Boa tarde, café

Ela foi embora, e eu sinto saudades – nem sei por quê.

 

No meu trabalho, havia uma mulher destacada por seu patrão para passar de sala em sala oferecendo os produtos da cantina. Sua chegada era anunciada pelo bordão “boa tarde, café”, pronunciado como um mantra, sem pausas nem inflexões vocais. Era como se “boa tarde, café” fosse uma palavra só, feito aqueles termos alemães gigantescos, cheios de justaposições.

 

O pessoal achava engraçado, esse boa-tarde-café. Ainda hoje, como piada interna, costumamos nos cumprimentar repetindo o bordão. O problema é que a cantina da escola fechou há alguns meses – não houve interesse na renovação de contrato, não sei bem por quê –, não puseram outra coisa no lugar. Ficamos sem cantina, sem café e, mais importante, sem boa-tarde-café.

 

Com o passar do tempo, fui conscientemente sentindo mais falta da boa-tarde-café. E é intrigante: eu absolutamente não bebo café, nunca. Não posso então estar pesaroso pela interrupção de uma conveniência da qual não desfrutava. Também não é o caso de lacuna deixada pelo fim de relacionamento pessoal: vexatoriamente confesso que nunca troquei mais do que três frases com a boa-tarde-café, nunca lhe soube o nome, nem sequer lembro se era uma moça ou senhora, não a saberia reconhecer se cruzasse comigo na rua. Em minha defesa, declaro que minha lamentável antipatia inata não faz distinção de classe: sou pouco sorrisos para o faxineiro e para o reitor, tentando fazendo um esforço maior para lembrar das convenções de cordialidade quando trato com o faxineiro.

 

Seria fácil, aliás, cair na tentação da análise esquerdista, chegar à conclusão de que minha angústia pelo fim do contato com a boa-tarde-café se deva a uma culpa pequeno-burguesa, pois percebo que, ao fazer-se lembrar por esse bordão, a mulher anula sua identidade para identificar-se apenas com a função que cumpre para o capital opressor.

 

Mas eu sinceramente não consigo acreditar que o mundo se divida entre oprimidos e opressores. Prefiro a divisão proposta por Woody Allen, entre infelizes e miseráveis. E vamos convir, qualquer um que a conheceu haverá de concordar que, pelo tom de sua voz e por sua postura, boa-tarde-café não estava exatamente passando uma lição de humildade, não era como o caso do padeiro do Rubem Braga, em uma de suas mais famosas obras-primas da crônica (cf. http://cmais.com.br/aloescola/literatura/cronicas/rubembraga.htm).

 

Pelo menos até onde se podia perceber, boa-tarde-café gozava plenamente de seus sentidos; não manifestava sintomas de nenhuma doença terrível, com erupções cutâneas ou coisa do gênero; não estava passando fome, não vivia no meio de tribos em guerra civil, não deve ter tido seu clitóris estirpado, provavelmente tinha condições sanitárias razoáveis em casa. É bastante seguro supor que boa-tarde-café pertence à classe privilegiada, a classe dos infelizes.

 

É isso, sinto falta de ver uma irmãzinha de infelicidade tão despachada. Aquele magnífico mau humor, aquela invejável disposição a não disfarçar nem um pouco que estava odiando cada minuto ali, quanta autenticidade, que coisa rara! Boa-tarde-café passava a impressão de que estava SEMPRE de saco cheio – não dá para não gostar de alguém assim.

 

Se a mulher voltasse, eu ia lá trocar uma ideia com ela. (…) Ah, não sei… Provavelmente não, mas gosto de pensar que sim.

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