As botas de sete léguas

Entre black blocks, blocos de carnaval, poder público, iniciativa privada, camelôs e eremitas, há pelo menos um ponto consensual: todos hão de concordar que o transporte público das grandes metrópoles é muito deficiente ante as necessidades de deslocamento da população, para usar termos brandos. Infelizmente, o consenso se interrompe no apontamento do problema, havendo discórdias terríveis quanto a sua causa e as possíveis soluções. Aí entram itens e variáveis tão complicados quanto desenvolvimento sustentável, planejamento familiar, engenharia de trânsito, individualismo, direitos civis, solidariedade orgânica, sociedade patriarcal, metrô, bicicleta, Nike Shox, Havaianas modelo antigo (com o solado branco e tiras amarelas)…

Como em tantos outros aspectos da vida, há uma necessidade enorme de complicar uma matéria para a qual a solução pode ser muito mais simples do que imaginamos. Tecnologias antigas caem na obsolescência por motivos vários, e quando se tenta resgatá-las pode não ser tão simples assim – lembram-se do vexame quando tentaram construir caravelas na ocasião dos 500 anos da chegada de Cabral? Apesar do risco inato de resgate de um estágio passado de desenvolvimento (certamente a medida implica ajustes a serem feitos), creio que as benesses da volta da bota de sete léguas superam em muito eventuais transtornos trazidos com essa retomada.

Na baixa idade média, as botas de sete léguas foram um adereço valiosíssimo, sendo o domínio de sua feitura exclusivo de pouquíssimos artesãos. Assim como aconteceu posteriormente com os violinos Stradivarius, a raridade das botas trouxe intensa mística ao produto: exemplares foram extraviados, falsificações (algumas de excelente qualidade, atingindo até seis léguas) passaram a circular nas feiras, assassinatos foram cometidos para a obtenção de uma sete léguas legítima. A importância do calçado para o período está eternizada na literatura de Perrault, em contos como “Pequeno Polegar” e “Gato de Botas”. Imaginem, numa época sem transporte ferroviário, automotivo ou aeronáutico, sem pílula do dia seguinte e sem Instagram, a valia de uma calçado que permitia passos de quase cinquenta quilômetros!

Infelizmente, a ganância do mercantilismo e as grandes navegações trouxeram inconvenientes ao uso das heroicas botas. Querendo explorar regiões cada vez mais longínquas, muitas vezes quem calçava as botas acabava parando em locais inóspitos, sofrendo violências; outros se perdiam para nunca mais serem encontrados (ainda não haviam sido inventados google maps e GPS, acreditem), perecendo em terrenos desabitados ou tendo o fim comum a tantos exploradores da época: a morte salgada. Qualquer errinho de dez graus e você estava prestando contas a Deus em vez de iniciar transações comerciais com os indianos; ainda houve uns quantos, confiantes em uma cartografia incipiente, que tentaram os “grandes saltos” marítimos, indo parar com os burros n’água, literalmente.

Dessa forma, muitas botas de sete léguas originais foram se perdendo, e as nuances do artesanato foram se diluindo nas gerações subsequentes. O processo de industrialização, com a chegada das malhas ferroviárias, fez com que as “perigosas” botas fossem aposentadas de vez.

Com as indicações literárias que possuímos e com os resquícios das botas guardados em museus da Europa, no entanto, é possível construir novos exemplares em escala industrial, aprimorados com as descobertas recentes da tecnologia. As novas botas não precisariam necessariamente operar com passos de sete precisas léguas, funcionando em distâncias reguláveis (mesmo passos de uma légua ainda tornam o uso do calçado vantajoso economicamente); o deslocamento dos usuários das botas poderia ser monitorado por satélite, com as rotas reguladas em torres de comando, tal qual acontece com a aviação (tão sobrecarregada hoje em dia!).

As botas de sete léguas (versão 2.0) são seguras, econômicas e confortáveis, não agredindo o meio ambiente. Podem ser de ajuda inestimável tanto para o transporte urbano quanto para deslocamentos de média e grande distância. Quem quer solução rápida e barata para o transporte coletivo tem de acreditar nas botas de sete léguas.

Quando não se precisa perdoar o inimigo

Qualquer rapaz simpático pode sair de uma festa cheio de contatos, promessas e sorrisos, mas amizade 24 quilates é coisa mais complicada de se cultivar; do mesmo modo, qualquer ranzinza experimentado tem em seu currículo um portentoso rol de antipatias e desafetos, mas é pretensão descabida, quase pecaminosa, falar em inimizade. Inimigos os têm pessoas grandes, que deixaram obras, passaram por muito, cumpriram tarefas importantes.

Ao menos é um jeito positivo para nós, membros compulsórios da massa dos desimportantes, analisarmos as coisas: felizes dos medíocres, sem a desgraça da inimizade. Gentes com inimigos estão em mau negócio, estatisticamente, sendo verificáveis no grupo, em comparação com a média, maiores taxas de mortalidade, menor atividade sexual e pior saúde cutânea.

Mas nós, humanos, temos dessas coisas, sempre perseguindo problemas, e mesmo com a bênção de não estar à altura da inimizade, insistimos em guardar ódio e rancor por pouca bosta. Há vítimas de estupro que perdoam seus algozes, mães que perdoam o assassino de seus filhos, torturados que perdoam o torturador, perseguidos que perdoam o regime totalitário responsável pela destruição de sua família – exemplos comoventes, inalcançáveis a nós, sob a graça da indistinção, de obediência aos ensinamentos de Cristo.

Para quem não tem inimigos (e como é bom não ter inimigos!) é mais fácil perdoar. Não nos amarraram nus a um poste, não estouraram a cabeça de nosso pai com um rojão, não nos acusam de abusar da filha de sete anos; ainda assim, temos a coragem de chamar levianamente de “inimigo” a alguém que, na maior parte das vezes, era pessoa próxima, com quem partilhávamos gostos e projetos, com quem até já falamos mal de outras pessoas, talvez. Só que aí entram diferenças de temperatura, divergências das mais várias ordens, pulsões, palavras impensadas, atos desproporcionais… É uma merda, mas nada digno de uma inimizade, nada que não valha muito a pena perdoar. Porque é um jeito fácil de marcar pontos com Deus. Já pensou se você tivesse de perdoar um inimigo de verdade? Pense bem, até que o Criador pegou leve com você – só não vá perdoar pensando em barganha no Dia do Juízo, porque é capaz de anular todo o efeito.

E dentro de um plano bem mundano, vamos lá, é um saco ficar forçando inimizade, requer paciência e energia que poderiam ser empregadas com muito mais proveito em outras áreas. Esse negócio de ter de atravessar a rua repentinamente, colecionar provas, evitar referências, dividir amigos, parar de frequentar determinados ambientes, exigir tomada de partido de terceiros… Ah, tenha a santa paciência, vamos todos perdoar, vamos perdoar e tomar sorvete.

Bem, é só meu jeito meio gago de pedir perdão.

A ventura de um impotente

É uma bênção ser brocha. E fico muito confortável para defender essa máxima, pois meu poder de ereção se verificou perfeito por anos. Aí aos poucos fui ficando brocha e lutei farmacologicamente contra isso – só para perceber que minha cura estava me matando. Falo com conhecimento de causa. Na paz de espírito de um brocha que assim se sabe e aceita a sua condição, vive-se mais feliz. Já estive onde vocês estão, ó brochas inconformados, e do alto de minha experiência, em verdade em verdade vos digo: um brocha que clama por Viagra equivale a um detento que, vendo-se com a cela destrancada, corre para providenciar as chaves que novamente o trancarão. Absolutamente não faz sentido, a não ser como forma particularmente bizarra de masoquismo.

Livre das pulsões dilacerantes do baixo ventre, a gente pode se concentrar melhor em tarefas realmente importantes, como fazer dinheiro e tentar deixar ao mundo algum legado que preste. O pau mole não lhe fará um gênio, verdade seja dita, mas o pau duro atrapalha sobremaneira a concentração daqueles que, cognitivamente pouco privilegiados pela natureza, têm de imprimir grande esforço em qualquer tarefa intelectual. Você sabe que falo a verdade, jovem garanhão.

E para os que lamentam meu materialismo insensível, o bloqueio para aventuras românticas ou as dificuldades de estabelecimento familiar, segurem o queixo: folgo em dizer que nunca fui tão feliz num relacionamento estável como o sou agora. Melhor dizendo, depois de muitas topadas, tanta dor irracional, confusão e ambivalência, tantas contradições torturantes, finalmente descobri o que é a felicidade num relacionamento estável. E já com estes cabelos brancos, senti-me enfim seguro para estabelecer família, adotando um casal de crianças que salpica com tintas de ternura o meu quadro de paz. Com tantos pequenos desamparados, trazer ao mundo mais um ser, por mera questão de posse sanguínea, é um tanto egoísta, não? A flacidez peniana também ajuda a analisar essas questões com mais clareza.

Certo que contei com a sorte, todos precisamos dela, mas sinceramente não vejo ameaça à paz familiar tendo encontrado a mulher que encontrei: eu e a Ana nos damos tão bem, tantos gostos em comum, valores compatíveis, senso de humor próximo, companheirismo, respeito… O que pode destruir a cumplicidade de um casal assim? A maldita vontade de sair ciscando. Bem, esses desejos já não me tomam. E a Ana, quando apossada de seus rompantes uterinos, tem toda a liberdade para se desafogar como pode. É uma enternecedora epifania quando os epítetos “brocha” e “corno” deixam de ser um fantasma amedrontando o arquetípico orgulho masculino para se revelarem uma verdade serena, descomplicada. Sim, somos um casal que se gosta demais, mesmo que meu amor não consiga fazer uma omelete decente: vou lá eu e faço, sem dramas. Ora, acontece que eu não posso fodê-la: a Ana também sempre consegue quem o faça, sem custos e sem grande prazo de carência. Simples assim.

Não vou afetar superioridade e fingir que não há inconvenientes nesse arranjo, às vezes acontecem umas coisinhas. Noutro dia, estava penando na tradução de passagens particularmente intrincadas de uns sonetos de Keats enquanto era obrigado a ouvir gritos abafados vindos do quarto, “vou te arregaçar inteira, vou te mostrar quem é teu macho”, “você gosta de um cacete grosso, né, vagabunda?”, “vem, me pega de quatro com força”.  Fui obrigado a bater na porta do quarto, “pessoal, dá pra vocês maneirarem um pouco?, estou tentando trabalhar”. Um constrangimento total.

No dia seguinte, o camarada apareceu, ficou sabendo que gosto de Jerez, trouxe-me uma garrafa de Pedro Ximénez, tadinho. Já é uma uva complicada, e aquele tinha gosto de xarope mesmo, um desastre. Mas ele só quis agradar, um jovenzinho educado pedindo desculpas meio timidamente, nem falei nada. Só me entregou o vinho e foi embora, eu estava começando uma maratona de Billy Wilder com a Ana, aí ele não tinha vez. Comigo é assim: se quiser se aproveitar dos buracos dela, tudo bem, mas sem essa safadeza de ficar vendo filme juntos, trocando confidências, saindo para comer, discutindo projetos sociais.

Enfim, são pequenos ajustes que têm de ser feitos, concessões normais numa vida a dois, mas nada comparável ao tormento de ser sexualmente ativo, Deus me livre. O ideal seria que a Ana fosse frígida, mas sabe como é, não se escolhe a quem se ama. Com o tempo, o fogo dela arrefece.

Dimas e os contos de fada

Já perto da porta de sua casa, Dimas fez atípico comentário otimista sobre o futuro dos arranjos políticos no Brasil. Minha reação foi imediata foi perguntar se ele, a sério, acreditava em contos de fada. Desceu do carro sem me responder e sem agradecer pela carona – tudo bem, é o Dimas. Dias depois, no entanto, retornou ao assunto em e-mail que me enviou, esquecendo completamente o contexto político e se atendo aos contos de fada. Como vingança pela sua charmosa ingratidão caronística, reproduzo sem licença sua cartinha, que, percebi, pode funcionar como bela e inusitada mensagem de ano novo, embora um Dimas romântico esteja mais para milagre de natal.

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“Não tenho dados estatísticos para corroborar minha afirmação, mas acho que é difícil encontrar alguém que diga, com segurança e sinceridade, não acreditar no amor. Se alguém o fizesse, sua confissão seria recebida com espanto, tomariam o pobre como psicopata. Certo, há muitos exemplos do cancioneiro universal que proclamam a descrença no amor, a impossibilidade do amor, mas perceba que são uma forma de ironia pouco usual, pois sem intenção cômica: ao dizer que o amor não existe, que não acredita nele, o autor expressa sua aflição pelo fato de o amor o ter devastado – prova de que o sentimento não apenas existe como tem força tremenda. Quando Nat King Cole canta ‘I’m through with love’, entendemos perfeitamente ter sido o amor que acabou com ele.

Todo o mundo acredita no amor, e é mesmo belo acreditar no amor, mas ‘acreditar em contos de fada’ é uma metáfora para o ponto em que a ingenuidade atinge irremediavelmente a estupidez. Quais as características dos assim ditos contos de fada associadas a essa imagem utópica? Sem a pretensão de uma lista exaustiva, podemos chamar a atenção para um ponto central, que, com seus desdobramentos, define o gênero: a aparição repentina de um amor ideal, logo à primeira vista reconhecível, que eleva o personagem e a ele não aparenta defeitos, tornando-o capaz de atingir o que tem de maior e mais nobre, assim superando adversidades.

Não há espaço aqui para especular sobre as razões sociais por que isto acontece, mas se torna simples apontar o fenômeno: espantosamente, considera-se frívola a crença em algo que se verifica sempre e que, modificados os termos, é universalmente louvado! Só há amor à primeira vista, meu caro, o amor verdadeiro é o dos contos de fada. O resto é neurose, carência patológica e vulgar medo da solidão.

Que inversão de valores. Ter a certeza devastadora, para além da argumentação, de que se quer algo, mais do que qualquer outra coisa, passa por capricho juvenil, embora tal ímpeto tenha gerado o que há de mais belo e admirável neste mundo; por sua vez, o amor discutido, planificado, tabelado, com termos abertos a margens de negociação, com contrato garantindo férias e 13º, este é considerado ‘prova de maturidade e de bom senso’, embora só tenha trazido, historicamente, dor de cabeça e desilusão. Aonde já se chegou com ‘vamos construir uma relação’, ‘por favor, volte para mim’ ou ‘com o tempo, você aprenderá a me amar’?

Amor não se pede, não se barganha, não é matéria de trabalho. Se a lembrança das penúrias dos amores românticos desfeitos dificulta a assimilação do ponto, pensemos em outras formas de amor, das sacrossantas às mais mundanas, sempre surgindo à primeira vista, à moda dos contos de fada: a mãe tem o primeiro vislumbre de seu filho; o adolescente contempla aquela guitarra vermelha; estes sapatos ainda hão de ser meus – não há registro de mulher esperando o aniversário de 35 anos ou o fim do mestrado para procurar o scarpin certo, aquele com o qual se devem percorrer longos caminhos, pois nesse momento já se terá a idade certa para tão elevado compromisso.

Pode ser temerário, impulsivo, irresponsável, mas é como as coisas se dão. Acontece sem aviso prévio. Não se nega a lei da gravidade, o azul do céu, o salgado do mar. Pela sanidade mental coletiva, pelo bem de todos e felicidade geral da nação, pelas criancinhas, pela qualidade da função erétil, pelo fim da fome na África e porque a beleza importa, é justo acreditar em contos de fada, precisamos acreditar em contos de fada, por favor, acredite em contos de fada você também.”