Fred, da seleção para o boteco

Com a repercussão de sua presença na derrotada campanha brasileira da copa do mundo, Fred automaticamente se habilita como a melhor companhia de boteco do ano.

Lembremos: no último torneio de que a seleção nacional participou antes da copa, o homem saiu aclamado como artilheiro. Para o maior evento esportivo do mundo, chegava com a expectativa de estabelecer-se como o matador, o arquetípico camisa 9, o centroavante do inesquecível triunfo em casa, com a eficiência compensando a falta de polimento técnico. De quebra, ainda tinha fama de bonitão, o galã maduro como alternativa a um Neymar que, méritos futebolísticos à parte, só pode mesmo encantar a adolescências em fúria hormonal.

Mas agora, tão rapidamente, ele não é mais nada disso, virou um “cone”, o maior símbolo em campo de uma seleção tida como inepta, vexatória, nefasta para a autoestima da nação. Zombam de Fred, duvidam de sua hombridade, de sua dedicação. Estava tão alto, mas numa rasteira agora até crianças o xingam, dirigem-lhe ofensas pessoais homens a quem nunca viu, a quem nada fez.

Um ser humano humilhado depois de vomitar o gosto da glória, mas ainda cheio de dinheiro para gastar com ombros amigos – quer melhor companhia para boteco?

Vulnerável, imaginem o quanto de rancor Fred tem para destilar, as histórias indecorosas que pode compartilhar, todo o amargor de sentir-se injustiçado, por acaso acham que não queria ser campeão, pensam que ele é mesmo o Judas da história, com todo esse esquema que aí está há tanto tempo? E agora tudo de bom que ele fez, foi para o ralo? Não foi ele que se convocou. Amado num dia, lixo no outro, é a vida.

Aposto que Fred gosta de ovos de codorna, deve mandar bem na sinuca com mesa torta, um lance bem “povão”. Por outro lado, quando eu pedisse minha caipirinha e ele visse a marvada com a qual se preparava, falaria “pelo amor, não bebe isso não”, e mandaria fazer outra com uma cachaça que ele conhece de Minas.

Sem dúvida Fred seria ótimo para um boteco, mas qual boteco seria ótimo para Fred? Ele merece um ambiente no qual não lhe venham encher o saco, não o cerquem com cobranças ou piadas, não o reconheçam, de preferência, e se o reconhecerem, finjam que não. Mas também merece a familiaridade, o acolhimento que só um boteco brasileiro pode proporcionar – se não, como os ovos de codorna, a sinuca de mesa torta, a caninha de Minas?

Não é mesmo uma pena que a Adega União não exista mais? Seria perfeito, com seus bêbados blasé, o mundo girando em rotação alternativa, outra curvatura espaço-tempo. Seu Zé, interrompa brevemente sua aposentadoria, tome emprestado seu antigo imóvel, por uma só noite, e receba o Fred. Você sabe que ele precisa, e ele ainda não deve saber.

Beleza e necessidade

Quando alguém defende um ponto de vista em termos de necessidade, é difícil eu conseguir seguir prestando atenção. São questões difíceis de rebater. “Quem precisa ler poesia?”, “quem precisa de sobremesa?”, “quem precisa comer carne?”, “quem precisa de namorado” e, recentemente de maneira constante, “quem precisa de copa?”. De fato, ninguém precisa. A vida segue sem sonetos, sorvete, bife malpassado, relações amorosas e gols da seleção.

O problema é que os paladinos do necessário se esquecem de que são perfeitamente prescindíveis não apenas os itens aos quais eles não dão muito valor. No duro, precisar precisar mesmo, nós precisamos de água, alguma comida, abrigo contra as intempéries, estrutura sanitária mínima, condições para a procriação e, provavelmente, conforto religioso. A humanidade perseverou por milhares de anos sem penicilina. Quem precisa de antibióticos?

As coisas necessárias não chegam a fazer a vida valer a pena. Meu ponto de vista – de palpiteiro de boteco, não de cientista, fica evidente – é que, polegar opositor à parte, o que distingue majoritariamente os seres humanos das outras espécies animais é o fato de nossas ações se guiarem antes pelo conforto, pelo prazer e pela beleza do que pela necessidade.

Só o desnecessário explora todo o potencial de nossos sentidos; no desnecessário está o presente de Deus aos homens.

Entre as ocupações humanas dedicadas ao desnecessário, a arte ocupa um lugar todo especial. Os engenheiros fazem pontes, essa invenção maravilhosa, por isso os louvamos. Nós não precisamos daquela ponte, passávamos bem antes de ela existir, mas, nossa, como a ponte nos economiza esforço, facilita a vida. Os artistas, além de desnecessários, são inúteis. De quebra, complicam a existência, levantam questões sobre questões, potencializam angústias, usam o sofrimento como matéria-prima e não dão respostas para nada.

Estranhamente, sem nos oferecer nada de útil ou necessário – apenas beleza, prazer, abertura das “portas da percepção” e possibilidades de confronto interior –, os artistas permanecem queridos e amados, independentemente de suas condutas pessoais, muitos anos depois da morte.

E o mundo inteiro cultua Sófocles, Shakespeare, Goethe, Homero, Dante, Camões, Fernando Pessoa, Cervantes, Dostoievski, Tolstói, Proust, da Vinci, Monet, Van Gogh, Picasso, Michelangelo, Rodin, Dalí, Bach, Beethoven, Mozart, Verdi, Maria Callas, Caruso, Anna Pavlova, Nijinski, Isadora Duncan, Charles Chaplin, Orson Welles, Ingmar Bergman, também Louis Armstrong, Duke Ellington, Ella Fitzgerald, Fred Astaire, Frank Sinatra, Gershwin, Cole Porter, Tom Jobim – e, por que não?, Garrincha, Jesse Owens, Emil Zátopek, Ayrton Senna…

Muitas pessoas sonham com seus filhos se tornando médicos, engenheiros e advogados. Há boas razões para isso: são profissões essenciais, nobres e prestigiadas. Mas não é curioso que a posteridade prefira lembrar os inúteis e desnecessários? Quantos nomes de médicos, engenheiros e advogados mortos você conhece? Enfim, uma questão boba, ser lembrado para além da vida não é necessário, tampouco útil.

 

Pílulas de mau humor

Por trás do clima bonitinho de literatura de autoajuda, esse negócio de otimismo e positividade na luta contra o câncer é uma puta de uma covardia. O desgraçado tá lá, com dores inomináveis, e ainda tem de ficar todo sorrisos, se não “deixou-se abater”, “desistiu da luta”. Ou seja, acaba ficando como culpado pelo próprio câncer! Ah, vão à merda com esse negócio de superestimar a felicidade. Pelo direito de ser mal humorado e pessimista, especialmente se se tem câncer.

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Engraçado, não faz muito, “terminar por telefone” era símbolo máximo de insensibilidade; hoje em dia, ter o luxo de ouvir uma voz lhe dando um pé, em vez de apenas ler caracteres o dispensando, já é prova de distinção respeitosa.

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Atenção! Oportunidade! Se você é competente, proativo, gosta de trabalhar em grupo, tem espírito de liderança, é dinâmico, encara de frente os desafios da vida, não leva os problemas de casa para o trabalho, tem muita atitude, vivência e bagagem cultural, vá para o diabo que o carregue.

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As pessoas me parabenizam por ter parado de fumar, elogiam minha “força de vontade”. Mal sabem que parei justamente por me faltar a tal força de vontade: esse negócio de ser viciado exige constância, perseverança, compromisso, regularidade de horários – todas essas coisas para as quais não levo jeito nenhum.

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Fui uma criança tão deslocada que nem o amigo imaginário queria papo comigo. Consegui arranjar outro, mas depois de duas semanas ele começou a praticar bullying para cima de mim.

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O cabeleireiro pergunta “como você quer que eu corte?”. É inacreditável. Qual resposta ele espera ouvir? Se eu soubesse como ele deve cortar meu cabelo, eu mesmo o faria, não precisaria responder “faça cortes ligeiros com a tesoura em 45º em relação ao couro cabeludo, a uma profundidade de…” ou “hoje quero o modelo B252m”. O que é preciso para mudar esse paradigma? Algum cabeleireiro chegar com a perna quebrada no hospital e ouvir “como você quer que eu opere”?

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É comovente ver o zelo de estudantes de jornalismo defendendo a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão – uma discussão de rara irrelevância. Acham que estão contribuindo para melhores condições de trabalho para a categoria, que ingenuidade fofa. Qual o medo do pessoal? Um cirurgião, numa sexta à noite, jogar o bisturi na parede e dizer “chega, já que não é para ter horário de trabalho e estar constantemente sob pressão, vou ser repórter de jornal diário, pelo menos os salários são melhores”?

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A tolerância, o respeito à pluralidade e a convivência harmônica com o que nos é diverso devem sempre perseverar – até algum imbecil começar a falar mal do João Gilberto.