Canção popular e o machismo

Em “My Man”, de 1921, versão americana de uma canção francesa que acabou se transformando num standard do jazz, há rimas singelas como: “He isn’t true/He beats me too/What can I do?” e “What’s the difference if I say ‘I’ll go away’/When I know I’ll come back on my knees someday”. A letra em inglês (não conheço a original francesa) foi escrita por um homem, Channing Pollock, mas encontrou ressonância suficiente entre o público feminino para ser interpretada por Billie Holiday, Ella Fitzgerald e Sarah Vaughan, entre outras grandes cantoras, em regravações sucessivas por décadas. É chocante, hoje em dia, ver a naturalidade com que uma mulher cantava sobre apanhar (de maneira bem denotativa) e depois voltar de joelhos para “seu homem”.

Quase 50 anos depois, em “Getting Better”, canção do famoso álbum Sgt. Peppers, no que se sabe ser uma contribuição do super pacifista avant-garde John Lennon (Cynthia Lennon que o diga) a uma canção majoritariamente composta pelo careta Paul McCartney, há os versos “I used to be cruel to my woman/I beat her and kept her apart from the things that she loved”. O tom é o de quem confessa ter tido um comportamento inadequado, “feio feio feio”, ficando ainda bem distante de um ato de contrição por um feito abominável.

Pescando esses exemplos da cultura pop, é difícil não reconhecer grandes avanços civilizatórios no que diz respeito ao papel da mulher na sociedade. É impossível encontrar retratos de tamanha passividade feminina ante a violência em canções contemporâneas. Como o cancioneiro popular espelha muito imediatamente o cotidiano das pessoas, temos aí um dado auspicioso – embora a evolução social tangível ao se comparar a temática das letras de canção de diferentes épocas venha acompanhada de uma involução da qualidade média dessas mesmas canções, em termos melódicos, harmônicos e poéticos.

Difícil desvincular esse avanço, facilmente mensurável, das lutas de movimentos feministas ao longo do século XX. Hoje há de se ter complacência, creio eu, com CERTAS análises e DETERMINADAS demandas de CERTAS integrantes de DETERMINADOS segmentos feministas, posições que podem pender entre a alucinação e o francamente ridículo: exemplos desses comportamentos há aos montes, mas o que é desarrazoado de maneira particular não pode servir para a negação geral da validade de uma causa, como tentam fazer CERTOS setores da direita em relação ao feminismo.

Suponho que seja próprio das posições reivindicatórias, ou até mesmo de qualquer negociação, exigir mais do que o razoável (e isso não precisa se dar de maneira consciente) para que com o tempo possa haver equilíbrio.

 

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