Masterchef na Bandeirantes – o criador e a criatura

A referência – um reality show de gastronomia – pode fazer a dita classe pensante torcer o nariz, mas vem sendo muito instrutivo acompanhar o programa “Masterchef”, na Bandeirantes. São especialmente úteis as intervenções do sr. Erick Jacquin, um dos jurados, para entender algumas questões incômodas no setor de restaurantes paulistano – e cabe dizer, por extensão, no setor de serviços brasileiro.

De acordo com o que ensina o renomado chef aos candidatos do show televisivo:

a) é visto como esperteza salutar fazer comensais acreditarem que estão se servindo de algo preparado com caldo de carne enquanto, na verdade, estão comendo tabletes da knorr ou coisa que o valha;

b) se você troca o pedido de um cliente, em vez de assumir o equívoco e pedir desculpas, leve-o a crer que não houve engano, pois está sendo servida uma criação exclusiva do chef, feita especialmente para o consumidor em questão – assim, ele se sentirá lisonjeado pela deferência de tão elevado artista da cozinha e nem se importará com o que está comendo;

c) se você erra o ponto do hambúrguer e o serve cru, gelado no centro, não assuma o erro: desqualifique o consumidor, dizendo que ele não sabe comer, não está à altura do repasto e tem paladar de “menininha”.

Em suma, uma doutrina baseada no culto ao personalismo e no desrespeito ao consumidor pagante. Os exemplos que dei não são extrapolação interpretativa com fins difamatórios: o cara REALMENTE passou essas “dicas” e esses exemplos, na tv aberta, em rede nacional. Dá matéria para se pensar, não?

Também é impossível não reparar que esse senhor mora há trocentos anos no Brasil e não sabe falar português, detalhe que me irrita sobremaneira – e é um tanto sintomático, acho.

Para completar, o sr. Jacquin tem a coragem cômica de se gabar por ser “especialista” em steak tartare, o que a mim equivale a um violonista se dizer especialista na corda si, ou a um crítico literário se dizer especialista no segundo capítulo de “O Pequeno Príncipe”.

Teremos sempre um problema para se lidar enquanto a importância do criador continuar transcendendo a da criatura – seja na cozinha, no quarto, na política, na guerra, no jogo de pelota basca ou na feitura de bolas de sabão.