As putas do natal

Quem é mais triste: estas putas fazendo ponto na Rua Augusta, em plena noite de natal, ou os clientes que as procuram?

Talvez seja um raciocínio torto o meu, baseado na premissa de que é um panorama desolador precisar prostituir-se em plena noite de natal, data relacionada ao nascimento do Salvador e, mesmo para quem tem outras crenças religiosas, ou crença nenhuma, à união familiar, aos sentimentos de partilha, compaixão, renovação etc. Mas estas putas precisam mesmo estar em expediente agora? Não são como o porteiro do meu prédio ou o frentista do posto de gasolina, horário a cumprir, é isso ou perder o emprego. As putas poderiam muito bem decretar feriado e passar um diazinho sem foder, não comprometeria o orçamento doméstico. Donde se pode concluir que elas estão na lida porque assim o desejam, estas putas devem ser daquelas pessoas que não ligam para o natal, acham tudo bobajada, um dia como outro qualquer. Além do mais, é uma noção muito antiquada, uma ideia quadradona achar que meretrizes são pobres vítimas sociais: certamente há muita puta vocacionada, feliz com o que faz, orgulhosa de seu labor honesto.

Mas ainda há a possibilidade, nada desprezível, de as putas estarem puteando porque, apesar de não precisarem fazê-lo, esta é a opção mais confortável. Melhor se deitarem com uns homens tantos, como de hábito, do que estarem consigo mesmas se lembrando de que hoje a noite é especial, de que deveriam estar em casta festa familiar, celebrando a vida e os valores cristãos – mas não há modo de fazer isso se concretizar. E aí ver as putas da Augusta me parece muito triste novamente. Ainda bem que, mesmo hoje, há demanda para sua oferta, isso ameniza um pouco as coisas… Ou as torna mais melancólicas?

Alugam-se corpos na noite de natal. Que tipo de pessoa precisa pagar para estar com alguém hoje, alguém de quem não se sabe o nome, alguém com quem só se pode assumir a vontade de travar um intercurso sexual como ponto em comum e, ainda assim, com distintas motivações? Deve ser pessoa muito infeliz. Mas cá estou eu fazendo assunções perigosas novamente, vai ver que passar o natal a foder uma biscate, para o camarada, seja a forma mais sublime de concretizar a noite feliz, mandar à merda todas as “convenções hipócritas, a brutalidade do consumismo” e tal. Pode até ser, né? Mas eu acho que não, tenho a impressão de que não.

Puta e cliente desejam “feliz natal” um ao outro hoje? Antes ou depois do orgasmo? E se o cara tiver dificuldades em manter uma ereção, será particularmente constrangedor? A puta dirá “não fique assim, essas coisas acontecem, esquece, hoje é natal”? Os clientes assíduos oferecem presentes às suas quengas preferidas, anunciando-os com um “não repara, é só uma lembrancinha, se não gostar é só levar na loja e mostrar a etiqueta, pode trocar”? Deve haver algum doido que pede “me chama de rei mago que eu te dou a mirra” ou qualquer coisa parecida. Parece engraçado, mas no fundo é triste, eu acho triste, pelo menos.

Eu passo pela puta da Augusta, nesta noite de natal, e penso em convidá-la para subir à minha casa, muito pudicamente, dividir com ela alguma comida, conversar sobre o mundo, desejar-lhe saúde, prosperidade, vida longa e feliz. Não seria mesmo uma ideia maluca muito legal, dessas coisas que se veem em filmes? Acho que daria certo, eu me sentiria bem fazendo isso – afinal, por que não? E eu nem chego a responder meu próprio questionamento, a puta ficou para trás, sigo meu caminho para casa, seguro, satisfeito, feliz natal.

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Delta Vídeo

Sempre haverá audiófilos para dizer que, apesar da facilidade e rapidez de acesso que as mídias digitais proporcionam, não há nada como o som de um álbum gravado em disco de vinil; ainda há a vantagem de se poder tocar uma plataforma física, admirar a arte da capa e do encarte, acompanhar as letras das canções…

Quando se trata de “cinema em casa”, no entanto, difícil algum argumento para colocar a velha fita VHS acima dos arquivos digitais para vídeo, mesmo considerando as extensões com menos “fidelidade”; com poucos cliques, de graça ou pagando pouquíssimo (para quem faz questão de ser legalista), conseguem-se filmes os mais variados, desde o último blockbuster até pérolas do cinema mudo: tudo muito rápido e com qualidade inegavelmente superior ao que os colecionadores dos “fitões” poderiam sonhar, num passado nem tão remoto.

Numa análise apressada, portanto, é de se estranhar por que os cinéfilos nos pegamos nostálgicos de um tempo em que as condições para se conhecer o repertório da sétima arte eram tão mais exigentes do que hoje em dia.

Lembro-me dos anos que passei atrás do “Alemanha, Ano Zero”, um filme do Rossellini: vigiei por meses a programação da TV a cabo, pentelhei amigos para que vigiassem a programação de seus pacotes de TV, propus trocas em videoclubes, deixei mensagens em fóruns de cinema (estou falando de um tempo em que já havia internet, não sou tão velho assim!)… Nada. Até que, um belo dia, fiquei sabendo que Nilson Fakir, proprietário da loja de discos Jardim Elétrico, estava interessado em “Dragão de Sete Cabeças”, um filme do Glauber Rocha, por acaso eu tinha uma cópia gravada. Quando fui analisar as possibilidades de escambo, descobri, numa pilha enorme mantida pelo Fakir, uma fita com etiqueta marcando “Alemanha, Ano Zero” em tinta azul desbotada. Que glória! Lá fui eu fazer as minhas maracutaias com dois videocassetes (um luxo!), arranjando as cópias para a troca que nos interessava. Pouco tempo depois, apareceu uma cópia em DVD, na Delta Vídeo, do mesmo título. Fiquei com raiva. Nunca cheguei a ver o filme (um grande filme) nessa versão digital, certamente muito melhor do que a por mim conquistada depois de tanto esforço.

Agora é a própria Delta Vídeo que anuncia o encerramento de suas atividades, gerando lamentações de londrinenses saudosos, os mesmos que não conseguiram manter a viabilidade econômica da empresa. Por que se entristecer pelo fim de algo obsoleto?

A Delta teve um papel importante na educação cinematográfica de Londrina: numa cidade de médio porte, fugia do padrão de só dar espaço aos filmes de muita saída, mantendo um catálogo impressionante. Certamente há outros aficionados por cinema com memórias sentimentais próximas às minhas: lembro de sentir, lá pelos meus 14 anos, curiosidade pela capa rosa daquele filme de título pomposo, “A Rosa Púrpura do Cairo”. Com o perdão da pieguice e do clichê, ver aquele negócio mudou a minha vida.

Ademais, a Delta foi um espaço de encontros: conhecia-se gente por lá, e era possível selecionar quem se queria conhecer dependendo das prateleiras que a pessoa frequentava. E ainda era possível rir dos tiozões que olhavam para um lado e para o outro antes de entrar, hesitantes, na seção pornô.

Quando a Delta disponibilizou o “Alemanha, Ano Zero”, não fiquei com raiva por egoísmo do tipo “antes era só meu”; lembrava era das relações de amizade que a busca pelo filme me proporcionou, toda a paixão pelo cinema compartilhada: aquela cópia do filme era uma joia, vulgarizada pela exposição indistinta numa estante.

Em pouco tempo, não haverá mais Delta Vídeo, o Jardim Elétrico fechou há anos, e o “Alemanha, Ano Zero” está ainda mais acessível. É excelente que quem queira possa vê-lo com facilidade, viva a tecnologia, Deus me livre de propor uma volta ao passado. Mas quantos dos que se deparam com um nome de arquivo numa lista infindável de opções veem ali um item especial, com o poder mágico de aproximar pessoas?

O fim da Delta não é triste pela “desumanidade do capitalismo”, tampouco pela “banalidade dos tempos modernos”; lamentamos por ver que sempre perdermos, e continuamos desperdiçando, oportunidades para nos tornarmos pessoas mais interessantes, pessoas melhores.

O último supermercado 24 horas

Os notívagos não fizeram sua parte. Não faz muito tempo, eram três, mas agora só sobrou um supermercado 24 horas funcionando na cidade. Razões para a mudança de política: baixa movimentação no período da 0h às 6h. As criaturas da noite resolveram então correr atrás do prejuízo e marcar presença no ponto que lhes resta. Está garantido: por falta de demanda na madrugada é que não haverá a extinção definitiva dos supermercados 24 horas.

São nas vésperas de feriado e nos fins de semana que os aspirantes a drácula mostram serviço, não deixando faltar filas enormes na opção restante para quem quer fazer compras em horários pouco ortodoxos. É que esqueceram de avisar dessa migração ao supermercado, que deixou seu atendimento no inesperado horário de pico – entre 23h30 e 1h30 – restrito a três ou quatro caixas abertos. Resultado: média de 45 minutos de espera para passar as compras.

Se há diversidade de cores, credos e classes sociais no grupo, a razão da presença no ambiente garante a homogeneidade. Com sorte, é verdade, ainda dá para encontrar algum senhor avançado em anos comprando acelgas e rabanetes, mas o grosso do movimento é mesmo de pessoas querendo conseguir álcool com um preço mais barato do que o praticado em bares e conveniências. Onze entre dez pessoas estão ali atrás de bebida – a estimativa bem-humorada é de uma caixa.

Esperar é mesmo um aborrecimento. Mas admitamos em favor do supermercado – e em contraponto ao INSS, aos bancos e às alfândegas de aeroporto – que esta fila tem a distinção de estimular o convívio social. O assunto preferido entre os que vão se conhecendo não poderia ser outro senão praguejar contra a existência das filas, mas ninguém pensa em desistir.

Muitos apressados em iniciar a jornada etílica (ou dar prosseguimento a ela) já vão abrindo suas latinhas de cerveja antes de pagar as compras. O vinho e a vodca barata, outros campeões de consumo, aguardam nos carrinhos até o momento de serem desfrutados. Ninguém precisa se sentir constrangido, pois a celebração é democrática, com os trajes variando de chinelo e bermuda até moças de vestido longo esticando alguma festa.

Depois de meia hora de fila, inevitavelmente surgirão manifestações da fauna humana para ser apreciadas em toda a sua diversidade. O observador pode se deter no grupo de jovens amigos tomado de súbito furor cívico. “Isto aqui é o Brasil, um desrespeito total ao consumidor, e ninguém faz nada”, diz um deles, ganhando o aplauso entusiasmado de um senhor que aguarda atrás. Mas o grupo de amigos decide que o algo a fazer é contar com a ajuda de uma providencial grávida para furar a fila e conseguir passar logo a compra de vodca. Dá pena o olhar de traído do senhor que havia confiado na juventude. “Só querem mesmo saber de dar um jeitinho…”

Não deixa de ser tocante ver a solidariedade recebida pela caixa quando o mecanismo que identifica o código de barras dos produtos deixa de funcionar, retardando ainda mais o processo de compras. “A gente sabe que o problema não é por sua causa, são essas condições de trabalho”, diz um outro homem, clamando pela presença da mídia. Sem querer comprometer-se com reclamações, a caixa apenas responde suspirando. “É, estou neste horário faz dois anos…”

Já na saída, o funcionário que valida os tíquetes do estacionamento se revolta quando percebe poças de vômito em seu ambiente de trabalho, permitindo-se um desabafo. “Olha, quem tem emprego não pode reclamar, mas não é minha função cuidar disso.” Em tom de confidência, conta a dificuldade de combater a estratégia usada pela molecada: basta que arranjem um maior de idade negligente para se encarregar da compra alcoólica e posterior distribuição, o estrago está feito. “Um inferno, acontece sempre.”

Mal termina de falar, uma moça visivelmente bêbada chega escorada pelo namorado. A noite continua.

Vantagens e desvantagens desse tal Lulu

Quando ouvi falar do Lulu, fiquei bastante empolgado com a novidade – se você não esteve no planeta Terra nos últimos dias, explico que se trata de um “aplicativo social” voltado exclusivamente para as mulheres, por meio do qual podem avaliar homens cadastrados no facebook, gerando uma nota baseada em critérios como humor, educação, ambição, compromisso e aparência. Afinal, nada como uma boa e nostálgica dose de superficialidade nas relações humanas. Que falta nos faz poder rotular e estereotipar livremente, sem o olhar atento das patrulhas! Lembram-se de quando o simples fato de uma figura ostentar tatuagens ou piercings já era suficiente para discriminá-la, tachá-la de degenerada, negar-lhe emprego? Tempo bom que não volta mais. Hoje em dia, são as pessoas de bem, pagadoras de impostos, dizimistas, orgulhosas da tradição familiar e sem adornos excêntricos pelo corpo que correm o risco de serem vistas com desdém pelos devassos detentores do poder.

Meu entusiasmo com o aplicativo durou até um amigo me contar que meu perfil havia sido avaliado no Lulu. Como poderia suspeitar que alguém perderia tempo analisando as qualidades deste plebeu? Bem, quem não deve não teme: como eu devo, e temo pelo que devo e pelo que não devo, esperei pelo pior. E não esperei muito, pois é evidente que, com requintes de crueldade, o Danilo (só podia ser um recém-tatuado mesmo) não se contentou em me informar da avaliação, esfregando-ma na cara. Nota 6,5. Até fiquei meio aliviado, com 6,5 se passava de ano no Colégio Universitário. Mas aí tive de atentar às nuances do meu diagnóstico.

Quanto aos defeitos, tudo bem: “#SangueAzul” (como alguém pode levar a mal uma evidência de nobreza?), “#CopoMeioVazio” (não existem otimistas, já dizia Cony, só gente mal informada), “#NuncaTáFeliz” (vulgaridade sair sorrindo a esmo por aí, folgo em saber que não aparentei ser a quintessência do júbilo perante minha amiga de Lulu)… O “#Bebezão” pede análise de maior fôlego: se fôssemos nos ater às qualidades realmente terríveis de um bebê – ultraegoísmo, recorrência constante à manipulação e à chantagem, crueldade estarrecedora etc. –, a comparação me seria pouquíssimo lisonjeira; em nossa configuração milenar de sociedade matriarcal, no entanto, na qual basta à fêmea parir para ser alçada à condição de santa, estendendo a seu rebento a inimputabilidade absoluta, “#bebezão”, na pior das hipóteses, deve ser uma metáfora para pessoa muito carente, sempre dependendo de constantes cuidados e de atenção. No big deal, em suma.

Foi saber da suposta virtude a mim atribuída que realmente me emputeceu. Para minha generosa avaliadora, a única característica a me render algum destaque positivo é ser “#QuaseUmFãdeComédiaRomântica”. Qual é? Aí já é ofensa pessoal e covarde. Gasto anos vendo filmes chatos pra cacete, feitos em preto e branco por diretores cheios de consoantes no nome, para no fim do dia passar a imagem de baba-ovo da Meg Ryan e da Jennifer Aniston? Que preciso fazer para ser respeitado? Aumentar a espessura da armação dos meus óculos? Tenho uma reputação a zelar!

Francamente, a ideia desse Lulu é boa, mas alguns parâmetros têm de ser revistos. Reparem nas alternativas dadas pelo aplicativo para a proposição “Nos casamentos, ele é o cara…”. São elas: “a) xavecando as madrinhas; b) agitando a brincadeira da gravata; c) dançando com a avó da noiva; d) bebendo caipirinha de saquê; e) sonhando com o dia do próprio casamento”. A ideia é que, quanto mais avançadas no alfabeto, as letras correspondem a opções mais louváveis. Ou seja, o autor do questionamento não consegue conceber um cara que não seja ou um imbecil sem noção ou um bobão efeminado – estou tentando pensar em algo menos másculo do que passar uma festa de casamento a ingerir “caipirinhas de saquê” (para começo de conversa, uma contradição em termos, algo como a “goiabada de banana, bananada de marmelo” do ex-ministro), mas nada me vem à cabeça no momento. Dá pena pensar no universo em que a boa autora luluzística colheu a amostragem masculina.

Como prova de boa-fé, para mostrar que não faço apenas críticas destrutivas, dou minha colaboração para o começo de um Lulu 2.0, sugerindo opções mais dignas para a mesma questão da festa matrimonial. Que tal um “Nos casamentos, ele é o cara: a) fumando do lado de fora da festa; b) amaldiçoando o mau gosto musical dos noivos; c) tentando comer o suficiente para cobrir as despesas com presente e eventual roupa nova; d) fazendo comentários sarcásticos sobre tiozões ébrios, sem que eles percebam que estão sendo zoados; e) perguntando-se por que as mulheres pagam tanto em ajustes no cabelo e em maquiagem para ficar, afinal, mais feias do que quando vão ao supermercado”?

Árvores de Natal, Deus e o diabo

Estabeleceu-se o dia 6 de janeiro como o recomendado para o desmonte das árvores de Natal – é o dia dos Reis. Não sei qual é a relação entre os Reis Magos e o empacotamento de enfeites natalinos, mas ao menos é uma referência. Não há dia estabelecido para montar a árvore de Natal. E já que não há regras, cada vez mais cedo dentro do ano, percebo eu, a decoração natalina vem sendo exposta em casas e em locais de circulação pública. O espírito natalino está apressado. Não sei exatamente o quê, mas isso deve significar alguma coisa.

E deve ter relação com o fato distante de que ninguém mais gosta das canções tristes, melancolia não vende. Uma moça como a Adele com suas canções de corno poderia servir como desmentido, mas aquilo lá é algo extravasado, gritado, desesperado, dá até para dançar pulando junto, que porcaria de canção triste é essa? Estou falando de algo introvertido como “A Noite do Meu Bem”, “Smoke Gets In Your Eyes” – e, curiosamente, de algumas das mais belas canções de Natal, data tão associada à alegria e à felicidade, que são muito tristes: “White Christmas”, “Blue Christmas”, a nossa “Boas Festas”…

Eu gosto dessas canções e até gosto do Natal, mesmo não o achando feliz. O triste pode ser bonito, admirável, nobre. O Natal me apraz pelo que há de solene em uma data sacra, pelo respeito que invoca. E ainda assim não costumo ficar feliz num “clima natalino”, talvez por não ver muita sacralidade dentro do que se convencionou chamar de “espírito do Natal”. Há de se lembrar com temor do nascimento de Deus.

“Temer a Deus”, expressão bíblica, não é invenção deste ímpio. Sei que isso já é um sentimento pecaminoso, mas o diabo nunca me deu muito medo. Afinal, se ele existe, deve ser obra do Criador de todas as coisas. Belzebu tem sua jurisdição delimitada por Deus, é uma oposição consentida, como o MDB na época da ditadura militar. O fogo eterno pode ser um vislumbre horrível, mas quem comandará o dia do Juízo é o Senhor, e não consta nos autos que o capeta será um dos jurados. É Ele quem decide o que pode ir para Satanás, que terá de se contentar com o que lhe for entregue. Deus nos julgará autocraticamente, por nossos pecados, por nossas ações e nossa fé. Ele tem o poder, todo o poder, é onipotente. Lúcifer é um pobre diabo, um velho sádico que depois de milênios ainda faz de tudo para chamar a atenção do Pai, qual um filho rebelde, nunca tendo se livrado de suas frustrações, de seu complexo de inferioridade, de sua pequenez – está sempre tentando provar alguma coisa. O tinhoso é um caso freudiano, extremamente previsível.

Mas quem saberá dos desígnios de Deus? Respeitêmo-Lo, é o que nos resta – e montar árvores de plástico gigantes em shopping centers não me parece a maneira mais adequada de demonstrar esse respeito. Mas a arvorezinha de dois reais que meu amor me deu, e decorou tão graciosamente, é de uma humildade tão solene em meu apartamentozinho, fez-me tão feliz em meu triste espírito natalino, que até acho que Ele a respeitará como símbolo de respeito.