Ari Toledo

– Tudo bem. A senha é “aritoledo”.

– Ary Toledo? Que porcaria de senha estúpida é essa?

– Você fez um drama desgraçado dizendo que queria a senha, eu te dou, agora você quer questionar a qualidade dela?

– Eu fiz drama? Você que ficou todo escandalizado quando eu pedi sua senha para ver o perfil da Luciana, no meu eu não consigo, eu só queria saber por que você não pode me dar.

– Eu posso. A senha é “aritoledo”. E eu só queria saber por que você precisa ver o perfil da Luciana.

– Eu não preciso. São muito poucas as coisas de que realmente precisamos nesta vida. Mas eu quero ver o perfil da Luciana, curiosidade pura e simples, e não estava vendo grandes obstáculos para realizar este meu pequeno capricho, sabe?, já que da sua página eu consigo fuçar. Mas pelo jeito a sua senha deve esconder segredos de estado, documentos confidenciais, coisas para as quais o público não está preparado…

– Que tipo de insinuação é essa? Você nunca foi disso. E não é segredo de estado, é “aritoledo”…

– Uma senha ridícula…

– Só não fiquei feliz de ter de ceder a sua chantagem emocional, mas se você faz questão, “aritoledo”.

– Chantagem emocional? Eu só fiz uma pergunta, para mim é muito simples, por que você não pode me passar a senha…

– Tanto eu posso que te passei, “aritoledo”.

– Por Deus… Por que, então, você não queria me passar a senha? É uma questão fácil e direta, não é? Algum ponto que você não tenha entendido?

– Não é que eu não queria… É que eu preferia não ter de… Não me sentir coagido a passar.

– Como você é difícil, Santa Mãe… Pode fazer os rodeios linguísticos que você quiser, escolha o verbo que achar melhor, mas pode me responder?

– Eu acho que é melhor separar certas coisas, manter a privacidade.

– Você tá tirando uma da minha cara, né? Só pode.

– Uhn?

– Manter a privacidade? Separar coisas? Quando você usa minha toalha, uma vez até a escova de dentes!, eu, como pessoa normal, fico em choque, e você me vem com “grande coisa”, “eu tava distraído, peguei o que vi pela frente”, “a gente já troca fluidos mesmo”, essas desculpas nojentas. Então, com você, é promiscuidade com toalhas e escovas, mas para uma merda de uma senha de rede social, ai meu Deus, quero minha privacidade, vamos separar as coisas, estou sendo invadido…
– Eu não disse nada disso. E são coisas completamente diferentes.

– Já sei, você tava com vergonha porque a senha é Ary Toledo. Eu também teria vergonha. Eu te peguei de repente, não dei tempo pra você trocar, você ficou constrangido…

– Eu acho “aritoledo” uma excelente senha.

– Nem a mãe deve rir das piadas dele.

– Ele é um senhor de certa idade, pouco provável que a mãe dele esteja viva. E mães não são a melhor avaliação para a graça de uma piada. De qualquer jeito, eu disse que “aritoledo” é uma boa senha, não um bom comediante.

– Se você não gosta dele, por que escolheu essa senha?

– Eu não disse que não gosto, só quis separar a senha e o comediante, são entidades distintas.

– Então você gosta dele?

– Nunca parei pra pensar nisso.

– Mas resolveu homenageá-lo com sua senha?

– Suas senhas são homenagens?

­– Não, são um conjunto de letras e números, com variações de maiúsculas e minúsculas, como é recomendado por razões de segurança.

– Ai, que chato. Eu não quero saber sua senha.

– Mas eu quero saber a sua, já que é tão importante para você, a ponto de você protegê-la assim.

– Protegê-la? Pela enésima vez, “aritoledo”, entra logo, pelo amor de Deus.

– Não tá entrando.

­– Como não tá entrando? Sempre foi “aritoledo”, eu jamais trocaria o “aritoledo”.

– Ary Toledo? Tudo Junto?

– Tudo junto. A-r-i-t-o-l-e-d-o.

– Ê laiá. Nem pra você conseguir escrever um nome direito. É Ary Toledo, com ípsilon.

– Tem certeza?

– Claro que tenho certeza.

– Pra quem o odeia tanto, você tá bem informada.

­– Eu não disse que o odeio, só disse que ele não tem graça. Isso não é razão suficiente para eu odiar alguém. Além do mais, se eu o odiasse, seria uma razão a mais para eu saber com precisão o nome dele, a gente se informa sobre os inimigos. Não me pergunte como ou por que eu sei, mas é Ary Toledo, com ípsilon, acredite.

– Você acha que eu devo trocar a senha?

– Claro, acho fundamental você mostrar respeito pelo nome correto das pessoas, odeio quando inventam de escrever meu nome com dois “l”, com “h” no final…

– Eu tô falando de trocar totalmente a senha, colocar algo chato que nem você, k87Ce2s ou qualquer coisa assim.

– O quê? Depois de tanto tempo errando o nome do cara, você não vai se redimir? É uma forma de pedir desculpas. Então você faz cagada, esquece o assunto e nunca mais toca nele? É esse o seu caráter? O mínimo que você pode fazer é passar a usar a grafia correta por um tempo, o nome das pessoas é algo a se respeitar.

– Mesmo o das pessoas cujas piadas não são capazes de arrancar um sorriso da própria mãe?

– Principalmente o das pessoas cujas piadas não são capazes de arrancar um sorriso da própria mãe.

– Então a senha deve ser “Ary Toledo”, com espaço e as letras em maiúsculas?

– Não, acho que não precisa de tanto, “arytoledo” está bom. Gente, essa Luciana é mesmo uma biscate, olha o tipo das fotos que ela põe na página dela…

– Eu acho que se é para falar em “respeito”, temos de ser coerentes.

­– Tudo bem, retiro o “biscate”. Digamos que ela expõe a imagem dela com uma ousadia desmedida, que pode ser inadequada para veiculação pública…

– Não, tô falando do Ary Toledo. Se é para respeitar o nome, que a senha tenha espaços e maiúsculas. A Luciana é uma biscate mesmo.

– Nem dá pra colocar espaço em senha, eu acho.

– Vamos fechar em “Arytoledo” então. Junto, e com a primeira em maiúscula.

– Vem cá, como você sabe que a Luciana é biscate?

Toda a verdade sobre tudo

Ele era filho de um dentista que na verdade sempre quis ser um marceneiro que na verdade era excelente assando carnes que na verdade lhe temperava o açougueiro que na verdade cantava alegre em bom falsete que na verdade sempre irritava seu gatinho que na verdade tinha um ouvido absoluto que na verdade lhe era um órgão um tanto inútil haja vista a impossibilidade de grafar as notas que na verdade

Nunca atingiam o tom preciso que na verdade era exigência do regente que na verdade sofria por dever ao primo que na verdade nem se lembrava dessa conta que na verdade foi paga com dinheiro sujo que na verdade foi desviado de uma obra que na verdade foi inaugurada em fevereiro que na verdade fica descaracterizado quando não há carnaval entre seus vinte e tantos dias que na verdade

Sempre variaram em função do calendário solar, sendo a variante indiferente à expressão popular que na verdade

Não passa de um tremendo mito que na verdade é produção de agentes russos que na verdade dançaram tango em Acapulco que na verdade foi visitada pelo Chaves que na verdade mantém o apelo à audiência que na verdade vibra com risos, sexo e sangue que na verdade é um aguado ketchup que na verdade pode vir dentro de sachês, potes ou caixas de papel, como prefere dona Ana, que na verdade

Sofre, na verdade, de uma condição estranha: ter orgasmo nunca tem, mas na verdade sempre goza; culpa, na verdade, do doutor psiquiatra que não respeitou a vontade do cliente, que na verdade

Constantemente compra lixo que na verdade é reciclável em alumínio que na verdade forja panelas medianas que na verdade estão na casa de Pedrinho que na verdade até que é mesmo um bom menino que na verdade nunca aprendeu a empinar pipa que na verdade era o brinquedo favorito de seu paizinho que na verdade teve um dedo decepado pela linha com cerol de seu vizinho que na verdade

Sempre foi um cara cem por cento, um camarada legal, depois do acidente nunca mais que foi o mesmo, vive triste, que exagero, se guardando pro juízo final – que é verdade.

Chico Buarque, 70

Como estaremos, em junho, absorvendo os sufocantes ares da copa do mundo, tenho a impressão de que os 70 anos de Chico Buarque não serão tão comentados quanto os de Caetano Veloso, artista com o qual frequentemente é posto em comparação. Nesse contexto, acho interessante adiantar os festejos comentando um pouco sobre sua obra – embora Chico Buarque seja constantemente analisado, independentemente da data.

Acontece é que, num momento no qual se vê novo acirramento das diferenças entre grupos que se dizem de direita (ou “liberais”, “conservadores” etc.) ou de esquerda (“progressistas”, “revolucionários” etc.), o legado de Chico Buarque vem sendo interpretado de maneira equivocada por ambos os lados. Para a direita, Chico é o símbolo máximo do artista brasileiro sobrevalorizado: escreve romances ruins, faz uns “sambinhas mais ou menos” e defende posições políticas jurássicas, sendo (por isso) alçado à posição de celebridade genial e acima de críticas, enquanto a “alta cultura brasileira” é desvalorizada e esquecida nos bancos escolares; da turma de esquerda, ouve-se que Chico é um dos maiores poetas brasileiros, exemplo de coerência política, ícone da luta contra a ditadura e “intérprete da alma feminina”.

Primeiro aspecto importante a ser considerado: para a análise do legado de um artista, aspectos biográficos devem ser desconsiderados tanto quanto possível. O que Chico Buarque fez ou disse pouco importa para a permanência de suas criações. Mesmo a parcela de seu trabalho que pode ser relacionada com as chamadas “canções de protesto” ocupa uma fração muito pequena de sua obra, sendo, ademais, um tanto datada. Por justiça histórica, vale lembrar que Chico já cometeu, com Nelson Rodrigues, a mesma falta da qual ora vem sendo vítima (menosprezar a obra por conta de questões políticas), admitindo publicamente o erro.

Segundo ponto: Chico Buarque não é um poeta, nunca escreveu um verso para publicação em papel. Atentar para a baixa educação brasileira sobre a história literária (e artística, de modo geral) do país é um movimento acertado, mas essa luta não se deve dar à custa da desvalorização de um grande autor de canções brasileiro. Pois é por isso que Chico Buarque entrará para a história, já sendo relevante há cinquenta anos: é um sofisticado autor de músicas para canções, sendo capaz elaborar belas melodias e fazer ricas harmonizações, sendo nesse quesito discípulo de Tom Jobim, e (aqui está seu diferencial) é um dos maiores letristas de todos os tempos. Cabe discussão quanto à qualidade de seus romances, mas é bastante seguro afirmar que sua obra em prosa jamais terá a importância de seu cancioneiro.

Nesse ponto, a desvalorização de Chico Buarque encosta na desvalorização da canção como um todo. A não ser para exercícios específicos de cultura comparada, de função bem estabelecida previamente, é maluquice tentar colocar sua obra como letrista (a faceta mais importante do trabalho de Chico Buarque) ao lado de Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Pessoa. O disparate fica mais evidente quando se pensa em comparar Chico com Villa-Lobos, Camargo Guarnieri e Beethoven, ou com Caruso, Maria Callas e Placido Domingo, vá lá. É preciso entender que a canção é um gênero misto, que une música, palavra, interpretação pelo canto e a relação entre esses elementos. Ninguém pensa em ridicularizar a cenografia do cinema expressionista alemão porque não tem a riqueza da arquitetura de um Gaudí – importa é que, enquanto está servindo ao filme, a cenografia de Metrópolis, por exemplo, é brilhante. Do mesmo modo, é completamente inútil comparar valorativamente os recursos linguísticos de Keats com aqueles usados por Chico Buarque em suas canções, já que a finalidade do uso desses recursos é completamente diferente. No que diz respeito ao manejo da língua para a incorporação a uma melodia, Chico Buarque está ao lado dos maiores, e é por isso que deve ser celebrado: o brasileiro não faz feio quando citado ao lado de Cole Porter, Lorenz Hart e Ira Gershwin.

Na insistência de diminuir Chico Buarque, resta apegar-se ao argumento de que a canção não é uma forma artística “séria”, sendo antes “mero entretenimento”. Mas por que a canção não seria arte, se emociona há tanto tempo gente das mais várias regiões do planeta, se se presta a diferentes níveis de interpretação, se tem autores que sobreviveram ao teste do tempo, com suas obras ainda relevantes e reproduzidas 75 anos depois de mortos, se formou escolas e estilos que continuam a influenciar pessoas a dar vazão a suas sensibilidades nessa forma?

Paco de Lucía: os momentos e a vida

Morreu o violonista espanhol Paco de Lucía, um dos maiores nomes da história da música flamenca. Que merda. Um ataque cardíaco aos 66 anos: para os padrões de hoje em dia, uma morte muito precoce, e de causas naturais – quem poderia esperar?

Não sou um profundo conhecedor de sua obra, mas sem dúvida o admirava como referência de sua terra e do gênero musical que o consagrou e para o qual foi importante agente de renovação. Embora fosse um instrumentista virtuoso, do tipo que podia tocar uma tempestade de notas por segundo, suas performances sempre me pareceram de muito bom gosto.

Em novembro do ano passado, ele esteve em São Paulo, depois de 16 anos sem se apresentar no Brasil. A apresentação caía num dia de semana, uma segunda-feira, eu acho. Fiquei pensando se eu conseguiria me desvencilhar de obrigações para ir, se valeria a pena pelo preço, se haveria alguém interessado em me acompanhar – quando resolvi ir de qualquer jeito, os ingressos já haviam sido todos vendidos. Não vi o Paco de Lucía ao vivo. Não haverá mais oportunidades para vê-lo.

É aquele papo, o velho lugar-comum de saber aproveitar as chances que a vida nos oferece, chances que podem ser únicas. Fica o alerta, nada original, mas de saudável renovação, para os que me leem e para mim mesmo. Só que não adianta chorar pelo leite derramado, para ficar com outro chavão: em vez de fustigar-me, prefiro uma imodesta autocongratulação pelas oportunidades que súbita e rapidamente se me apresentaram, eu as consegui transformar em momentos. Tomara, com a graça dos céus, haja mais dessas joias em meu tempo, menos instantes perdidos para lamentar.

Obrigado por convidá-la para ir à Adega União, por matar aquela aula de terça-feira e visitar o extinto Sebo Mário de Andrade, alugar A Rosa Púrpura do Cairo no VHS de capa rosa, por ouvir conselhos e dar uma segunda chance ao Pet Sounds, por capturar a cereja da conversação, por driblar os preconceitos e experimentar uma torta com banana.

Valeu por aceitar um hollywood mentol na escada do bloco c, tentar um desastroso macarrão com molho de tomate cru, executar versão interminável de “Na Estrada Tem Árvore” num ônibus para Belo Horizonte, por conhecer o Meu Pato e louvar o Divina Dose, por divulgar o Santoíche, por tê-lo socado na escada do colégio, por tê-la beijado pela primeira vez no bar.

Agradeço por trocar vídeos, discos e livros no Jardim Elétrico, por tê-la traído e difamado, pela culpa, pelo oxalato de escitalopram, pelas 24 horas no Águas, pelas caminhadas norte-sul e leste-oeste, pela pendura no Parada Obrigatória, pelo julho de 2000 em que mudamos o mundo, por preferir a verdade, pelos passeios no lago, pela surpresa de uvas passas, por fugir da cidade por um fim de semana, por ligar desejando sorte na prova da OAB.

Meu sincero reconhecimento por compor uma guarânia sob encomenda, por olhar demais, pelos presentes acertados e pelos planos que não se realizaram, por ter mentido sobre a beleza de seu vestido e ganhado seu sorriso, por insistir que não entrasse na faculdade particular fajuta, por receber o apoio da família, aceitar os convites de almoço, por caminhar de madrugada, pelas cantorias no Pé na Cova, pelas novas aventuras, por continuar querendo e fazendo questão.