Rock – punk X progressivo

As pessoas ligadas ao rock progressivo queriam produzir aquilo que consideravam boa música.

As pessoas ligadas ao punk queriam revolucionar a cultura musical, produzindo um conceito novo ao mesmo tempo em que, paradoxalmente, buscava-se uma “volta às origens” do rock; queriam sintetizar todo o vigor e o inconformismo da juventude em uma forma musical simples e direta, ainda que rica em suas relações com a contracultura, estendendo sua influência para as áreas de artes plásticas, moda, cinema, literatura, dança, gastronomia e política; queriam pôr abaixo o status quo da música popular, superando o entendimento elitista de que os instrumentistas (e cantores) precisam passar por anos de treino formal até apresentarem suas obras – a urgência punk tem um lema famoso na frase do it yourself, um chamamento à ação (que supera a feitura musical), opondo-se à postura resignada;  queriam criar uma identidade punk, de forma que não apenas a música punk pudesse ser distinguível, mas um indivíduo pudesse ser identificado por um visual punk ou atitudes punk; o sucesso da moda punk, com a disseminação de muitos de seus ícones, inclusive entre aqueles que não comungam da ideologia, pode ser aferido pela relativa naturalidade com que hoje se encaram pessoas com cabelos coloridos, calças rasgadas, piercings, tatuagens e muitos outros elementos que, quando começaram a ser usados publicamente pelos primeiros punks, causaram pasme – mesmo estilistas da alta costura se renderam aos traços punk em suas criações; a dita atitude punk, embora possa incluir itens diversos e até contraditórios, dependendo do subgrupo punk de que se trata, tem como norte a valorização da liberdade individual, o sentimento de oposição ao mainstream, a postura de desafio à autoridade estabelecida e a regra, com valor dogmático, de jamais “vender-se”, ou seja, nunca transigir em suas convicções em troca de vantagens materiais ou de maior status social – a partir dessa base, os punks assumiram bandeiras que podem incluir niilismo, anarquismo, individualismo, socialismo, antimilitarismo, neonazismo, antirracismo, anti-homofobia, veganismo, antimonarquismo e antimcdonaldismo, sempre com orgulhoso ímpeto rebelde; os punks queriam criar uma cena que, além das bandas ligadas ao movimento, incluísse uma base constante de fãs, editores, jornalistas, artistas plásticos e produtores, de forma tal que as diretrizes da música jovem pudessem ser ditadas por esse grupo, até o ponto em que qualquer ato determinado de maneira arbitrária como contrário à cultura punk fosse visto naturalmente como ridículo e retrógrado; queriam uma subversão total, a ponto de que, para um músico, ter noções tão simples quanto os conceitos de “acorde” e “escala”, ou saber “tocar bem” (da maneira como isso vinha sendo entendido desde, pelo menos, a idade média), passasse a ser encarado não só como desnecessário, mas como vexatório.

É, esses camaradas do rock progressivo eram insuportáveis de pretensiosos mesmo.

Continue, Maria

Teve aquela vez em que o barbudo estava no caminho das duas, estavam entrando no shopping. A Maria não deu bola para o cara, mas a amiga parou e deu cinco pilas em troca de uns papéis xerocados que continham alguns poemas, o hippie velho chamou seu produto de “livrinho”. Ter comprado o livrinho não fez com que a moça, como se poderia supor, desse muita atenção à mercadoria adquirida. Na primeira oportunidade em que precisou anotar algo, uma ligação que recebeu durante o almoço, rabiscou os papeizinhos, recortou-os bruscamente e pediu desculpas, precisava mesmo sair, noutro dia as duas continuavam o papo.

Ficou a Maria com apenas um fragmento do que havia sido o livrinho, fragmento pequeno, mas bastante para conter o primeiro quarteto do “Soneto Artiodátilo”: “Pesada, pousa rente a minha face/A pata prepotente do hipopótamo/Liberta-me, valente amor, enxota-mo/Daqui, para o sereno desenlace”.

Maria achou aquilo lindo. Precisava falar com o hippie velho. Precisava saber o resto do poema. Precisava acreditar. Mas o barbudo não estava mais onde o havia visto, que tristeza. Por 43 dias, de segunda a sexta-feira, Maria almoçou naquele shopping (ela que detestava almoçar em shoppings) na esperança de rever o hippie sonetista. Enfim, desistiu. Mas como dizia minha avó, você só encontra o que quer quando deixa de procurar. Foi vê-lo uns três meses depois, junto à porta de um bar com paredes verdes. Aos pulos, nem se apresentou, ele ainda tinha para vender o livrinho com o “Soneto Artiodátilo”? Só tinha conseguido ler o primeiro quarteto, um acidente, havia adorado, precisava saber o desenrolar…

– Xi, não tenho mais esse livro não. Eu tava muito louco quando escrevi aquilo. Uma pira, né? Nem sei se guardei o poema em algum lugar… Mas ó, tenho um livro novo aqui, com vários haicais, é bem legal. Você gosta de arte, né?

Não, ela odiava “arte”. E o hippie velho que enfiasse os haicais. Ah, por que ela havia desobedecido o mandamento de jamais procurar conhecer seus ídolos? Então a pata prepotente do hipopótamo era apenas isso? A obra de um camarada “muito louco”? Ingênua (“ingênua” era elogio, havia sido idiota, isto sim), quantas horas havia passado admirando os decassílabos, tentando decifrá-los, percebendo na perspectiva de enxotamento do hipopótamo, no ritmo, nas rimas externas e internas qualquer coisa que não sabia exatamente o que era, mas lhe brilhava como um motivo para continuar tentando viver e ser feliz (e ser magra). E no fim das contas, como estava claro agora!, aquilo não fazia sentido nenhum, só uma língua do “p” um pouco mais sofisticada. Melhor mesmo não ter lido os outros versos, certamente seriam horríveis, o primeiro quarteto fora apenas lance de sorte. E nem adiantava tentar se prover com o incentivo óbvio e barato de que “para você, aqueles versos significaram algo, e é isso o que importa”. Não, algo se lhe havia quebrado.

 * * *

 Moral da história: jamais confie em hipopótamos.

Resoluções para 2014

Resolver o meu desvio de septo; não levar nem uma multa de trânsito sequer; esquecer como andar de bicicleta; ir a Maracangalha; fazer uma pipa que não fique “pensa” e que gere um elogio sincero de meu pai; resolver o cubo mágico; aprender a trocar um pneu de carro; certificar-me de que haja sempre alguém apto por perto para trocar os outros três; refazer o segundo ano do ensino médio; ficar fera em equações logarítmicas; decorar a tabela periódica; memorizar, de uma vez por todas, qual o significado dos termos “sestroso” e “inzoneiro”; escrever um jingle para a lanchonete Colibri; compor um hino para cada estação de metrô de São Paulo; quebrar uma taça de cristal apenas com a emissão de uma nota aguda; receber um prêmio de honra ao mérito pela resolução de palavras cruzadas; iniciar uma campanha de erradicação da margarina; preparar um boeuf bourguignon; aprender sueco; aprender a fazer anéis de fumaça com a boca e, depois disso, parar de fumar; amar ao próximo como a mim mesmo; ter olhos azuis; adquirir uma “barriga negativa”; ser chamado de gostosa ao passar por uma obra; ter orgasmos múltiplos; ser confundido com Humphrey Bogart na rua; ser confundido com Joana d’Arc (ou Inês de Castro) na rua; jantar com Fred Astaire; dançar com Cyd Charisse; fazer as pazes com Brigitte Bardot; renunciar à Presidência da República; ter uma passagem secreta em casa; fazer meu próprio sorvete de maçã, com magnífico resultado; conseguir executar perfeitamente ao menos dez tipos de nó de gravata; conseguir executar perfeitamente ao menos vinte truques com baralho; escrever ao menos duzentos sonetos; ensinar um papagaio a cantar “Someone to Watch Over Me”; convencer Silvio Santos a licenciar um aparelho de GPS com sua voz; dissuadir Napoleão da ideia de invadir a Rússia; musicar o roteiro de “Um Pistoleiro Chamado Papaco”; avisar Romeu de que Julieta não está morta de verdade; ser considerado um santo; descobrir a cura do câncer; falar para o mágico da feirinha do Largo da Ordem o quanto ele significa para mim; fazer uma cesta do meio da quadra; dar a volta ao mundo em 79 dias; encontrar os ossos de Dana de Teffé; comprar um pince-nez; ser reconhecido pela firmeza do aperto de mão; receber os parabéns da dentista; fazer fogo a partir de pauzinhos; criar uma nova língua; derrotar João Gilberto numa partida de gamão; construir uma casa na árvore; trocar o chuveiro; acender a churrasqueira com rapidez espantosa; marcar um gol olímpico; fazer amor de madrugada, amor com jeito de virada; discutir, com Sasha Grey, o cinema de Truffaut e Godard – em francês, comme il faut; ter um contato imediato de terceiro grau; fazer um crente perder a fé; converter um ateu; derrubar um ministro; quebrar um recorde sul-americano de natação; descobrir com quantos paus se faz uma canoa; passar além do Bojador sob efeito de anestesia; tomar um porre com Paulo Maluf; montar um elefante; patentear a girafa-pônei.

Falo mesmo!

Não faz sentido dizer “eu bebo água mesmo” ou “eu tenho mãe mesmo”; por outro lado, é perfeitamente factível ouvir ou ler expressões como “furo fila mesmo” e “sonego impostos mesmo”. Nesse modelo de sentença, o “mesmo” afirma uma contrariedade consciente, ou às normas estabelecidas, ou a uma ação previsível em determinada situação, podendo ser substituído sem grande prejuízo por “apesar de se esperar o contrário”.

Isso posto, a disseminação do bordão “falo mesmo!” se apresenta, numa análise apressada, como um fato um tanto estranho. Afinal, com exceção dos mudos e de alguns monges, todos os seres humanos têm o privilégio de poder falar, não sendo espantoso quando algum de nós resolve fazê-lo. Fica claro, então, que o motivo de estranhamento indicado pelo elemento “mesmo” não é o ato da fala em si, sendo antes o conteúdo que se tem a enunciar.

E é por isso que esses montes de “falo mesmo!” voando por aí não são um fenômeno linguístico bonitinho e engraçadinho de expressão popular multiplicado em redes sociais com o apoio preferencial das tais hashtags – #falomesmo. Está aí é um belo índice da cretinização dos debates públicos e da covardia, incentivada pelo distanciamento, e consequente “proteção”, que a internet proporciona.

Há uma elipse a ser preenchida no “eu falo mesmo”, com as lacunas sendo completadas em variações de maior ou menor grau de abjeção: “eu falo [bobagem] mesmo”, “eu falo [ataques despropositados] mesmo”, “eu falo [argumentações desarrazoadas] mesmo”, “eu falo [manifestações preconceituosas] mesmo”, eu falo [incentivos a práticas criminosas] mesmo” etc.

O estratagema odioso permite que, ao mesmo tempo em que se diz algo inaceitável em qualquer debate civilizado, surja uma legitimação da baixeza ao se criar uma aura de autenticidade e espontaneidade. Como é preciso certa dose de coragem para externar covardia tão evidente – e já escrevi que a coragem é virtude comumente superestimada, sendo louvável apenas em circunstâncias muito específicas, pois se não faltou coragem a Jesus Cristo, ela também esteve presente em ações de Hitler e Fidel Castro –, fatalmente aparecem cambadas de admiradores para puxar o saco dos paladinos do “falo mesmo!”. O sentimento é algo como “nossa, ele não tem medo de compartilhar com o mundo toda sua mesquinhez e canalhice, eis alguém que deve ser invejado por ir contra as convenções”. Coberto pela glória de aplausos, “likes”, compartilhamentos e visualizações no youtube, o sujeito tem todo o incentivo para continuar sua carreira de polemista vazio, esbaldando-se ao ouvir os cacarejos gerados por sua falta de educação.

Triste condição a nossa em que termos como “rigor”, “gentileza”, “elegância” e “cortesia” ruborizam rostos pelo sabor antiquado, enquanto se pode encher o peito de orgulho para vomitar estupidez sincera e desavergonhada.