Ode à recepcionista

Deus salve os rios, as matas, as montanhas, os fiscais da receita federal, o samba de breque e o ovo pochê – mas sobretudo salve Deus as recepcionistas.

Deus salve as recepcionistas e suas meias desfiadas, as recepcionistas de rímel aplicado só na raiz dos cílios, as recepcionistas com sua rapidez invejável para mudar de tela quando alguém se aproxima. Louvemos a postura cervical desmazelada quando vêm chegando as seis horas da tarde, a risada explosiva ante a indiscrição da colega (reprimida com lábios mordidos e um soquinho na mesa), a entonação de tédio indisfarçado ao telefone quando alguma alma pobre lhe repete a mesma pergunta pela milionésima vez. Por favor, meu deusinho, salve as recepcionistas e as irmãs das recepcionistas.

Porque não há em toda a flora mundial e multiplanetária espécie tão bela quanto a mais ordinária das recepcionistas. Sim, mesmo aquela que nunca amou, mesmo aquela que não ergue os olhos para dizer “bom dia”, mesmo a recepcionista que neste momento espalha o segredo confiado pela melhor amiga traz consigo um charme intransponível, uma chama iridescente nas entranhas, um apelo com não-sei-quê suficiente para tornar tediosas quaisquer pétalas, corolas e sépalas denotativas.

Neste sábado, uma recepcionista cederá à insistência de sua companhia e experimentará gim-tônica pela primeira vez, odiando a bebida (isso é tão bonito!); amanhã, uma recepcionista se deitará, por caridade, com um ex-namorado contador (isso é belo, é emocionante); na segunda-feira, outra recepcionista matará pela terceira vez sua tia para não comparecer ao trabalho – e só de pensar nisso me dá uma vontade desgraçada de chorar.

Se é verdade que basta um deputado ter uma ideia para o Brasil piorar um pouquinho, não é necessário nada além do gesto mais banal (ou da simples presença imóvel) de uma recepcionista para que a poesia indizível reverbere no ambiente. Pesquisadores britânicos já afirmaram que nunca houve uma guerra cujas trincheiras contassem com recepcionistas, e mesmo o espírito mais soberbo se queda humílimo e aquiesce quando uma recepcionista lhe pede o número do RG.

Com isso tudo posto, desnecessário afirmar que amo as recepcionistas – mas sou cético quanto à utilidade de qualquer “hostess”.

A triste história do menino Guilherme Bastos

Quem associa a infância à época mais feliz da vida não está se lembrando de Guilherme Bastos. Quanta angústia cabia naquela pequena e pobre alma pueril!

Num belo dia de seus primeiros anos, cometeu a fatal burrada de demonstrar satisfação quando sua mãe lhe serviu de pão com requeijão e suco de maracujá. Para quê. Para o resto de seus dias escolares, estava decidida a boia que levaria em sua lancheirinha. Fizesse chuva ou sol, seja lá em que estação, em tempos de guerra ou de paz, pão com requeijão e suco de maracujá era o que ele tinha de carregar e comer.

Nos primeiros meses, temeroso em relação à figura autoritária da mãe, engolia a ração sem queixas. Mas quando a náusea lhe forneceu a suficiente coragem para uma tímida averiguação da possibilidade de mudança alimentar, teve de ouvir um discurso de meia hora sobre sua deplorável ingratidão, perante os pais e perante Deus, haja vista todo um mundão de crianças que não tinham o que comer.

Como a privação é a mãe da criatividade, e irmã da paciência, viu naquelas moedinhas do troco do cigarro que o pai mandava comprar (os tempos eram outros) a possibilidade de um dia de redenção. Sim, bastava um dia. Foram três semanas avaras de acúmulo de centavos para poder esvaziar sua lancheira da tranqueira de sempre e preenchê-la clandestinamente com um glorioso big mac.

Até hoje, Bastos não sabe se sua mãe, sabe-se lá de que jeito, descobriu seu sulfuroso plano e teve a ver com os fatos que se seguiriam. Chegada a hora do recreio, a inspetora anunciou o dia de troca de lanche com o amiguinho, brilhante lição pedagógica de partilha e desapego material. Qual um rei se despojando de secreta coroa, teve de entregar seu lanche a um rapaz mais novo, de olhos remelentos e famintos. A felicidade do pirralho ao receber o sanduba lhe pareceu desproporcional, mesmo se tratando de um sublime big mac. Só compreendeu tudo quando se lembrou de checar o que havia sido posto, como troca, em suas mãos: pão com requeijão e suco de maracujá.