A mulher que faz o próprio macarrão

– Eu não tô confiando muito que essa comissão vá conseguir alguma coisa pra gente.

– Você tem de parar de ser tão pessimista, cara, tem tudo pra dar certo.

– Vamos ver.

– Vamos ver.

– […]

– […]

– Sabe, eu acho que o Roberto Carlos tá errado.

– Ahn, Roberto Carlos?

– Roberto Carlos, o cantor.

– Ah sim, claro, era disso mesmo que estávamos falando… Cê é doido. Bem, eu acho que o Roberto Carlos deve estar errado em muitas coisas, de que aspecto você tá falando?

– Esse negócio de querer ter um milhão de amigos. Quem tem um milhão de amigos não tem nenhum. Vaidoso do jeito que ele é, o que ele tava querendo dizer é que ele queria ser admirado por um milhão de pessoas – coisa que ele conseguiu, aliás. Mas ter um milhão de amigos é algo muito diferente. Amizades exigem revisões, manutenções periódicas, reforma de material, assistência 24 horas. E ele não deixa usar marrom perto dele! Como um cara que foge do marrom quer um milhão de amigos? Se ele conseguir uns três de verdade, já é um milagre. Amizade dá trabalho.

– É, tô vendo mesmo. Dá trabalho.

– É que nem esses caras que querem ter várias amantes. Não dá pra entender. Ter uma mulher já é difícil…

– É?

– Não tá muito legal, cara. Tô pensando em terminar com a Meire.

– Sério? Por quê?

– Ah… Deu. Deu o que tinha que dar, melhor não ficar adiando algo inevitável só por comodismo.

– Bem… Lamento, sempre acho triste ver relacionamentos acabando, mas se você acha que é o melhor… Eu não a conhecia muito bem, mas ela me dava a impressão de ser bem bacana, vocês pareciam dar liga… E lamento particularmente porque não poderei mais me convidar praqueles almoços de vocês na casa dela, lembro aquele macarrão no começo do ano, excelente.

– É, ela mesma que faz, coisa artesanal.

– Você quer dizer que ela faz o molho, sem usar polpas, extratos, essas coisas?

– Também. Mas ela faz a massa do macarrão. Coisa de família, aprendeu com a avó e tal.

– Deus… É por isso que tava tão bom. Você tá querendo me dizer que tá pensando em largar uma mulher que, em pleno século 21, faz o próprio macarrão, num método que aprendeu com a avó, e que ainda por cima quando oferece pros amigos não fica se gabando dos dotes e esperando elogios?

– Bem, é um excelente macarrão, mas acho que isso não basta pra sustentar um relacionamento, né?

– Cê é burro ou tá se fazendo de tonto? Não é o macarrão em si, é o que isso signifi… Aff, eu acho que nesses casos é preciso distanciamento, você não vai me ouvir, deixa eu chamar o garçom… Amigo, cê pode me ajudar um momentinho aqui?

– Manda, chefe.

– Me desculpe a inconveniência, é para uma pesquisa que estamos fazendo aqui. Sua mulher, por acaso, faz a massa do próprio macarrão?

(risadinhas entre o espanto e a vergonha) – Não, senhor, isso não é para todos.

– Você gostaria que a sua mulher fizesse o próprio macarrão?

– Pensar nisso seria uma covardia, uma ofensa às reais qualidades de minha esposa e uma maneira frívola de autopunição. Se me permite a analogia, senhor, é como eu dizer que gostaria de ter uma mulher com o corpo de Scarlett Johansson e a inteligência de Marie Curie.

– Uma belíssima analogia, permita-me cumprimentá-lo. E o que se pode inferir de uma mulher jovem que, em 2013, faz o próprio macarrão?

– Bem, sem eu conhecer a pessoa em questão, fica difícil cometer uma análise mais precisa. Mas de maneira breve, com razoável margem de segurança, posso adiantar que deve se tratar de mulher atenciosa, paciente, prestativa, carinhosa, de sólidos valores morais, leal, íntegra, honesta, com senso de preservação da unidade familiar, independente, com senso de humor sofisticado, lucidez analítica, despojada sem ser vulgar, gentil sem ser grudenta, de sexualidade fulgurante, com planos profissionais bem estabelecidos, mas sem que isso abale seu gosto pelo improviso e pelo contato com o inusitado; essa mulher sabe cuidar de seu homem sem sufocá-lo, repudia as calcinhas bege, cogita entrar num ménage à trois, não suporta a tendência da montagem videoclípica no cinema contemporâneo, é fluente em francês, tem razoável habilidade ao piano e certamente prefere Drummond a Bandeira.

– Sim, são deduções bastante cautelosas. Mas com base nisso, já se pode afirmar que essa mulher seria considerada atraente por grande parte dos homens heterossexuais, não?

– Acho que há margem até para ir além, senhor. Essa mulher provavelmente seria irresistível para os homens hétero em idade de vida sexual ativa.  Mesmo homens de outras orientações sexuais haveriam de se sentir atraídos por essa mulher em questão, ouso opinar.

– Há como pensar num simbólico equivalente masculino para a mulher que faz o próprio macarrão?

– Talvez um homem que faça os próprios sapatos, senhor.

– Exemplo melhor é inalcançável, sua perspicácia me encanta.

– Mas antes que me acusem de machismo, melhor estabelecer que uma mulher que faça os próprios sapatos e um homem que faça o próprio macarrão são exemplos de igual força; apenas, por razões sobre as quais não cabe especular em tão pouco tempo sem uma base de dados à disposição, sob o risco de cometer leviandades, trata-se de casos ainda mais raros.

– Ninguém aqui o acusaria de nada, senhor, mas entendo sua prudência e o parabenizo pelo rigor discursivo.

– Então fechô. O bife tá firmeza, chefe?

– Opa. De redimir os pecados, amigo.

– É nóis. Qualquer coisa, só dar um grito.

– […]

– […]

– Meu avô fazia os próprios sapatos.

– Mas você não faz. Então pense bem antes de… Não, melhor você terminar mesmo, evidentemente você não merece a Meire. Idiota. E enquanto estraga a própria vida, fica preocupado com os erros conceituais do Roberto Carlos.

– Quantos amigos será que tinha meu avô?

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Resumo das notícias

Como Rogério Ceni perdeu mais um pênalti, Marina Silva fez correr um abaixo-assinado solicitando ao goleiro são-paulino que, até sua prometida aposentadoria a se consumar no final do ano, fique guardando sua meta e não se meta a aventuras na grande área alheia. Desta vez, a ex-senadora conseguiu validação do documento no TSE, mas por tomar iniciativa autocrática melindrou a direção da Rede; seu agora companheiro de PSB Eduardo Campos também teve de se explicar para os aliados ruralistas: antes já incomodados com a entrada de Marina na chapa presidencial, encararam o manifesto como ofensa injustificável a Ceni, de quem são todos admiradores. “Vão fazer reforma agrária no Itaquerão, deixem o agronegócio e os bambis em paz”, disse um dos mais exaltados.

Julgando o episódio sintomático das muitas verdades tropicais, Caetano Veloso aproveitou para escrever artigo em que afirmou ser o pênalti “o novo escanteio”, haja vista ter se transformado apenas numa possibilidade vaga de gol, em vez da quase certeza de outrora. Chico Buarque, como diletante futebolista, não se furtou do debate e garantiu que faria o possível para tirar de circulação quaisquer biografias que insinuassem relações familiares entre ele e algum dos candidatos à presidência. Indiscreta, Paula Lavigne declarou à imprensa que se alguém quer ser filho de Chico Buarque, tudo bem, mas que pague para isso.

Joaquim Barbosa afirmou de antemão que negaria qualquer embargo infringente sobre o assunto e, assim como Toffoli no caso do mensalão, não se declararia impedido – nem por ser são-paulino, nem por “talvez” vir a ter vontade de se candidatar à presidência da República – em um eventual julgamento de Ceni no STF. Indignados com a declaração de Barbosa, os professores em greve se juntaram aos bancários em greve e a membros avulsos do black block para quebrarem alguns bens públicos. As vadias da marcha não aderiram à manifestação, preferindo uma pauta de repúdio à revista Marie Claire, que estampou a barriga negativa de Izabel Goulart como exemplo de “corpo perfeito”. Ambos os protestos foram coibidos com balas de borracha pela polícia.

Para decepção dos fãs brasileiros, Ozzy Osbourne, em fase light, recusou-se a ingerir morcegos em sua passagem pelo país; mostrando-se atento às questões sociais da nação, no entanto, deglutiu três balas de borracha em pleno palco, levando ao delírio a audiência de seu show. Fernando Haddad elogiou a consciência social do roqueiro inglês, aproveitando a deixa para afirmar que estava “estudando” exigir que todos os seus secretários fossem de ônibus ao local de trabalho. O paulistano Felipe Massa aprovou a ideia e disse que, numa demonstração de prática cidadã, aceitaria dirigir, “por uma semana”, o ônibus do secretariado. De quebra, anunciou que negocia vaga em alguma equipe competitiva para a temporada de fórmula 1 do ano que vem.

Setores conservadores da sociedade alertaram para o fato de que o anúncio da medida “populista” de Haddad coincidia com o impopular aumento do IPTU em São Paulo, vendo aí uma tentativa de desviar a atenção do povo e de manobrar a sofrida classe média. O escritor Walcyr Carrasco colocou na boca de Félix, a Bicha Má, da novela Amor à Vida, menção jocosa sobre “pechinchar o IPTU”, gerando novos protestos relacionando a Rede Globo ao lobby gayzista. Os ânimos foram acalmados quando o papa Francisco confessou, à Veja, ser fã do personagem da novela das nove. “Se uma bicha má vem a mim, quem sou eu para lhe negar minha atenção e minha bênção?”, disse o Sumo Pontífice, em mais uma demonstração de humildade. Curioso para conferir toda a matéria, corri para a banca e perguntei pela revista. O atendente me respondeu com um “tem, mas acabou”.

Tente outra vez, de Raul Seixas e Paulo Coelho, e a validade do estudo da canção brasileira

Há quem se alarme com o fato de letras de canção aparecerem, no Brasil, ao lado de poemas de autores consagrados, como base para exercícios de interpretação de texto em livros  didáticos; segundo essa corrente de pensamento, há aí um índice da decadência cultural e educacional brasileira, pois os agentes educacionais e os formadores de opinião já não mais conseguem distinguir a arte do mero entretenimento.

Nem tanto ao céu, nem tanto a terra: concordo que colocar letras do Chico Buarque e poemas de Drummond num mesmo contexto traz efeitos contraproducentes, mas essa minha concordância não vem acompanhada da avaliação de que a canção brasileira é sempre “mero entretenimento”. O equívoco – tanto de quem subestima seu valor artístico quanto daqueles que igualam letras de canção a poemas – está em tomar um elemento isolado (a letra, no caso) de uma peça lítero-musical e achar que ele pode ser bastante para uma avaliação geral da obra. Embora a análise solta de uma letra de canção (ou de seu suporte musical) possa até render notas interessantes, qualquer pretensão de estudo mais sério sobre uma canção, ou de atribuição de valor artístico a uma canção, deve necessariamente levar em conta tanto o elemento “música” quanto o elemento “letra”, estendendo-se também na observação de como esses elementos se relacionam.

A letra de uma canção é condicionada – em métrica, ritmo, tonicidade e “clima” – pela música que a suporta; do mesmo modo, a construção musical que tem em vista o canto humano, com palavras e sentido distinguíveis, traz limitações. Podem-se colher sintomáticos exemplos, em muitos dos “choros” brasileiros, de como bons temas musicais nem sempre geram boas melodias de canção: o “choro” constantemente apresenta muitas notas por compasso, o que problematiza o trabalho do letrista. Há vários casos de belíssimas melodias de choro que, a posteriori, ganharam letra (muitas vezes, escrita por grandes artistas, como Vinicius de Moraes), gerando como resultado canções perfeitamente esquecíveis. E, para continuar pegando Vinicius para Cristo, pouca gente se atreveria a dizer que o antológico “Soneto de Separação”, musicado por Tom Jobim, rendeu uma canção melhor do que, digamos, “Insensatez”, parceria dos mesmos Tom e Vinicius, muito menos sofisticada liricamente do que o soneto.

Por outro lado, sobram casos de letras e músicas que, tomadas à parte, não valem grande coisa, mas quando se integram acabam criando novos sentidos e novas possibilidades de sensibilização para quem aprecia a obra. Gosto de usar “Tente Outra Vez”, parceria de Raul Seixas e Paulo Coelho, lançada em 1975, como base para esse argumento: a música traz a simplicidade costumeira do folk rock à Dylan no qual se inspira; a letra tem um tipo de mensagem que, se disposta em prosa, soaria como os livros de autoajuda tão em voga atualmente. Mesmo a declamação dos versos dessa parceria de Raul Seixas e Paulo Coelho traz uma inequívoca impressão de superficialidade. Juntos, porém, os dois ingredientes, desinteressantes quando segregados, são a receita de uma bela, forte canção. Como a mágica se opera? (Impossível deixar de lembrar o sucesso, perante a crítica, do Paulo Coelho letrista, em contraponto às espinafrações levadas pelo Paulo Coelho romancista, embora esta sua faceta lhe tenha rendido muito mais fama e dinheiro.) Não é preciso passar dos rudimentos de teoria musical para perceber alguns efeitos simples causados pela justaposição de música e letra em “Tente Outra Vez”, efeitos estes que engrandecem tanto a melodia quanto a letra.

A canção começa com o uso do verbo “ver” no modo imperativo; logo após Raul Seixas cantar a primeira palavra, ocorre uma modulação tonal (de lá maior para sol maior). O efeito sonoro gerado chama, pelo estranhamento, a atenção do ouvinte, num resultado em total correspondência com a ordem presente na letra – “veja”. Ainda na primeira estrofe, nota-se, a cada verso, uma melodia em direção ascendente de altura. O fato de a nota mais aguda da passagem recair sobre a palavra “Deus” contribui para o clima de grandiosidade da canção. Após a subida melódica (escorada em duas modulações), ocorre uma queda brusca de altura quando Raul canta o “tente outra” do título da canção; ao ser enunciada a palavra “vez”, que fecha a estrofe, há uma ligeira subida melódica (de um tom) e o repouso harmônico sobre o centro tonal da canção (sol maior). Nota-se, em termos musicais, na subida lenta seguida de queda abrupta e esforço de retomada, correspondência óbvia com a usual recomendação de não se deixar abater pelos tropeços da vida e erguer-se lentamente – conselho que, em si, é um chavão sem valor literário, mas aqui aparece reforçado por insuspeita beleza, porque acompanhado de suporte musical adequado. A música e a letra pedem juntos: “tente outra vez”, e logo após outra modulação, que marca a nova “tentativa”, começa estrofe praticamente idêntica à primeira no que diz respeito à harmonia e à melodia.

A estrofe de passagem, com melodia em altura superior às duas primeiras, tem início com o acorde de dó maior, de função subdominante (sensação musical de início de movimento) em relação ao sol maior no qual se ancora a canção. Podemos pensar aqui na recomendação, do personagem que canta a canção para seu interlocutor, de uma outra “tentativa”, evitando-se a reiteração do erros anteriores, desta vez com maior fôlego. O clímax da peça lítero-musical se dá no vertiginoso salto melódico de sétima menor (cinco tons) que recai sobre a nota mais aguda da canção, correspondente à primeira sílaba da palavra… “Gira” – que sugere, justamente, vertigem, e a sensação é reforçada pelo fato de a melodia se escorar no acorde de fá maior, cuja tônica é estranha à escala de sol maior (o centro tonal da canção). O repouso sobre o sol maior só ocorre quando é cantada a palavra “ar”: novamente, a correspondência é perfeita, pois a associação mais óbvia de “ar” é com leveza, relaxamento, sensação etérea, enquanto “girar” sugere tensão.

Mas depois dos ares vem nova queda, e se retoma a estrutura das duas primeiras estrofes. Se a canção terminasse depois dessa passagem, estaria formada a estrutura A-A-B-A (em que cada letra corresponde, no aspecto lírico, a uma nova estrofe, assinalando também a repetição de núcleo musical ou o acréscimo de novo núcleo musical), uma fórmula muito comum, correspondente à estrutura de “Garota de Ipanema” e “Body and Soul”, para ficar em dois ícones da canção brasileira e americana, respectivamente. Em vez disso, de maneira surpreendente para quem escuta a canção pela primeira vez, pela fuga do padrão, há nova repetição da estrutura da primeira estrofe, formando a inusitada fórmula A-A-B-A-A. Todas as estrofes começam com um verbo no imperativo, e na última estrofe a redundância musical se junta à redundância lírica pelo uso da flexão verbal “tente”, que já havia aberto a estrofe “B”, aparece no fecho de três das quatro estrofes “A” e, ademais, está no título da canção – música e letra compõem, juntas, uma ode à validade da insistência. Não por acaso, a canção fecha com mais um “tente outra vez” apoiado num acorde de sol maior, o que passa ao ouvinte sensação circular: a canção poderia ser imediatamente retomada do começo, sem interrupções, e repetida indefinidamente.

Importante ressaltar que o ouvinte não precisa distinguir, racionalmente, esses “truques” da canção para percebê-los com os sentidos e ser sensibilizado por eles. Mais: nem os autores necessitam recorrer conscientemente a esses efeitos para conseguir empregá-los de maneira exitosa, se já têm traquejo na interação de letra e música. Para novamente recorrer a um lugar-comum (tentemos outra vez!), o todo é maior do que a soma das partes.

Dada a importância da análise, no estudo das canções, de como música e letra se complementam, mostra-se despropositado menosprezar uma canção por não ter um conteúdo lírico de qualidade próxima à dos melhores poemas da língua. Ora, o cinema conta com a cenografia como um de seus elementos; por mais impressionantes que sejam os cenários de um filme, porém, dificilmente serão tomados como exemplo do que se produziu de mais valioso em arquitetura. Ainda assim, não se contesta a condição de “forma de arte” do cinema.

A canção – que integra música, letra e performance, elemento este não analisado neste artigo, mas de indiscutível importância – também é uma forma artística, e esta afirmação encontra suas bases mais sólidas quando se analisa a obra de figuras como Noel Rosa e George Gershwin (um brasileiro e um norte-americano, mais uma vez): mortos há 75 anos, suas canções continuam sendo escutadas e discutidas, nunca pararam de ganhar novas versões, permanecem atuais e relevantes. Uma vez que sobreviveram ao teste do tempo, ainda emocionando ouvintes, como lhes negar o status de arte?

O Brasil é um país relevante para o cancioneiro deste planeta, pois produziu canções de projeção internacional e introduziu elementos novos no processo de feitura de canções, elementos estes assimilados e diluídos na produção musical de outros países. Não há outra forma de arte na qual o país tenha tanta importância e influência. Não faz sentido abrir mão de estudar o que cantamos.

A validade dos abaixo-assinados

No colégio, volta e meia aprontávamos abaixo-assinados fazendo as mais várias solicitações, sempre com forte adesão de todos os colegas de turma. De cabeça, lembro-me dos textos pedindo o fim da obrigatoriedade do uniforme escolar, a pena de morte para a professora de gramática e a antecipação do feriado natalino para setembro. Infelizmente, a direção nunca atendeu a expressa vontade do corpo de estudantes – apesar da indiscutível justeza das reivindicações. Vendo que essa forma de manifestação não reverberava nas instâncias superiores, passamos a praticar sistematicamente outras formas de protesto cívico, como o enforcamento de aulas para comer pastel na feira. Nossa revolta passou então a ser notada, gerando, como consequência, o destacamento de guardinhas, devidamente equipados com motocicletas, para perseguir os alunos indisciplinados.

Desde então, assimilei a informação de que comer pastel na feira gera resultados mais eficazes do que redigir um abaixo-assinado. Com o tempo, as razões me pareciam óbvias: ninguém leva a sério um papel invariavelmente engordurado, amassado, cheio de rasuras, com uma lista de signatários na qual quase sempre estão presentes nomes de notórios falecidos – Raul Seixas é o meritoso campeão, aparecendo em 99% dos abaixo-assinados de todo o Brasil.

Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que abaixo-assinados são, sim, muito importantes neste nosso país, determinando a abertura ou a não-abertura de partidos políticos. Mais: há peritos responsáveis em analisar a validade das assinaturas. Mais de 500 mil pessoas tiveram a pachorra de escrever nome completo, fizeram o esforço de lembrar do número de RG – apenas para tornar possível a existência dos benvindos Pros e Solidariedade. Até aí, nenhuma surpresa: de minha experiência escolar, já havia aprendido que todos estão sempre dispostos a assinar qualquer abaixo-assinado, porque é divertido fazê-lo. A Rede, da Marina Silva, apenas não teve competência pra fazer circular todas as folhas rotas de papel: ninguém recusa um abaixo-assinado, ninguém recusa uma cartela de bingo. A novidade é a ampla divulgação da validade desse instrumento.

Aproveitando o embalo, e o fato de que ninguém presta atenção no documento que está subscrevendo, deveríamos fazer valer medidas que, caso estudadas com mais rigor, haveriam de ser rechaçadas, mas que podem até acabar se tornando legais, no calor do momento. A antecipação do feriado natalino para setembro devo considerar como um arroubo da juventude, mas tenho já aqui outras ideias, e estou disposto a aderir entusiasticamente a propostas que se revelarem interessantes. Abaixo, as que me ocorrem de imediato.

  • Abaixo-assinado pela proibição da manufatura de lingerie na cor bege – sendo consideradas “bege” as roupas de baixo nos chamados tons “chocolate”, “nude”, ou quaisquer outros nomes com que a indústria tente abrandar a vergonha de usar lingerie bege.
  • Abaixo-assinado pela normatização do truco – em cada estado há uma regra diferente, é uma balbúrdia, ninguém se entende, são brigas que poderiam ser evitadas em se instituindo um pouco de ordem.
  • Abaixo-assinado pela criação de uma campanha de prevenção contra as dinâmicas de grupo – o governo também deveria financiar panfletos explicativos com dicas demonstrando como não ser proativo, como sabotar o espírito de liderança e como repudiar o trabalho em equipe.
  • Abaixo-assinado pela conscientização sobre o real significado do creme chantilly –milhares de pessoas são privadas de experimentar esta maravilha porque provaram aquela espuma de barbear com açúcar vendida em tubos de spray, detestaram, e assim acham que não gostam de chantilly – uma impossibilidade física.
  • Abaixo-assinado pela inclusão da disciplina de manutenção automotiva no currículo escolar – sempre aparecem alguns bocudos para falar com naturalidade de velas, pastilhas de freio, cárteres, como se isso fosse a coisa mais natural do mundo. Não sei onde aprenderam tudo isso, na escola não foi. Mas acho que faço parte de uma maioria silenciosa: estudar manutenção automotiva é bem mais útil do que decorar o processo de reprodução dos anelídeos, convenhamos, e nos pouparia da vergonha de ter de ligar para o seguro a cada vez que um pneu é furado.

Os bigbenzinhos como questão estética

Trata-se de questão regional, mas como o tema se relaciona com cultura, acho que vale a pena reproduzir meu artigo neste espaço. Resumo da ópera: a concessionária Econorte apresentou o projeto de construir, em Londrina (PR), no trecho urbano de uma rodovia, uma passarela decorada com bigbenzinhos, referência à colonização da cidade. Os bigbenzinhos respondem por mais ou menos metade do preço total da empreitada. Um grupo fez circular um manifesto contrário à ideia, tendo como argumento central o fato de que as origens inglesas foram muito menos influentes na formação da cidade do que a presença de outras colônias. Embora tenha angariado alguns apoios, esse manifesto gerou fortes reações adversas. Os críticos dizem que, basicamente, os signatários não têm mais o que fazer, e que Londrina deve muito à Inglaterra sim, como prova o nome da cidade. O presidente da Associação Comercial e Industrial de Londrina chegou a dizer que não deveríamos desprezar um “presente” da Econorte e que quem se opõe aos bigbenzinhos é vaidoso, invejoso, ciumento, arrogante e apenas cria obstáculos ao progresso da cidade. Aí entra o que tenho a dizer.

O espaço para a subjetividade no apreço artístico gera discussões de difícil resolução. Diante de uma obra consagrada pelo tempo, e de notada influência sobre gerações posteriores àquela de seu criador, qual o peso de uma apreciação pessoal? Alguém que avalie os afrescos da Capela Sistina como feios e mal feitos está simplesmente errado, ou tem uma opinião que, embora minoritária, deve ser levada em consideração?

O dilema imposto por essa questão filosófica não obscurece o fato de que, para a virtual totalidade das pessoas que se dedicaram a avaliar a arte pictórica, os afrescos da Capela Sistina são considerados uma obra-prima; do mesmo modo, há uma sensação de consenso em torno da ideia de que réplicas decorativas de monumentos e obras históricas são um artigo de tremendo mau gosto.

Assumindo esse consenso, o projeto de erguer bigbenzinhos para adornar uma futura passarela de Londrina pode ser justamente considerado cafona, brega, vexatório. Pouco importam as origens da cidade para a coerência dessa assunção. Quer a colonização de Londrina tenha sido inglesa, alemã, italiana, japonesa, egípcia, neozelandesa, inca-venusiana ou por geração espontânea, os bigbenzinhos continuam sendo um vislumbre horrendo.

A tentativa de embasar toda uma linha de argumentação em torno de controversas posições históricas e sociológicas foi um erro do grupo que organizou o manifesto contra os bigbenzinhos. A discussão é sobretudo estética: não se coloca uma monalisona na entrada de um museu de arte; não se colocam (ou não se deveriam colocar) bigbenzinhos como pórtico de uma cidade chamada Londrina. É feio. É tosco. É involuntariamente cômico.

E haja vista a obviedade desse aspecto cômico involuntário, torna-se, mais do que inútil, quase surreal começar a discutir temas espinhosos como origens de colonização e submissão cultural. Gente, não precisa disso, basta visualizar a coisa – bigbenzinhos, for God’s sake! E como big ben pouco é bobagem, big ben nos olhos dos outros é refresco, façam-se logo quatro!, para que ninguém passe por aqui sem notar a opulência de nossa fanfarronice.

O equívoco argumentativo dos criadores do manifesto não tira a justeza do apoio a um posicionamento público contrário aos bigbenzinhos. Como um dos signatários do documento, considero-me particularmente ofendido ao ser tachado, pelo sr. presidente da Acil, de vaidoso, invejoso, ciumento, arrogante e atravancador do progresso. Se ainda fosse por outros motivos, vá lá, até seria forçado a concordar, mas tudo por causa de eu considerar uma bela porcaria os bigbenzinhos kitsch? Ah, não rola, né?

Não se tem registro de o Cristo Redentor de Cornélio Procópio ter contribuído para o progresso do município, apenas para o deboche dos londrinenses que estufam o peito com ar cosmopolita para apontar caipirice em nossos vizinhos – os mesmos londrinenses que devem achar muito lisonjeiro ver erigidos bigbenzinhos na entrada da “filha de Londres”.

O sr. presidente da Acil afirmou que essa belezura de monumento será um “presente” da concessionária – essa pessoa jurídica com alma, e das generosas – à cidade, numa análise que faria Pollyanna ir ao chão com gargalhadas convulsivas. Como não se pode presumir ingênua uma pessoa em sua posição de liderança, as razões para declarar tamanha grandiosidade permanecem indecifráveis.