Há uma mulher chorando em cada esquina de São Paulo

Não sei se é a terra da garoa, a mim não me parece que aqui chova mais do que em outras cidades em que já vivi; acho que o negócio de dizer que as pessoas vivem apressadas se deve mais a uma impressão causada pelo volume de gente circulando do que a alguma checagem da velocidade média em que a população caminha; trabalhar, há gentes que trabalham muito e pouco em todas as cidades, novamente creio que a fama está ligada ao gigantismo da metrópole, à grande concentração de escritórios em uma área relativamente pequena. Parece-me leviano assumir que engravatados executivos, porque juntos, trabalhem mais do que o solitário lavrador em algum confim do país.

A maior diferença comportamental que percebo aqui, longe desses clichês, encontra-se na quantidade de pessoas que vejo chorando em público, principalmente mulheres. Não é apenas uma questão de números absolutos – você vê mais gente, verá mais gente chorando. Já colhi amostragens em diversos bairros, horários diferentes, classes sociais distantes. Há uma mulher chorando em cada esquina de São Paulo.

Por que choram tanto? Seria porque não existe amor por estas plagas, como diz a canção que tanto citam por aí, e eu nunca ouvi? Pode ser que exista amor demais, amores românticos por aí, brotando e se dissolvendo nessa garoa de que falam tanto, eu mal a vejo, reparo mais nessas lágrimas de mulheres sozinhas, não parecem ter vergonha de chorar, choram como se não houvesse mais ninguém no mundo.

E o que devo fazer quanto a isso? Outro dia, a moça no metrô à minha frente, eu hesitei tanto, achei que uma hora ela pararia de chorar, ou desceria na próxima estação, mas não, lágrimas por metade da linha azul, eu me senti como que obrigado a falar “desculpa, você está bem, posso te ajudar?”, ela sorriu, nem pareceu muito envergonhada, “não, tá tudo bem, obrigada”, e até derramou depois mais algumas lágrimas, mas no geral ficou mais séria, não virou o pescoço para mim até descer, umas duas estações depois. Será que eu fiz bem para ela, será que só a constrangi? Não sei nem mesmo se fiz bem a mim, foi uma ação altruísta ou o quê? Se fosse um homem chorão, eu ofereceria meus préstimos? Muito difícil. Se fosse uma mulher muito muito feia, eu ofereceria meus préstimos? Muito difícil, e neste momento eu ter tentado fazer uma boa ação me faz sentir-me mal, é difícil saber como agir quando há uma mulher chorando em cada esquina de São Paulo.

No caminho para a exposição, havia uma cena tão absurda, uma mulher chorando aos soluços, dentro de uma Kombi desligada na qual tocava um daqueles dramalhões bregas de doer. Eu passei e dei risada, não consegui evitar, parece-me que alguém chorando melodramaticamente dentro de uma Kombi com um bolerão é menos grave do que alguém chorando serena e continuamente no metrô, tendo a analisar preconceituosamente a chorona da Kombi como vítima de uma dor-de-corno passageira, nem me sinto tão mal por ter rido dela, só agora, dias depois.

Mas talvez seja justamente o contrário, as pessoas se apresentam com sinais trocados, você por acaso já disse “eu te odeio” para alguém que realmente odeia? Eu só digo “eu te odeio” para as pessoas a quem amo, o “eu te amo” sai da minha boca muito mais indiscriminadamente. Há uma mulher chorando em cada esquina de São Paulo, e por serem tão felizes, livres, e por me fazerem tão tristes, eu as amo, todas e cada uma delas.

 

 

Dona Zélia

Eu acho que ela gostou de mim, pelo modo como sorri. Quero agradá-la, mas não sei exatamente como – nem quero demonstrar esforço. Será que nossa relação terá futuro?

Esse tipo de pensamentos é clássico para os apaixonados deste mundo; eu mesmo já havia me perdido outras vezes em indagações semelhantes, com maior ou menor grau de felicidade posterior. Mas desta vez é diferente, nunca meu alvo havia sido uma pessoa tão velha, uma velhinha de cabelos brancos como a dona Zélia, eu chutaria tratar-se de uma septuagenária. Meu caso não se trata de fetiche sexual pela terceira idade desenvolvido tardiamente, ainda não estou nessa, dona Zélia é minha nova vizinha, e minha curiosidade em relação a essa mulher se assemelha muito àquelas dúvidas que se têm quando se encontra uma pessoa nova, e há uma empatia imediata, e se quer saber mais sobre ela, e nos pegamos a imaginar… A diferença é que agora não passa pela minha cabeça levar dona Zélia para a cama (ela ficaria corada se lesse isso) – no máximo, para meu sofá, onde poderíamos beber chá e assistir a algum programa na televisão.

Ah, mas isso não acontecerá. Eu nem tenho TV a cabo em casa, quais são as chances… De qualquer modo, talvez um dia ela me convide para entrar e tomar um café, eu que não gosto de café. Ela ficará ofendida com a minha recusa? Mas se eu aceitar, num esforço de cordialidade, e fizer a careta inevitável de quando ingiro café, o efeito não será pior? Como boa septuagenária, provavelmente ela insistirá para eu beber mais, seria um tormento. Melhor dizer logo a verdade e pedir desculpas.

Eu ainda não vi um seu Zélio circulando pelo corredor, talvez ela seja viúva, talvez solteirona estilo Miss Marple. Será que ela se queixa da solidão? Poderíamos conversar de vez em quando, eu estou certo a impressionaria com meus conhecimentos das coisas de outrora e com meu interesse sobre suas histórias. Dona Zélia decorou meu nome tão rapidamente, foi tão gentil… Será que ela gosta de Fred Astaire e Gene Kelly? Em caso positivo, qual dos dois prefere?

Talvez haja um seu Zélio, e ele apenas seja low profile, não tão sorridente quanto sua esposa. Aliás, estou aqui presumindo um monte de coisas positivas apenas a partir de uns sorrisos e umas maneiras cordiais, mas nosso futuro pode ser péssimo. Ela pode muito bem implicar com minha música, meus horários, meu cabelo, ela pode ser malufista, getulista, florianista, monarquista, absolutista, vigarista, exorcista. Talvez ela seja comunista e coma criancinhas. Talvez ela jogue ovos nos homossexuais que passam em baixo da sua janela e ache um absurdo não haver cadeira elétrica no Brasil.

Mas eu estou disposto a correr o risco, quero me aproximar de dona Zélia. Há chances de ela ser uma excelente cozinheira, tem cara de quem faz um estupendo bolo de fubá – pena que eu não goste de bolo de fubá. Mas já que ela manda bem no bolo de fubá, por extensão deve se garantir no bolo de laranja, e deste eu gosto, principalmente acompanhado por um copo de leite, puro. Tomara que dona Zélia compartilhe de minha impressão sobre a gradual perda de qualidade do leite que nos é vendido, as novas gerações não sabem o que é ver formar nata em um copo de leite repousado sobre a mesa. Será que ela é paulistana? Será que cresceu na fazenda e tem histórias nostálgicas sobre o gosto de leite fresco?

Eu sei tão pouco sobre a dona Zélia, são tudo conjecturas, tudo preconceitos. E como sempre acontece com preconceitos – embora estes sejam relativamente inofensivos –, acabam-se revelando muito mais coisas sobre quem os cria do que sobre quem os recebe. Eu preciso tanto imaginar a dona Zélia, nem preciso conhecê-la de verdade.