Não é piada: a riqueza do rimário em “Eu sei que vou, vou do jeito que sei…”

Minha mãe, em fórum virtual familiar sobre a copa do mundo, veio nos avisar de uma descoberta: aquela “eu sei que vou, vou do jeito que sei” é uma música de Tavito com letra do Aldir Blanc! Caramba, essa eu não sabia, então o grande letrista Aldir Blanc fez jingle para a Rede Globo? (A propósito, a canção se chama “Coração Verde e Amarelo”.)

Uma vez de posse da informação, comecei a fazer o que vinha evitando desde 1994, data de lançamento do tema: prestar a mínima atenção à composição.

E lá vamos nós, ah, eu deveria ter desconfiado quando ouvia esse negócio de “sei” com “replay”, o Aldir Blanc adora usar rimas cruzando línguas diferentes (“E o l’argent?/ Defendo algum no jogo/ E amanhã?/Que bom se eu morresse”, “As lembranças acompanham até o fim o latin lover/Que hoje morre/Sem revólver, sem ciúmes, sem remédio/De tédio”, entre tantos exemplos que poderiam ser dados), provavelmente influência do Cole Porter.

E continuo a falar comigo mesmo, a gente ouve a musiquinha boba e nem percebe como a letra é bem construída, o cara não dá mesmo ponto sem nó, mas olha só o que o safado conseguiu aqui, como nunca tinha notado etc.

A galera vibra, canta, se agita

E unida, grita, é tetracampeão

Analisemos esse trecho. Se você se ligar apenas em rimas finais, que é aquilo a que instintivamente se presta atenção, não há nada que arranque muitos suspiros, já que “tetracampeão” rimará depois com “tradição”. Uma mera rima em “ão”: pela abundância na língua portuguesa, é a mais chinfrim das rimas, excetuando aquelas em formas nominais (as rimas em infinitivo – cantar, amar – particípio – cantado, amado – ou gerúndio – cantando, amando).

Mas nas rimas internas, rapaz, o bicho pega. Nem uma tônica fica sem correspondência! Há rimas toantes, ou imperfeitas (aquelas em que só os sons vocálicos rimam, a partir da vogal da sílaba tônica), em “vibra”, “unida” e “grita”, que faz uma rima consoante, ou perfeita (aquelas em que todos os sons rimam, a partir da vogal da sílaba tônica), com “agita”; “galera” rima com “tetra”, prefixo da palavra “tetracampeão”; por fim, ainda mais sutil, o “can” de “canta” rima com o “cam” de “tetracampeão”. E ainda há um bocado de aliterações em “t”: canta, agita, grita, tetra. Tudo isso em dois versos!

E na estofre do refrão?
Eu sei que vou

Vou do jeito que sei

De gol em gol

Com direito a replay

Eu sei que vou

Com o coração batendo a mil

É taça na raça, Brasil!

Há rimas internas em “sei”, “JEIto” e “diREIto”, e em “taça” e “raça”. Além disso, temos exemplos das difíceis rimas polissilábicas, em “a mil” com “Brasil”, e em “que sei” com “replay”. Pode ser meio difícil explicar didaticamente sem cores, sem rabiscos no quadro e sem esses recursos virtuais de edição que, dizem, são muito úteis para quem os domina, mas me deixem tentar fazer-me entender: dizer simplesmente que rimas polissilábicas são rimas de muitas sílabas seria correto, mas impreciso; rimas polissilábicas são aquelas em que também são rimados os fonemas anteriores à tônica de uma palavra, ou as ligações de fonemas em palavras consecutivas. Desse modo, para uma palavra como “coração”, não basta que haja rima com o “ção”, a sílaba tônica, como acontece quando se liga o termo a “ilusão”; uma rima polissilábica deve também levar em consideração as sílabas átonas – no meu exemplo, o “co” e o “ra” –, como acontece quando se rima “coração” com “floração” ou “pôr a mão”.

Assim, com liberdade total de métrica, pode ser até fácil fazer, mas para encaixar uma dessas em melodia predeterminada… Na letra de Aldir Blanc, para “Brasil”, o “a” rima com “bra”, e o “mil” rima com “sil”; para “replay”, o “que” rima com “re”, e o “sei” rima com “play”.

Conheço essa canção há 20 anos, para mim sempre foi a “musiquinha da copa”, nunca havia gasto dez segundos para analisar a letra. Qual o choque maior? Saber que Aldir Blanc faz jingle para a Globo ou perceber que não conseguimos apreciar devidamente algo que não esteja formatado dentro de nossa tabela de coisas a que é lícito se atribuir valor?

Menina grande

Estive numa festa de casamento no último fim de semana. Antes de eu me sentar, quando ainda estávamos naquela fase de há-quanto-tempo-como-vão-as-coisas, já havia reparado nela, difícil não notar. Sou um camarada razoavelmente alto, mas a menina, sem salto nenhum, de sapato mais baixo do que o meu, masculino, estava um bocado acima de mim. Calculo que tenha alguma coisa próxima a 1,95 m. E com o corpo de uma bailarina, se fosse viável uma praticante de balé clássico com um tamanho daqueles.

Eu falei para a minha prima, “essa menina é alta”, uma fala desnecessária, certamente minha prima já havia notado a altura da moça sem a ajuda do meu comentário. Tentei fazê-lo o mais discretamente possível, mas imagino que várias pessoas devem ter sentido a estranha necessidade de comentarem o óbvio, o fato de a altura da moça estar bem acima da média. Também imagino que se você é uma garota de 15 anos, estou chutando sua idade, com uma altura bem acima da média e muito magra, desenvolve certo faro para saber quando estão falando de sua pessoa, ainda que o estejam fazendo discretamente. Provavelmente acha que estão falando de você até quando estão conversando sobre qualquer outra coisa.

Resolvi fugir do salão quando começaram a já tradicional coleta de fundos em troca de pedaços de gravata do noivo, uma vulgaridade. Já não vejo muita serventia para gravatas em sua integridade, por que diabos deveria pagar por um retalho? Lá fora, num jardim, a noiva se preparava para jogar o buquê, com várias “falsas largadas”, e um pequeno grupo de mulheres se amontoava para disputar o privilégio de colher as flores brancas.

Havia também uma garota, acompanhada de umas duas amigas, provavelmente todas com convicções antimatrimoniais, não quiseram entrar no grupo do pega-buquê nem para engrossar a turma e compor uma foto mais atraente. Ainda que de lado, a moça se sentiu no direito de dizer, em alto e bom som, “não vale, a menina grande vai pegar”. Quando o buquê enfim foi lançado, a menina grande até se desviou para a esquerda, assim não correu o risco de cumprir a profecia.

Eu logo pensei, “caramba, que maldade, se eu tivesse de roteirizar uma passagem de bullying não conseguiria bolar uma cena tão cruel”. Mas não consegui evitar rir comigo mesmo, um riso meio nervoso. E contei o episódio a várias pessoas, sempre destacando o horror daquilo, mas sempre dando risada.

Quando pensei no que escrever nesta semana, percebi o quanto a passagem havia ficado comigo, o quanto me sinto mal por ter rido da menina grande, ainda que não a tenha escarnecido diretamente, ainda que a maldade praticada com ela me tenha chocado.

E ainda mais triste é não saber o que, afinal, eu poderia ter feito pela menina grande. Imagino que a interpelar com um “não ligue para essas idiotas” só a teria deixado mais constrangida. E na extensão do raciocínio, lembro que a menina grande é bonita, bem nascida, bem cuidada, longe de ser o maior alvo de ataques e segregação. Deus, como este mundo é cruel.

A copa do mundo e os astros

A Copa do Mundo está chegando, e ainda não se sabe a influência que o sucesso do evento pode ter nas eleições de outubro. As eleições de outubro certamente influenciam o sucesso da copa, que por sua vez influencia os protestos populares e leva os analistas a fazerem comentários lembrando as jornadas de junho. A copa é mesmo tão influente que é capaz até de influenciar a seleção brasileira de futebol, esse patrimônio nacional, cinco vezes campeã do mundo, nosso escrete canarinho.

É uma pena que Canhoteiro, exímio driblador, além disso ídolo de Chico Buarque, músico que fará 70 anos enquanto o Brasil torce pelos seus craques, nunca tenha disputado uma copa do mundo: dizem que o ponta-esquerda foi cortado em cima da hora, em 1958, por ser muito dado a farras. A história não me convence, dado o fato de Garrincha ter participado do mesmo evento, e todos sabemos de sua fama. Gostaria de tirar a história a limpo com o próprio Canhoteiro, mas ele já morreu, morreu em 1974. Minha avó também morreu, mas foi alguns anos mais tarde, em 1998. Talvez o Chico Buarque possa me ajudar com isso – com a história do Canhoteiro, não com a morte da minha avó, o Chico ainda não tem poderes de ressureição, a despeito do que podem pensar fãs mais exaltadas.

Nosso compositor também tem pouco poder sobre os resultados dos jogos da copa, embora, dizem, seja razoável atuando no gramado. E com todo o respeito aos jogadores, comissão técnica, políticos e marias-chuteiras, creio que a diferença entre campeões e derrotados se deve muito ao acaso – aos astros, como costumam dizer.

Mas se a posição dos astros pode influenciar os resultados da copa, que, como já vimos, influencia tanta coisa, quem influenciará, por sua vez, o posicionamento dos astros? Em raciocínio de tão larga escala, fica difícil prosseguir sem alguma noção divina. Sempre me pareceu, no entanto, que Deus tem à disposição meios mais eficientes de fazer valer suas vontades do que levar a lua a calhar em leão em determinado dia. De modo que acreditar em horóscopo me soa mesmo como uma bobagem – pensamento típico do bom capricorniano que sou.

Será que há muitos capricornianos bons jogadores de futebol? Ou somos mais dados ao polo aquático? No ideal hippie, em vez de partidas contrapondo nações, ou, em escala amadora, em vez de casados contra solteiros, haveria o campeonato do zodíaco: duas chaves de seis, os dois melhores de cada grupo compondo as semifinais. Eu apostaria no selecionado virginiano, embora escorpião seja sempre um perigo. Meus companheiros astrais podem ficar ressentidos com minha falta de entusiasmo, mas acho que capricórnio ficaria mesmo para trás, não faz nosso tipo. Pelo menos Jimmy Page é capricorniano, mais do que isso, nascido, como eu, no dia nove, sempre achei esse fato bacana. Ele ficou bem depois de assumir os cabelos brancos, está a cara do velhinho da aveia Quaker. Será que o Jimmy Page gosta de futebol?