Comunicação clara e eficaz em língua portuguesa – apostila para download

Disponibilizo aqui, para download (link no final do texto), a apostila do curso “Comunicação Clara e Eficaz em Língua Portuguesa”, que está sendo ministrado na Escola Dona Lindu, em Diadema, como resultado de uma parceria entre essa instituição e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP). Como elaborei esse texto por encomenda da Pró-Reitoria de Extensão do IFSP (uma escola pública federal), acho justo torná-lo amplamente disponível para consulta.

O curso é composto de 20 aulas. Elaborei-as com o objetivo expresso de “aprimorar a clareza e a eficácia de comunicação dos alunos”, buscando incutir neles a noção de que “o domínio da organização normativa da língua portuguesa não é um fim em si mesmo, mas antes um meio para aprendizagem, aprimoramento de repertório e ganho de eficácia expressiva e comunicativa”. O leitor da apostila encontrará misturados assuntos tradicionalmente ligados a aulas de gramática, aulas de literatura, aulas de redação e aulas de interpretação de textos. Essa combinação é intencional, pois o autor acredita que a divisão do ensino de língua portuguesa em matérias estanques é didaticamente perniciosa.

No curso, tenta-se abordar assuntos muito amplos em espaço limitado. Foram feitos esforços de síntese e revisão, mas imprecisões e inadequações poderão se revelar ao leitor atento. O compartilhamento público do curso também tem o objetivo de colher sugestões para que o texto possa ser aprimorado em novas versões.

Quem quiser usar aulas da apostila para fins didáticos está livre para fazê-lo – peço apenas a gentileza de que me avisem, se isso acontecer.

O principal referencial teórico para a elaboração do curso foi Othon M. Garcia, por meio de seu “Comunicação em Prosa Moderna”, leitura altamente recomendável a todos os que se interessam pelo assunto. As demais referências estão listadas em ordem alfabética, ao final da apostila.

20140922-comunicacao-clara-e-eficaz-em-lingua-portuguesa-final

Anúncios

A bossa negra de Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda

Difícil encontrar alguém que negue o fato de Diogo Nogueira ter um belo timbre, além de saber colocar muito bem sua voz e conseguir sustentar-se sempre afinado, das notas mais graves até as mais agudas de sua extensão. Para que essas qualidades técnicas forjem um bom cantor, no entanto, é preciso que se somem às virtudes esperadas de um intérprete: planejamento de repertório, trabalho conjunto com arranjadores para determinar uma intenção artística, sensibilidade para entender uma melodia letrada e atacar cada nota com nuances que valorizem a mensagem da canção – e aqui ainda poderíamos citar muitos aspectos ligados à divisão melódica, à respiração etc.

Até agora, em seu currículo artístico, Diogo Nogueira vinha se comportando como um piano afinado: um instrumento valiosíssimo, de muito potencial, mas que precisa de mediação humana para gerar boa música. Seria maldoso defender que a carreira de Nogueira vinha sendo conduzida de maneira robótica, não é isso, mas parece justo apontar que os esforços mais humanos de seu trabalho – em oposição à qualidade técnica que sempre esteve lá – vinham sendo dirigidos para a construção de uma imagem de galã novelesco, gatão das gatinhas, e não para a consolidação de um intérprete valoroso do cancioneiro popular.

Toda essa introdução para passar o seguinte conselho: se você tem reservas ao nome de Diogo Nogueira por razões parecidas com as que listei acima, dê uma chance para o cara e veja/ouça seu “Bossa Negra”, turnê nacional com o bandolinista Hamilton de Holanda que estreou nesta semana em São Paulo, ancorada no álbum recém-lançado de mesmo nome.

Dispensemos o blá-blá-blá conceitual elaborado para vender o trabalho: basta saber que o repertório junta clássicos da canção nacional a temas novos, compostos pelos dois protagonistas do projeto com o auxílio de alguns parceiros. A mistura se integra muito bem em arranjos que mantêm a mesma formação inusitada em todos os números: apenas voz, bandolim, contrabaixo e percussão (recuso-me a corroborar o neologismo “percuteria” apresentado no projeto). Ouve-se uma união coesa de elementos, uma sobreposição que não soa como “salada” (o que é uma conquista rara e, por isso, merecedora de valorização). Podem-se perceber caminhando juntos samba, jazz, bossa nova, choro, contrapontos eruditos e até pagode – curiosamente, a lembrança dos afrossambas de Baden e Vinicius, declaradamente a maior influência para a realização do trabalho, não vem à mente de maneira tão óbvia quando se ouvem as canções de “Bossa Negra”.

Diogo Nogueira está ótimo. Se qualidade vocal o rapaz já tinha, e lhe faltava um pouco de esforço para tentar maiores pretensões artísticas, em “Bossa Negra” há um bom argumento a seu favor. Não sei se sua motivação para o projeto foi algo do tipo provar que não é “apenas um rostinho bonito”, mas se houve algo nesse sentido, a prova apresentada é contundente. Há forte campanha para minorar a valorização das aparências em nossas vidas, de resto uma luta justa, mas não há como resistir à tentação de comparar as (breguíssimas) capas dos álbuns anteriores de Diogo Nogueira com a capa de “Bossa Negra”: a impressão imediata é a de que deve vir algo mais sério dali, e o conteúdo musical do álbum cumpre a promessa da embalagem.

Quanto a Hamilton de Holanda, destacar suas qualidades como instrumentista pode parecer de uma obviedade ofensiva para qualquer um familiarizado com seu trabalho, mas há de se destacar que esse é seu primeiro trabalho de relevo ligado à canção, em vez de ligado à música instrumental. Há riscos grandes para o músico nessa mudança de área, aos quais já sucumbiram muitos instrumentistas virtuosos: pode-se atravessar o cantor, atrapalhando a apreensão da melodia vocal com excesso de notas, ou, pelo contrário, pode-se subutilizar seu próprio potencial de instrumentista, acompanhando o cantor com burocráticos blocos de acordes. Basta dizer que Holanda foge das duas armadilhas, preservando suas qualidades notórias de bandolinista também na execução de canções e encontrando o tempo certo para chamar a atenção.

Juntos, Holanda e Nogueira construíram um conjunto de canções que cria imediata necessidade de audição para todos os que se importam com essa forma de arte no país – especialmente para os que se importam com a canção brasileira e dizem que não se faz nada que preste há mais de 30 anos, antigamente é que era bom etc. Com esses temas novos integrados a releituras originais de clássicos tão díspares quanto “Desde que o Samba é Samba”, “Risque” e “Mundo Melhor”, temos em “Bossa Negra”, o álbum e o concerto, o evento mais relevante do ano na área de canção nacional. A se ver, a se ouvir.