meus avós em seus aniversários? Ganhavam isenção de palmatória? Não precisavam ordenhar a cabra? Como é chato ter idade para estar morto!

Embora a surpresa de descobrir o “Parabéns pra Você” como um fato cultural novo tenha me trazido essas elucubrações melancólicas, há a saudável compensação de perceber que não é tarde demais para estabelecermos um código de posturas para o rito que costuma acompanhar a execução do tema. Caramba, há padrões que determinam como segurar garfo e faca, como dar nó em gravata, de que lado da calçada a mulher deve andar, a maneira de conseguir engambelar incautos dizendo que se precisa de dois reais para completar a passagem para a cidade X – não é possível a falta do estabelecimento de uma conduta adequada para o que fazer com as mãos, em seu próprio aniversário, quando lhe cantam os parabéns. Bater palmas e cantar parabéns para si mesmo parece cabotino, é estranho; mas ficar com os braços pra trás, olhando para cima e mexendo os quadris displicentemente, fingindo que o negócio não é com você, em pose de jogador da Seleção quando ouve o hino nacional, isso também é incômodo.

Proponho o debate, mas não tenho respostas. Já que quem inventou a parada foram as irmãs Hill, elas mesmas deveriam dar sugestões sobre a coreografia que deve acompanhar o tema, quem sabe apontar se as palmas em semínimas são mesmo a seção percussiva apropriada para sua obra. Mas duvido que elas venham nos acudir do além, devem estar magoadas com a falta de reconhecimento pela responsabilidade da criação; um rancor, senão justo, perfeitamente compreensível. Elas merecem os parabéns. E como, a esta altura, não lhes devem ter restado nem os ossos – que bonita ironia a natureza nos impõe! –, não precisam se preocupar sobre o que fazer com as mãos.

Sorvete de maçã e sal a gosto

É uma evidente deselegância, falta de refinamento, grosseria minha, mas tendo a relacionar, de modo infantil, os doces a temperaturas baixas, e os salgados ao calor. Faço pouquíssimas exceções a essa regra por mim mesmo inventada, para incluir elementos como chocolate quente com conhaque e a tão sofisticada quanto tradicional pizza gelada de frango e catupiry amanhecida na geladeira, item para dar convulsões a meus amigos gastrônomos.

Devo estar mesmo equivocado nessa minha associação arbitrária, pois os doceiros (confeiteiros?, pâtissiers?, por qual alcunha eles preferem ser chamados?) insistem em contrariá-la, principalmente no que diz respeito ao aproveitamento das maçãs para a feitura de iguarias açucaradas.

Há algum impedimento físico-químico para o resfriamento saudável das maçãs, de modo a manter suas propriedades gustativas? Sei lá, quando as consumo geladinhas, in natura mesmo, parecem-me bastante boas. Sabe-se lá por que diabos, no entanto, enfiam as maçãzinhas apenas em doces quentes (a apple pie americana, o apfelstrudel alemão) ou, no máximo, para ser consumidos em temperatura ambiente (bolos secos, biscoitos).

Por que não ocorre a ninguém a ideia do ? Você vai a uma dessas sorveterias (“gelaterias”, ui) badaladas, há 433 sabores diferentes, beterraba com mamão, mas não se encontra um banal . Gente, eu não estou falando de um fruto exótico que só dá três dias por ano numa região inóspita da Oceania. São maçãs, estão aí desde que o mundo é mundo, antes mesmo disso, a serpente do Éden que o diga. Muito muito raramente, acontece um verde, mas não vale, é trapacear, maçã verde é um esquema à parte, não é maçã no duro: ninguém pensa na Branca de Neve se estrebuchando com uma maçã verde; se fosse esse o tipo de fruta oferecida por Eva a Adão, ele não se sentiria tentado, e anda estaríamos gozando das delícias do Paraíso.

E não se veem mousses de maçã, tortas geladas de maçã, bolos cremosos de maçã, iogurte de maçã, gelatina de maçã, danoninho de maçã, danette de maçã. O que vocês têm, afinal, contra a maçã abaixo de 15 graus Celsius? Como se não bastasse a necessidade de, movidos por razões ignotas, servirem-na apenas quente, ainda nos querem impor que a maçã venha sempre acompanhada de canela, como se não houvesse possibilidade de separação. Terei de pedir a ajuda do black block para ter direito a meu doce de maçã gelado, sem canela por cima?

São paradigmas da cozinha que, por há tanto nos estarem impostos, parecem-nos naturais. Mas os protestos de junho nos ensinaram que não podemos ficar com a bunda no sofá se esperamos melhoras sociais – e uma oferta maior e mais diversificada de doces certamente constitui uma melhora social.

E o sal a gosto, o que dizer dessa aberração? Se são cinco ovos, cem gramas de presunto, duas xícaras de farinha, duas colheres de sopa de azeite, por que diabos o sal tem de ser a gosto? É óbvio que o executante da receita pode optar por uma versão mais ou menos salgada, dependendo de seus apreços pessoais, mas se ele está justamente seguindo uma receita, é de se esperar uma referência inicial. E como a maioria absoluta dos desastres culinários se dá pelos resultados que ficam nos extremos “insosso” ou “Mar Morto”, uma literatura mais precisa sobre o trato com esse item seria providencial.

Ultimamente, tenho visto também a variação “o quanto bastar”, substituindo o “a gosto”. Em que pese a elegância da construção, de um sabor lusitano que me agrada… Será que estou muito paranoico, será que só eu vejo um tom de deboche em “faça isso, faça aquilo e depois acrescente sal, o quanto bastar. Sim, o quanto bastar de sal [risadas de bruxa em off]”.

Estaria a elite da gastronomia, os detentores dos meios de produção do rango, agindo para que nos percamos ao tentar realizar nossos próprios pratos, mantendo assim um clima de dependência e tutela, sabotando nossos acenos de independência, soterrando a esperança de um mundo melhor e mantendo um monopólio que enriquece a conta bancária de poucos e prejudica a muitos? Se isso for apenas loucura, façam-me o favor de me servirem um sorvete de maçã. E se essa sobremesa parecer muito simplória, joguem flor de sal por cima – a gosto. Quem sabe o Alex Atala aprove.

Deixo você olhar – mas não toque

Meu parceiro Cole Porter me recriminou por eu não ter feito a primeira mão da rodada de truco, “a truckload of gold”. Deu para ver que se sentia incomodado pela possibilidade de perder de zero e ter de passar debaixo da mesa, o que seria desconfortável, dada a sua condição física, além de extremamente deselegante. Enquanto isso, Sherlock Holmes e Hercule Poirot armavam uma impressionante disputa de deduções lógicas, recebendo o aplauso dos convidados. Já haviam apontado, com sucesso, a cor da roupa de baixo de todas as damas presentes na festa, e a senha de facebook de todos os cavalheiros, menos a de Gerald Thomas, indecifrável.

Na sala ao lado, Marina Silva teimava em querer convencer Voltaire de que o iluminismo prejudicava o desenvolvimento sustentável, dado o decorrente aumento do consumo de energia elétrica. Stênio Garcia se incumbiu de acalmar um inconsolável Morrissey, queixando-se, aos prantos, de que ninguém o havia avisado que aquele exótico aperitivo chamado “torresmo” era feito com porco, como ele poderia saber? Seu Zé, da Adega União, serviu uma rodada de vinho por conta da casa, todos brindaram, e meu amigo Pará, em comemoração, fez algumas de suas famosas flexões.

Pato Donald contou uma piada tão boa, mas tão hilariante, que houve um ataque de riso generalizado por cinco minutos. Só Ary Toledo, visivelmente sem graça, confessava não ter entendido. Aliviei-me ao perceber que todas as minhas ex-namoradas estavam juntas, entretidas e enturmadas, mexendo com um tabuleiro ouija. Humphrey Bogart, amargurado por ter visto Lauren Bacall dançando com Michael Corleone, zombava delas por acreditarem nessa besteira de comunicação com mortos.

Depois de uma pausa no fumódromo, Reinaldo Azevedo descobriu insuspeitas afinidades com Geraldo Vandré: os dois chegaram à conclusão de que deveriam sair juntos mais vezes, só lamentando a ausência de João Gilberto, que teve de ficar em casa cuidando do filho que havia acabado de ter com Kurt Cobain. Bruno Rizzi tentava conversar em italiano com Tarantino, sob o olhar manso de Mussolini, que se emocionava com a maciez de uma mousse de maçã.

Hitler contou pra mim que estava se sentindo tão bem que poderia até invadir a Polônia novamente, e só não o fazia por respeito a Chopin, na fila para tocar, junto com Beethoven, Liszt e Rachmaninoff. O problema é que Gershwin não largava do piano, só cedendo sua vez, com exagerada reverência, quando Guilherme Arantes fez soar a campainha. Depois da emocionante execução de “Amanhã”, Paulo Briguet, já meio embriagado, confessou que às vezes sentia saudades de ser trotskista. Ouvindo isso, Christina Hendricks não resistiu e começou um striptease. Tive medo de a Lívia ficar puta, mas ela até se sentou ao meu lado, pegou minha mão e viu o espetáculo comigo, aproveitando pra fazer comentários sobre o vestido de várias convidadas. Já minha mãe saiu correndo, e só voltou à sala com tudo acabado, trazendo uma blusa para mim, porque estava frio. Cézanne registrou toda a cena em quadro produzido de maneira atipicamente rápida, dando início a um leilão informal entre Bergman, Woody Allen e Hannibal Lecter para ver quem ficaria com o quadro, que acabou sendo cedido, de graça, a Otávio Mesquita.

Fizemos a contagem regressiva, soltaram-se os fogos de artifício e todos estavam felizes antes de partir. Ainda assim, não houve quem não concordasse quando Orwell disse que 1985 tinha tudo para ser um ano de merda.