A ventura de um impotente

É uma bênção ser brocha. E fico muito confortável para defender essa máxima, pois meu poder de ereção se verificou perfeito por anos. Aí aos poucos fui ficando brocha e lutei farmacologicamente contra isso – só para perceber que minha cura estava me matando. Falo com conhecimento de causa. Na paz de espírito de um brocha que assim se sabe e aceita a sua condição, vive-se mais feliz. Já estive onde vocês estão, ó brochas inconformados, e do alto de minha experiência, em verdade em verdade vos digo: um brocha que clama por Viagra equivale a um detento que, vendo-se com a cela destrancada, corre para providenciar as chaves que novamente o trancarão. Absolutamente não faz sentido, a não ser como forma particularmente bizarra de masoquismo.

Livre das pulsões dilacerantes do baixo ventre, a gente pode se concentrar melhor em tarefas realmente importantes, como fazer dinheiro e tentar deixar ao mundo algum legado que preste. O pau mole não lhe fará um gênio, verdade seja dita, mas o pau duro atrapalha sobremaneira a concentração daqueles que, cognitivamente pouco privilegiados pela natureza, têm de imprimir grande esforço em qualquer tarefa intelectual. Você sabe que falo a verdade, jovem garanhão.

E para os que lamentam meu materialismo insensível, o bloqueio para aventuras românticas ou as dificuldades de estabelecimento familiar, segurem o queixo: folgo em dizer que nunca fui tão feliz num relacionamento estável como o sou agora. Melhor dizendo, depois de muitas topadas, tanta dor irracional, confusão e ambivalência, tantas contradições torturantes, finalmente descobri o que é a felicidade num relacionamento estável. E já com estes cabelos brancos, senti-me enfim seguro para estabelecer família, adotando um casal de crianças que salpica com tintas de ternura o meu quadro de paz. Com tantos pequenos desamparados, trazer ao mundo mais um ser, por mera questão de posse sanguínea, é um tanto egoísta, não? A flacidez peniana também ajuda a analisar essas questões com mais clareza.

Certo que contei com a sorte, todos precisamos dela, mas sinceramente não vejo ameaça à paz familiar tendo encontrado a mulher que encontrei: eu e a Ana nos damos tão bem, tantos gostos em comum, valores compatíveis, senso de humor próximo, companheirismo, respeito… O que pode destruir a cumplicidade de um casal assim? A maldita vontade de sair ciscando. Bem, esses desejos já não me tomam. E a Ana, quando apossada de seus rompantes uterinos, tem toda a liberdade para se desafogar como pode. É uma enternecedora epifania quando os epítetos “brocha” e “corno” deixam de ser um fantasma amedrontando o arquetípico orgulho masculino para se revelarem uma verdade serena, descomplicada. Sim, somos um casal que se gosta demais, mesmo que meu amor não consiga fazer uma omelete decente: vou lá eu e faço, sem dramas. Ora, acontece que eu não posso fodê-la: a Ana também sempre consegue quem o faça, sem custos e sem grande prazo de carência. Simples assim.

Não vou afetar superioridade e fingir que não há inconvenientes nesse arranjo, às vezes acontecem umas coisinhas. Noutro dia, estava penando na tradução de passagens particularmente intrincadas de uns sonetos de Keats enquanto era obrigado a ouvir gritos abafados vindos do quarto, “vou te arregaçar inteira, vou te mostrar quem é teu macho”, “você gosta de um cacete grosso, né, vagabunda?”, “vem, me pega de quatro com força”.  Fui obrigado a bater na porta do quarto, “pessoal, dá pra vocês maneirarem um pouco?, estou tentando trabalhar”. Um constrangimento total.

No dia seguinte, o camarada apareceu, ficou sabendo que gosto de Jerez, trouxe-me uma garrafa de Pedro Ximénez, tadinho. Já é uma uva complicada, e aquele tinha gosto de xarope mesmo, um desastre. Mas ele só quis agradar, um jovenzinho educado pedindo desculpas meio timidamente, nem falei nada. Só me entregou o vinho e foi embora, eu estava começando uma maratona de Billy Wilder com a Ana, aí ele não tinha vez. Comigo é assim: se quiser se aproveitar dos buracos dela, tudo bem, mas sem essa safadeza de ficar vendo filme juntos, trocando confidências, saindo para comer, discutindo projetos sociais.

Enfim, são pequenos ajustes que têm de ser feitos, concessões normais numa vida a dois, mas nada comparável ao tormento de ser sexualmente ativo, Deus me livre. O ideal seria que a Ana fosse frígida, mas sabe como é, não se escolhe a quem se ama. Com o tempo, o fogo dela arrefece.

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